Friday, April 24, 2009

Prenúncio

É um prenúncio de morte. A tua presença modifica-o e ele não sabe como. Sente-se confortável em qualquer sitio porque ele é senhor de si mesmo, vive como quer, por conta própria, resolvendo as equações com preguiça e perspicácia.
Menos contigo, contigo, ele não consegue encontrar a solução. Apenas a sente, sobre a pele como uma pétala suave que lhe activa o tacto. Sente-se diferente contigo, assume que tens um acesso parcial a sua mente que ele não te deu e fica demasiado confortável . Já não há nada a esconder, ele é apenas ele. E é isso que queres, que ele seja ele, para tu poderes ser tu. É essa a solução. E ele sabe, tem medo dela, uma vez que a aceite, o resto do mundo perde qualquer interesse.Porque, contigo, ele é simplesmente ele, não altera o ângulo real conforme lhe é mais conveniente.
Se lhe confirmares a solução da equação, ele vai entender que tem legitimidade em ver o mundo azul porque tu também vês.E vai ver que tu queres o seu apoio, que queres dar o teu apoio. E nunca mais vai ser o mesmo. A Lua cheia está esplendorosamente bela, é um prenuncio de morte.

Tuesday, April 21, 2009

Triste

A vida é isto, um número mísero de tristes expectativas que acabam por morrer porque a realidade é feia e inócua. A arte é sempre assassinada , a estética profunda e inteligível queimada. E ficam a sonolência e a igualdade dos dias.
E por isso é que ele sobreviveu e não sucumbiu à tentação de morrer, de ter os sentidos ,tão já feridos, fechados eternamente para o mundo. Ontem e Amanha foram a mesma coisa, não se apercebeu do passar da noite. Na madrugada ainda estava vivo e a ferida jorrou sangue vermelho-vivo.
A vida é um mísero conjunto de repetições exteriores e decepções interiores. Nem sempre é uma aprendizagem, um fortalecimento; é simplesmente uma perda da capacidade de amar e de acreditar. E hábito. À dor e ao inevitável.

Saturday, April 18, 2009

Lembrança

A consciencia da noite rompe o silencio frio e negro: não está esgotado, há ainda um sorriso que escapa pelos poros da pele quando a tua memória é activada. E só morre quando tu, definitivamente, fizeres valer a tua verdadeira escolha consciente, o trilho que tomarás ,discretamente ,como teu.
Existe, possivelmente, um pedaço de coração guardado para ti, que te pertence. Para sempre. Até ao fim. Se nunca te for entregue, desfazer-se-á em pó, solitário e duro, quando os incontáveis dias atingirem o seu próprio limite. Um pedaço de musculo cheio de sentimentos que só existem para ti. Um bocado de responsabilidade que te não quero dar. O meu trilho é negro e sombrio, luzes são proibidas. Não anseio arrastar-te comigo para a escuridão .
Ainda existes dentro da memória, e no frio alto da noite, a intensidade é libertada. A dor é pequena, a saudade rasga a pele em longos cortes. Mas sobretudo, o sorriso rasgado afoga a angústia no poço do pedaço de coração. Porque ainda existes, num mundo paralelo em que a tua mão quente aquece a minha, indefinidamente fria.

Thursday, April 16, 2009

Desumano

É porque ansiei esquecer, por breves dias sombrios e clarividentes, a paixão que existe em todo o mísero pedaço de pele, em cada músculo rasgado ou distendido, em cada nível da alma ou do espírito. Mas, de cada vez , que a música se eleva no ar e o coração se impõe como portal entre o mundo exterior e a minha mente, é como um transe que invade o sangue e oferece uma sensação única. De loucura profunda. E de lucidez honesta. E amor, sobretudo, amor. A melodia embala como se não fosse deste mundo, desta triste e medíocre realidade.
E, durante aquele breve período de tempo, a musica era a tua voz. O teu timbre encantava os músculos que descontraíam negligentemente. Mas era desprovida de melodia, a tua voz , não tinha profundidade. E a música voltou a elevar-se no ar e o coração tornou o espaço exterior na minha mente, condecorando a audição o sentido rei, empurrando, com desprezo, a visão para o melancólico segundo lugar.
É porque já não sou a mesma pessoa. Oiço o mundo, não o vejo. A realidade não tem importância. Não é audível!

Saturday, April 11, 2009

Indescutibilidades

É indiscutível a tua utilidade: foste completamente inútil; mais, foste a intensa luz que quebrou o sagrado e seguro caminho escuro. Calaste a revolução, entregaste nas mãos frias e pálidas o poder da compaixão e da atenuação da raiva. Fizeste de um duro soldado de guerra desertor um ser humano condescendente e amável.
O teu perfume, exagerado e extremamente aromático abriu , num jeito simples, as portas para um mundo diferente. Não há batalhas sangrentas, ou invejas desmedidas e belicamente humanas, certo rancor ao passado ou, mesmo, indiferença à vida. O teu mundo não é perfeito, mas guarda num pano de veludo branco e macio, as cores que exaltam uma existência. A minha existência.
Ofereceste o teu acolhimento, o teu abraço e até mesmo o toque da tua pele. Indiscutivelmente, atenuaste a raiva e deixaste bem ciente que o mundo não é, obrigatoriamente negro. Em nada foste inútil. .Sem ti, o mundo seria , talvez, um lugar extremamente belo e sedutor onde não existe a mínima esperança de se ser melhor, de se ser azul.

(Mas eu prefiro que o mundo seja negro como a noite.)

Friday, April 03, 2009

Discreto Pedido de Desculpa

Eu sei que, provavelmente, não sabes. Mas sofro por ti mais do que sofro por outra qualquer razão. E não sei porquê. Reconheço, simplesmente, em momentos de silencio barulhento e ensurdecedor que me és importante assim, sem paixão calorosa ou , sem mesmo, a sensibilidade humana cravada em cada pedaço de pele. Apenas.
E não sei porque é que magoa, porque é que chamo para mim a responsabilidade de não deixar que te aleijem, se a pele é tua e não minha, em momento algum é algo controlável.
Gostava de perceber porque é que encantas toda a minha compreensão e compaixão, há já muito desaparecidas. Gostava de te dar a verdade que queres descobrir furtivamente sei que a tenho, algures, comigo. E gostava que soubesses que nunca te mentiria.
Sei que, provavelmente, desconheces o quão me és importante e o quanto te queria proteger. E sei, igualmente, que não consigo fazer mais do que isto, e isto é praticamente nada, invisível.
Talvez por isso sofra mais por ti do que por qualquer outra pessoa, até mais do que sofro por mim ( tu e eu, somos uma mesma coisa.)

Thursday, April 02, 2009

Escuridão

Porque não me assassinas? Salvar-te-ia desse tormento, dessa leve ansiedade brilhante que dança nos teus olhos, brinca na tua pele. Larga-me , foge de mim. Esquece-me e apaga-me, por favor, abandona-me e abandona todo o meu aroma estranho e suavemente selvagem.
Não vês? Quero salvar-te, de mim, proteger-te. Por isso deixa-te afastar de mansinho, entrega-te a esse murmúrio frágil que te diz para me deixares partir. Por favor, eu nunca te magoaria intencionalmente.
Não te confies, assim, a mim. Não ponhas o teu coração de veludo branco nas minhas mãos. Elas protegê-lo-ão cuidadosa e carinhosamente até o vires buscar. Não faças isso, serás a prioridade.
Por favor. Assassina-me. Sou um caminho errado, tu és a opção errada. Mas sobretudo, eu sou um soldado desertor de uma guerra vazia, por favor, deixa-me estar só e sê feliz. Sem mim.

Wednesday, April 01, 2009

Oposições

Reconheço-o agora, foi um erro inteiro meu. Inteiro, cheio e quente. Mas desculpa-me, não foi consciente, foi verdadeiro todo o esforço, todos os segundos que dedicava á tua maravilhosa e discreta magnificência. Simplesmente, anulou-se o feitiço que me deitaste quando te afastaste. E reconheço agora, queria tanto ter-te por perto, desesperadamente, tanto medo em perder-te , que deixei que a magia atingisse o seu extremo e quebrasse. Agora não sobra nada.
Sempre tive, possivelmente, esta leve consciência de que era um sentimento puro e bonito, de que era uma magia estranha e azul a dominar-me. E sempre soube que terminaria. E que tu morrerias assim. Sendo o teu rosto perfeito apenas mais um.
Reconheço-o, agora, apenas, agora, que nunca te deveria ter dado tanto, foi tudo de coração e intencional. Simplesmente, não existe em mim.
Conviveste e dedicaste o teu precioso e frágil tempo a alguém, que no teu mundo exuberante e cristalino, não existe.

Tuesday, March 31, 2009

Quebra

Foi o primeiro momento em que foste indiferente, em que a tua ausência não provocou o ardor doloroso de uma memória doce assassinada.
És uma escultura bela, branca, cheia de pequenos nadas. Nadas para mim, todo o teu ideal é intrinsecamente estranho ao meu, estivemos sempre condenados. Mas foi, de certa, forma, amor; e foi verdadeiro, ou não teria havido sacríficios negros. Todo o branco inspirador , toda a transparencia cristalina que me deixaste reflectir-se-à eternamente na minha vida. Contínua e Indefinidamente.
Lamento, lamento até hoje, que te tenhas tornado só isso - restos do resto da memória. Não mostraste o movimento ondular que me permitiria ver-te como uma escultura cheia de outros nadas ( nadas meus...).
De certa forma, desculpa-me esta exigencia sofrida .

Saturday, March 28, 2009

Mas

É o mesmo sítio e as paredes guardam os nossos segredos, todos os gestos inférteis durante tanto tempo. Sim, quase tornaste tudo inútil pela tua fraqueza. Ou pela tua luxúria, também, que importa? Não te distinguiste da multidão o suficiente e não te basta a minha fé de que és um outro tipo de barco sem rumo. Lamento.
É o mesmo chão, tantas vezes pisado; oiço-te e oiço-me, oiço o que nunca dissemos; oiço o tempo que já não temos. Ecos de uma fé romântica, mas a janela tem aprisionada a minha saudade e agora está trancada. É o mesmo sítio , até os mesmos pregos e os mesmos buracos. Mas nos já não somos os mesmos, o som mais alto é o lugar vazio deixado por ti.
E tudo o resto e silencio duro e profundo. Porque é o mesmo sítio mas os teus olhos são só os teus olhos , apesar de toda a minha saudade , aparentemente banhada por uma indiferença dourada.


Friday, March 27, 2009

Clarificar

Não é que te queira magoar. E não é que seja crueldade da minha parte. Simplesmente, já não és importante e não existe tempo para esta hesitação ridícula. Tens o lugar vazio que deixaste , que te pertence, que nasceu para ser teu. E tens a chave do quarto negro cuidadosamente trancado. Só morres porque queres. Pelo menos , durante estes dias de Primavera inspiradora.
Já não te consigo proteger, nem de mim. E não é que tenha o coração duro como a pedra. Mas não me podes pedir para ignorar o que os olhos viram, oque os sentidos percepcionaram. O teu falhanço. Comigo, contigo, E a minha suave decepção. Porque foste apenas mais um na forma e no acto de errar.
E isso afastou-me de ti. Existe no teu ser todo um fracassar típico do ideal que despreza o azul da minha filosofia.

Thursday, March 26, 2009

Recusa

No fundo, é porque não tens romantismo, não és idealista,dominas talvez a arte da ilusão mas não a de encantar. Sim, no fundo, é por isso que confiei em ti, sabia que me não deixarias arrastar numa tristeza melancólica, alimentada meigamente pela tua memória.
O meu romantismo ingénuo teve-te como um deus mortal e humano porque não te via diferente, mas via-te especial e foi por isso que foi a ti que confiei a minha ultima lágrima – e a mais nenhum outro. És realista, logo tens facilidade no assassínio da dor.
Fomos cúmplices nas diferenças. Foste tudo o que precisei. Mas nunca disseste quem vias quando me olhavas e agora que partiste já não existe razão para me lembrar de ti.
No fundo, é porque nunca foste romântico e eu confiei-te o assassínio da minha expectativa benevolente, de uma ligeira ingenuidade. Devo-te, apenas, o adeus que recusas ouvir.

