Monday, February 20, 2017

Ode a Ricardo Reis


A minha história é simples,
Comum talvez, mas não banal,
Vim da guerra honrado general,
Furtivo, altivo, sagaz, senhor,

Senhor de mim mesmo,
Rei de mim próprio –
E da beleza verde dos olhos dela,
Longe da guerra e longe da miséria,
Como no poema à beira-rio,
Enlaçámos as mãos mas nunca entrelaçámos
As mãos.

A minha história é simples,
Mas não banal.
Fui épico desertor depois
De honrado general,
Orfeu falhado e
Estoico contra-vontade.
(A traição maior).

A minha história é simples –
Esventraram-me a carne,
Despedaçaram-me o espírito,
Puniram o crime,
E os olhos dela sentados à beira-rio
No regresso que nunca existiu,´
E os olhos dela, mágoa minha,
O meu regresso que jamais se cumpriu.
(A traição maior)


A minha história é simples:
Arruinadas inutilmente  as honras de guerras épicas,
A ode que ficou cantou esse mito
Da dor de Orfeu
(da memória das mãos de Eurídice enlaçadas mas não entrelaçadas,

No reflexo que é o meu…)

Monday, July 25, 2016

Costumava invejar a triste sorte de Orfeu

Costumava invejar a triste sorte de Orfeu,
Que amou e foi amado,
Que foi herói e foi fracasso,
Sem inveja nenhuma. Mas havia em Orfeu,
Uma moral para aprender e
Momentos houve que julguei
Se ouvisse, de perto, a voz de Orfeu
Então aprenderia como ele
A fazer a lira chorar.

Mas eis que eu fui amado
Mas não amei
E fui herói
Mas não fracassei
A minha lira nunca chorava
Porque não tinha a corda triste.

Costumava invejar a triste sorte de Orfeu,
O som da lira é o som dos homens
O sucesso tem o seu quê de trágico
E eu não sofri para fazer a lira ter esse som
Melodioso
De quem ri sem lembrar porquê.

Sempre invejei a triste sorte de Orfeu,
Sem inveja nenhuma,
A eficácia tem o seu quê de trágica.


Thursday, July 14, 2016

Liberdade

O dia foi perfeitamente normal. Agradável, até. Quase que me dói gostar do hábito. Quase que me envergonho de me ter tornado neste ser, que tem um trabalho. E que, de certa maneira, cresceu e que já não está contra o mundo. Não é preciso haver sintonia e muito menos harmonia, apenas, talvez (quem sabe?) apenas aceitação. De que eu sou como sou enquanto a vida é como é, tudo é como é… E penso, como me posso habituar aquilo que tanto odiava? Como me posso habituar aquilo de que tanto fugi?
Talvez fosse preciso tempo. Talvez tivesse de ler, uma outra vez, o Principezinho, e mais uma, e mais uma…
Mas ligo a televisão. E houve um atentado. Mais mortos do que o balanço inicial. Mais crianças cadáveres do que os nossos corações desejavam memorizar. E não conheço ninguém. Estou bem seguro, aqui, em minha casa. Nunca me tinha apercebido disso. Mas tantos mortos, que nem conheço… mas tantos mortos, tão inocentes. Tragédia, é certo. Muito para além de justiça ou injustiça.

E ligo a televisão e houve um atentado. Ouço a tua voz e sei que todo o silêncio está quebrado embora não ouça som algum. E ligo a televisão e houve um atentado. 

Wednesday, May 11, 2016

O último Ícaro

Envelheci com o teu rosto jovem na memória,
A ansiedade de que eu finalmente crescesse e deixasse
De ser dédalo, consolador de ícaros,
Restaurador de asas.
Envelheci com o teu rosto e a tua expressão
A de quem envelhece numa espera intermitente
Própria de quem espera indefinidamente.

Mas eu era Dédalo, pai de todos os ícaros,
Cabia lhes rasgarem o céu e tornarem os sonhos desejáveis
De novo.
Cabia lhes cruzarem o sol e dizer que estar vivo
é isso mesmo
Cabia lhes isso tudo, meu amor,
Mas eu era Dédalo, pai de todos os sonhos,
Tinha de lhes cozer as asas como quem cose uma alma
E limpar lhes as feridas como quem dá animo a um coração partido
Eu era Dédalo, pai de todos os ícaros.

E envelheci com o teu rosto na minha memória
De quem espera uma espera infinita
Porque eu nunca cresci como nunca deixei de ser Dédalo,
E só no final,
Meu amor, só no final, na tua expressão de quem espera
Já sem saber o que espera é que entendi,

Eu era o último Ícaro e o último Dédalo.

Monday, August 31, 2015

Primavera de flores mortas


As desilusões amontam-se no lugar de sonhos
De tempos de Primavera em flor
E não chegou o Inverno,
A primavera simplesmente ficou assim,
Triste com flores mortas. Antes um Inverso rigoroso
Que uma primavera com flores sem cor e sem força para desabrochar.

