Thursday, July 31, 2014

Infância

Antigamente os ossos eram pequenos
E acreditávamos que ainda nos podiam nascer asas.
Agora,
De mãos dadas com o tempo sabemos
Que as asas não crescem assim
Como uma planta não chega ao céu.

Antigamente,
Os dias na praia eram eternos,
E o mar era infinito
Como era o futuro e as horas e as pequenas brincadeiras.
Quanto mais tempo passava,
Mais tempo parecíamos ter.

E, hoje,
sabemos
Que há fantasias que não se cumprem
E que há sonhos que ficaram presos aos grãos de areia.
E que as horas talvez sejam mutáveis.
(Quanto menos tempo temos,
Menos parece que conseguimos inventar
E mais tempo nos sobra para o tempo que não encontramos.)

Mas temos as nossas memórias
E temos as nossas mãos
Que juntas envelhecem com o tempo.
E temos as nossas asas e os nossos sonhos
Que ficaram guardados
Nessa planta que cresceu até o céu.

Mas temo-nos a nós:
E isso incrivelmente basta
Para sabermos que temos uma vida

E que uma vida se cumpre em nós.

Tuesday, July 29, 2014

D. Quixote ao Espelho



Contra gigantes reais,
Feitos de moinhos ilusórios,
A honra iluminava-te o peito num mundo onde a honra é tão
Esquisita
e desadequada
e estrangeira
Como um gigante dos tempos antigos.

Contra gigantes ilusórios
Que assentam em moinhos comuns.
Tão patética que é a honra!
Tão pobre e tão gasta
 e tão triste…
Troçam as pessoas  dizem que esta é a pior loucura
Só um tolo quer salvaguardar aquilo que já foi extinto.
E têm pena sem compaixão alguma.

A pior loucura,
A pior loucura,
Caminhar num mundo onde todos os moinhos são
Apenas ruínas de outros moinhos
Assentes em outras quaisquer ruínas.
Simplesmente.

(É um mundo que não sabe imaginar
E que se alimenta de um real ilusório,
Iludido sobre si próprio,
Combate activamente o seu gigante
Sem se dar conta que é um moinho.
E ri e troça de si próprio sem o saber.
A pior loucura.
Afinal é essa.

E sentes repugnância sem compaixão alguma.)

Saturday, July 26, 2014

All the right...

Como dizer-te que, simplesmente, não há mais nada que deseje? Mais nada para ver ou para ouvir. Simplesmente, como dizer, simplesmente não quero mais.
Como dizer-te que todas as Primaveras trazem flores mas que, se olhares com atenção, cada Primavera traz as suas próprias flores. Cada uma delas cumpre o seu destino, o seu ciclo e depois morre. Dá lugar a outra. E é tudo: mais são justificações que te fazem sentir melhor. Tem de haver um porquê para não pesar tanto a dureza simples da verdade. Para a culpa estar no outro. Para, para, para… mas nenhum porque interessa.
Mas, simplesmente, como dizer-te? É tão simples que faltam as palavras. É tão simples que não basta o silêncio. Podes pensar o que desejares, mentir-te para ampares a ilusão, construir um denso castelo de fósforos envelhecidos. Tanto me dá. Simplesmente, não te quero mais.

Simplesmente é outra vida no mesmo mundo, outros olhos no mesmo rosto. Já não te quero mais. Sem ressentimento e sem argumentos circulares: apenas, já não te quero mais. Para contrariar isto teria de arranjar outra pele, esta não muda de textura.

Inspirado em All the Right Friends de REM

Wednesday, July 16, 2014

Música


O dia é soalheiro. Incrivelmente iluminado. Mas há um nevoeiro escondido algures, a alegria das pessoas num dia de Verão aberto soa como uma nota límpida desafinada. Há um nevoeiro escondido aí algures, não o ouves? Talvez já tenhas nascido nessa surdez em surdina que ouve e ouve e ouve mas todos os sons te soam iguais enquanto os distingues perfeitamente. O brilhantismo da ausência de beleza nos olhos.
O dia é soalheiro. Incrivelmente iluminado. Mas estou aqui, sozinho, e penso. Mas não sei em quê, tudo é difuso de forma perfeitamente ordenado. O princípio, o meio. Claro, o fim. Trágico, dramático. Não, não para mim. Expectável, preparado em cada instante a seguir ao clímax. Há que respeitar a música, sempre respeitei a melodia de minha alma, talvez não tenhas tu respeitado a sincronia entre essa música, a única música, e o tempo. O seu tempo, o teu tempo, o nosso tempo (mas talvez não o meu tempo). Que importa? Penso. Não importa. Mas recordo, recordo, o teu último olhar. Tomara eu ter tido palavras para te dizer. O teu olhar pedia-me esse som, esse maravilhoso som, o da voz humana. A comunicação. Gostava de ter dito que a justiça é uma coisa humana, não existe assim, livremente no mundo. E nem sempre tem esse som, da recompensa. Houve justiça para mim – fazer o que me incumbido, cumprir o dever, seguir o meu propósito. O dia é soalheiro mas há uma sombra de nevoeiro que é preciso uma pele específica para captar, não é? Sei isso porque fui eu que pus a mochila às costas para rodar o mundo na palma da mão. Talvez tenha uma mancha de neblina nos olhos.
O dia é soalheiro. Estupidamente iluminado. Aqui, sozinho, revejo o teu rosto. E contorce-se a alma despreocupada num coração intacto em toda a sua imobilidade. Há Sol por todo o lado – mas eu gosto da melodia do piano num dia de chuva. Que importa? Já chegou ao fim.
Que importa? Não penso. Há música em todo o lado, em cada poro, em cada festa, em cada instante de silêncio, em cada sorriso e em cada bocejo. Só não havia música em ti. O dia é soalheiro, incrivelmente soalheiro.

E, eis que, finalmente, a música termina. E a tua memória ressoa na última nota que atrasa o derradeiro final.

(Inspirado no conto Música de Vladimir Nabokov)

Tuesday, July 15, 2014

Havia um poema

Havia um poema
Escondido nos confins do mundo.
Havia um poema em cada rua,
Em cada esquina,
Em cada sombra,
Havia um poema,
Com o som do mistério
E a cor do destino.

Havia um poema
Que tinha essa melodia,
Do teu sorriso.
Havia um poema,
Enterrado numa praia alheia,
Havia um poema.
Mas não o ouviste
E ele desfez-se nas ondas do mar.

Havia um poema à tua espera,
Em cada esquina,
Em cada sombra,
Em cada rua,
Mas esqueceste a melodia do sonho
E a realidade do banal dia-a-dia
Roubou-te o poema
Da poesia do teu ser.

Mas havia um poema,
Talvez ainda persista,
Talvez ainda se ouça,
Entre as brilhantes ondas do mar.
Havia um poema,
Talvez o único silêncio
Seja o teu,
Nesse teu dia-a-dia

Sem poesia.