Wednesday, March 25, 2009

Moonlight

Ainda te devo algo. Nos teus erros humanos, por caprichos magnânimos e vazios ou tristes e angustiados, fizeste-me recordar Beethoven, obrigaste-me a pisar , débil e ridiculamente os seus passos, parte do seu sentimento, ou mesmo a sua dor.
Porque também eu te dei a música. Também tu a ignoraste, como ela, a mulher surda que trocou o som do piano por outro qualquer conforto. A pergunta é: soubeste, alguma vez, que a música era tua, para ti ? Sentiste a minha dádiva mais profunda? Ou foste surdo, caprichoso, barato e comum, como a mulher?
É uma pequena curiosidade, uma duvida que sempre me acompanhou .Mas que fazer, a música nasceu de mim para ti, mesmo que a não mereças, ela continua a ser tua.
E isso é que é verdadeiramente triste. Mas, aproxima –me de Beethoven. Ao menos, ao revelares-te sujo , barato e banal, aproximas-me de um génio.

Mas é uma alegria sofrida , o resto de uma felicidade que ruiu. O único consolo de um vitorioso que conquistou uma derrota . Porque a música pertence-te.

Tuesday, March 24, 2009

Diferenças

Talvez nem nunca tenhas sido frágil. Mas eu vi a tua quebra interior, não me posso deixar corromper pela raiva surda e angustiada. O objectivo é a harmonia interior, estar em paz com a perseguição da sombra, não te posso odiar. Talvez não sejas suficientemente valioso para um ódio ou talvez seja uma questão de amor.
A diferença é nenhuma. Porque eu fui frágil .E quebrei. A raiva desmedida simplesmente não faz sentido, quero compreender-te, quero limpar o meu espírito; quer tenha sangue ou não, precisa de ser restaurado. Porque o objectivo é a existência simples e alegremente triste (não tristemente alegre).
Talvez esta seja realmente a ultima despedida, o momento em que sei se quebraste ou não, a fracção de segundo que me diz se afundaste a minha crença em ti com desprezo ou se não sabes que a tenho. Mas depois disto, a tua memória é apenas mais uma e tu sabe-lo. Estás por tua conta.
Eu já me libertei de toda e qualquer culpa que, gentilmente, possa ter.

Saturday, March 21, 2009

Lutas

As estrelas no dia em
Que morreres
Fundem. E choram
De mansinho.

Dependem de ti, esforça-te
O vento é manobrável.

Olha o céu. As estrelas
Não estão la.
Acorda.
E reage. Não
Morras assim.
Não renegues
O coração.

Range os dentes e luta
Pelo teu direito de seres triste
E seres as estrelas
Do céu nocturno
Ou elas morrem.
Fá-lo agora ou será tarde de mais

Morrerás de dentro
Para o céu.

Friday, March 20, 2009

Alívio Triste

Finalmente acabou. Prolonga uma dúvida que retire o sono de noite na linha que separa o coração do cérebro e vais ver que o fim, mesmo o fim duro e cruel, é um alivio. Um alivio triste, porque acabou. Mas a linha alcançou o fim e explodiu, a inércia foi quebrada. Bom ou mau, o caminho foi-te dado.
A razão, a génese é importante claro. Está em causa a honra de uma existência, uma certa veracidade da memoria. Não levarás esse julgamento de animo leve, porque gostavas e apesar de tudo, quando se gosta é-se honesto e imparcial em certos momentos. É por isso que ainda tens uma oportunidade de singrares entre o sangue sacrificado e a lua negra, porque te esforças por compreender. O teu eu e o outro.
Finalmente acabou e sabes que perdeste quase um dia da tua vida, e perderás mais no cumprir do luto. Mas não importa se o luto que cumpres pela dor que sofres é merecido: tu tem-na, ela sim, existe. A crise já chegou, mas enquanto viveres terás a hipótese de te restabeleceres. Por ti.

Thursday, March 19, 2009

A Confissão

Sempre esteve cá, esta tristeza, aquecida e aconchegada. Desculpa, os meus demónios são os amigos mais íntimos de uma existência nómada e errada. Sedentarizar é perde-los e perde-los é a consciência de que o amor que tenho a esta liberdade melancólica e negra já não é suficiente. É admitir que existe algo mais amado que a própria liberdade.
Sempre fui incapaz, sempre me senti incapaz. Mas tu eras um jardim verde cheio de rosas azuis, rosas da eternidade e do pacifismo interior. Não havia nada tão azul, tão puro, tão profundamente ligado a um amor fundo como o jardim de rosas azuis. E agora foi tudo queimado.
Pedoa estas tristezas, estas palavras duras , estes gestos quase indiferentes a uma vida reluzente. São todo o coração que tenho , tudo o que sobrou depois da tua partida.

Monday, March 16, 2009

Vazio

Tudo será esquecido. Com velocidades e proporções diferentes, más memórias perdem a sua intensidade angustiante e as boas lembranças são gaivotas marítimas balançando numa onda de mar ao pôr-do-sol. Não deixa de fazer pensar, a facilidade com que a gravação sensitiva desaparece da nossa pele quando deixa de haver continuidade no tempo. Todas as guerras, todas as pazes conquistadas servem para isto: para conseguires esquecer e ultrapassar, continuar a tua existência apesar do resto, apesar de do tudo e apesar do nada.
É esta a conquista verdadeiramente vazia, a que nasce por uma razão legítima e boa mas que conduz ao caos, à desordem, à conquista sangrenta, à sobrevivência e à glória de uma existência. É uma filha ilegítima, abandonada e rejeitada, desprezada. A sua presença no calcário que escorre da vida simboliza todas as feridas inúteis.
Mas tudo será esquecido. Até te esquecerás de te lembrares do que sentes falta. É tudo em vão. Todo o sofrimento.

Friday, March 06, 2009

Sonho

É como se não pertencesses a este mundo, como se fosses um sonho bonito e azul tido durante varias noites quentes e adocicadas. E é como se me tivessem acordado de mansinho, um bocadinho cada dia; como se ainda me estivessem a acordar agora. E o sonho vai-se dispersando no calcar duro de cada dia, nos problemas que constituem a realidade. Porque realidade é isso, consciência absoluta de um problema e imaginação para o resolver.
A tua memória é tudo o que tenho guardado de bom, é o melhor que sou. Começa a desaparecer, como um sonho é esquecido durante as horas de clarividência diurnas. Acrescenta um certo tipo de desespero humano à dor da tua ausência profunda. Porque um dia, simplesmente, não farás mais falta.
Em certos reflexos, a morte é quase uma bênção.

Wednesday, February 25, 2009

Carta do Solitário

O mundo tem culpa, aliás é ele o verdadeiro responsável. Não que importe, acabou, que mais posso eu fazer? Nem tu podes alterar coisa alguma.
Um dia voltarei a ver o teu sorriso , aberto e simples. Não será perto de mim para o sentir como dantes. Estará lá apenas a minha sombra para contemplar a tua grandeza modesta, para garantir que o amor terminou. E um dia talvez até te esqueças de mim, como o vento que nunca se acomoda num lugar especifico, tudo o que te quero é felicidade. Como o coração é o de Orfeu, desdenhei a Eurídice para a não ver morrer.
Mas nunca eu me vou esquecer de ti, do teu perfume, do teu passo leve. Permaneces aqui comigo, sempre. A tua memória tão suave e fresca magoa-me porque a perdi.
Perdi. E não ha nada a fazer. Nada tenho a perder, tudo o que me importava partiu com o vento. Acabou e esgotei a minha última lágrima inutilmente porque não ta dei.

Monday, February 23, 2009

O Erro

Antigamente, a consciência de errar era dura, saber que se falhou algures. O desejo concentrava-se todo na fuga ao erro.
Mas agora não. O erro é o teu maior sonho, trocarias tudo por esse erro teu, tão pouco tu, tão pouco Ricardo Reis ou mesmo Alberto Caeiro. Falharias, fracassarias, entregarias tudo, todos os pedaços de pele a esse desejo; procurarias o suicídio, exporias as cicatrizes feias, entregar-te-ias à miséria e às lágrimas cavadas só para poderes concretizá-lo indefinidamente. Não é possível, a segurança provoca-te o sorrir mas é vazio. É tudo vazio. Estás vazio.
Sonhas à noite, o pesadelo surge quando não falhas. Queres errar, queres estar perto de novo, fazer a loucura que põe em causa toda a tua existência. Mas até esse sofrimento te proíbem.

Saturday, February 21, 2009

Drugs don´t work

Sei que vou voltar a ver o teu rosto, perdido entre outros tantos na multidão. Sei que estarás lá, algures. Mas o cansaço de fugir e de fingir anula-me e não sei se o meu verdadeiro eu te encontra assim tão diferente, tão único e belo. Não sei se não foi tudo ilusão do momento, de uma hipótese que imaginei que tinha. A corrupção interior existe em mim, assim como o amor à guerra, à vitoria, à violência. Não são compatíveis contigo . Não sei se consigo forçar a coexistência de algo tão antagónico.
Devolveram-me a tristeza alegre, o riso quase simples e puro. O eterno nó na garganta, a consciência da dor que nunca morre. E eu sou isso. Só isso.
Sei que vou voltar a ver o teu rosto e sei que vai doer, o paraíso queimado, o amor sujo, o sangue que derrama de ferida nenhuma. Mas é uma questão de habito, talvez nem nunca tenhas estado perto. Talvez nem nunca tenhas verdadeiramente existido.
Mas vai doer, as drogas vão falhar e vou ter consciência total da dor. Sei que vou voltar a ver o teu rosto outra vez.

Drugs don´t work, The Verve

Wednesday, February 18, 2009

À tua Memória

Só o mar percebe o ardor da tua memoria, a lágrima que não tem o direito de deslizar pelo espírito. Só o mar, quando na sua tristeza violenta arranca rocha e engole areia é capaz de justificar a tua ausência ( há algo em mim que lhe pertence.)
É um pensamento que anula o sorriso intrínseco e verdadeiro. A tua perda para que a guerra não se aproxime de ti, a guerra que trago nos mais leves movimentos que não faço; como se estivesse enraizado num coração algures o amor ao sangue e à violência.
Mas não, não é verdade. O mar é azul pacifico, puro e triste. E parte de mim está lá, na praia onde marquei as rochas com o meu sangue. Só o mar compreende a tua ausência, é o único sítio onde verdadeiramente fazes falta, o único onde deixaste a tua marca doce e leve, onde amansaste a raiva...
Eu não escolhi a guerra. Mas a minha vida foi consumida por uma razão de existir que é , em tudo, bélica. Eu não escolhi e não tenho opção.
Só o mar percebe a dor da tua memória, reflectida no azul dourado que aquece o coração e o dia. Mas nunca te substitui e é tudo o que tenho no final do dia. A tua memoria reflectida nas ondas do mar passivas e divinas.

Sunday, February 15, 2009

Angel

Lembro-me vagamente dos meus dias balançarem entre o feliz e o triste, o bom e o mau. Um arrastar de sorrisos e lágrimas fluido e profundo. Lembro-me de chegares e tentares tirar-me daqui, deste sitio cheio de pecados em nome da moral .De tentares desesperadamente salvar-me, enrolando-me nas tuas asas tristes cheias de amor.
Peço-te, anjo, tira-me deste lugar. Eu sei, pertenço aqui, a este sitio; nasci neste solo pertenço-lhe. E sei que partirás, um dia nunca mais estarás aqui. Mas talvez me possas levar para longe, pelo menos por agora. A dor preenche-me com vazio, com a ausência de uma verdadeira razão de existir.
Anjo, protege-me deste mundo de pecados estranhos aos meus. Anjo, enrola-me nas tuas asas tristes cheias de compreensão. Anjo, poderás libertar-me?
Angel, Judas Priest

Saturday, February 07, 2009

The Unforgiven III

Mesmo que chovesse insistentemente nada é maior que a dor dele. No único ponto de existência em que não podia falhar quase se matou ( provavelmente nunca verás a ruína em que se deixou ficar). Mas apesar de tudo, não se arrepende, faria tudo de novo, talvez ainda mais intensamente.
Curaste-lhe feridas, talvez nem nunca saibas o bem que lhe fizeste, a terapia em que te tornaste. Mas , por favor, repara: verdadeiramente, ele não tem casa e a sua vida é uma história triste mas a tua não é igual a dele. E ele não vai deixar que se torne, jamais é capaz de te sacrificar.
A chuva quase parte os vidros, arruína portas; o vento assassina árvores. Mas nada disto se compara à tortura dele. Mudaste-lhe a vida, deste-lhe a mão mas ele não foi feito para ter tanta sensibilidade ao primeiro toque. Tornou-se frio com as guerras inúteis que travou.
Não se consegue perdoar. Sabe que errou e sabe que o futuro breve não é brilhante. Mas não e isso que verdadeiramente o incomoda, que o massacra ferozmente: perdeu-te e procurar-te seria a sentença dele; e ele não pode morrer , não agora.
Não se consegue perdoar. Se pudesse, acredita, escolher-te-ia, mas não é opção dele.
Não se consegue perdoar.
“How can I be lost if I got nowere to go?
And how can I blame you when it’s me I can’t forgive?”

