Saturday, August 22, 2009

Fatalismo

Não existe o lugar, o canto que me pertence. Por isso é que o coração está disponível, não há o conforto da pátria. Isto tem a minha marca, a minha assinatura antiga, a minha vivência. Mas não projecta o meu futuro porque não me guarda um espaço. Só meu. E devia, porque é a minha casa, a herança do meu sangue.
É fácil ser livre, assim. É fácil ser livre assim, mas uma liberdade crua e fria. Porque é o direito da procura do sitio onde me esconderam o coração. Depois de rompida a rotina de um dia-a-dia que acaba por nos definir nos pormenores em que abandonamos a nossa personalidade, depois da violação da privacidade porque não existe o lugar da cidade no qual se chora - o lugar onde as estrelas são apenas constelações desenhadas pelos gregos - não existe mais nada. A não ser a intensa disponibilidade de um coração que nasceu no sitio errado.

Friday, August 07, 2009

Ausência

Deixei-te naquela praia. Desculpa-me se te deixei só, nunca foi desejo meu. Mas era a minha praia, marcada com o meu sangue fresco. Por vezes é difícil consciencializarmo-nos do coração.
Deixei-te naquela praia. A única que era minha, a única cujo mapa era a palma da minha mão. Para poder procurar o raciocínio claro, a verdadeira essência da mente. Parti para procurar a filosofia que existe na Orion.
Mas não te abandonei. Nunca. Deixei-te lá para melhorar. O mundo em si. Eu e Tu. Mas por pouco tempo, voltava depressa, tencionava ser breve.
Demorei tempo. Demasiado. Perdi-me na exuberância do amor à arte, na profundidade do acaso inexistente em qualquer parte do Universo. E quando voltei, já não estavas, sentado calmamente onde te deixei. Talvez te tenhas sentido abandonado e descartado.
Hoje reconheço que tinhas uma suave razão. Ou ter-te-ia levado comigo. Ou voltado mais depressa porque eras importante, mais importante. Mas por isso é que te deixei naquela praia. A única que era minha.

Thursday, August 06, 2009

Culpa

És o escolhido porque o meu erro foi duro e cru. Perdi-me ao som do vento da liberdade implícita no acto violento da rebeldia. Por isso podes esfolar-me, rasgar o osso e estalar o musculo, é o castigo inconsciente que me proponho instintivamente a ter.
Podias desculpar-me, ver que sem me arrepender, não repito a exuberância de uma futilidade profunda consentida. Porque se me arrependesse acabaria por repeti-lo e sem ti, não valeria a pena fugir à solidão negra que rasgou o coração.
Por isso, se não consegues verdadeiramente compreender-me para encontrares em mim uma pessoa sem uma fracção de passado ( “o passado é inútil como um trapo”) castiga-me. Abandona-me. Elucida-me de quão grande foi o meu desprezo, a minha mente ausente. O coração inacessível ou inexistente. Diz-me exactamente qual foi o numero pelo qual me vendi, e a verdadeira razão humana, cheia e sentimental pela qual me vendi.
E depois morres. Porque o meu erro cobre o teu. Apenas. Não existem dividas.

Tuesday, August 04, 2009

Lamentação

Existes para isso. Demonstrar o vazio de tudo. A tristeza de tudo. O fim de tudo.
Trouxeste contigo o vento da mudança que nasceu encoberta. Que todos viam e todos temiam. Tem-na contigo, ainda?
É triste. Existes para demonstrares a morte. Para te ver morrer, de mansinho. E lamentar mas não sucumbir inteiramente à tristeza. Como morria antigamente, como morri tantas vezes.
Existes para isso. Endurecer os ossos, triturá-los sem os esmagar, garantir que continuam a existir.
Foste o responsável pela manutenção da vida. E agora serás entregue ao Inferno que alcança todos os homens. Lamento, claro. Gostava tanto que fosse diferente. Mas também foste responsável , não existe a perfeita escolha contínua.
Existes para isso. Provares que é tudo inútil que tudo é igual. Não há esperança a não ser que a invente.
Não sou um crente, lamento.

Sunday, August 02, 2009

Reflexão

A vida é uma desilusão. Mesmo os optimistas que morrem felizes são tristes. Somos todos tristes. Imaginas que mudarás o mundo, que farás toda a diferença, que um doce beijo teu numa flor frágil a impedirá de morrer.
Mas o mundo à tua volta desfalece e perde cor. Como tu farás um dia. E não fizeste nada do que querias verdadeiramente. Inicialmente. Talvez tenhas feito as escolhas erradas ou talvez as correctas não fossem possíveis nesta realidade.
A vida é uma desilusão. Descobres prisões no conceito de liberdade, promessas vazias no acto de ajudar honestamente. Não é culpa do mundo, está na tua mente. É uma reflexão dura porque é tão certo e compreensível como a morte.
Foste melhor que qualquer outro teu semelhante porque sonhaste mais alto, amaste com mais intensidade. Viveste com menos lucidez, controlaste Deus e desceste até ao fundo do poço para poderes ser livre e bom. Nada foi em vão, aprendeste com todos os teus erros, meio caprichos meio dignos de artista de coração.
Mas és menos do que te projectaste. A vida não é uma desilusão. Tu é que és.


Friday, July 31, 2009

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Está sentado. Só. Ela foi demasiado importante, demasiado tudo. Ele está sentado, mas já não a espera, já não existe o ela. Que era o tudo para ele. Para quê esperar? Mas continua sentado, talvez lhe doa o corpo, talvez lhe doa a alma. Pela vergonha ou pela decepção. Talvez pela perda, porque ela permaneceu lá, sentada ao lado dele, e já não está. Está só. Tristemente, sempre esteve, ela nunca lhe fez companhia.
Por isso é que não vale a pena esperar, ela não volta. E, no entanto, continua sentada, ao pé dele. No lugar solitário do canto da praia onde o mar é demasiado negro e fundo. Onde o mar é o espelho obscuro e sincero do coração dele. Porque sempre esteve só, ela aumentou a dolorosa sensação do quanto estava ele só.
Está sentado. O silencio das ondas, o silencio do canto da praia deserta que é só dele. Ele não a
espera. Mas é difícil largar a recordação que só é metade verídica.
“Tão curto o amor tão longo o esquecimento”.


