Friday, March 28, 2008

A Necessidade de Sophia

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen

Monday, March 17, 2008

Roma

Tu, que passaste por tantos séculos, por tantas fases da lua, deixaste-te corromper. Logo tu, que quando nasceste querias ser justa; que quando cresceste consideraste o abuso de poder mais um inimigo a precisar de uma estratégia brilhante para ser abatido.
Sim, logo tu. Trazias, talvez sem o saberes, o vento do domínio inflexível ( e parcialmente tolerante) sobre diferentes povos, o aroma de quem perde batalhas mas nunca perde uma guerra; a voz da persistência e da disciplina. Porém, as tuas tácticas tornaram-se impotentes ao ócio e à luxúria que começaram a germinar em ti. Dentro de ti. Começaste a envelhecer, a cair de mansinho, a perder aos poucos o que tanto trabalho quente deu a conquistar...
Logo tu que eras feita de um sonho tão respeitoso, tão bonito.
Misturaste as tuas vitórias com derrame de sangue inocente e as tuas más acções sobrepõem-se, em alturas de castigo, ao mérito que tens por direito. Tens o melhor e o pior associado ao teu nome. Mas foste , efectivamente, grandiosa e magnificente. Inigualável.
Até te derrubares; até perderes tudo o que eras no início. Quando julgaste ter alcançado a tua glória máxima, deixaste o sonho escapar por entre os teus dedos como se fosse água.
Mas as tuas ruínas estão presentes no meu povo. Somos, também a herança que deixaste ao mundo. Somos também o que resta da tua memória.
E admiro-te , não pela luxúria que incutiste com as tuas vitórias, mas pelos motivos porque subiste, o sonho que almejaste.
Gosto sobretudo o sonho que tu eras.
O sonho que eras e o que és hoje...
Ha! a tua beleza era ofuscante. E ainda é.
O meu amor por ti cega-me, só vejo o teu apogeu.

WinGs

Saturday, March 08, 2008

Patriotismo Morto

Há sempre o sol que não se apaga da vista. O som que se ouve com os ouvidos tapados. A voz de dentro da consciência - que nada é senão um outro coração - que nunca dorme. E existe, como que uma criança adormecida, em cada alma, uma pátria, ainda que queimada.
Uma mentira é uma verdade que nunca se concretizou e por isso é pouco. Não é económico o suor da mentira: ouço Fernando Pessoa e há algo em mim que desperta. É um qualquer orgulho, um qualquer conceito de dignidade que existe no mundo e não em mim. A Mensagem desperta, mesmo em negação, o velho e corcunda orgulho português. A melhor maneira de não ceder a uma paixão é perceber o seu inicio e o seu começo. Descodifiquemos então: a exaltação da conquista não pela força física, mas pela astúcia, pela vontade de sonhar e ambicionar o sonho. Ou então a explicação para apatia que vejo espalhada nas paredes e nas pessoas: estão a morrer para renascer. No fundo, abandonamos uma ideia quando ela não se espalha pelo mundo, e de facto, Lisboa já foi deposta do seu reinado marítimo há caveiras de séculos.
Mas herdei, ou nunca consegui apagar, o sorriso colectivo da Batalha de Aljubarrota e daquela técnica do quadrado que é a mais bela estratégia militar . Ou então, o primeiro país a abolir a escravatura. Ou a resistência aos invasores porque D.Sebastião voltaria um dia; ou a revolução feita, tantos anos mais tarde, sem sangue. O mito sebastianista salvou Portugal duas vezes. Falta a terceira...
Porém, o nós é antagónico. Não é este Portugal o lar idealizado. Não foi por este que Miguel de Vasconcelos foi odiado e morto sem compaixão. Falta-lhe a crença em sim mesmo, a visão de si próprio como um Messias ( nós somos a nossa única salvação, sempre).Está derrotado, acabado, finalizou o seu tempo no mundo. Esqueceu-se do ciclo e do triangulo, esqueceu-se da Fénix. E esqueceu que foi abençoado por Ulisses.
E esqueceu-se de mim, e do meu patriotismo baseado nos seus feitos históricos que são magníficos porque não carregam consigo rios imensos de sangue. Esqueceu-se de si próprio, de tanto ter sido violentado. E se Portugal se abandona a si próprio, onde está o profeta Pessoa e o Messias ?
O meu patriotismo está morto. Acredito num Messias que está impedido de nascer.