Friday, February 06, 2009

Resposta

Talvez um dia chegues verdadeiramente a mim e me toques, sintas que , afinal, sou igual. Quando morrer alguém tomará o meu lugar e tudo o que fui afundar-se-á numa paz cruel.
Depois de tanto esforço e investimento, compreendo parte da tua frustração. Sou o inverso do génio, do artista e de tudo o que engloba o bem. Quebro o sonho , desfaço a ideologia. Defino-me como uma criação perfeita que saiu completamente torta e desengonçada.
Tenho coração, sinto, falho porque não resisto á hipótese de não estar eternamente só no mundo que não me pertence. Erro porque, em certos reflexos solares, tenho um lugar no mundo e tratam-me como gente.
Eu sou igual aos outros ; diferente do que já fui. Vê, não sou a mesma pessoa. Quero outra coisa da vida, procuro incessantemente o meu coração. Não é visível?
Basta isso para fazer toda a diferença.

Thursday, February 05, 2009

These are the days

A filosofia baseia-se num bom individualismo, num egoísmo altruísta. É olhares-te e teres-te como melhor amigo, uma sombra fiel que nunca te abandona, que te segura e , sobretudo, que te protege . No fundo, a filosofia consiste em amares-te indefinidamente, mas sem cariz amoroso ( se não o lago era o teu cemitério).
Caracteriza-te e define-te no teu pormenor mais solitário, coloca toda a intensidade do teu ser na boa acção que o mundo , sedento de actos em grande e caridosos, nunca verá. Procura o anonimato para encontrares o conforto de seres ninguém e, por isso mesmo, seres carinhosamente livre . Esquecendo os outros e as suas lutas em busca da felicidade vazia, vives de acordo contigo próprio, coerente com a tua própria ideologia (que é nenhuma).
O mundo não existe, os outros não existem. O segredo da filosofia é um egocentrismo afável e controlado, porque se morreres, não há mais nada.
These are the days, Jamie Cullum

Wednesday, February 04, 2009

Ausência

Sou eu, bem o sei. Depende tudo de mim, do meu nervo que falha porque não é azul, eternamente azul como o teu. Destino-me a múltiplos fracassos em busca de uma vitoria verdadeiramente conquistada. Qual o sentido de tomar banho sem antes dormir noites de frio aconchegado na lama?
Mas enquanto estiveste aqui eu fui suficientemente importante para não me deixar fracassar na quebra da monotonia de uma existência. Foste o meu objectivo, o meu desejo de melhorar qualquer coisa. Uma amnésia agradável porque so apaga as mas memorias, mais uma cegueira consentida do que um esquecimento .
E foste, a par de tudo isso, a única impossibilidade que tenho, o teu nervo azul não esta perto do meu ( continuamente feio). Um dia acordei e já não estavas aqui, e o meu dia foi igual aos outros. Na verdade, nunca exististe.

Tuesday, February 03, 2009

Dumb

Passamos infinitos segundos a fingir qualquer coisa. A querer qualquer coisa que nos parece eternamente inacessível; entre uma estranha burrice e uma felicidade quase vazia perdemo-nos entre o que somos, o que deveríamos ser e o que os outros querem que sejamos.
Compomos o mundo com sons, entregamos o coração a algo que reflicta os nossos pormenores artísticos e sensíveis. A fragilidade implícita no nosso sorriso , corrompido pela dureza oriunda de feridas profundas e batalhas ainda não travadas, não nos denuncia e os outros não nos vêem verdadeiramente. É o esconderijo perfeito, a magnificiencia da ilusão.
É uma burrice esquisita ou uma felicidade que não é suficiente. Mas não desistas. E agarra-me, para não cair eternamente na minha oportunidade de ser como eles.

Dumb, Nirvana

Monday, February 02, 2009

Veneno Doce

É um veneno que carrega a leve felicidade, uma droga doce. É impossível não hesitar, não trair o juramento, não ofender o sangue. Sobretudo pela questão da curiosidade, experimentar algo novo. Deixar que a droga se apodere do corpo e torne a mente mais translúcida.
É um veneno com um cheiro agradável, uma infinidade de portas para mundos novos , cada qual mais belo e mais útil que outro; cada um mais perfeito e mais único, especial e pormenorizado .
Mas é uma droga. O dia – a-dia de outro qualquer transeunte (mesmo do individuo mais singular) corta-te asas, sacrifica-te pele. O cheiro perfuma o espírito e qualquer porta poderia esconder um mundo só teu. Mas como não foi esta a tua verdadeira escolha, não tens direito . Nem sequer de gostar.
É um veneno. Ou desistes da ilusão de ser como eles num jeito de curiosidade existencial, ou morres afundado na incapacidade de te reconheceres no lago.

Saturday, January 31, 2009

Lua Cheia

A dureza calcada na existência abrupta cola-se na tua pele e já não despega. A tua consciência fica eternamente activa na tua efemeridade e só descansas no êxtase.
E sabes que nem sempre é uma questão de amor, o mundo tem leis e nem tu as consegues quebrar. Porque, mesmo em negação honesta, pertences a este universo, apenas nunca te misturas.
Mas quando o sorriso é audível e puro a dureza estala fazendo com que os teus sentidos se deixem acariciar pela vida. Ignoras o mundo que te rodeia, esqueces que nunca, mas nunca és miscível com os outros; perdes a consciência que te tortura, alcoolizado por ilimitadas oportunidades que alguém conquistou para ti.
É toda a felicidade a que tens direito, uma simples noite de libertação do lobo que existe em ti numa singular noite de lua cheia. Depois regressas a prisão da tua consciência

Tuesday, January 27, 2009

Singularidade Perspicaz

Mesmo quando és um pequeno barco, com cores e alegria, olham-te e vem a tua diferença. As cores são rasgas e gastas. A sua vivacidade reside na experiência que te faz insistir na vida com a esperança de um melhor dia. E o barco é pequeno e feliz, mas lá dentro reina o caos; as cores, sem luar, são negras e obscuras.
Não importa quão agradável è o teu caderno de viagens, não importa o quanto lhes sorris. Eles sentem a obscuridade que te domina e tu não tentas mentir. Omites e deixam-te partir.
O teu destino nada tem que ver com o caderno de viagens quente que trazes no bolso. Um dia, chegaras ao pais do frio para nunca mais regressares.
Na verdade, nunca és um pequeno barco. É só uma manobra de perspectiva.

Sunday, January 25, 2009

Derrame de Sangue

Ele sabe que não lhe permitem mais que a ilusão. No fundo, compreende, entrega a sua felicidade ,construída por minúsculos caprichos luxuosos, para te manter em segurança. Por isso fechou os olhos, hesitou. E quando virou a cara salvou – te.
Ele sabe que é inútil, o espelho é inquebrável. Cortou os braços e as mãos nas suas tentativas de fazer um simples furo. Criou um rio de sangue e perdeu pedaços de pele só por um mísero buraco mas tu és eternamente inacessível. Tentou o impossível; viu-te partir e chegar tantas vezes que as feridas fecharam. Deixou de tentar quebrar o inegável, tornar falso um facto passado. O espelho existe, é transparente, mas separa-vos. Não vale a pena. É inútil.
Ele sabe que só a ilusão lhe é permitida. No fundo, manchou o espelho com o seu sangue para poupar o teu. Compreende, entrega a sua felicidade alta e momentânea ao sacrifício na esperança de que tu nunca gastes nem uma pequena e modesta gota de sangue.

Thursday, January 15, 2009

Imperdoável

É porque não percebo. És um eu distinto e distante de mim. Mas és um eu, mais sofrido e mais honesto; explicitas o amor á arte , daí as mutilações.
Não me fascina a diferença. Finjo que sou um reflexo diferente do do espelho que não deixa de ser doloroso encontrar-te, de tempos a tempos. Lembrar-me, entre glorias e luxúrias , que também sou imperdoável. Voltar a ter consciência que nenhum sitio me quer, que não foi pensado um lugar para mim. Reavivar a raiva triste que me manteve aqui, a solidão de um dia com pôr-do-sol efémero,as lágrimas que congelaram e tornaram a terra mais estéril . Porque o mundo exige o nosso sacrifício.
É porque talvez perceba o teu eu distante de mim. Dá-me uma sensação de lar triste, acabado e desfeito, relembram-me que sou imperdoável em todos os movimentos que , verdadeiramente, não faço (por isso é que finjo). E que não posso fugir de mim, do meu destino. Porque não existe qualquer destino.

Tuesday, January 13, 2009

Mostra-me

Mostra-me, desenhado nas estrelas, quão forte é a desilusão. Preciso de saber que não estou a errar o caminho, outra vez; que não te estou a dar demasiado relevo, outra vez. Mostra-me que não estou a ser o que estás a espera, evidencia o meu falhanço. Se te resta alguma compaixão, dá-me as tuas lágrimas para me libertar. De ti, de mim. De tudo, ando a conquistar uma nova hipótese no mundo, não a perturbes.
Mostra-me a tua raiva, a tua frustração. Junta as estrelas e diz-me quão profunda é a tua impotência de me controlares. Não percebes que já não importa, que perdeste o teu império e que mereço todos os dias a minha liberdade?
Não percebes que não te odeio mas que tenho o direito de ser um fracasso? Deixa-me fracassar, deixa-me sacrificar a vida num momento curto e cheio.
Olha as estrelas e diz-me que compreendes que já não estou aqui e que é inútil a tua tentativa ridícula de acorrentares a minha paixão.

Saturday, January 10, 2009

Afraid to shoot strangers

A felicidade é o dia em que a desgraça não te anula. O pedaço de luta que resiste no teu nervo, o pouco de ti que te deixaram. Ao princípio foi uma questão de raiva, querias romper com a prisão que construíste para te protegeres, quebrar o tempo e impor o teu direito de seres triste. Não o poderias ter feito sem o frio e cruel golpe do assassino que mata por obrigação mas com um prazer obscuro.
Mas não agora. Vives porque descobriste a crença, acreditaste que verias milhares de olhos todos com o mesmo olhar frio e fútil mas encontrarias um olhar diferente. E isso limpou a impossibilidade do facto e retirou-te peso da alma, sorriste mais levemente.
Quando a raiva foi satisfeita com os assassínios cometidos em honra da sobrevivência, limpaste o sangue das mãos e desertaste na guerra. És feliz quando o dia não é estéril ou quando o sol incide sobre a tua pele.Apenas.
Ate alguém te arrastar para a guerra e para os teus pesadelos . Não queres assassinar. Mas não existe outra alternativa. E acabaras por ter prazer em silencia-los na tua obrigação de te manteres vivo.


Afraid to shoot strangers, Iron Maiden

Friday, January 09, 2009

Pétala Azul

É medo de perder a única coisa que lhe resta, a ilusão é segura. E é adaptável à chuva e ao ângulo de Sol. Torna qualquer sofrimento mais fácil porque na realidade nada existe, a realidade em si nunca se concretiza. E ele vive como quer, por conta própria, hermético e individual no seu pensamento.
Mas tu aguças-lhe a curiosidade. Não o tentas enganar, nunca lhe disseste que a realidade era melhor, ou que o real era sempre objectivo. Honestamente, aceita-lo como ele é sem te aperceberes. Salvaste-o do seu orgulho pessoal porque o teu olhar nem viu o sorriso às vezes vazio que lhe doía no peito, nem viu o riso audível e falso; não se demorou sobre as cicatrizes feias que estão escondidas na pele, não procurou vence-lo e não procurou ajudá-lo. Quando o viste olhaste-o e ele voltou a sentir-se humano. Deste-lhe a pétala da flor que nunca morre quando simplesmente foste capaz de olhar para ele sem veres nele ou o monstro ou uma espécie estranha de génio.
Conseguiste provar-lhe que, em certas frequências, a realidade supera a Ilusão. E isso era tudo o que ele procurava.