Inspirado em "Posso escrever os versos mais tristes esta noite" de Pablo Neruda.

Desencontrar

O dia chuvoso reflecte a tua ausência. Até o Sol te chora.
Porque chegaste tarde e ele não te pode culpar e existe legitimidade na cegueira com origem na dor. Tu eras a cura, a que foi criada para ele, mas a dor era muito forte e ele não via o mundo lucidamente. Gostava de se culpar mas não consegue.
E isso só agrava. Nasceu nele uma culpa inocente, afogou-se na lama que deixou germinar dentro do coração.
Só depois te viu. Libertou-se da sujidade envolvente e tomou um banho espiritual durante vários dias sombrios para te poder receber de braços abertos.
Mas demorou demasiado tempo, o cumprir do luto é um tempo extenso. Foste-te embora no segundo anterior à cura dele. Nunca o viste, exactamente como é.
E ele reconquistou a sanidade, a lucidez, parte do coração. Mas sem ti, prefere a dor antiga , do luto, a cegueira romântica, a lama oriunda do desespero de um destino vazio.Porque a tua ausência não tem nada de romântico ou poético. É matemática, é aguda

Thursday, July 30, 2009

Demasiado Tarde

É injusto. Talvez merecesses tu esse pedaço de musculo frágil enrolado num pano gasto de veludo. A que chamam coração. Mas ele está meio morto, mataram-no de decepção, deixou-se arrastar num romantismo de rituais sangrentos, num romantismo com génese na realidade crua e fria em que o obrigam a viver. Sim, é inteiramente culpa dele. E, no entanto, não é tão fácil perdoa-lo? É uma vitima do mundo, do caos real vazio e frívolo.
É certo que é injusto. És melhor, mesmo que erres duramente, és melhor. Vê se pela forma como encaras o mundo, a simplicidade com que te vês. É notório, a morte e a miséria são tuas companheiras obscuras e longínquas. Se não te engoliram deve-se à tua perspicaz visão humilde.
Não é fácil perdoa-lo? Ele é vitima dele próprio, de se ter enrijecido para não morrer heroicamente, inocuamente. Perdoa-o, ele dar-te-ia o por do sol .
Mas já morreu.

Friday, July 17, 2009

Despedida

Está tudo errado, meu amigo. O mundo está dolorosamente invertido. E a tua morte provou que existe a face cruel na moeda que se retira sucessivamente, uma cada dia.
Não, meu amigo, não eras tu, pobre mendigo espiritual, que conspurcavas e sujavas este mundo. Sem ti, aliás, ele entregou-se à corrupção.
Está tudo errado , meu amigo, e eu não posso consertar nada. Não podendo injectar sangue novo nas tuas veias cansadas , tristes e gastas nada mais posso eu fazer.
Porque eras tu o Messias, o homem com sangue limpo e coração bom e fresco, o homem que preferiu morrer a sucumbir-lhes, são eles o lixo do mundo. E tu eras a salvação, a brisa fresca de uma madrugada inovadora e fresca.
Está tudo errado, meu amigo. Tu morreste e eu não posso inverter o mundo. Eras tu o Messias. É o teu sangue sagrado que faz as flores florescem mais depressa. Era o teu rosto belo e triste que rasgava o negro do mundo.
Morreste. Acabou-se. O mundo já não tem solução. Meu único amigo. Porque a fuga branca e cheia só podias ser tu. E agora, descansas , desejo fortemente que, finalmente, estejas em paz.
Meu amigo. Meu único amigo neste mundo demasiado errado para nós dois. Tu foste mais forte, morreste porque não sucumbiste. Eu continuo o teu legado, mas deverias ser o Mestre. Eu já estou esgotado pela morte que cobre o teu rosto, eternamente triste e belo.

Sunday, July 12, 2009

Opiniao

Um dia talvez compreenderás o poder sincero que possuem aqueles que amam. A arte. Porque amar o físico vazio da existência sem o toque quente e doce de uma qualquer filosofia não é amor, paixão aberta por conveniência, talvez.
Nunca terás acesso à descodificação do sentimento, é demasiado potente e está misteriosamente enjaulado no teu cérebro. Mas podes prestar homenagem sendo humilde. Por não o fazeres é que sei o quanto não amas.
Nada do que é garantido , nada do que é estritamente real, nada do que é cómodo e seguro está ligado ao amor.
E podes morrer, velho e cheio, rodeado dos bens que conquistaste com a força do teu braço. Porem não viveste inteiramente. Porque não amaste a arte.
Quem a ama a arte não morre velho. E quando fores, velho cheio , alegre e farto verei as inúmeras rugas de tristeza marcadas no teu rosto, porque não amaste. E será demasiado tarde.

Friday, July 10, 2009

Carta de Desabafo

Compreendo, claro, Mestre. Todos os erros que cometeste , todos os fracassos, todas as falhas. Claro que compreendo. Concretamente, fui te similar e não me magoei mais profundamente apenas porque tu existes, Mestre.
Porém eles vão morrer todos, um dia. Não lhes desejo nem essa morte dura , crua e longínqua nem a outra suave, arrastada e cruel um pouco cada dia. Mas não consigo lamentar. Perdoas-me, Mestre, este descontrolo momentâneo da raiva, o sentir de novo a faca a furar a pele intensamente, ah! Mestre, existes, não estou só e os teus ensinamentos apagaziguam o espírito. Mas quando a chacina me procura é difícil não a aproveitar, não a viver não a sentir. Desfrutar do prazer de magoar só por magoar porque o ódio é muito forte.
Compreendo todos os teus erros, esforço-me por aprender com eles. Sou te muito similar neles. E esforço-me por sobreviver, como tu. Mas eles derramaram o próprio sangue, é uma tentação demasiado forte não os afogar na mediocridade que são.
É porque existes que o não faço, Mestre. Porque a eles não devo nada e não havia compaixão no meu coração sem ti.