E as desilusões são assim,
Uma Primavera prometida que falhou
Porque chegou. Mas as memórias de outrora
Cheias de expectativas em flor
Antes desejar um Inverno austero
Do que uma flor que chora antes de nascer.

Antes sonhos queimados e chacinados à tua frente
Do que esta erva daninha que vai dando flores desfalecidas
E que não tens coragem de arrancar
Uma Primavera prometida que chega
Uma Primavera que cumpre a sua palavra
Uma expectativa que se vai desenlaçando 
Uma flor que nasce sem cor num campo cinzento
Sem a arte de capturar o momento.

As desilusões são isso,
Ossos que cresceram contigo mas de onde nunca nasceram asas
Enquanto anseias por voar.


Sunday, July 12, 2015

O vento do Sul

Desejo uma réstia de esperança no final de noite. E quando abro a janela à noite, encontro aquilo que curaria tantos vultos deambulantes: o vento fresco nocturno vindo do Sul refresca as velhas memórias para que não se percam nas areias do tempo.
E aqui, quando abro a janela, não há moralismos falaciosos. Nem tão-pouco o sentimento de que cumpri exigências alheias - para merecer a recompensa de ter sido bem comportado. Quando sinto a noite de Verão de textura absolutamente perfeita, o único dever que cumpri foi o meu e o mundo que se afogue nas suas pequenas regras, com a sua mesquinhez de quem lhe basta cumprir leizinhas para ser feliz e, depois, talvez viver (se for possível).
Quando abro a janela, toda a História cavalga no vento. A lua ilumina velhas lendas que nem lembro já o nome. Lá ao longe, sei que o mar espera nas entrelinhas da visão. A noite será tranquila na antevisão do dia de Praia, nesse jogo divino entre o amarelo e o azul.
E não há moralismos falaciosos num dia de Praia. Não há regras alheias para serem cumpridas. Há apenas uma imensa preguiça de quem é feliz numa noite fresca de Verão antes de um dia de praia. Não há moralismos falaciosos – há vida para viver, entre o azul do mar e o amarelo da areia, ou entre o céu e o sol. Há uma vida cheia de cor aqui, mesmo o Inverno, por vezes, chega a ter cores primaveris.

E uma réstia de esperança chega, cavalgando no vento vindo do Sul.

Friday, July 10, 2015

Conselhos em dias de Sol

Suspender o tempo em horas histéricas, eis um sonho comum. Controlar as batidas nervosas dos ponteiros de relógios alheios que sentimos no peito, sorrir como se sorri normalmente, como se fosse comum caminhar e sorrir. Como se fosse normal estar sempre bem disposto e não ter dias menos bons. Conquistar a normalidade, garantido uma anormalidade. Suspender o tempo porque a vida acha-se suspensa, embora os segundos se tornem minutos e um dia se perca, nas suas infinitas horas inúteis que vimos, lentamente, passar.
Eis um erro comum.
E para nada interessam receitas de vida alheia que te aconselham a fazer isto ou, então, antes aquilo. Dizem-te para seguires o teu coração, sempre, que é aí que se esconde a verdade última, tapada por interesses racionais. Mas não conhecem o teu coração, nem tão-pouco os seus infindáveis desejos e, indubitavelmente, fica-me a pergunta se continuará a ser uma escolha corajosa optar pelo medo, que tanto faz o coração bater mais depressa. Lugares comuns, como vês, revestidos de algo que brilha como ouro, mas que está muito longe de o ser. Oferecer essa hipótese, como sendo segura, o caminho do coração, é garantir a existência de um manual alheio, que no fim permite-te pensar que podes ser inocente na escolha que foi tua. Só seguiste o teu coração – como te disseram – nada de mal pode vir dai. E, assim, assumes que o teu coração é só mais um, igual a tantos outros. Talvez não devesses seguir o teu coração.
Eis uma ideia antagónica.

Não deverás seguir, talvez, coisa nenhuma. Deverás respirar de alívio, de consagração, de mérito, de desastre, de desgraça, de humilhação, de frustração, de degradação. Mas, para que o suspiro seja teu, não deverás seguir manuais alheios. Talvez fazer uma antologia com ideias perdidas, colando os retalhos com a tua própria interpretação, num abraço, tão perfeito quando possível, da objectividade com a subjectividade. Deverás saber que, muito provavelmente, estarás completamente só nesses dias, nessas épocas, em que a vida está suspensa e à espreita, mas as horas continuam a passar. E que muito além de ser bom ou mau, é, meramente, inevitável. Mas que terás os teus para celebrar a derrota ou a vitória porque, no final, importa acima de tudo que a vida não possa ser desprezada enquanto houver mais sentido para procurar do que meramente cumprir ordens baratas e alheias. A tua vida não deverá ser o cumprimento de um manual alheio que leste na diagonal.