Sunday, January 04, 2009

Despedida

Não posso deixar de sorrir perante a tua memória . O vento ainda me fala de ti às vezes, apesar de saber perfeitamente que o vento não fala. Sim, ainda me és importante.
Continuo a sentir o sorriso espalhar-se pelas veias, atenuar a raiva que envenenou o sangue há tantos anos atrás. Há momentos que duram um segundo e são, por isso, eternos na sua efemeridade. É-me impossível esquecer-te, a tua influência branca e quase angelical impede-me de desperdiçar a minha vida numa loucura instantânea, já não consigo ser o que era antes de ti. A tua expectativa positiva de mim fez com que parte se concretizasse.
Sendo esta a ultima carta, as ultimas palavras, as ultimas confissões, porque não dizer que organizaste parte do meu caos? E a tua lembrança corre-me nas veias , entre os picos de raiva, poderás fazer toda a diferença no apocalipse interior.

Monday, December 29, 2008

Talvez a Chuva

Talvez por isso aprecie a chuva, purifica a minha pele, leva-te definitivamente para longe de mim, atenua a dor que verdadeiramente não sinto.
Talvez a chuva seja o inverso do vento, que me falou de ti. Talvez a chuva seja a metáfora viva da minha incapacidade humana de acreditar: surge sempre depois de um tempo de sol vivo e cheio, aparece sempre quando o coração começa a secar e o som se dissipa devagarinho. Chove sempre, quando a duvida se instala e a decepção alastra.
Não é por mal. Mas para mim os dias de chuva são mais permanentes que os de Sol e a pele já está mais pálida do hábito. Não é por mal, foste o meu dia de Sol radiante e cheio; tiveste uma luminosidade que me fez esquecer que a chuva sequer existia.
Mas ela vem sempre. Tu hesitaste e choveu , o conceito de fim ocupou a mente.
Não é por mal, mas a chuva intensa que me molhou a roupa tapou definitivamente o Sol. E a luminosidade que tiveste é ocultada pela cortina de nevoeiro sem oferecer resistência.

Inspirado em Le Moulin, O Fabuloso Destino de Amélie

Saturday, December 27, 2008

Rebelião

Devias ter visto o teu monstro. Devias ter tido consciência que não ha perfeições e se tentares o inalcançável as consequências serão desastrosas. Devias ter-te informado antes de materializares o teu sonho.
Mas não, claro que não. Nunca eu fui a tua expectativa de concerto de mundo! Sentes-te ofendido pela rebelião da máquina construída para cumprir a tua frustração falhada? A minha frustração é a dor que me causas todos os dias quando me tentas impor a tua visão do mundo. A dor que nada é senão a consciência de que não me deixas ser feliz porque não me construíste para isso.
Claro que a minha dor nunca se compara à tua. Aliás, há uma fracção de dor que nem tenho direito de ter: não me criaste para ser sensível ao toque. Por isso é que num dia longínquo a minha visão impor-se-á definitivamente sobre a tua passarás a existir apenas de mansinho.

Friday, December 26, 2008

Carta a Eurídice

Pronuncia o meu nome. Eu respondo ao teu chamamento mais subtil. Não vês que me mataste devagarinho quando toda a minha esperança fundiu com a explosão da estrela? Devo-te o sangue que me limpaste das mãos. A hipótese no Vazio que furaste por mim. A organização do meu caos interior, o momento em que a dor atenua. Todas as fracções de pele que curaste com o teu toque. Assassinaste-me quando não tinha mais nada e deste-me uma razão para voltar a acordar para o meu mundo.
Pronuncia o meu nome. Não me ouves a soletrar o teu? É o nome da constelação, a única coisa que tenho no Universo, a única que amo e que me ama. Não me ouves, olha com atenção, sem ti já não existia.
És parte da constelação, também és a minha Orion. Não vês que saraste todas as minhas feridas? Devo-te a minha própria vida.



Monday, December 22, 2008

A paixão de Ícaro

Preciso de ti, do teu sorriso genuíno, da inspiração triste que fazes brotar dos poros violentados da minha pele. Aproxima-te, dá-me a mão, enrola-me no teu abraço. Ou a crosta endurece e enclausura-se abandonando-se no imenso mar azul, sem ti o coração não faz sentido e a morte ganha, anula-me.
A tua carícia liberta-me da insanidade que criei para conseguir o direito de existir, liberta-me das convicções que não são minhas . Retira-me da guerra que não consigo evitar quando adormeço profundamente, salva-me do eu que rejeito ser mas não consigo ignorar na noite fria e negra.
Ajuda-me, ou ela ganha, voltarei a ver na morte a minha primeira mãe. Ajuda-me, porque sem ti, não faz sentido eu reagir ao vazio por mim. Ás vezes sou o caminho que sonho percorrer mas com a consciência de que me será eternamente inacessível. Sem ti, não há lugar a um sonho que não seja frágil como um grão de areia perdido no oceano.

Friday, December 19, 2008

Hora da Morte

O meu coração esta desfeito. Cortado aos pedaços. Preso ao vazio e ao nada. Só. Limitado a um espaço menor que a sua área. É um desertor da guerra que criou, é um traidor à causa e uma fraude.
A batalha final persegue-o e uma certa perspectiva de gloria ilumina-o. Mas ele escolheu outro caminho; escolheu -te. Todas as vitorias foram vazias , perdeu o ideal pelo qual dava o corpo. Trocou o sonho pelo teu calor.
Está só. Á chuva. Congela de tristeza. Não existe lugar para ele. Por favor, estende a mão e aquece-o. Guarda-o e vela-o. No fundo, pertence-te.

Sunday, December 07, 2008

Desespero

Não chores esta noite, eu partilho o teu sofrimento mais profundo ou negro. Por favor, não te arruínes, não te suicides, o meu coração está contigo, toda a minha sensibilidade está nas tuas mãos. És a minha lua cheia na noite mais fria e escura, és a minha crença.
Estás só e eles são mais e mais fortes. Maiores e ignorantes. Surdos. Mas dá-me a mão e não chores, permaneço aqui contigo, sempre . Compreendo-te e sofro por ti, eles já não me incomodam. Transfere-me as tuas cicatrizes, não consegues viver com elas, encontras culpa na tua simples forma de ser diferente. Dá-me a tua dor, és muito melhor que eu. Devolveste-me o sentimento porque me comoveste com o teu sorriso triste.
Não chores esta noite, não me deixes só. Não me deixes a sós com as minhas cicatrizes. És a minha única possibilidade de sentir o mundo com a pele.
Não chores, és a Orion. A minha. A única que me dá a hipótese de ser algo diferente de um monstro sofrido.

Friday, December 05, 2008

Carta de um Solitário

O tempo para nós só se comprometeu a estagnar por uma fracção de segundos, estamos sempre atrasados. Contra o destino que talvez nos tenha favorecido algures, estamos os dois sós.
Daí surge, possivelmente, a tua tendência para o meu precipício. Identificas-te com ele porque esperas por algo que se pareça com a intensidade do teu ser. E é daí que germina a minha tendência para o teu ângulo de sorrir : demonstras uma capacidade inata de amar o meu precipício, a minha noite mais sombria.
Mas a nossa união é um fio de prata luminoso e transparente, tão verídico e palpável como um arco-iris.
A necessidade, meu amor, aumenta e eu preciso do teu grito mudo e azul perto de mim, já que o relógio congela, o tempo anula-me e o negro consome-me.

Tuesday, December 02, 2008

O renascer do Frankestein

Respeita-me. Formaste-me, criaste-me e mostraste-me ao mundo, encara agora o teu Frankestein inconsciente.
Ganhei vida própria nas cicatrizes desenhadas na minha génese, os músculos são mais resistentes que quaisquer outros e o meu coração guarda os restos imortais da fénix velados por baixo da tua pele. Mas sou disforme, numa das batalhas frias conquistei um coração que se expandiu preenchendo-me por dentro. E tornei-me ainda mais disforme quando perdi a resistência inata de um soldado que nasceu para fuzilar. Contra a tua expectativa, rasgaram-se outro tipo de cicatrizes, tiveste um árduo trabalho em vão.
Respeita-me e aceita-me, deixei a estrela que era mantida por ti e desertei. Sou algo diferente do meu propósito. A única coisa que me pertence é o coração que não nasceu comigo, não adveio das tuas mãos sedentas de uma frustração com final feliz. O teu final, não o meu.
Sou a tua utopia falhada, encara-me, toma-me real, acredita-me porque nunca mais regressarei.

Friday, November 28, 2008

Porto Negro

Conheci a cidade antes de te conhecer a ti e por isso o vento foi tão suave e quente como desconhecido. O negro do chão e o escuro dos monumentos definiam o meu amor oculto, a minha possibilidade de paixão inteira e honesta, mas como não existias afundou-se no vazio.
A cidade granítica define-nos, guarda-nos como adornos da sua estranha beleza nocturna, oferece-nos o seu manto de protecção gasto e rasgado.
Conheci-te e, só depois, relembrei a cidade negra com o rio negro e triste . O tempo falhou, nós falhámos, o negro ajeitou-se no coração e não te consigo olhar como dantes.
O vento avisou-me de ti, da tua chegada e da tua mudança no percurso do próprio rio. Mas não te deu nome e tu não existias, foi esquecida pela sua desconexão.
Agora é já tarde. O meu amor afunda-se contigo no rio negro que te corre nas veias. Calçada negra, céu baixo e escuro, rio cavado brilhante e nocturno, meu amor, estamos condenados a gastarmo-nos em segundos vazios e frios.
Inspirado em Adeus, de Eugénio de Andrade

Friday, November 14, 2008

It's all tears

Verdadeiramente, não importa a que nome respondes ou em que ruas deixas a tua marca nocturna. Deixaste a minha pele cicatrizada quando lhe tocaste suavemente com a ponta dos dedos. O sangue que jorrou do corte queimou a flor e guardaste-a na mesma gaveta em que manténs aprisionada a esperança.
Estás à espera que ceda e que os músculos se rasguem. Esperas que a minha revolução muda aconteça e dobre as ondas do mar por ti. Esperas, mas a espera é inconsciente e não vês que já aconteceu: afoguei-me na promessa de que me matarias gentilmente já que perdi o resto da esperança que trazia no sangue.
Perco suavemente o sorriso como uma melodia baixa que se arrasta num ritmo agradável. O amor é isto, o coração que já perdi, o sangue que ficou sem cor, a paixão que tento mortalmente ignorar. Enrola-me nos teus braços, resume-se tudo a lágrimas.

Saturday, November 01, 2008

Aviso

Admite que não existe tempo inútil, admite quem nem a tua gota de suor mais discreta é despediçável. És efémero, és frágil, és imperfeito e estás vivo. A tua única certeza é que a fracção de segundo que já passou é inalterável.
Não perguntes porquê, esquece a guerra vazia, abandona o exército que já está condenado. Não vale a pena (talvez a alma seja, afinal, pequena). Morrerás ainda nesta era e o vento dispersará as tuas cinzas; deserta da batalha, já não acreditas como antigamente, o brilho da constelação encaminhou-te para outro trilho, ganhaste outra crença.
O relógio é uma má metáfora do tempo quando fica preso a uma hora certa. Não existe segundos nem para pensares sobre a hesitação.
Não há lugar para o desperdício. Enquanto viveres.

Wednesday, October 29, 2008

Frio

Não importa quanto o Sol te aquece, a saudade congela-te e anula todo o calor que percorre o sangue. Estás morto hoje, o espírito está encerrado para o mundo, os olhos preenchidos pela tristeza que se aninha na tua garganta, enrolando-se no teu pescoço.
Não existe sequer ódio contra o sentimento mórbido que não flui para o exterior. Sobra apenas alguma violência deixada pela tristeza que te quebra bruscamente, alguma energia usada para romper o teu musculo como uma folha de Outono caída.Hoje o dia nunca termina e a noite nunca te abraça.
A mão está fria, gélida, não importa o quanto a esfregas. Estás congelado e permanecerás assim, enclausurado no cubo gelo, a sentires a falta e o vazio. Os dedos a ficarem mortos e inertes. Imóveis, como tu.
A saudade não te deixa aquecer e o frio acumula-se no coração ; não importa o quanto o Sol te abraça, não estas completo.

Monday, October 27, 2008

Dual

Fechaste os olhos e encostaste-te para trás. Ás vezes o mundo circundante é demasiado intenso e barulhento para a tua simplicidade severamente conquistada.
A pergunta continua activa e brilhante no meu pensamento: Quem és tu e quem sou eu? Quem somos nós juntos e em interacção?
Sim, duvido e sim, receias. Estás a dedicar a tua vida a um caminho que nunca vais poder concretizar e o ideal é duro para ti: viver apenas para caminhar e comprovar fisicamente a tese é tanto um privilégio como uma maldição nocturna.
Mas estás comigo e eu tenha a marca da maldição no ombro, tenho tatuado a flor dos condenados. Condenas-te comigo se permaneces aqui.
A pergunta persiste e mantem-se: quem somos nós, filhos de pagãos inocentes de outrora?
Fechas os olhos e tentas relaxar, o barulho está a sufocar-te a existência.