Sunday, July 05, 2009

Mestre

Mestre, salvaste-me porque és um eu que sobreviveu e se curou da própria sobrevivência. A realidade é demasiado fina e aguda, há que ser duro e implacável ou ela desfazer-nos-á em pó. É a eterna escolha, ter um pouco de coração frio e racional ou perdê-lo, quente e meigo, algures no mundo porque deixamos de existir, perdidos no rancor de ter escolhido não viver. O dever é uma palavra feia e estritamente subjectiva.
Mestre, salvaste-me porque és o único consolo e referencial que posso eu ter. O único que rasgou no céu nocturno a mesma escolha que eu. Sem ti, não haveria já coração, apenas a hesitação do momento em que atirei a vida no poço sombrio e macilento.
Mestre, salvaste-me. Mas é dolorosa esta sobrevivência, esta relutância em morrer. Temos uma morte difícil e dura. Porque não nos dão eles outra hipótese a não ser este amor à vida violento e sangrento.

Saturday, July 04, 2009

Hoje

Foi hoje a minha derradeira morte. Está um dia agradável de Verão, quente e florido. Natureza rejubila vida.
A minha existência contrariava esta alegria. Porque não existe paz no inferno. E o que era não podia continuar a sê-lo. Porque o inferno tenho-o eu, enjaulado no meu pensamento.
Por isso é que morri. E ele morreu comigo. Agora sou livre.
E está um dia lindo e florido de verão. Terei um funeral quente. Tão quente como nunca tive durante o tempo em que fingi que vivi.

Wednesday, July 01, 2009

Eco de Darwin

Terás de te libertar dessa responsabilidade e deixares o corpo cair ao som da constelação. Estás vivo, és quase um milagre. Tens-te a ti, porque eras uma pessoa comum a sonhar ser alguém melhor. E tens agora o dom de resolver as equações da realidade que não existe.
Isso não faz de ti pior pessoa, não te torna numa pedra. Demonstraste que existe a hipótese de singrar depois de morrer, de assassinar os fantasmas sem arruinar o seu mito. Tudo o que tens pertence-te, dobraste o aço em nome da dignidade de seres tu, mereces alguma paz.
Tens de te libertar dessa responsabilidade, que hoje não tomes conta do mundo. Mas nasceste para isso. Para provar que é possível libertar da tortura da ditadura e ser eterna e indefinidamente livre.Verdadeiramente e inteiramente livre. Livre.
Apenas porque sonhaste um dia ser melhor pessoa, tendo-te como prioridade desprezando o método de Narciso. Acreditaste em ti. E agora, não és uma pedra. És o eco de Darwin.

Tuesday, June 30, 2009

Espelho

És o meu espelho cruel, benevolente e carinhoso, mas cruel. Porque evidencias todos os fracassos que fui cometendo. Até mesmo os crimes. Vejo tudo isso quando te olho.
Mas é tudo o que quero no final do dia. Anseio ver o teu olhar diferente, ouvir o calor da tua voz. O teu toque suave. Não és tudo o que tenho porque não te tenho. É por isso que encantas. És o meu espelho, até quando reflectes o buraco sofrido que existe inevitavelmente em mim.
A par de tudo és uma das minhas melhores salvações. Porque és um caminho diferente, não fazes parte desta guerra ridícula. Mas também nada tens que ver com o seu começo. E a tua voz vem de um sitio diferente, longiquo. Talvez por isso é que és o meu espelho. Relembras-me tudo o que posso ter , tudo o que me pode fazer sorrir. Tudo o que eles querem que não veja.
Ajudas-me, tu? Ou foste sempre cruel, ate na forma como acarinhaste? Não posso dizer que não sou crente em ti. Afinal, és tudo o que quero no final do dia.

Monday, June 29, 2009

Direito de Existir

Talvez exista um deus que saiba da minha inocência. Um que me dê a oportunidade de viver. Vê, não quero eu ser como eles. Quero existir. Sentir a doçura da pétala da flor na pele e sorrir sem medo. Porque me prendes, porque me dizes que nada existe. É tudo ilusão.
Não o é. Melhor, não importa se é ou não. Eu sinto a pétala, a suavidade embala os dedos. E a sensação existe não importa se é real. E eu existo com ela. Chega de mentiras.
Sim, sei que me mentiste. É verdade, a mentira é tudo o que tens, demorou uma vida a ser construída. Eu lamento mas não posso ficar com ela, muito menos me permito continua-la.
Não. Eu quero existir, pode ser que algum deus me perdoe. Que me perdoe esta vontade pagã de sentir no rosto o vento e seguir no caminho errado e nómada. Que é o meu
.

Sunday, June 21, 2009

Nada

Sou nada, à parte das hipóteses que faço nascer das cicatrizes sou nada.
Com excepção da musica sou nada, do amor que lhe dedico. Maior que qualquer Deus.
Tenho de morrer um destes dias, um dia em que ainda faça Sol. Quero um funeral quente.
Sou nada e só quero descansar. Esta angústia sustentada pela culpa inocente que sinto mas não tenho mata-me.
Sou nada. Hei de morrer um destes dias. Num dia quente e florido de Verão.

