Friday, July 31, 2009

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Está sentado. Só. Ela foi demasiado importante, demasiado tudo. Ele está sentado, mas já não a espera, já não existe o ela. Que era o tudo para ele. Para quê esperar? Mas continua sentado, talvez lhe doa o corpo, talvez lhe doa a alma. Pela vergonha ou pela decepção. Talvez pela perda, porque ela permaneceu lá, sentada ao lado dele, e já não está. Está só. Tristemente, sempre esteve, ela nunca lhe fez companhia.
Por isso é que não vale a pena esperar, ela não volta. E, no entanto, continua sentada, ao pé dele. No lugar solitário do canto da praia onde o mar é demasiado negro e fundo. Onde o mar é o espelho obscuro e sincero do coração dele. Porque sempre esteve só, ela aumentou a dolorosa sensação do quanto estava ele só.
Está sentado. O silencio das ondas, o silencio do canto da praia deserta que é só dele. Ele não a
espera. Mas é difícil largar a recordação que só é metade verídica.
“Tão curto o amor tão longo o esquecimento”.


Inspirado em "Posso escrever os versos mais tristes esta noite" de Pablo Neruda.

Desencontrar

O dia chuvoso reflecte a tua ausência. Até o Sol te chora.
Porque chegaste tarde e ele não te pode culpar e existe legitimidade na cegueira com origem na dor. Tu eras a cura, a que foi criada para ele, mas a dor era muito forte e ele não via o mundo lucidamente. Gostava de se culpar mas não consegue.
E isso só agrava. Nasceu nele uma culpa inocente, afogou-se na lama que deixou germinar dentro do coração.
Só depois te viu. Libertou-se da sujidade envolvente e tomou um banho espiritual durante vários dias sombrios para te poder receber de braços abertos.
Mas demorou demasiado tempo, o cumprir do luto é um tempo extenso. Foste-te embora no segundo anterior à cura dele. Nunca o viste, exactamente como é.
E ele reconquistou a sanidade, a lucidez, parte do coração. Mas sem ti, prefere a dor antiga , do luto, a cegueira romântica, a lama oriunda do desespero de um destino vazio.Porque a tua ausência não tem nada de romântico ou poético. É matemática, é aguda

Thursday, July 30, 2009

Demasiado Tarde

É injusto. Talvez merecesses tu esse pedaço de musculo frágil enrolado num pano gasto de veludo. A que chamam coração. Mas ele está meio morto, mataram-no de decepção, deixou-se arrastar num romantismo de rituais sangrentos, num romantismo com génese na realidade crua e fria em que o obrigam a viver. Sim, é inteiramente culpa dele. E, no entanto, não é tão fácil perdoa-lo? É uma vitima do mundo, do caos real vazio e frívolo.
É certo que é injusto. És melhor, mesmo que erres duramente, és melhor. Vê se pela forma como encaras o mundo, a simplicidade com que te vês. É notório, a morte e a miséria são tuas companheiras obscuras e longínquas. Se não te engoliram deve-se à tua perspicaz visão humilde.
Não é fácil perdoa-lo? Ele é vitima dele próprio, de se ter enrijecido para não morrer heroicamente, inocuamente. Perdoa-o, ele dar-te-ia o por do sol .
Mas já morreu.

Friday, July 17, 2009

Despedida

Está tudo errado, meu amigo. O mundo está dolorosamente invertido. E a tua morte provou que existe a face cruel na moeda que se retira sucessivamente, uma cada dia.
Não, meu amigo, não eras tu, pobre mendigo espiritual, que conspurcavas e sujavas este mundo. Sem ti, aliás, ele entregou-se à corrupção.
Está tudo errado , meu amigo, e eu não posso consertar nada. Não podendo injectar sangue novo nas tuas veias cansadas , tristes e gastas nada mais posso eu fazer.
Porque eras tu o Messias, o homem com sangue limpo e coração bom e fresco, o homem que preferiu morrer a sucumbir-lhes, são eles o lixo do mundo. E tu eras a salvação, a brisa fresca de uma madrugada inovadora e fresca.
Está tudo errado, meu amigo. Tu morreste e eu não posso inverter o mundo. Eras tu o Messias. É o teu sangue sagrado que faz as flores florescem mais depressa. Era o teu rosto belo e triste que rasgava o negro do mundo.
Morreste. Acabou-se. O mundo já não tem solução. Meu único amigo. Porque a fuga branca e cheia só podias ser tu. E agora, descansas , desejo fortemente que, finalmente, estejas em paz.
Meu amigo. Meu único amigo neste mundo demasiado errado para nós dois. Tu foste mais forte, morreste porque não sucumbiste. Eu continuo o teu legado, mas deverias ser o Mestre. Eu já estou esgotado pela morte que cobre o teu rosto, eternamente triste e belo.

