Sunday, February 10, 2008

Mitologias

Num dos dias em que se decapitaram (literariamente) inúmeras cabeças e em que o barulho ensanguentado foi fechado e purificado nas ondas do mar, eu dei-lhe um nome.
Para expulsar a minha insanidade da minha sanidade que está intrínseca ao amor. A imaginação, ás vezes, resume-se a uma mentira que procura causar qualquer emoção humana num corpo dilacerado.
Dei-lhe um nome. Á semelhança da personagem do livro que li, já há demasiado tempo. Sentei-a no meu colo, como uma criança, como um irmão. Não há espírito maternal, fraternidade é igualdade. Por isso é que lhe dei um nome, para ser igual a mim.
A sua voz é, também, a minha. É a minha sensibilidade humana desajeitada que lhe dá voz. Sou eu o som que projecto no mundo, como uma sombra nocturna.
Música é cor. E não se descrevem cores, azul é azul. Daí que os cegos sejam alvo de uma infelicidade irremediável, e os surdos condenados a algo pior que a morte. Dei-lhe um nome, há muito que vejo o mundo com os ouvidos .
Não há sentido.Não há explicação. Acordei , lembrei-me da harpa do druida do livro que li já há muito, muito tempo. E dei-lhe um nome porque somos todos um Prometeu mais ou menos adormecido, a evocar o poder que, na verdade, não possuímos.
Que venha, então, o corvo devorar-me o fígado durante séculos tenebrosos. Eu entreguei-lhe o segredo do fogo: dei-lhe um nome. Atribuí-lhe um significado, uma alma. Tudo o que existe, bem, existe. E tudo o que existe para nós tem um nome- ainda que mudo. Limitei-me a soletrar o dela; e a esperar por Perseu.