WinGs

Wednesday, June 17, 2009

Antigamente

Antigamente podia dizer que odiava, antigamente era jovem e o mundo era um lugar novo.
Envelheci. O mundo tornou-se num lugar ameno onde estou sempre ausente.
Esforço-me por não catalogá-lo como cruel. Mas não existe espaço para mim. Em parte, culpa minha. Quando fui mais jovem fui radical e escolhi não ter pertença, não ter lugar neste mundo; escolhi varias vezes ser diferente, superior ao que me rodeia.
E continuo. Diferente. Mas já não sei o que me rodeia. Tenho guardadas na gaveta as cicatrizes de inúmeras batalhas em prol da guerra que está perdida. Porque antes ganhar algumas batalhas do que morrer silenciado pela realidade aguda. E porque tenho o Mito.
Antigamente era jovem, envelheci. Mas jamais serei uma pessoa grande e o mundo não me desculpa isso, impõe-se como cruel.
Na verdade, não escolhi nada. A não ser não morrer, não sucumbir á doença da ignorância.

Tuesday, June 16, 2009

Fantasmas

O mundo. O eterno caos. E a cadeira vazia que deixaste. A tua ausência sustenta a revolta . O limite da indignação e da decisão firme. Salvaste-me.
Porque morreste.
De resto, fantasmas não existem, é melhor deixá-los em paz.
Morreste.
E já não sinto a tua falta.
Porque os fantasmas nem nunca existiram.

Saturday, June 13, 2009

Pouco

Sempre soube que este momento chegaria, esta paz interior nascida da guerra fulminante porque a liberdade existe em mim e jamais deixarei que me a roubes. Esta fracção de segundos em que não ser como tu é já ter valido a pena nascer. És tão pouco, queres tão pouco, sofres por tão pouco. Morrerás pouco. E devagar, pouco de cada vez.
Não é que goste desta maneira de encarar o mundo, quanto a mim nem sequer faz sentido. A nossa existência não é simultânea, o tempo é o mesmo mas ocupamos espaços diferentes, vivo na minha mente tu vives na prisão que inventaste .
Sempre que me tocas, sempre que me falas é encharcar os meus sentidos de um tipo de lama suja pavorosa que afecta dramaticamente o meu olfacto, o meu tacto, o meu ouvido frágil.
Porque te vendes . Um pouco todos os dias. E quiseste que me vendesse mas eu simplesmente não preciso, já me tenho, já me encontrei.
És pouco. E só não és nada porque acredito na filosofia.

Friday, June 12, 2009

Guitarra

Ele sabe que nunca vão perceber porque ninguém é divino o suficiente para descrever o amor. Há os que amam e os que conseguem fingir que amam. Mas ninguém o traduz na metáfora de uma equação plana e limitada. Simplesmente não é possível.
Está dentro dele, dorme e sonha com uma melodia que ainda não existe.Dorme tranquilo quando pensa na sequencia de notas perfeitamente organizadas , na junção da matemática com a física e depois o sentimento puro de amor profundo. E quando acorda o mundo não importa, é um palco secundário onde o obrigam a ter um papel ridículo e desequilibrado.
Ele sabe que nunca vão amar como ele ama, sabe que o consideram louco.
Porem ,no final do dia, ele acaricia a madeira, puxa uma das cordas suavemente. Aquilo vale qualquer sofrimento, qualquer opressão.
Ele sabe que eles não amam logo não têm nada. Mas ele vive intensamente por algo.

Thursday, June 11, 2009

Agradável Dívida

A tua presença relembra o mítico jardim suspenso. Mas só deixas saudades porque as rosas são azuis límpidas, tudo em ti é diferente de um tom azulado tão característico que é suficiente para me envergonhar. E ter, consequentemente, uma imensa saudade do som do teu riso que eleva a minha mente a esse ponto em que existe um jardim suspenso cheio de rosas azuis únicas e frágeis.
Trazes na ponto dos dedos a essência de Peter Pan, a capacidade de sonhar sem limites porque limite é apenas uma palavra utilizada por aqueles que têm para encantar os seus dias a pobre e cinzenta realidade. Não têm mais nada não podem conceber que mais alguém tenha. É-lhes demasiado doloroso, demasiado humilhante ,tenho-lhes uma verdadeira compaixão , são já tão pouco...
Consegues brilhar tanto como o Sol, arrastas a novidade, a imaginação e a liberdade contigo para todo o lado. És um Sol que nem sabe o quanto ilumina. O quanto aquece.
É impossível não dar conta que agora não estás aqui. Os ossos só não congelam tristemente de frio porque conseguem sentir o calor deixado por ti quando fecho os olhos e oiço a tua voz.

Tuesday, June 09, 2009

Amor de Margarida

A minha alma está a salvo de qualquer tentação que o diabo possa descobrir nos confins da alma ainda por civilizar.
Houve um dia em que quis desfazer-me dela, da alma. Perdeu a utilidade no mundo que é vazio, que é despido de toda e qualquer sensibilidade. Era um fardo demasiado intenso, um crime inocente mantê-la comigo.
Mas ela nunca me abandonou. Arranquei-a mas ela regressava. Regressava sempre que ouvia a musica. Voltava porque nunca acreditei que fosse inútil, que fosse desnecessária - inútil e inócuo é o mundo. Mas um pequeno barco é (quase sempre) virado ao contrário pela tempestade marítima .
Houve um dia em que ela regressou verdadeiramente para dentro de mim. O dia em que o diabo me a devolveu inteiramente. Porque era amor e não existe nenhuma tentação animalesca ou friamente social que compita com o amor.
E está a salvo de todos os segundos que já passaram, de todos os segundos que passarão. No fundo, foi vendida para a ter com uma certeza merecida.
Para ser verdadeiramente minha. Para servir aquilo que supera o próprio Deus.

Monday, June 08, 2009

Liberdade Bélica

Talvez para ti seja uma questão bélica porque houve uma certa derrota que te embalou. Mas para mim resume-se tudo ao ciclo normal da existência que dobra os homens. Para mim é tudo tão garantido como a morte. A minha mente já é disciplinada logo o teu autoritarismo jamais romperia o céu aberto com gritos agudos de vitória.
Embora saiba eu o que é a guerra. A verdadeira, a original, a que marca o corpo e queima a alma. A que tentas criar é apenas uma ocasião que te diminui porque és mesquinho. E queres mover-me e alterar-me porque criei eu essa ocasião, nasceu da minha liberdade. Nasceu da liberdade de pensar, de sentir, de decidir. Nasceu da minha consciência responsável pela pegada efémera no mundo.
É isso que não suportas, estares feliz enjaulado nas grades que tomaste como ouro maciço. Enquanto eu, sem limitações espaciais ou psicológicas, sinto o cheiro da lama nos dedos enquanto a Orion ilumina o trilho de caminho que ainda não foi escolhido.