Sunday, October 26, 2008

Perguntas

Eles executaram tantos sacrifícios e mancharam tantas ruas com sangue inocente que já não reconheço muitos dos meus irmãos. Não sei se és um dos meus ou um dos deles, não sei a que universo pertences, talvez nem sequer sejas mais um soldado desta triste guerra vazia.
De um certo ângulo ilude-me uma possível cicatriz. Tê-la-ás? És mais um espírito que nem tem o direito de estar perdido porque não tem um lugar para voltar? És como eu, um soldado desertor, que abandonou a guerra e abdicou da memória e de parte do ideal para ter alguns segundos de felicidade? Ou talvez sejas uma brisa de ar fresco que vagueia sozinha e tem as suas próprias batalhas, alheias à luta entre o convencional e o inovador, alheias à aurora boreal e à noite negra que engole a lua?
De um certo ângulo o teu rosto perfeito não apresenta cortes frívolos e calculistas. Talvez sejas um deles.
Mas curaste-me parte da cicatriz, deste-me um motivo para sair da guerra completamente.
Não importa quem és. Não importam as perguntas, pensar é olhar o mundo e ver um ciclo.

Saturday, October 25, 2008

Complexidade

Ás vezes basta o calor do Sol banhar a sombra que nunca aquece, basta sorrir de um novo ângulo. Não basta mudar a perspectiva se não houver uma alteração no sistema circundante. Algo semelhante a uma sorte que nunca chega a existir também te decide a vida
Mas não, não hoje. Hoje és inteiramente livre na tua eterna prisão de não quereres ser feliz. Hoje o sol incide sobre ti e, miraculosamente, aquece-te. Hoje o dia pertence-te porque não perdes tempo a reflectir sobre a verdadeira essência das coisas, descobriste um modo bonito de seres ignorante.
Ás vezes basta o Sol incidir sobre a tua pele para saberes que estas vivo, ainda. E isso é o suficiente para seres feliz na tua infelicidade.

Friday, October 17, 2008

Cedência

Os braços estão dormentes, esperam-te para te aquecerem e para sentirem a tua pele. És amado, mais do que imaginas. Nunca haverá traição nem abandono, és desejado e acarinhado. O teu rosto perfeito não tem a cicatriz que rasga a alma, não cheira a medo e a marginalidade; o teu rosto perfeito não travou lutas inúteis em busca de uma verdade para o mundo que é sempre empírica, sempre vazia.
Ocupas a mente e ocupas o espírito, mais do que qualquer outro passatempo porque despertas a humanidade e a sensibilidade ao toque. Mas, por enquanto, não consegues apagar totalmente a cicatriz feita a sangue frio , os sonhos sombrios demoníacos que sobrevivem no inconsciente nocturno.
Os braços estão dormentes, esperam um abraço teu que pode nunca chegar. Limpaste a ferida sem saberes da sua existência e a dor implícita no corte é o suficiente para testar o teu próprio sentimento.

Wednesday, October 15, 2008

Pedido

Dá-me a mão agora, antes que seja tarde e o braço congele. Ajuda-me, mas agora, porque o amanhã pode pertencer a outro mundo paralelo. Salva-me enquanto o céu ainda for azul, o negro é invertível.
Não, não hesites. Não me odeies, não me temas. E não sofras comigo. Simplesmente, acaricia a alma que já foi tantas vezes exportada e humilhada.
Olha para mim sem pormenorizares as feridas, vê apenas o amanhã renascer do meu gesto.
Conforta-me, agora que me torturam. Fica comigo apenas. No final do dia, preciso mais do que a minha sombra para acreditar na sanidade.
Dá-me a mão, agora, antes que os olhos fiquem baços e eu abandone a crença em ti.

Tuesday, October 14, 2008

Hesitações Existenciais

Sai, por favor, da minha cabeça. Abandona o meu cérebro. Desintegra-te do meu sangue.
A sensação é, até, agradável, mas falta-me o hábito a esse tipo de vivências. São demasiado puras para a crosta dura que cresce no coração.
Por isso, deixa-me aqui, com a minha solidão, o desconhecido que me rodeia todos os dias já não me pode magoar. Não queiras limpar a minha ferida com cuidado, doerá mais com o teu afecto porque retirará dureza ao pedaço de pele que sente o teu gesto.
Deixa-me aqui, como sempre estive. Só.
Abandona a minha mente, afasta-te do pensamento. Não me perguntes se quero ser feliz. Já disse, é uma vivência há muito esquecida. Não me confundas.
Sai, por favor, de mim.

Monday, October 13, 2008

Devoção

Sim, gostava de te homenagear , gostava de ilustrar a todos a tua grandeza não épica simples. Tornar-te um deus humano que morre como qualquer outro Homem. Exibir o teu traço de sorrir único que me inspira e me protege.
Mas não, claro que não. Não é isso que procuras e não é isso que quero. És o meu Mestre estás mais só na multidão. És o mortal que tornei deus por me ter limpo todas as feridas cruas com o afecto de um desertor por boa causa. És o que eu fui e o que procuro ser. Fazes-me voltar para o meu lugar negro todas as noites frias porque ensinaste-me a ver, por cima do cimento, o brilho da constelação que me guarda.
Por isso, não te homenagearei, seria o inverso da tua simplicidade. Antes, olharei para ti e seguirei o teu carácter e a tua humildade. E honrar-te-ei todos os dias. Porque és o Mestre que me mostrou a constelação e quebrou as algemas dos meus pulsos. Devo-te parte da minha existência .

Friday, October 10, 2008

Simplicidades

Retirai-me o som melódico do sangue e o braço cai, a mão perde a força, o musculo contrai e o coração seca. O castelo de ferro derrete e a muralha é rasgada como uma folha de papel. Retirai-me a música e o vazio aninha-se profeticamente porque deixa de haver sentido para toda e qualquer existência perdida no meio do silencio que sufoca.
Deixai-me guardar a melodia nas memórias que estão coladas aos ossos e qualquer queda é, apenas, um obstáculo. A lágrima é a certeza de que existimos. A tristeza é o assumir da não perfeição que rege o Universo, é o Caos que é sempre garantido. O silencio profundo torna-se apenas num simples momento em que o som está debaixo da pele; torna-se num outro tipo de som melódico.
Retirai-me a música da existência, bloquiai os meus ouvidos. A vida perde o sustento porque o coração fica preenchido pelo nada que alastra como um vírus mortífero, corroendo todas as resistências.

Sunday, October 05, 2008

Legitmidade

Podias, ao menos uma vez na sombra da tua existência, ser honesto e elevar na leveza do teu gesto a verdade. Mas não, mentes.Mesmo depois da lágrima ter sangrado foges á manhã clara que é a realidade a que verdadeiramente pertences.
Deixa-me um segundo de manobra para te poder assassinar e chorar pela tua morte física, assim, é menos dificultoso. Tu lembras-te de todos os barcos que partiram e voltaram com um novo mapa, mas muitos deles perderam-se no mar e na memória. Por isso, peço-te, deixa-me ver o teu naufrágio por ambição ridícula, para te poder enterrar debaixo de uma qualquer terra. Permite-me o teu esquecimento ou o homicídio será mais sangrento e violento. Doer-te á mais num dia longínquo e de nevoeiro em que a tua mão possa necessitar do calor que a minha já não te pode dar.
Podias, ao menos hoje, sorrires á vida e consertar o puzzle que está a tua espera.
Não podes. Farei, então, um enterro anónimo debaixo da terra da calçada para sentir, todos os dias, debaixo dos meus pés, a tua patética existência.

Tuesday, September 30, 2008

The Unforgiven II

A linha transparente que separa o mar do céu é fácil de distinguir mas quase impossível de descrever. E , enquanto não estiver de costas para o mar o vento gélido arrefece a pele mas não a invade. Enquanto a tua voz ainda for o eco da minha o frio não alcança os ossos, não alcança o coração. Se partilharmos o momento sensitivo e solitário, o vento feito de minúsculas pedras de gelo é, até, agradável.
Mas a tua sombra é o reflexo da tristeza que lateja. Estás só, o mundo tem um só som, o da música. Simplesmente, ás vezes dói a multidão vazia que te sufoca. A tua harmonia interna desintegra-se e a sombra quebra-se e desaparece. Estás só e perdido neles.
És um caos organizado que invoca a ordenação do meu porque caos é apenas uma perspectiva. E, de certo modo, reconstruímos e programamos simbioticamente as sombras que cresceram no mundo deles, de costas voltadas para nós.
Agora que o sol se pós no arco do mar, a tua voz é eco da minha e a teu corte está cicatrizado pela minha mão.

Monday, September 29, 2008

Simetria de Narciso

O amor é isto, a sensação de uma felicidade passiva e intensiva. Julgas que é arrebatador, violento, esgotante, viciante? Não, este de que falo, não é. O amor que tens por ti próprio acumula-se nas linhas ténues do hábito, e o tempo esgota tudo, até a violência da paixão. Um Narciso é sempre jovem.
O teste existencial é o reconhecimento da tua silhueta escura espalhada pelas calçadas em conjunto com tantas outras perdidas. Nem todos guardamos a nossa sombra , há questões que não valem a dor que trazem .E , se não consegues guardar a sombra, é melhor abandona-la.
O amor é isto. Saber que se existe. Até ao segundo que já passou sem haver compromisso com todos os segundos que te faltam percorrer. Amor é a consciência latente de que haverá um segundo que será o último, sem qualquer grito mudo.

Monday, September 15, 2008

Assassínio

A manha clara nasce da pedra negra,
O coração é basalto e o destino demasiado
Branco.
O gelo ilumina o mundo, congela.
O Sol foi enterrado num tumulo
Que lhe consome as chamas.

O mundo chora pelo Caos e
Pela Lua .
A Estrela perdeu a luz
E noite foi consumida
Pelas trevas.

Porque o coração é basalto
E o Sol foi assassinado.

Thursday, September 11, 2008

Utopias

Não tornes o futuro quadrangular
E não penses no passado assim,
Como uma linha recta
Com um fim relativo e mórbido.
Foca o presente de perto
Para o encarares com o nervo azul
Do agora.

Vive feliz apenas com a semente de flor
Contenta-te com a hipótese de ela
Ser o Fogo Sagrado da Noite.
Reserva o grito mudo para as noites frívolas
Em que a Estrela te sacrifica
Ao Deus sangrento que
Renegaste.

Não te adivinhes. Não te prevejas.
Aprende a saber esperar e a não aceitar
Tudo o que seja impossível.
Só assim concretizarás a utopia
.

Wednesday, September 10, 2008

Homenagem

Melancolia extrema a tua de mexer o braço mecanicamente sem o sentires. Dormes acordado sem cederes ao sono, sem encarares a realidade obscura que te afoga as lágrimas uma a uma, devagarinho e dolorosamente.
Vives assim, triste e só, apertas o vazio à espera que alguém te dê a mão. Cresces com o reflexo quebrado que vês no espelho oblíquo; cresces alienado dos outros, focado no teu eu difuso e coerente no universo, inimigo do agora civilizacional.
Nunca te confundes na multidão porque a cicatriz distingue-te, preferes que te odeiem para te temerem e não te incomodarem. No fundo, anseias apenas ficar a sós com a tua dor com o passar dos dias de sol e de sombra. Sabes quem és porque não és igual aos outros; és o azul aberto do céu, a tenebrosa violência do mar, o perfume afável de uma flor frágil e discreta, o arco-íris de uma só cor, a árvore banhada pela luz e pela sombra simetricamente.
Vives no meio do fogo sagrado e negro, vives iluminado pela Constelação. Mas estas só. A sós. E a melancolia de uma existência nómada e utópica caracterizam-te.

Sunday, September 07, 2008

Sangue Queimado

O fogo queima-te o corpo e chegas a sentir o calor da chama rasgar a pele devagarinho. Mas não aqueces, o fogo regenera-te o corpo mas não queima a lágrima cavada no teu ser. Onde não há liberdade, não há identidade e tu estas à beira do fim, de um qualquer que seja dramático.
Existem noites em que Orfeu renasce em ti; e , então, vês o mundo antigo construído por debaixo das estrelas partilhar a sabedoria perdida contigo. És iluminado por Orion, ou por Osíris, conforme a direcção do vento que escolheres, e a pirâmide cede ao teu amor e deixa-te observar de perto a riqueza e a beleza exótica.
Mas ninguém te acredita. O Inferno começa. Tens a estrela pegada ao teu coração, abarca todo o teu amor, toda a tua existência que o mundo circundante encara como inútil.
Quando a chama deixar de aquecer o corpo e o frio se instalar no teu ser, as vozes deles ficarão enclausuradas na tua cabeça. O Inferno terminará e a estrela ficará manchada de sangue rubro de tão inocente e sofrido.
O teu.

