Friday, May 29, 2009

O Gato

Houve um tempo em que a viagem era novidade e qualquer coisa fazia a pele tornar-se mais suave. Houve um tempo em que a caixa estava fechada e havia a hipótese de o gato não morrer.

(
Mas tu abriste a caixa, à força. O gato estava vivo, não se entregou ao veneno. Não sabes o que fizeste nem como fizeste, consequentemente, abandonaste o gato. Talvez tivesses cuidado dele se soubesses que o tinhas salvo. Mas a verdade é que o largaste. Mais valia tê-lo deixado na caixa, dar-lhe tempo para engolir o veneno.)

Agora a viagem é sempre a mesma, sai na paragem correcta intuitivamente. Já não há expectativa, já não existe nenhum tipo de esperança,.Vive cada dia sabiamente, à maneira de Epicuro. Mas não te desculpa, violaste a caixa e abandonaste o gato. Criaste um mundo paralelo para ele e deixaste-o lá, só e duro.
E não te pode culpar porque nem sequer viste o que fizeste. Se soubesses, talvez tivesses acarinhado e aquecido o gato. Porque era o gato dele. E isso só o faz desculpar-te ainda menos.