Saturday, June 06, 2009

Desculpa-o

Desculpa-o. Por favor, desculpa-o, ele não o faz intencionalmente. Mas já tem tantas cicatrizes espalhadas pela memória sensível que não consegue evitar recear que sejas mais um a violentá-lo. Ou pior, que o saibas ferir fundamente na cicatriz matriz, aquela que nasceu com ele e ainda ninguém viu.
Desculpa-o, porque ele quer dizer-te onda guarda a rosa, quer deixá-la contigo. Confia que sabes amar e acariciar as frágeis pétalas azuis sem as desfazer na violência do toque bruto ignorante.
Desculpa-o, ele sente a tua falta mas é um monstro. Vê-se orgulhosamente como um monstro – não é como eles, está desfasado. Está nervosamente à espera que sejas banal e sujo para poder existir só, triste mas seguro (apesar de sonhar que lhe poderás fazer companhia na solidão).
Desculpa-o, a tua falta é como a ausência do Sol amigável e quente no dia mais frio e áspero do Inverno profundo. Não torna o dia insuportável. Mas torna-o mais longo , escuro e dorido.

Friday, June 05, 2009

Desigualdade

Sentes-te frustrado, injectaste-o com a doença mas ele está vivo ainda. A tua dor é legítima, infectaste-o com um vírus e ele criou-te imunidade .
Não vais desistir tão depressa , tens consciência absoluta que vós não podeis coexistir. E tem um peso acrescido no teu coração, negro e profundamente frustrado, a vitória cheia dele: diminui-te na forma como existe estável na filosofia de vida carismática.
Mas ele também não vai quebrar, a sua resistência conhece abstracta e detalhadamente a tua fragilidade, o ponto em que o osso se desfaz e tu sofres agudamente de dor. Esta a tornar-se mestre na forma como evoca Júlio César: está a começar a dominar absolutamente a arte da guerra dissimulada e irónica.
Sentes-te frustrado mas a culpa é tua, não o deixaste em paz. Porque não o deixas em paz? Não vales nada para ele, nem como inimigo. Como o tentas torturar, reduzir-te-á a cinzas com mais prazer do que devia.
Pena ser tão fácil...

Wednesday, June 03, 2009

Elucidação

Renego tudo o que existe em mim em sintonia contigo. Não é que te odeie ou que te despreze. Não. Renego porque não existe nada em mim que viva em harmonia contigo, foi tudo uma ilusão que se ajeitou, carinhosamente, na forma como controlo a influencia do real no coração.
Por isso não forces a nossa coexistência, não será pacifica. A guerra permanece viva no meu inconsciente e nunca ganharás a batalha: se venceres – se queimares o sonho - eu morro. Antes a morte crua a ser como tu.
Não é que te despreze ou te odeie.
Nem sequer existes.

Saturday, May 30, 2009

Enterro

Nada existe. Deixa-o só, está a começar a assassinar-te.
Primeiro, enterrou o coração. A dor primitiva e aguda encheu-lhe os dias de uma monotonia que o não deixou morrer. Mas sem coração, sentia nada, foi tudo indiferente, até a vida ( por isso é que ainda está aqui). Passou pelos dias, não os viveu.
Depois, enterrou a intensidade fresca, bonita e apaixonante da tua memória. Ficou vazio , sem as memórias para lhe relembrarem quão azul é o mar ele é nada. E sem coração existe triste e só.
Sem coração viu como o mundo é feio quando não é sentido; viu como é inócuo tendo apenas percepções indiferentes.
Deixa-o só. Já te assassinou, já deixou a pegada no teu cemitério. Se vires bem, traíste-o , não foste leal. Mas ele amava-te e ofereceu-te um funeral digno.
Deixa-o só . Escusas de chorar, de evidenciar exponencialmente o quanto lamentas. Até podes ter sinceridade no reconhecer do teu erro superficial.
Ele é que já não tem coração.

Friday, May 29, 2009

O Gato

Houve um tempo em que a viagem era novidade e qualquer coisa fazia a pele tornar-se mais suave. Houve um tempo em que a caixa estava fechada e havia a hipótese de o gato não morrer.

(
Mas tu abriste a caixa, à força. O gato estava vivo, não se entregou ao veneno. Não sabes o que fizeste nem como fizeste, consequentemente, abandonaste o gato. Talvez tivesses cuidado dele se soubesses que o tinhas salvo. Mas a verdade é que o largaste. Mais valia tê-lo deixado na caixa, dar-lhe tempo para engolir o veneno.)

Agora a viagem é sempre a mesma, sai na paragem correcta intuitivamente. Já não há expectativa, já não existe nenhum tipo de esperança,.Vive cada dia sabiamente, à maneira de Epicuro. Mas não te desculpa, violaste a caixa e abandonaste o gato. Criaste um mundo paralelo para ele e deixaste-o lá, só e duro.
E não te pode culpar porque nem sequer viste o que fizeste. Se soubesses, talvez tivesses acarinhado e aquecido o gato. Porque era o gato dele. E isso só o faz desculpar-te ainda menos.