Sunday, August 31, 2008

Protecção

O ritual é isto , fazermos parte da escuridão e do silencio. Abrir a pele romper a veia e injectar o sangue com o veneno . E ou sobrevivemos e somos quase invencíveis ou morremos. Se a primeira não acontecer a segunda acontece sempre, nem que seja no sonho metaforizado e sombrio.
Ele sabia que tinha medo da hipótese do fracasso mas a duvida ganhava espaço no peito e inibia a respiração. Preparou-se para o ritual durante noite sombrias , noites em que a tradição caiu e os lobisomens não precisaram da lua cheia para o assassínio; dias que pareciam noites porque eram eternos e estéreis. E, quando finalmente chegou o dia, fê-lo de uma só vez: tudo terminou rapidamente. Descobriu que receava ainda mais ser um cobarde vivo e pateticamente feliz.
Não é tão feliz como os outros que o rodeiam, não tem a vida fácil e barata dos outros, os que o rodeiam. Mas tem um lugar onde pertence - ele próprio - e um lugar que o acolhe. Tem no sangue o veneno, não os teme a Eles, na verdade, limita-se a esperar pacificamente pela morte. Está vivo e protegido pela escuridão e pelo silêncio.

Friday, August 29, 2008

Complementaridade

Talvez seja inovação minha, uma outra maneira de expulsar os demónios do meu cérebro, da minha existência dos meus sonhos tenebrosos secretos. Mas também que importa? Levanto-me e enfrento a prisão que os Outros fizeram para encontrar o consolo da escuridão. A noite e o rio, num só, formam o meu lar mais remoto e mais pessoal, negro e assustador.
Sim, talvez seja necessário a tua filosofia existencialista e o teu estranho sorriso. Possivelmente, o milagre é teu. E surge, pois, o amor simbiótico às cicatrizes e ao espelho porque a flor-de-lis e o corte facial são o passado que foi vencido e o futuro que ainda não chegou. Possivelmente o milagre é teu porque me ensinaste a ama-las e a senti-las do ângulo do orgulho.
Talvez tenhas sido tu a expulsar os meus demónios, a quebrar o pacto que fiz com o meu demónio imaginário. Salvaste-me a alma quando me identifiquei contigo, quando vi a cicatriz gravada com sangue fresco no teu rosto. Porém tenho uma inconsciência consciente e feliz de que também te salvei do teu cansaço , do calcário demasiado silencioso na noite demasiado fria; de que te consolo com o meu amor e a minha gratidão.

Thursday, August 28, 2008

Justiça Negra

Podes fazer o que quiseres. Queres torturar-me? A chacina está feita, arruinaste-me quando não respeitaste a minha dor. Mataste-me quando traíste. Queres corroer os ossos e esticar os músculos? Nada mais dói. És uma anedota egoísta e patética que não compreende que é um grão de areia no mundo; que é um cheiro nauseabundo que é tão fraco que já nem sequer incomoda.
Faz o que quiseres. Já morri e tu já me desonraste. Não há corte que possas fazer na minha pele que magoe. Lembra-te, os mortos não sangram.
Mas tu estas bem longe de estar morto. Tanto vazio e tanta crueldade, tanta ambição desmedida e inutilmente utilizada mantêm-te vivo e bem vivo. Quando te fizer o corte vais ser pequeno mas vai ser profundo. Porque os mortos são invisíveis na luz do dia e na calma da noite.

Wednesday, August 27, 2008

Amor Profundo

E o passado quente regressa do Inverno do coração. Porque o sonho permanece em nos, porque ainda acreditamos. Não temos casa, não temos sitio, não temos lugar; as ruas rejeitam os nossos pés as pessoas olham-nos como fantasmas patéticos que nem sequer assustam. Mas persistimos, porque amamos. E porque temos um passado que nos aquece e conforta. Porque nos temos a nós.
O teu sorriso doce e profundo acende a estrela triste que se ajeita no meu pensamento, as tuas palavras assustam os meus demónios , avivam o amor à cicatriz que nada mais é senão a prova de que sobrevivi. A tua voz tão arrastada e melancólica às vezes,tão carregada de uma esperança aberta devolve-me a crença, devolve-me o espelho que tu , com cuidado, ajeitaste e ajustaste ao meu mundo, ao meu ser.
Se não te deixares vencer pela desgraça e deixares que a estrela te guie tens ainda uma hipótese de marcar o nevoeiro do mundo com o sorriso da tua existência. Relembraste-me que ainda sou capaz de sorrir . Porque me tenho a mim. E parte de ti.

Until it sleeps

A violência do mar atrai-te os olhos, retira-lhes as olheiras, limpa-lhes a névoa e restaura-lhes o brilho. O desgastar das rochas e o quebrar definitivo das fissuras despertam-te. Porque é belo e é tenebroso; sombrio, negro, sobre-humano. Desejas intrinsecamente que te rasguem a pele, as veias; que te queimem a carne para libertares o som e poderes ser livre - ser livre, quebrar as correntes e voar como se tivesses asas feitas de nuvem porque o que importa é o amor ao azul celestial.
A dor é tanta que não consegues continuar a existir (assim). As palavras perderam a magia quando definiram o amor ao azul. Só queres a libertação, qualquer uma, o desespero torna-te os olhos cegos e a alma, assim, fecha todas as suas janelas.
Purificaste-te no mar: prometeste-lhe o teu corpo quando estivesse frio, entregaste-lhe a alma para poderes fechar os olhos com serenidade. E esperas poder vê-lo antes da sombra fugir da parede e engolir-te, levando-te para as trevas. Esperas a bênção do teu Deus.
A dor é tanta que já quase nem o sentes, só lhe percepcionas o cheiro, o inesquecível cheiro e a textura azul cristalina e ...

Saturday, August 23, 2008

O Pesadelo ( Enter Sandman)

O pesadelo existe em ti. Procura-lo no mundo e, claro, o medo projectou-o na sombra da árvore. Na verdade, foges de ti próprio, pequeno Homem, foges do Homem grande que te podes tornar se enfrentares a sombra.
Sabes, suspiras porque sabes, tens de te afastar do pecado para passares no teste da consciência. Para a noite ser clara e aberta. Mas o pesadelo vem à mesma, porque está enclausurado na tua cabeça, na tua insanidade nocturna.
Agarra com força a vida, a almofada, finge que não existe. Mas a besta esta viva enquanto tu viveres, esta trancada, durante o dia, no armário da tua inconsciência.
O pesadelo existe em ti, a mente esconde-o durante o dia porque Sol é clarividência. Mas à noite a luz é fraca. Agarra a minha mão, enquanto a Terra do Nunca ainda te defender. E alem disso lembra-te, um grão de areia, as vezes, é apenas um grão de areia.

Thursday, August 21, 2008

Honra

Mestre, agora que chegaste finalmente poderei descansar. Perdoa-me, às vezes as dores tiram-me a lucidez. E continuas a ser o meu Messias porque retiraste toda a ilusão cruel dos meus dias.
O cansaço apodera-se como um animal faminto e morro por uns tempos, as forças fundem com as estrelas quando a cortina divina é fechada. E não me sobra mais nada, nada mais tenho, sou ou almejo ser. Nada, Mestre, ate tu chegares. Sobre a pele persiste a memória do passado em que ainda não existias, em que me regenerava na solidão que se tornou azul com o calcar da pedra da rua.
Agora que regressaste, Mestre, tenho a bênção para a batalha fria. A guerra que comecei sem a tua palavra de consentimento, a guerra que nem sequer é minha. A batalha que me afasta de ti – se morrer, nunca mais te vejo, não oiço mais a tua voz. E nem sequer é minha. ..
Mas o destino é cruel, Mestre, sabe-lo melhor do que eu. Por isso parto com a força do teu braço experiente. Porque compreendes, Mestre. Mestre, Mestre...

Wednesday, August 20, 2008

Paz

Estás só. Daí o sorriso doce e espontâneo. Não mudas o destino mas ele também não te altera o perfil. Não tens jeito angelical não comprometes a tua alma no pacto quente e negro e também a não tens contigo. Vives levemente consciente da herança de Aquiles com a esperança de teres uma morte verdadeira e real, na esperança de teres feito muito mais do que inalado o oxigénio do ar.
Estas só. E aprecias. Ninguém julga ter-te derrotado porque ninguém suporta a solidão, ninguém compreende como podes viver com a sombra vazia e negra que te rodeia. Respeitam-te porque encontram-te invencível na indiferença. Mal sabem do teu inferno, da tua secreta sanidade, do teu amor profundo e obsessivo. Respeitam-te porque, quando amas, és ainda mais intenso do que quando odeias. E porque quando focas a tua existência na destruição de algo não sobra a mais pequena cinza.
És primitivo e és selvagem. Estás só. Mas hoje guardaste a musica em ti.

Monday, August 18, 2008

Circo Romano

A tua derrota só não me basta. A certeza da tua queda ( porque tê-la às neste reino à mercê do Deus cruel) . Quero ver o teu corpo a ser mutilado, dilacerado pelos outros. Os teus olhos em sofrimento à procura da mão amiga, da mão messiânica que tu humilhaste a vida inteira em troco de invejas sujas, macilentas, burras . A tua carne rasgar-se-á lentamente e enfrentar-te-ás ao espelho: sim, como desejo , ouvir o grito horrendo da imitação barata do Dorian Grey quando se reconhece no quadro.
Mas , sobretudo, quero eu ter paz. A tua derrota não me basta, desde que renasças, o meu Inferno Humano continua. Tenho que ver garantida a tua morte, a tua decapatiçao os teus braços a perderem a vida. E tenho que ter a dignidade como reflexo no quadro: não te preparei a armadilha, não te torturei, não te matei. Foste tudo tu.
Porém, uma ínfima parte minha foi infectada pelos teus genes nojentos e aproveito o espectáculo da tua morte. O sofrimento brutal até ao ultimo folgo.

Tuesday, August 12, 2008

Inveja

As sombras afastavam-se dele depois da afirmação que o que mais amava era o rio, o que o melhor acompanhava era o rio, o que o melhor compreendia era o rio. O horror da devoção perante o inanimado era explícito no olhar da sombra que se afastava e que era só isso, uma sombra com um olhar barato e vazio.
A sombra não pensa e a sombra não sente, a conclusão frívola é tão dura como um facto histórico. Irrefutável. Se a sombra fosse humana veria que o rio o reflecte quando ele se dobra para lhe tocar com o coração; e ele não pode fugir da imagem que vê reflectida, o eu cru fantasma nítido que lá esta sem a simpatia inerente à ma noticia trazida pelo velho amigo. E o rio esta sempre perto dele, mesmo quando ele se sente um alimento nascido estragado e podre.
O rio não o abraça o rio não o consola fisicamente. O rio é bonito naturalmente e é triste nas suas águas profundas. Mas é a sombra que o aproxima do rio. É a sombra a responsável pela relação de amor estabelecida. E é a sombra a responsável pelo futuro suicídio.

Saturday, August 02, 2008

Partilha

Não te posso ajudar, lamento (esta palavra teima em fazer parte da minha pele). Renasce-te na música, provoca a tua própria ressurreição e ouve de novo a musica, mas com os sentidos corrompidos pelo direito de seres triste. Maravilha-te com ela, mas nada mais posso fazer porque o céu hoje adormeceu negro.
A minha mão também esta cicatrizada, também foi humilhada e violentada, sobretudo quando demonstrava compaixão. Ninguém perdoa o coração, ninguém enfrenta o herói negro que renasce do Homem que arranca o coração. Ouve a música e deixa que ela te aqueça e te adormeça, porque o dia amanha é o ciclo da constelação.
Mas não te concentres na vingança, ouve a musica, ouve o cantar das estrelas que velam por ti. Sente a tua tristeza tão humana que te torna Homem em vez de Monstro. Chora lágrimas transparentes quando as notas dos instrumentos forem os cortes fundos e intencionalmente fatais, feitos, sem hesitação, na tua alma.
Consegues renascer se aceitares que o fim chegou. Tens o dom de ouvir o mundo com cores e depositas na musica a constelação de toda e qualquer esperança que te possam roubar. Ouve a musica e sorri, é esse o segredo.

