Saturday, February 10, 2018

Cântico do fim


Não te odeio, não tenho em mim força
Para conseguir odiar-me tão profundamente.
Mas há uma tristeza latente e férrea vinda
Dessa desilusão profunda
Que é olhar-te e ver um rosto sem futuro,
Um caminho que leva a lugar nenhum,
A mais eloquente moderna cidade
Abandonada sem estar terminada.

Não te odeio, talvez te lamente
Como se lamenta um morto
Que ainda está vivo,
A cada segundo cessa essa persistente
E ténue esperança
De que regresses à vida e abraces o que é teu,
(Um futuro real para se vestir)

A cada segundo cumpro o teu velório,
Matando-me e rejuvenescendo,
Num rosto com futuro incerto
E triste.
A cada momento deixo-te a minha ausência
Para te fazer companhia,
Porque é teu desejo aqueceres-te de gelo frívolo
E eu deixei de encontrar em mim
Esse mundo fantástico e impossível
Que te queira dar.


Friday, January 19, 2018

Carta ao Mestre

O sonho é ser simples,
Tão simples como uma flor é efémera,
Tão oblíquo como o Sol,
O sonho há de ser simples porque não se teme
O fim, o sofrimento, a morte
Isso não é controlável e é inquebrável
E tudo o mais são pequenas ilusões
Que te dão uma noite de sono falsamente tranquila
É o diabo quem vigia a tua alma.
(E que pobre diabo é esse que se contenta com uma existência condenada
Quebrada, assim, na auto-violentação
De uma consciência cheia de triste e passiva resignação,
Que pobre diabo não há de ser esse…)

É verdade que por vezes penso e penso,
Naquilo que sei que não devo:
Nascem em meu peito sofrimentos atrozes,
Memórias exóticas e aromáticas, longíquas cheias de mentiras,
Lugares que nunca visitei, alegrias extenuantes,
Paixões suaves, felicidades alheias
(todo um real desejar ser)

Mas, depois, recordo o meu Mestre
E paro para ver como o céu é azul
E o mar é tão infinito e eterno
E que tudo é apenas o que é
E que tudo permanecerá depois da minha morte:
Não sou eterno, mas sou eu,
Sento-me e sou feliz na respiração
De quem se basta
E fica entregue à imensa alegria amena do possível
(O meu ser pleno e feliz, calmo como a mudança das estações,

Como o Mestre disse).

Monday, January 01, 2018

Carta do Solitário

O mundo tem culpa, aliás é ele o verdadeiro responsável. Não que importe, acabou, que mais posso eu fazer? Nem tu podes alterar coisa alguma.
Um dia voltarei a ver o teu sorriso, aberto e simples. Não será perto de mim para o sentir como dantes. Estará lá apenas a minha sombra para contemplar a tua grandeza modesta, para garantir que o amor terminou.  E um dia talvez até te esqueças de mim, como o vento que nunca se acomoda num lugar especifico. Como o coração é o de Orfeu, desdenhei a Eurídice para a não ver morrer.

E nada mais há a fazer. Nada tenho a perder, tudo o que me importava partiu com o vento. Acabou e esgotei a minha última lágrima inutilmente porque não ta dei. 

Monday, September 25, 2017

Decadência

Amei-te é certo, mas queria ser o Inferno e regogizava-me
Com o meu ser enquanto uma personificação do diabo:
Um assertivo um que tentasse o bem do mundo
Apenas por uma outra forma.
E isso não se espelhava no teu olhar,
Cheio de esperança e de tranquilidade e de um doce ingénuo entusisasmo
Próprio de quem começa a amar e é demasiado jovem
Para ver que a crueldade do mundo muitas vezes
É apenas a infelicidade de um dia de chuva
Que alguem não soube conter dentro do peito
E ao culpar o universo, quebrou-o.

Amei-te é certo mas tinha uma guerra para ir e para voltar,
Triunfante e vitorioso;
Tinha reconhecimento para receber e poder para usar e mudar
O pequeno mundo onde vivia;
Tinha uma vida demasiado grande para caber num sonho perfeito,
Um sonho teu inocente,
de quem julga que um fósforo faz frente a um Inverno rigoroso.
Amei-te tanto que nunca mais voltei porque
Esperei eu também que um fosforo fosse suficiente.
Mas como nunca fui inocente,
Quando o fogo se extinguiu,
Apagou o rastro de luz que me roubava as trevas.

Amei-te é certo; tanto que te amei
E quando regressei porque um sonho é sempre inocente
O teu ser era um espírito esquelético frenético feito de esperança viva e moribunda,
Morto pelo cansaço de um sonho que não se cumpre
Porque o pôs nas maos erradas

Mas tao inocente que eras,  nem rancor guardaste.

Sunday, April 30, 2017

Velha glória

Aquiles luta só, contra o destino,
Numa mão a felicidade  e noutra a glória,
A decisão férrea na vitória:
A humanidade moldada pelo fado,
De um só homem.

Aquiles luta só, com o destino,
O medo, o sangue, a dor da carne,
A vida assim cumprida, deleneando
O limite último do sonho humano.

Aquiles luta só, rodeado pelo destino,
A vontade, o nome e
O renome; a eficácia de um gesto mudo…

A humanidade herdeira de um simples movimento,
Aquiles, herói, e o pormenor obsceno,
O ferimento simles, a seta oblíqua,
Aquiles herói, alcança o renome,
Enquanto o nome se perde no destino.
A humanidade moldada pela
Ambígua Glória eterna de

Um só homem.

Monday, February 20, 2017

Ode a Ricardo Reis


A minha história é simples,
Comum talvez, mas não banal,
Vim da guerra honrado general,
Furtivo, altivo, sagaz, senhor,

Senhor de mim mesmo,
Rei de mim próprio –
E da beleza verde dos olhos dela,
Longe da guerra e longe da miséria,
Como no poema à beira-rio,
Enlaçámos as mãos mas nunca entrelaçámos
As mãos.

A minha história é simples,
Mas não banal.
Fui épico desertor depois
De honrado general,
Orfeu falhado e
Estoico contra-vontade.
(A traição maior).

A minha história é simples –
Esventraram-me a carne,
Despedaçaram-me o espírito,
Puniram o crime,
E os olhos dela sentados à beira-rio
No regresso que nunca existiu,´
E os olhos dela, mágoa minha,
O meu regresso que jamais se cumpriu.
(A traição maior)


A minha história é simples:
Arruinadas inutilmente  as honras de guerras épicas,
A ode que ficou cantou esse mito
Da dor de Orfeu
(da memória das mãos de Eurídice enlaçadas mas não entrelaçadas,

No reflexo que é o meu…)

Monday, July 25, 2016

Costumava invejar a triste sorte de Orfeu

Costumava invejar a triste sorte de Orfeu,
Que amou e foi amado,
Que foi herói e foi fracasso,
Sem inveja nenhuma. Mas havia em Orfeu,
Uma moral para aprender e
Momentos houve que julguei
Se ouvisse, de perto, a voz de Orfeu
Então aprenderia como ele
A fazer a lira chorar.

Mas eis que eu fui amado
Mas não amei
E fui herói
Mas não fracassei
A minha lira nunca chorava
Porque não tinha a corda triste.

Costumava invejar a triste sorte de Orfeu,
O som da lira é o som dos homens
O sucesso tem o seu quê de trágico
E eu não sofri para fazer a lira ter esse som
Melodioso
De quem ri sem lembrar porquê.

Sempre invejei a triste sorte de Orfeu,
Sem inveja nenhuma,
A eficácia tem o seu quê de trágica.