Thursday, March 06, 2008

O Mundo Visto por um Artista

De manha o mundo tem uma forma rectangular. Como se a mente tivesse sido esvaziada de todas as memórias que ajustam o mundo à sociedade. E à realidade cientifica.
E é nesses momentos, nesses instantes em que a mente é limpa que ele reflecte. É louco. Tem ideias estranhas, artísticas, revolucionárias que são recalcadas pelos calos do dia-a-dia espiritual.
Repara como é insano, como é inconsciente. Imprevisível. Sim, vê-se como uma bomba relógio, como uma explosão atómica pronta a explodir quando estimulada. Dá voltas na cama, no espírito, o mundo está errado, ou então é ele um erro. Pior ainda, uma cobaia, uma experiência pequena. E pensar para quê? Claramente, o facto de ele pressentir que tem uma personalidade cobarde semi-heróica não lhe proporciona conforto. Nem do térmico. Antes pelo contrário, por mais que magoe e que rasgue os ossos, ignorância por vezes, é felicidade. Ou pelo menos, não causa exaltações inúteis.
Levanta-se da cama contra vontade, como se ao adiarmos o presente o futuro não chegue.Mas ele levanta-se de um só pulo. O presente é pior que qualquer futuro tenebroso que tenha pela frente. O futuro, ele é capaz de o alterar, se o ângulo do Sol assim o quiser, o presente já está decidido. Olha-se ao espelho. O rosto é muito branco e os olhos azuis-escuros têm um brilho quase diabólico. É o brilho dos que necessitam de equilíbrio psicológico, pensa. Mas está enganado, é o brilho dos que vivem, o brilho nos olhos é a forma como a alma vê no mundo.Alma é vida e a vida é algo de místico.
É de manhã e o dia está agradável (hoje Apolo está bem disposto). Arranja-se para sair. O vento ao bater na sua face diz-lhe que está vivo. Diz-lhe que ele existe, e que o vento existe, e que ele não está completamente perdido, não endoideceu indefinidamente. O vento é o abraço que a sua primeira mãe lhe dá – A que existe sempre, no passado e no futuro. E ele imagina-se a responder ao abraço sem mexer os braços, a sorrir perante o beijo materno.
Encontra um sítio afável para beber café e senta-se na esplanada. O dia está bonito, o mar está magnificente. Suspira fundo, sorri levemente. A vida existe.Mas só porque ele é doido. Como poderão uns olhos que vêem sempre a mesma paisagem, que nunca brilham, que são apáticos, vazios, verem a existência do mundo?
A Terra é redonda mas tem quatro cantos.
WinGs

Saturday, March 01, 2008

A noite e o Amor

Dizia que ainda não se tinha esquecido dela porque o amor também era o tempo que passava entre o agora e o esquecimento total.
Dizia isto indiferentemente, como se não fosse ele, ou como se fosse um eu dele já muito antigo e distante. Um eu, abandonado numa gruta perdida e esquecida intencionalmente.
Era de noite e as estrelas desenhavam no céu , com um lápis triste de tão imaginado, aquilo que ela tinha sido. Para ele. Ou, talvez, aquilo que nunca chegou a ser. Não, ainda a amava. Mas as estrelas estavam tão tristes que lhe secavam o coração .O céu era maior que ele, e que ela. Era do tamanho do esquecimento. Menor que o amor. Um prevalece, inequivocamente, mais tempo do que o outro. Se ao menos a noite não fosse tão triste...
Não. A noite é só a noite, nada mais do que isso. Estrelas são só estrelas. Não estão tristes, não lembram nada. Não são feitas de um outro material senão o concreto. Mas reflectem o seu próprio passado ao serem vistas; transmitem melancolia...
A noite estrelada era, estranhamente, triste. Ele desconhecia a razão física do porquê. Apenas reconhecia que em algum momento a Natureza tinha-se tornado no seu coração e que a tristeza projectava-se no mundo sensível. De qualquer forma, não teria mais importância. Era a última vez que o céu lhe lembrava o rosto dela.
WinGs

Texto inspirado no Poema de Pablo Neruda “Posso escrever os versos mais tristes esta noite.”