Friday, August 01, 2008

Liberdade

O ideal da vida é a quantidade de amor que se dedica à morte. Apreciar o fim é admitir que o principio só foi importante para a glória do meio, da existência, da juventude presente na conjugação do verbo amar no presente do indicativo.
E escrevo-te por isso, por amares hoje e apenas hoje. Consciencializas os pretéritos, sonhas e indagas o futuro, mas a tua palavra esta no presente. Afundas as tristezas como apagas o cigarro: com um gesto metódico, automático, mas nunca vazio. Para ti o acto tem de ser feito - apagar o cigarro, esquecer o rancor do passado, sentir o mundo inteiro na pele – e isso basta-te. Não se questiona o que nunca é dúbio e o relógio não sente compaixão da tua dor ou da tua alegria .
Vives por conta própria, sabes que todos os países te guardam uma cama e uma rua com calcário diferente para pisares. Guardas o sonho junto ao coração, debaixo da pele e isso nunca te roubam , esse sonho desfocado que te faz resistir à tentação de ser como eles.

Thursday, July 31, 2008

A Crença

Agora que a chacina terminou talvez descanse nos teus braços melancólicos e marítimos. Talvez lhes sinta o sal e a tristeza da lágrima crucificada. Talvez te mostre a vida que ainda há nos meus - sangue jovem, carne fresca, pele rasgada – e te relembre como o céu é a continuação infinita do reflexo do oceano.
O cansaço apodera-se do universo, o céu torna-se roxo em vez de ser decorado com pontos brilhantes dourados e estamos sós, partilhamos a solidão apenas, a existência abrupta, errada e nómada. Não somos mais do que nómadas que, de vez quando, procuram tornar a caverna fria e primitiva numa casa. É daí que vem a chacina, é daí que germina a nossa tortura, do ridículo que somos quando nos tentamos civilizar, sedentarizar. O mundo, verdadeiramente, não tem lugar para nos.
Porém, há alturas em que o filósofo ressoa no teu ser e uma esperança sombria nasce do teu sorriso aberto e raro e convence-me que somos uma parte ínfima das peças mais importantes do jogo de xadrez.

Tuesday, July 29, 2008

Ride the Lightning

As fotografias estão gastas, sujas, são parte do pó geológico. Que lhes aconteceu? Que te aconteceu? Envelheceste, de repente, aceitaste a morte, fechaste os olhos, e sentiste na pele a textura azul e espumosa do mar. Resume-se tudo ao modo como encaraste a tua morte, que está sempre para breve. Temes apenas o fim, o ultimo fim que é principio do vazio e do nada quando a Cruz é um pedaço de madeira manchado de sangue humano inocente, apenas.
Admites o inegável – não queres morrer, agora. – mas receias ainda mais o começo. O Inferno assusta-te menos que o Paraíso porque tens-lhe hábito. E a perfeição banca e angelical incomoda-te porque és resultado do fogo sanguinário e da noite negra, negra sem estrelas. Fechas os olhos de novo, vives para admirar a constelação e sabes que a amas mais que qualquer outro Ser; e compreendes que nunca a poderás ter porque Deus assim o ditou. Nao O odeias mas reconheces-lhe na face divina a metade sombria infernal.
Está tudo gasto. O que não esta hoje, estará amanha. E um dia, os olhos fecharão para relaxarem o corpo do cansaço de uma vida inteira .Não será a morte momentânea que estas habituado. Não será uma disputa com o Deus que não tens. Será o tempo da Morte, que durante todos estes anos, nunca te abandonou , foi-te sempre leal. E por isso os olhos encerrar-se-ão com serenidade e um sorriso cansaço.

Wednesday, July 16, 2008

Dream is my Reality

É absurdo, é grotesco e é lacrimoso mas as estrelas hoje iluminam-me, iluminam-te e iluminam-nos aos dois, juntos. A luz não é tão forte e tão aberta como a dos candeeiros urbanos mas não é violenta e não é artificial e , por hoje , talvez apenas esta noite, elas guardam-nos cuidadosamente, velando por nos em conjunto, unindo-nos e unindo-se a nos.
O resto do mundo é guardado pelos candeeiros citadinos. E o trabalho é mais eficiente – o sonho nunca os abandona porque o não têm, a luz é forte – e a morte só sai do seu lugar de sombra quando a idade quebra e mói os ossos. Nós somos primitivos e suicidas, recusámos os candeeiros e permanecemos leais ás estrelas e elas permaneceram fieis à sua constituição: não são humanas, nunca foram e nunca serão e nenhum Homem as possui ou modela. Temos noites vazias e noites geladas sem orientação, bem o sei.
Mas não lembres isso, transfere-me o teu sofrimento e o teu grito de rancor que as minhas indignações já foram afogadas e descansa o teu rosto nas minhas mãos. Esta noite as estrelas guardam-nos e eu velo por ti se tiveres pesadelos com noites contínuas e doentias sem Constelações.

Tuesday, July 15, 2008

Condenação e Salvação

Perdem todos tempo com amores inúteis e vagos. Baratos e curtos. Prometem o momento e cobram o infinito quando o segundo dura menos tempo do que o que a arvore-materna decidiu. Gastam-se em promessas vazias que são levadas pelo tempo. Durante toda a existência da humanidade as palavras foram dúbias e incompreendidas na sua totalidade.
Aborrece-me esta venda pouco rentável do sentimento e da integridade, aborrece-me o vazio e aborrece-me a ligação entre o amor e o rentável. Costumava incomodar-me a acusação de não ser como eles e de ser capaz de me ultrapassar, desdobrar a dignidade e quebrar a honra mas jamais vender o meu sentimento. Apontavam-me a honestidade intrínseca, o calor verdadeiro e humano, o derreter do gelo de dentro do coração projectado, posteriormente, no mundo. Julgavam-me porque não tinham habilidade e potencialidade para me condenarem . Auto desertei – me e pela primeira vez, eu e eles concordamos na palavra e ela teve um único sentido, com dois sustentos diferentes.
Tenho, nos momentos em que a Lua é estrangulada e não brilha na noite claustrofóbica, o alento de não ser como eles. E o dia seguinte, ou o que sucede ao seguinte, é sempre de céu azul aberto com tons levemente escuros e brilhantes.

Monday, July 14, 2008

Entra em Coma

Entra em coma, fecha os olhos e encosta os ombros aos espinhos - quanto mais depressa te habituares, mais depressa aprendes a sobreviver. Aprende a bloquear a dor e a ouvir apenas a música, controla a tua influência no mundo.
Deseja uma morte momentânea, que dure apenas um momento; o cérebro não pensa e o coração bate apenas fisiologicamente. Só és louco, insano, quando lhes deres ouvidos – os que organizam o inorganizavél e julgam modelar o Tornado. Por isso, descansa agora, irmão, enquanto ainda te tens a ti - sabes que essa relação poderá não durar ate ao fim se realmente enlouqueceres. Guarda o teu medo, enfrenta as agulhas e as facas agudas e concentra-te na música que musicaliza parte do teu código genético. Não os oiças, concentra-te na música que codifica e sintetiza toda a tua essência, todas as tuas noites frescas em que vês as constelações, a constelação, a que é tua e não os oiças, não és doido, não és louco. Nenhum deles sabe, nem nenhum deles alguma vez compreenderá o inferno na tua cabeça, a condenação espírita, o rasgar lento da carne. Fecha os olhos, relaxa os músculos – estás morto, de qualquer maneira; talvez, para eles, nem nunca tenhas nascido – e ouve a musica. Entrega-lhe a tua alma e inverte o Diabo do pacto: confia a tua essência á Música, tem origem divina.

Friday, July 11, 2008

Morte Distensiva

Devias ter acreditado mais. Devias ter insistido em levantar-te da cadeira de baloiço e enfrentado o mundo, devias ter abandonado essa posa tua suicida e característica de Pieirrot de eternização da lágrima cavada. Devias, devias, devias, devias...
Pergunto-te: porque me escolheste para assistir ao teu suicídio lento e geológico, porquê? Eu que tenho consciência da minha impotência mas ainda tenho sonho no sangue. A tua ultima gargalhada, audível e triste, expelida da tua boca como um alimento estragado e lixiviado, abandonada como um velho amigo traidor; largaste-a e, depois, encostaste-te á cadeira de baloiço e automaticamente ela balançou. Aboliste o teu lado humano, iniciaste o princípio do fim quando fechaste com cimento e tijolo as janelas do vazio da tua alma. Pergunto-te: porque é que não te levantas da cadeira e vês, de novo, que o sol ainda nasce todos os dias e não sais de casa e lavas o rosto e o espírito no raio de sol?
Baloiças a cadeira continuamente, depois da libertação da gargalhada viva que fazia do espírito morto moribundo, balanças a cadeira e os olhos já não são escuros, são vazios. Porque me fazes assistir ao teu suicídio triste e gasto, lento e gradual, consciente e claustrofobico? Sabes que é doloroso olhar-me ao espelho e ver metade de mim tornar-se difusa e progressivamente morta...

Thursday, July 10, 2008

The Unforgiven

Curar é um acto raro. E não é sinónimo de ultrapassar. Ele ultrapassou a crise existencialista – habituou-se á ideia de que nada é, nada será e nada foi. Apenas é, agora, neste segundo lunar. A mente disciplinou-se perante o novo ambiente lagunar e negro mas a alma ficou fragmentada, e limitou-se a sistematizar-se tristemente com a morte dos sonhos excêntricos que movem a vida.
Perdeu o brilho perdeu-se a si próprio. Ultrapassou e encontrou uma metade perdida e responsável. Só se tem a si próprio, é um Narciso ainda mais triste porque o lago é a sua única casa. É um Narciso que só se tem a si para admirar. É um Narciso que deseja, inconscientemente e em noites gélidas, cair ao lago para não enfrentar a beleza do nascer vazio do dia.
Tinha ambições de heróis de banda desenhada e tinha o coração do mundo. Tinha, já não tem e perdeu tudo de forma abrupta. Os olhos eram grande e salgados, secaram, hoje, os rebentos da esperança. Tinha a expectativa de uma vida pela frente que já não lhe pertence porque lhe falta a outra metade – a metade nómada.
Ele fez algo raro: ultrapassou o enfrentar do espelho e gosta de si como se gosta de um velho amigo. Mas não se curou e a alma enruga-se nas margens do tempo com o passar das horas.

Monday, July 07, 2008

Orion

A noite clara e fresca devolve o quarto crescente lunar ao seu leito. E é fresca e límpida a noite, tão calma e serena como a cidade que ainda é criança e que se deita cedo. E tão bonita é a tua melodia, a tua voz , o teu ângulo de existência. Tão imperfeito e harmonioso , tão humano e tão divino – tão melodioso é o teu gesto.
A estrela ilumina-te, dá-te uma protecção dourada e faz de ti um deus protegido pelo ouro azul de tons graves. E, hoje, a tua estrela brilha mais, mais fortemente e és ainda mais belo na tua aparente simplicidade. A tua voz é mais grave, o teu gesto de tons mais graves.
A noite esvazia sentimentos inúteis. Retira os pensamentos excessivos. A sua permeabilidade conserva, apenas, a percepção necessária á identidade. E é fresca e clara porque é fria sem arrefecer o corpo. E tu és a noite quando abres a janela e respiras o ar fresco e negro. Partilhas-te pelo mundo porque amas a noite e a constelação olha para e por ti .
A tua tristeza é sustentada pela lágrima dourada.

Sunday, July 06, 2008

Solidão

O caminho que conduz o aprendiz ao rio é oposto ao que o guia ate à guitarra. Na verdade, o rio azul e a guitarra magnética nada têm em comum, não coexistem, obrigatoriamente. Apenas na mente do aprendiz eles são uma mesma coisa; são pernas, braços, pedaços perfeitos da unidade imperfeita e perdida.
Porém, o amor limita os olhos e , ás vezes, os olhos envelhecem-se de mais. O rio e a música tem muito em comum: são cíclicos, são belos, são eternos e são elitistas.
Mas não, claro que não... Não é isto que... não são estas palavras vazias que unem o azul ao som: é o sentimento. Tanto o rio como a guitarra, tanto o azul como a música, descrevem a sua vida - mais ainda a sua morte. Ambos o caracterizam sem o definirem. Ambos ele os ama. Ambos imitam a sua tristeza cheia e quente. A sua melancolia estranha de quem vive quando os outros morrem e perde as força quando os outros se rejuvenescem.
O rio e a música são as suas lágrimas. Um, é a lágrima física e o outro a raiz da lágrima. O azul e a música são a sua anatomia e ele não encontra nenhuma palavra para os descrever ou descrever a sensação porque as palavras, ás vezes, são só uma convenção superficial humana. Só entre os homens, é necessário comunicação. Entre o aprendiz, a musica e o rio a ligação é emocional - é interior.