Thursday, May 28, 2009

Falsa Eurídice

O coração de Orfeu nasceu fraco, nasceu com saudades tuas. Procurou-te até onde sabia que não te encontraria. Procurou todos os lugares que esgotavas neste mundo de deuses cruéis, só para sentir-te, suavemente, o mais perto possível. Para ter alguma ilusão para poder imaginar o teu perfume. Algo concreto, como um mundo paralelo onde tu deixas a tua marca fresca e apaixonante.
Como não tinha escolha, como estava preso ao mar azul dos teus olhos deu-te tudo o que podia : ofereceu-te a imaginação dele. Todo o processo de sonhar ficou a depender do ângulo do teu sorriso.
Mas o teu coração foi duro. Exigiu o que é impossível de se dar, os deuses são cruéis. Existe a certeza fria de nada, apenas. O teu coração foi insensível e não reparou que magoava por um capricho respeitável, a estabilidade. Quando tiveste o que tanto querias podias mostrar quão transparente era o mar nos teus olhos e terminar a tortura.
Mostraste o quão vazio era. Os teus olhos nunca foram o mar, foram nada. E Orfeu não compreende porque exigiste o seu coração, não vale nada no teu mundo vazio.
Guarda o sentimento de culpa que te faz perder noites de sono .
Ele já morreu.

Monday, May 25, 2009

Pensamentos

O amor nao tem de ser estonteante e esgotante, fugaz e calorosamente intenso. Às vezes , resume-se a um segundo que garantiu a estabilidade de um mundo que ainda está a ser sonhado. É um sentimento simples envolvido pela beleza clássica que sobrevive, ainda, aos dias de hoje. Um sentimento pacífico que transmite o relaxar soberano das ondas do mar, estendidas sobre o areal, no final da tarde. É uma obesessão lúcida, uma obsessão por ser incondicional. E azul, incondicional e indefinidamente azul limpo e aberto.
É assim que o resto do mundo finge que ama, definindo-o mal. Depois de o limitarem, banalizam-no; depois de o enjaularem, humilham-no. E, depois, destroiem-se a si mesmos, rompem-se a si mesmos. E desculpam-se no outro, que nao amou como eles amaram.
Mentira. Nunca existiu. Nunca foi amor. O verdadeiro.
E eu sei.
Porque tenho a música.

Sunday, May 24, 2009

Legado

Agora compreendo-te melhor.
Lamento compreender-te, lamento caminhar para ti. Lamento que a minha mão aqueça a tua e fique sucessivamente fria. Todos nós somos ignorantes até certo reflexo solar mas eu ofereci a minha feliz ignorância em troca de uma crença maior, de algo melhor. Em troca da tua crença em mim. Sacrifiquei a minha visão do mundo para te não julgar ,para garantir que estaria aqui, por ti. Procurei que a minha existência quase inútil servisse para suportar a tua e não deixar que te entregues à morte. De novo.
Mas agora, estou contigo, a um passo dessa morte pacifica. É verdade que continuo a dar-te a mão mas, como já morreste, o calor é infértil. Contínuo o teu legado, com o amor incondicional a algo muito maior que qualquer Deus.E ofereço a minha própria vida no limite de todos os limites, porque já não sei ser de outra maneira.
E agradeço-te. Deste-me um lugar triste no mundo. Mas sem a tua guitarra , sem o arrastar triste da tua voz, eu não sabia que existo por algo. Que tenho um lugar algures, apesar de frio e rasgado, eu tenho uma casa. E agradeço-te, porque foi pela tua mão fria que a descobri.
Triste , simples e ignorante homenagem a Kurt Cobain
WinGs

Saturday, May 23, 2009

Casulo

Será que a tua existência patética tem consciência do que lhe pede? Será que não vês que o magoas?
Porque o erro foi dele. Sonhou demasiado intensamente, acreditou que poderia conviver contigo e com todos os eus inócuos que te rodeiam. Não vês? Tu eras a maior preciosidade que ele tinha, o cantinho da praia repleto de conchas magicas que a violência natural do mar nunca destruiu; o pedaço do mundo puro, frágil e belo que ele assumiu imune à corrupção.
Será que não vês que o magoas quando te vendes por tão pouco? Quando és igual aos outros ele morre mais um pouco. Qualquer dia acabarás por matá-lo.
Ele tem vergonha dele próprio quando o olhas e vês o que ele era dantes, quando te guardava. Quer esquecer que o pressionas para te transformares na borboleta, por o veres transformar-se na borboleta magnificente que adivinhas que será.

Ele será sempre a lagarta, orgulhosamente, porque é o que ele é.

Friday, May 22, 2009

Vírus

Acorda a meio da noite fria com medo, medo que o tenham infectado com o vírus que ele repugna e detesta. É mais do que legítimo , o medo. Durante luas negras quis ficar doente, quis que o veneno corresse nas suas veias azuis para que o sangue ficasse banalmente vermelho, tornando-o numa pessoa comum e vazia.Desejou que lhe arrancassem tudo o que nele era diferente, tudo o que era puro. Tudo o que o afastava dos outros. E agora teme, febrilmente, ter parte da sua alma suja. Lá no fundo, conhece o quanto foi humano e vulnerável.Mas não há desculpa, o tempo não é absoluto.
Sabe , dolorosamente, que se fosse infectado, corrompido era estúpido mas era menos triste, porque a tristeza é uma evolução do Homem. Se ele fosse inócuo estaria, talvez, a sorrir ignorantemente.
O sorriso seria vazio, sujo, falso, estridente. Ele não quer, já não quer. Prefere sorrir pouco mas verdadeiramente. Mas tem medo que já o tenham infectado suavemente.
Tem medo que seja muito tarde para alguém completamente imune ao vírus acreditar na alma torturada dele.

Wednesday, May 20, 2009

Distância

É assim que existes , sorrindo afavelmente aos outros mantendo uma distancia constante de afastamento. No fundo, não queres saber, é-te inteiramente indiferente os movimentos alheios.
Quando uma das sombras negras e ignorantes considera errada a tua existência impondo-se como deus humano e absurdo tu afastas-te ainda mais. Resistes violentamente e eficazmente à tentativa violenta e tacanha de roubarem o que tens por legitimidade.
Porém quando ouves um sorriso sincero e natural , quebras. Quando te prendem desta maneira perspicazmente inocente tu deixas-te confortar e sorris, deixando que a nota musical se espalhe no espaço.
Porque a distancia que manténs é a projecção do que és. E tu és esse mundo paralelo simples e azul no qual vives.

