Sunday, September 12, 2010

Dédalo e Ícaro II

Ele estava tao feliz, o Dédalo que é salvou o ícaro que nasceu nele e ambos venceram o Sol. Alias, estava tao descontraido e tranquilo que estava controlado, estava em paz interior.
Mas tu chegaste. E tu és apenas isso, a contrariedade, a consciencia das adversidades. Lembraste-o que o Ícaro tem sempre asas frageis e que algures teve sorte. Não e inteiramente verdade visto que aproveitar oportunadamente a sorte é deixar de ter sorte. Mas retiraste-o daquela calma existencial em que se encontrava. O teu sorriso carregado de desagrado lembrou-lhe que existem ainda outras vezes em que o Ícaro terá de vencer o Sol. Em que o Dédalo terá de acreditar tao fortemente no sonho do Ícaro para lhe endurecer as asas sem as tornar menos frageis e ambiguas. Como um bom sonho.
Mas ele é o Dédalo e o Ícaro. Carrega o sonho de voar e as formas estrategas de o fazer resultar. Não é um qualquer, não morrerá com tanta facilidade. E tu és so isso, uma sombra crua e negra que avisa o pior porque foi a única coisa que aprendeu a fazer depois de ter falho o acto de viver. Se acertares, tu sim, acertaste por sorte.
E ele é o Dédalo e o Ícaro. Morrerá com honra como morre alguem que concretiza a utopia que idealizou. Ele é tambem Ícaro e hoje venceu o Sol, tocou-lhe e sentiu o aroma quente de quem sobreviveu orgulhosamente. Ele é tambem Dédalo e hoje descobriu que a tua genialidade demoniaca e triste não o alcança porque ele é que é movido pela crença na fé.

Friday, September 10, 2010

A tua escolha é o que és

Lá no fundo ele sempre quis ser isto apesar de ter gasto algum tempo a esforçar-se arduamente por não ser. Porque é dificil e é duro mas a glória que lhe prometem esta para alem de qualquer coisa mundana. Ser senhor de si proprio e fazer a diferença para quem necessita de ajuda é uma glória sentimental incomparavel.
E ele hoje é isso. O ser a quem as riquezas de praticar actos crueis simplesmente não convenceram, ele praticou-as mas não compensaram. Ele foi o ser que escolheu fazer o que acreditava que era correcto, ele escolheu a luz. Conscientemente. Tem gravadas no instinto de defesa todas as crueldades que podia ter cometido mas escolhe, activamente, usa-las de forma diferente. O seu ego é enorme e a sua fome de o encher é ainda maior, o orgulho que tem de sentir de si mesmo é gigantesco. E preenche-o, assim. Tornando-se distinto da multidao porque mudou a direcçao quando escolheu ser o que é. Orienta-se de forma inesperada e honesta. Algures descobriu que o amor não tinha preço ou substituto. E tornou-se honestamente naquilo que é. O ser com o cerebro tao genialmente cruel como os outros, demonios humanos, mas com um coraçao puro e sagrado. Itálico
E alcançou a gloria maxima quando rejeitou a gloria por completo e se tornou humilde. E tem a distinçao maxima e o ego cheio, equilibradamente, no limite.

Wednesday, September 08, 2010

Dédalo e Ícaro

Essa tua tranquilidade ansiosa perante a possivel morte é estranhamente agradavel. Porque tudo o que tiveste durante estes anos foi a tua miséria, a tua desgraça era a única que era tua por direito.
A sorte procura os audazes e a tua pericia estratega manteve-te vivo. Mas muito pouco da riqueza que possuis te pertence. Porque acreditavas que eras um milagre e algures tornaste-te num. Quebraste muitas convençoes crueis, a tua coragem levou-te para alem de muitos limites de muitos horizontes. Porém os sonhos que tornaste reais não eram os teus sonhos. Eras um Dédalo em auxilio de todos os Icaros que te procuravam. Sempre tiveste sucesso em concretizar os sonhos dos outros porque eras um milagre, um ser cheio de uma sorte audaz. E não era o teu sonho ou perderias a sorte.
Mas não agora. Despiste-te de todas as personagens que te definem e assumiste o papel de seres apenas tu. Perdeste toda a sorte porque perdeste a perspicácia nesse ponto. Procuraste o teu sonho, arriscaste a vida por ele. Não foste estratego, não foste Dédalo. Foste Icaro disciplinado pelo teu Dédalo a tentar alcançar o Sol. Foste um Icaro sem Dédalo porque esse era o teu papel.
Talvez morras amanha. Talvez, talvez. Mas essa morte é tua, arriscaste o que tinhas a única mascara que não consegues arrancar de ti. E por isso estas tranquilo, é algo que é teu por direito. Conquistaste a hipotese e isso apesar de não ser suficiente é um optimo começo.
Porque tu so tentaste vencer o que era invencivel para os outros. É a primeira vez que tentas não falhar naquilo em que acreditas. É inteiramente compreensivel que falhes a primeira vez mas se a morte não for fisica, meu amigo, continuas de pé.
Porque es o Dédalo e és o Ícaro. E serás sempre um milagre, nem que seja por rejeitares se-lo numa questao de leal honestidade. Tens uma ansiosa calma para saber o resultado na madrugada mas há algo que já te pertence.
O teu destino és tu quem decide.