Friday, July 04, 2008

Mestre

Sim, é verdade, estou a tentar mudar o sentido do Universo. E, sim, não tenho a tua arte, Mestre, não tenho a tua força. Desafiar a força à qual o Mestre se resignou é suicídio, mas eu sou a única hipótese dela. E tenho a vantagem de ter o Mestre que faz o mundo girar de acordo com a alma, distraidamente e sem ser propositado.
O meu sangue é novo e é resistente. O tendão é duro. Dobra com facilidade o ângulo certo. Em obediência, é tão grosso como o Osso. Por isso, Mestre, ela precisa de mim, para aprender; para ver, apenas que há pessoas que não são moldáveis ao destino, que modelam, antes, o futuro que não lhes pertence. Precisa de mim, porque o amor, quando é sincero, move estrelas porque as comove – Alias, tudo o que vem da alma, de dentro, das estranhas, comove.
E, eu, preciso de ti, Mestre. Porque preciso da Estrela que não indica apenas o Norte, preciso do Deus que morre e que por isso é Imortal. Preciso de alguém como eu mas melhorado. Preciso da tua compreensão e do teu conselho.
Sim, é verdade, sei que vou falhar. A guerra está perdida e eu perco tempo com batalhas igualmente inúteis. Mas a esperança – a maldição dos Homens– prende-me a ela. E a responsabilidade de ter consciência. E o amor. E sei que ela precisa de mim, do meu sangue, da minha carne, do meu sacrifício.
Mestre. Mestre, quero mudar o sentido de rotação do Homem, estou a desejar o impensável. Dá-me a luz azul do discípulo desertor pela boa causa. E mantém-te comigo , só parte de mim te desobedece e só desobedece a parte das tuas ordens.

Wednesday, July 02, 2008

Orfeu Moderno

Tinha sempre saudades do mar e do rio. Era a qualidade do amor que nasce nas estrelas mas nunca morre com elas: é imutável. E, quando via o mar ou o rio, havia uma sensação de felicidade simplista que lhe aquecia o corpo , a pele e os pedaços de espírito porque abandonava o pensamento e remetia-se, apenas, á emoção e ao sentimento.
O mar é irmão da música. Ambos são mais do que divinos, mais do que Deus. Emitem sensações, procuram a percepção da simplicidade existencialista. E o rio, bem, o rio era dele. Porque apesar de ser grande e famoso, reflectia o Sol quando se punha de um ângulo que fazia com que o vento fosse projectado do coração para o mundo ; porque, apesar de ser parte da História e te ter fantasmas que navegam sobre as suas aguas, o presente também existe e é eternamente azul . Gostava do rio e o rio deixava de ser o grande rio, o grande azul que parece quase o mar para ser só o seu rio. Não era o rio que engoliu parte de uma cidade, era o rio que era tão azul como o céu.
Por isso é que lhe lembrava a música. A melodia, a entrega humana, a sensibilidade e o amor primitivo. Era igual, as sensações, o tipo de sentimento. O momento de alegria infantil em que o tempo estagnava e o espaço não importava. O mometo em que ele era ele, sem espelhos para se reflectir. O momento em que estava protegido pelo divino.

Friday, June 13, 2008

Some kind of Monster

A raiva fria e pura dava-lhe uma adrenalina alucinante, uma vontade viver e de existir metalicamente, belicamente. Os olhos ganhavam um brilho especial pela loucura lúcida, pela guerra que ira ser ganha pela força bruta e violenta do sonho quebrado e violentado.
As mãos tinham mais força, mais ódio, mais orgulho e mais confiança e ameaçavam estrangular – mas nunca matar - quem visse nele a flor de lis e quem o condenasse. A cicatriz no rosto era inalterável e ele garantia que tudo o que o personificava era indefinidamente eterno porque a dor também fazia parte dele, já que o trancaram na torre mais alta da existência com ela.
A liberdade dele é apenas um sonho – e ele sabe-o, sabe que todos o prendem com cordas de ferro e sabe, que, quando quer, parte-as com a força do ódio e da vontade de existir.
A raiva fria e tão pouco emocional levava-o a tornar-se em rituais sangrentos mas não fatais e o silêncio foi para sempre expulso do seu Universo . Ganhou voz quando aprendeu a orgulhar-se em ser um Monstro para os outros, Monstro que os diminui porque é, claramente, mais e melhor.

Thursday, June 12, 2008

Sonho Azul - Ondulado

A brisa quente aquece o
Fogo congelado mas não o derrete.
O pesadelo esta aqui sentado
Mesmo quando os olhos estão dormentes.

A areia desfaz-se nas mãos mas o coração guarda-a.
O castelo permanece em pé por forças transparentes.
O pesadelo transfigura-se e a
Realidade dá lugar ao Sonho.

E o fogo descongela á medida que a brisa
Refresca a pele sangrenta.E os olhos fechados
Cheiram o mar.


WinGs

Wednesday, June 11, 2008

O dia em que descobriu os Metallica

Os olhos ganharam uma cor diferente por causa do brilho. Exploraram o mundo que sempre conheceram mas nunca viram. O coração não se fez sentir porque a beleza foi descoberta pelo raciocínio e não pela pele.
O sorriso foi impossível de ser inibido porque estava debaixo dos nervos. Mas não é um sorriso como os outros, é o sorriso verdadeiro, o meio sorriso dor reconhecimento. O sorriso que advêm da infelicidade, porque só os infelizes procuram algo (e naquele dia foi encontrado)
O dia estava quente e lembrava manhas eternas e áureas passadas na praia. Talvez fosse à praia no dia seguinte. E só era capaz de ir porque via mais claramente a sua sombra. Sentia-se bem porque, pela primeira vez em muitos anos, o mundo fazia-lhe sentido. O desconcerto do mundo, afinal, não o enquadrava e ele fazia questão de nunca se enquadrar no mundo.

Sunday, June 08, 2008

O Fim ( Parte 3)

Explosão

Ferir é inerente á combustão humana.
Tu, rasgaste -me a pele, falhaste o coração,
Não podes esperar aniquilar um exército.

Até a flor é bélica, se a ensinares
Em parte o mundo depende da textura
Da sombra com que o amas.
Mas não esperes dominar-me a mim,
Existo para o azul do mar e vivo pelos
Grãos de areia. Não esperes ter o direito
De me amar ou ser amado por mim.

Feriste-me. Duramente.
Mas tenho habito á dor. Nao
Procures descobrir o que não existe -
Em todo o Universo, não encontras
Uma única lágrima derramada por ti.

Saturday, June 07, 2008

O Fim (Parte 2)

Ruína

Agora que viste as minhas lágrimas,
E que tocaste nas marcas da tortura
Procuras a minha mão.

Não chega. Invadiste-me,
Arruinaste-me. E um dia
Um de nos partirá.
Se for eu,
Nunca regressarei. Se fores tu
Regressarás sempre tarde
( E não regresses por mim!)
O momento de ilusão sentimental
Exige o meu coração. É uma troca
Que não posso fazer.

Arruinaste-me.
A escolha não existe.

Thursday, June 05, 2008

O fim ( parte 1)

Abandono

Quando te fores embora,
As estrelas apagam
E a noite abandona-me.

Não peço,
Para morreres comigo.
Dou-te o melhor que tenho.
A minha ausência
Talvez te salve.

Fecho os olhos.
Amar nunca foi
Fácil. Parte e
Deixa-me só.

Wednesday, June 04, 2008

Sad but True

O calor aquece a pele, mas as mãos estão igualmente frias. O frio que vem de dentro so o tempo calcário o ameniza.
Lamento, tenho ainda força porque a cada rasgão aberto um ligeiro sentimentalismo nascido da compaixão bloqueia-se. Tenho ainda resistência porque sou assim, sou também a guerra, a luta pela persistência da minha própria existência.
Tão depressa não me vencem totalmente. Sobretudo, porque nasci quase para perder , tenho ainda mais motivos para não deixar que me liquidem.
Lamento, é verdade que tenho frio mas roubaram-me o Sol já ha muitas noites vazias . Tenho um certo hábito ao frio e á dor. E o tempo amenizá-lo-á. Não é a primeira luta perdida que entro e que conquisto probabilidades de ganhar. A matemática não tem tendências porque é exacta e a minha tendência é a precisão.

Tuesday, June 03, 2008

Adeus

O fim é sempre estranho. Nem sempre é doloroso e nem sempre é clasutrofóbico, mas é sempre uma brisa quente e livre de uma noite de Verão de lua cheia. É um mistério, um paradoxo.
O fim é sempre um começo. De algo. Mesmo a morte é um começo , enterram-se lágrimas inúteis e resgatam-se para a vida novos hábitos impossíveis de serem renegados. A morte é um começo para os vivos que ficam e vêem um barco – mais um – afundar-se no mar , tendo consciência que nunca mais voltará a tocar a terra que guardou o seu sangue. O fim é sempre o começo de algo, nem que seja do nada. Ainda não é Verão e a noite é escura como uma gruta grande, fria e estranhamente bela. É a mistura do caminho que ficou para trás e o caminho que ainda pode ser escolhido. É a escolha entre a memória e o coração futurista. O fim é indomável, mesmo quando parcialmente previsto, deixa um olhar de espanto e estranheza no céu azul aberto enclausurado por nuvens cinzentas de chuva.
É verdade, este é o fim. Do ciclo, da era, desta responsabilidade. É o fim, o mais esperado, o mais desejado. Este é o fim, que salvou mentes desesperadas da desistência, que deu alento e conforto aos que nunca descansam. Este é o fim, e no entanto, há quase a vontade de começar de novo só por uma questão de medo. O desconhecido é sempre tenebroso e só sabe enfrentar dignamente o medo e a hesitação os que sabem que nada são.
O fim é sempre algo misterioso, sim, mas não começava nada de novo. Há que enfrentar o medo e percebe-lo. Alem disso, nem sequer me dói este fim. Sonhei com ele demasiadas vezes, salvou-me da escuridão várias luas sangrentas. Tudo o resto é uma preguiça emocional de dizer que acabou. A despedida implica gasto de energia ( inútil, sim, talvez inútil, porque está implícita no ângulo do sorriso que se afasta para a penumbra). Sentimentalismo são sempre inúteis. As minhas palavras não tem magia, por isso cito o poeta que faz do poema uma flauta mágica: “O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.”

Monday, June 02, 2008

Guerras

Se explorares moralmente o ódio e a raiva bélica, pelo menos, levantas-te da cama e enfrentas o mundo sem vergonha de seres tu. Se controlares o ódio e não deixares que o sentimento de vingança crua te domine, a tua existência torna-se bélica e os Outros farão tudo para te tentarem derrubar desonestamente (e serão sempre vencidos pela transmissão da verdade pacifica e calma).
O amor é o melhor de todos os sentimentos, é o que torna o Homem Deus e o que faz de Deus um simples pedaço do coração, o pedaço que traz milagres ao mundo e que amansa o mar. Mas é o sentimento simples e naive, o sentimento da fragilidade porque é a carência humana proveniente do esforço da evolução. Encontras a razão do teu sorriso no amor, no teu bom carácter e na tua mão amiga tão quente no amparo. Porém , é a resistência e a vontade intrínseca de vencer que te mantêm acordado, que te da alento. O amor é o suporte, mas em parte, a raiva fria e ensanguentada, orienta-o. Se não te magoarem, não magoas ninguém, se não te vencerem, não vences ninguém. Se não te tivessem tentado enforcar, não amarias intensamente a Lua e não eras tão forte psicologicamente. A tua mente é crente em ti. É o mestre que te criou e que te educou, disciplinou-te para o mundo. É o pedaço de ti que uniu a injustiça que sentes ao ódio que tens em ti .
Exploras humanamente o ódio. Apontas a faca bem afiada e ameaças abrir sem hesitação a carótida de um dos Outros , mas nunca em momento algum cortas. De tudo que te enaltece e que te torna grande, nada humilha e revolta mais os Outros do que o teu bom carácter . Nada te domina e nada te controla, nem os teus próprios sentimentos. Nada os aborrece tanto como o teu gozo contínuo com o complexo de inferioridade deles. E, confesso, nada me diverte tanto como o teu riso silencioso que vejo nos teus olhos enquanto brincas com a faca.
WinGs