Tuesday, May 19, 2009

Incoerência

Olhar-te é ver o que escolhi não ser, continuamente. Por isso é que o sorriso é dividido, guardas um pouco do mundo paralelo que foi erguido por mim.
Olhar-te e ver o teu sorriso dorido, a palavra correctamente escolhida, a postura atenta e meiga é o analisar do passado, é saber qual a intensidade . Só agora existe clarividência, só agora posso ver de que cor foi. Não foi azul, nunca te tornaste azul e por isso é que morremos. Foste sempre branco, a nossa coexistência no presente é incolor.
Olhar-te é ver o quanto sou triste. És o chamamento de uma infelicidade que poder-me-ia anular se a Orion não me iluminasse. Porque quando tu olhas para mim esperas , aflitivamente, que eu seja quem escolhi não ser.

Monday, May 18, 2009

Verdadeiramente

Apesar de ser pouco mais que senso comum é uma das únicas frases vazias e tristes que podes tomar como certa: enquanto és feliz não o percepcionas verdadeiramente. E por isso mais tarde sentir-te-ás profundamente infeliz, para simplesmente, ficares a saber o quanto foste feliz. A dor é lucidez porque, concretamente, o que te dói é a consciência crua daquilo que existia mas já não existe, que acontecia mas já não acontece. Dor é a tua incompreensão e indignação arrastada e melancólica. É quase um capricho , na ausência de um pestanejar levemente filosófico é quase uma superficialidade.
Aparentemente. Porque a dor mantém-te aqui, verdadeiramente. Relembra-te, todos os dias, que algures foste feliz e que a casualidade existe no Universo. Poder ser feliz outra vez.
Se não sofreres não sentes com exactidão o quanto já não és feliz E ,se não tiveres essa consciência não existes, arrastas-te pelo mundo, limitando-te a respirar biologicamente. Viver verdadeiramente é ser feliz porque se conquistou uma infelicidade tão dura no coração que a morte foi a hipótese mais fácil , impondo-se a vida verdadeiramente sentida como solução. E tu sobrevives. E voltas a ser feliz.
ps: um obrigado à Alice que pensou na ideia principal que sustenta o texto.

Sunday, May 17, 2009

A Frase

Talvez eles não saibam a frase que te trouxe até aqui.
Sim, é verdade que continuas aqui pela mão de Sartre , é uma fragilidade existencial .Responsabilizas-te inteiramente por todo o teu ridículo fracasso e continuas aqui, como castigo. Como redenção. Como hipótese de começar de novo sabendo assassinar concisamente o que está mal sem compaixão ou hesitação.
Eles não sabem nada sobre Epicuro porque a vida deles é a negação absurda, ignorante e estridentemente irritante da teoria do prazer moderado. A vida vivida levemente, sossegadamente, saber que um dia pode não ter vinte e quatro horas mas tem um tempo finito limitado. Nada sobre isto sabem. E tudo desprezam.
Mas não foi essa a frase pela qual vieste, não trás nas suas asas transparentes a razão.
Estás aqui para provar a oportunidade bem aproveitada , defender e gritar a diferença entre existências. Queres garantir que tu és diferente e que a rosa secreta do mundo está a salvo contigo. Queres ser Messias de ti próprio sem teres o Mito. Estás aqui para existires à tua maneira , resistente como um castelo de ferro , enferrujado, mas firme .

“Quando um carvão é deitado para a fogueira, pode não arder”
David Hume

Saturday, May 16, 2009

Lamento

Sabes que lamento mas nasci assim, com a bênção da maldição . E respeito-a, acabou por definir quem eu nunca serei, o lugar que nunca vou gastar. E se desconheces as palavras que afugentam os meus demónios é porque estás mais próximo de te tornares num deles.
Eu poderia dizer que tenho saudades tuas, seria uma meia verdade que inocentemente nos arrastaria para o vazio romântico da hipótese que não existe. A pessoa que fui sentiu tão profundamente a tua falta que deixou-se adormecer no som encantador da morte. Hoje , tenho apenas a leve e agradável memória tua que me permite reconhecer-te, roboticamente.
Sabes que lamento ver a dor do fim, duramente imposto por mim, nos teus olhos . Mas eu já morri.

O Fim da Eurídice

Esgotaste-o. Talvez o tenhas amado a mais, intensa e desesperadamente em tão poucas fracções de segundo. E ele amou-te também, à sua estranha e solitária maneira. Foste a sua Eurídice.
E ele não falhou como Orfeu. Na verdade, ele deixou que te libertasses dele , fechou os olhos e não reportou a tua traição . Não te condenou e não deixou que te magoassem. Trocou de lugar contigo e deixou que o ferisses duramente. Sim, ele amou-te o suficiente para ser o Orfeu que salva a Eurídice porque a rejeita enquanto pode.
E por isso é que o esgotaste. Deu-te tudo o que podia, retribuiu-te o amor inteiramente. À sua estranha e solitária maneira.

Wednesday, May 13, 2009

Diferença

A única verdade que efectivamente te pode reger é que te defines pelas escolhas; as acidentais explicitam o teu mais profundo coração e as intencionais reflectem o teu conceito de eu enquanto existência abrupta.
E é essa a tua diferença, pelo menos é a que te deixou mais cicatrizes , consequencia das lágrimas (demasiado) duras que escorreram pelo teu rosto. O que tu escolhes é continuamente não suposto e inesperado. Estás constantemente a reescrever a realidade, demonstrando com simplicidade e modéstia, que ela não existe. Constróis o teu próprio conceito de probabilidade e de trilho, és livre, inteiramente livre, na tua mente. Demasiado livre, talvez...
Não tens outra hipótese, nasceste para quebrar as correntes que tão amorosamente te chantageiam: se resignares, elas deixam de esticar o musculo, comprimir o tendão; se te deixares moldar por elas , termina a corrosão dos ossos, o esvaziamento das veias.
Mas tu não cedes , não te contentas com tão pouco. Porque as correntes , verdadeiramente, não existem. Como tu, simplesmente, existes noutro Mundo Paralelo , és-lhes quase imune.