Metade homem, metade besta

Metade homem. Metade besta.
Essa metade humana é condescente, é generosa. Tens um largo coraçao, uma honesta tolerancia e compreensao para quem souber identificar a tua lealdade de ferro. Uma nova e melhor versao do mundo move-te neste mundo, move-te se necessário, até à morte e para alem dela. Tens um coraçao limpo dos pecados do mundo o teu amor é honesto.
Metade homem. Metade besta.
Não consegues bloquear o fascinio pela inteligencia crua e fina, pela genialidade de uma acçao cruel justificada por uma alma desfeita em pedaços. A perspicácia e a astúcia aplicadas sabiamente, quer seja para conquistar o bem ou o mal. E no final, é essa metade de besta que te salva e que te faz sobreviver. Consegues deixar o teu coraçao à porta e sentar-te calmamente no dia da derradeira batalha sem ele. E não sentes nada a não ser que costumavas ter coraçao e ele agora não esta contigo.
Metade homem, metade besta.
Porque a tua metade de homem é esperançosa, é frágil. É movida por uma fé bonita. A tua metade besta salva-te , garante o respeito. Deixa-te entrar numa sala sem coraçao envolvendo-te num encanto peculiar de quem não vai cair com facilidade. A metade besta oferece-te um sorriso estranho mas tranquilo.
Metade homem e metade besta. No meio de uma guerra que nasce em ti tu alcançaste um equilibrio inconfudivel.

Tuesday, September 07, 2010

O novo Herói

O teu rosto é o rosto de uma multidao que não tem força para gritar. Emprestas o teu grito bélico e o teu braço leal aqueles que foram encurralados e cegados. Emprestas a compaixao violenta do teu coraçao aqueles que querem a libertaçao mas perderam a força e a força da esperança para se mexerem.
Podias ser um deles, dos que cegam e encurralam e assassinam em actos que não deixam sangue rubro escorrer. Podias se-lo, tens a mesma genese, a mesma liberdade e a mesma violencia. Mas o que tu desejas ardentemente é não seres um monstro e isso é tudo o que és. O que escolhes não ser é o que és, o que perdes mostra a cor da tua alma.
Por isso seguras e agarras aqueles que já perderam a voz para pedir ajuda. Corres o mundo por aqueles que já desistiram de lutar, afundados na tristeza que os sufocou. E estás lá com eles, a ver o brilho elouquente da morte em cada pedaço de sombra.
Existes para salvar quem o mundo escolheu matar . Um deus qualquer deu-te todas as capacidades que tem os outros unindo-as a uma consciencia humana e sensitiva. Colocou-te num sitio ao qual não pertences. Tornou-te igual aos que praticam as crueldades alheias e aos que as sofrem e no final a escolha foi tua.
O teu rosto é o rosto de todos que resistiram mas algures foram chacinados e não se conseguem mover. E, no final, a luta é entre ti e os teus irmaos.
No final és tu, movido por inumeras almas que te pediram ajuda e os teus irmaos que as torturaram. No final, é uma luta de titãs.