Sunday, July 12, 2009

Opiniao

Um dia talvez compreenderás o poder sincero que possuem aqueles que amam. A arte. Porque amar o físico vazio da existência sem o toque quente e doce de uma qualquer filosofia não é amor, paixão aberta por conveniência, talvez.
Nunca terás acesso à descodificação do sentimento, é demasiado potente e está misteriosamente enjaulado no teu cérebro. Mas podes prestar homenagem sendo humilde. Por não o fazeres é que sei o quanto não amas.
Nada do que é garantido , nada do que é estritamente real, nada do que é cómodo e seguro está ligado ao amor.
E podes morrer, velho e cheio, rodeado dos bens que conquistaste com a força do teu braço. Porem não viveste inteiramente. Porque não amaste a arte.
Quem a ama a arte não morre velho. E quando fores, velho cheio , alegre e farto verei as inúmeras rugas de tristeza marcadas no teu rosto, porque não amaste. E será demasiado tarde.

Friday, July 10, 2009

Carta de Desabafo

Compreendo, claro, Mestre. Todos os erros que cometeste , todos os fracassos, todas as falhas. Claro que compreendo. Concretamente, fui te similar e não me magoei mais profundamente apenas porque tu existes, Mestre.
Porém eles vão morrer todos, um dia. Não lhes desejo nem essa morte dura , crua e longínqua nem a outra suave, arrastada e cruel um pouco cada dia. Mas não consigo lamentar. Perdoas-me, Mestre, este descontrolo momentâneo da raiva, o sentir de novo a faca a furar a pele intensamente, ah! Mestre, existes, não estou só e os teus ensinamentos apagaziguam o espírito. Mas quando a chacina me procura é difícil não a aproveitar, não a viver não a sentir. Desfrutar do prazer de magoar só por magoar porque o ódio é muito forte.
Compreendo todos os teus erros, esforço-me por aprender com eles. Sou te muito similar neles. E esforço-me por sobreviver, como tu. Mas eles derramaram o próprio sangue, é uma tentação demasiado forte não os afogar na mediocridade que são.
É porque existes que o não faço, Mestre. Porque a eles não devo nada e não havia compaixão no meu coração sem ti.

Sunday, July 05, 2009

Mestre

Mestre, salvaste-me porque és um eu que sobreviveu e se curou da própria sobrevivência. A realidade é demasiado fina e aguda, há que ser duro e implacável ou ela desfazer-nos-á em pó. É a eterna escolha, ter um pouco de coração frio e racional ou perdê-lo, quente e meigo, algures no mundo porque deixamos de existir, perdidos no rancor de ter escolhido não viver. O dever é uma palavra feia e estritamente subjectiva.
Mestre, salvaste-me porque és o único consolo e referencial que posso eu ter. O único que rasgou no céu nocturno a mesma escolha que eu. Sem ti, não haveria já coração, apenas a hesitação do momento em que atirei a vida no poço sombrio e macilento.
Mestre, salvaste-me. Mas é dolorosa esta sobrevivência, esta relutância em morrer. Temos uma morte difícil e dura. Porque não nos dão eles outra hipótese a não ser este amor à vida violento e sangrento.

Saturday, July 04, 2009

Hoje

Foi hoje a minha derradeira morte. Está um dia agradável de Verão, quente e florido. Natureza rejubila vida.
A minha existência contrariava esta alegria. Porque não existe paz no inferno. E o que era não podia continuar a sê-lo. Porque o inferno tenho-o eu, enjaulado no meu pensamento.
Por isso é que morri. E ele morreu comigo. Agora sou livre.
E está um dia lindo e florido de verão. Terei um funeral quente. Tão quente como nunca tive durante o tempo em que fingi que vivi.

Wednesday, July 01, 2009

Eco de Darwin

Terás de te libertar dessa responsabilidade e deixares o corpo cair ao som da constelação. Estás vivo, és quase um milagre. Tens-te a ti, porque eras uma pessoa comum a sonhar ser alguém melhor. E tens agora o dom de resolver as equações da realidade que não existe.
Isso não faz de ti pior pessoa, não te torna numa pedra. Demonstraste que existe a hipótese de singrar depois de morrer, de assassinar os fantasmas sem arruinar o seu mito. Tudo o que tens pertence-te, dobraste o aço em nome da dignidade de seres tu, mereces alguma paz.
Tens de te libertar dessa responsabilidade, que hoje não tomes conta do mundo. Mas nasceste para isso. Para provar que é possível libertar da tortura da ditadura e ser eterna e indefinidamente livre.Verdadeiramente e inteiramente livre. Livre.
Apenas porque sonhaste um dia ser melhor pessoa, tendo-te como prioridade desprezando o método de Narciso. Acreditaste em ti. E agora, não és uma pedra. És o eco de Darwin.