Sê Humilde

Para que o prazer do fracasso alheio? Isso não dimnui o teu. Nem o aumenta, apenas evidencia. Para que o amor à destruiçao sem proposito? Ouve, quando destrois deves ter o proposito de construir a única legitimidade para praticares esse horror é a liberdade. Destruiçao sem proposito é pior que a destruição por si só.
O que é que te dá, saberes que não foste o único a errar o caminho? Quantos mais afundares menos hipoteses tens de te salvar. Salvares alguem do mesmo erro que tu é a única forma de te ajudares. Quereres a destruiçao para te integrares e te sentires bem em frente ao espelho é um acto estupido e ignorante. Vais misturar-te com uma multidao onde vais ser apenas mais um. Falhado, fracassado. Falhaste a vida e falhaste no acto de viver.
Ter razao não vale isso, o queimar frio do teu coraçao. Porque se perderes a subtileza de sentir, de ter compaixao. Não tens razao, nunca a tiveste. Mesmo que acertes, não tens razao. Previste o acontecimento baseado em factos duvidosos, foi mais sorte que genialidade.E ter razao não vale isso, nada vale. Mas tu já te afundaste, não me vais ouvir não me afundei.

Monday, September 06, 2010

What ever happened

Ele quer ser esquecido . Nao quer que as suas carismáticas ideias e peculiares angulos de respiração sejam recordados Mais do que ser esquecido, ele deseja nunca ser lembrado.
Porque não vai ficar aqui. Não vai ficar aqui de forma nenhuma. É uma opção ilusória, é preciso viver de mentiras mal estruturadas para acreditar que ele pode ficar. Mais vale que vivas assim, sem ele. Que saibas conscientemente que ele não vai ficar aqui mesmo que retorne sempre. Não fica aqui de maneira alguma.
Porque é so isto, ele. Um comboio em continuo movimento com destino certo mas indecifrável. Um comboio destinado a não ter destino.
Inspirado em What ever happened, The Strokes

Saturday, September 04, 2010

Desfecho triste

Gostava de te dizer que não te perdoo mas na verdade é um gesto inútil. Sendo irrefutável, a existência da solidão é agradável. E compreendo-te.Não posso negar a nossa sintonia no nível da desgraça interna. Não te posso acusar.
Mas gostava de te não perdoar para continuares vivo comigo. Para existires em mim. Só para te manter vivo.Aqui.
Porém não posso fingir que te não compreendo. Demasiado bem, apesar de abstractamente. Perdoei-me porque tu existes. E, na verdade, não erraste perdoar é uma palavra que demonstra a minha dor. Apenas.
A tua despedidade é estranhamente dolorosa. Porque não me pões em causa . (E ,talvez por isso, sinta verdadeiramente a falta. )

É tudo nada. Menos que a memória mais volátil.



WinGs, 21/04/2009

Thursday, September 02, 2010

Lucidez

O fogo sempre o fascinou.Se por um lado era simbolo da força da clarividencia de uma luz dificil de apagar. Por outro era simbolo da destruição sem qualquer compaixao, quase imparavel . Maior que qualquer homem. E o fogo sempre o atraiu como um íman. Magnetico.
Tinha o isqueiro na mao. A tentação de sentir o calor da chama e de ver as cores magnetizantes do fogo foi muito maior que ele. A adrenalina do perigo fe-lo mover os olhos e procurar o papel, o medo que vivia nas suas maos tremulas não o impediu.Pegou no papel, num pequeno e insignificante papel. Aparentemente. Aquele papel resumia em palavras concisas uma vida que ele já tinha abandonado. Uma vida que não era a dele. Uma vida que o fez feliz e que depois o deixou entregue ao vazio de uma felicidade sem proposito.
Entao, no calor da noite, rasgou o papel em dois. Queimou apenas um pedaço e observou, maravilhado, o fogo expandir-se- Soprou e apagou. Mas não conseguia parar . Queimou a outra metade, movido por uma energia que quase o deixava em transe
Mas a chama era muito maior, muito mais atraente. Observou minuciosamente a destruiçao das palavras enquanto o fogo lhe fugia ao controlo. Queimou ao de leve os dedos e o medo inato libertou-o do transe.Atirou o papel para o chao e pisou-o.
Olhou de novo para o papel, para o que restava dele. Eram migalhas, apenas migalhas. De uma vida que viveu mas que nunca foi dele. Não tinha escolhido aquela vida e agora já não era importante. Queimou a metáfora. Queimou o facto.
Desde sempre que o fogo era fascinante para ele. Desde que se lembra. Deitou-se calmamente na cama, relaxado pela satisfaçao de ter visto arder. Aquele pequeno papel. Era certo que era louco. Mas se-lo-ia mais se não tivesse queimado aquele papel. É por ser louco que é livre. Livre ate de fantasmas , não ha nada que aquele fogo dele não queime.