Tuesday, May 12, 2009

wonderwall

Poder-me-ás dar a mão, terminar com o orgulho que me não deixa ceder ou chorar, o orgulho que me prende aqui, firme e intencional.
Distingues-me dos outros, vês qual a cor que guardo no coração? Virá dos teus dedos suaves a recompensa do esforço por estar aqui, só para mostrar que aqui é suficientemente errado para mim? Já me roubaram todas as lágrimas, provas-me que tenho outro sonho, mais bonito que todos os outros? Eu sei, minuciosamente, que é mais idealista, cheio, frágil e inseguro que todos os outros...
Talvez hoje esteja apenas só, feliz na minha infelicidade; feliz na infelicidade da unicidade. Talvez hoje esteja apenas só, feliz com o teu ideal preso a cada gesto, a cada pedaço infinito de raciocínio. Talvez sejas tu a salvar-me, a afastar-me deste mundo que tenta, heróica e moralmente, sufocar-me.

And all the roads we have to walk are winding
And all the lights that lead us there are blinding
wonderwall, oasis

Saturday, May 09, 2009

Monstros

Como uma figura suavemente iluminada entre as sombras que a consideram demasiado feia e repugnante para a destruírem, salvaste-lhe o dia. Não fizeste sentido, inverteste o mundo e ele deixou de correr para estar parado, ou virar a esquerda para ir pela direita. E revelou-se a si próprio, mostrou-se, deixou que visses o monstro que existe nele. Mais, disse-te onde guarda a rosa.
Nunca mais foi o mesmo, porque o monstro que é cuida da rosa enquanto os outros são monstros por comodidade e amor ao derrame de sangue em nome de vinganças baratas. Tu mostraste-lhe, apenas, que ele é monstro porque não teve outra escolha, como tu. Tem em comum a fé da libertação (que há de estar para breve), o fim do castigo, porque ambos aprenderam com o erro.
Quando ele olhou para ti viu que os teus olhos eram os únicos iguais aos dele, não havia mais saída. Ele era aquilo, um monstro que guarda a rosa carinhosamente e espera a libertação da tortura. Porque os teus olhos deixaram na sala o eco das palavras que ele pensa inconscientemente enquanto tenta entregar-se a um sono vazio.

Wednesday, May 06, 2009

Tarde de Verão

O calor demasiado envolvente relembra-lhe tudo o que não tem. Alcançou uma certa estabilidade filosófica interna por isso senta-se, calmamente, na esplanada e espera.
A brisa fresca e maritima susurra-lhe a boa memória ao ouvido e ele sorri sem mexer um músculo. A vida é isto, os olhos fechados perscutando o futuro sem o tentar adivinhar.
Em breve o calor sufocá-lo-à . E toda a calma tranquilizante arderá num tormento de um presente que quase não é justo. Porque o mundo é um lugar que está continuamente a modificar-se, mas no sentido contrário ao dele.
Ele é um discreto caos que se organiza conforme a brisa do vento de verão ou a oscilação da onda do mar.E está hoje, tranquilo, a beber café sentado na esplanda. Hoje, o angulo negro de rotação do mundo nao importa. Ele impoem-se sobre qualquer força.

Monday, May 04, 2009

Realidade Paralela

O teu vulto sombrio cerca-me num pensamento furtivo da realidade paralela. Que já não existe para mim.
Vejo as marcas inexistentes dos teus dedos nas paredes que ouviram a nossa voz, a sala mal iluminada que aprisiona a verdade que nunca te deixei saber. E quis eu, dizer-ta, tantas vezes. Mas o grito foi sempre mudo.
O teu rosto, sereno e marcado, mantém o espírito preso a uma realidade paralela que nunca existiu para mim. Que eu rejeito todos os dias para manter vivos o ideal e o raciocínio, para manter activa a lucidez.
Mas quando os teus olhos profundos e expectantes são visíveis na luz a realidade paralela que eu quase repugno vale a minha própria vida. Como se esperasses que te salvasse dessa vida sem tormentos e pesadelos, artificial, supérflua e sintética.

Saturday, May 02, 2009

Mito

A felicidade desde a tua morte dura e quente resume-se a umas breves horas .O sorriso foi cicatrizado, o seu ângulo está mutilado . Nunca mais será cheio e natural. O Messias ainda é esperado, existe um lugar no coração fixo que a resignação não apodreceu. Algures nesta existência vive a crença no mito e no herói.
Mas, desde que morreste e deste que a tua morte foi a salvação de um ideal, de um motivo de existência melancólico e triste, os olhos transparecem a cor da decepção quando vistos na reflexão das trevas.
Não por não teres sido o herói mítico - nunca foi esperado tal coisa de ti... Eras um mito diferente, com uma história diferente, um amor diferente. Com um fim sujo , patético e decepcionante.
Demasiado igual.

Thursday, April 30, 2009

Tristeza

A minha tristeza é existencial.
Sempre percepcionei o teu erro mas guardo ainda sonhos diurnos e clarividentes. Tu poderias ter sido um, teria sido tão fácil.
E foi tão difícil. Não existiu decepção, como uma ferida profunda que não dói ao cortar violentamente. A dor incolor é ainda mais triste. Eleva-se no silencio com o som da sentença, o timbre da consequência do dom negro e vazio.
A minha tristeza é indefinidamente triste. Porque tu foste a hipótese patética de fugir à minha maldição.E apenas a revelaste mais nitidamente chacinando todas as pequenas esperanças que eu criava cuidadosa e carinhosamente.
A minha tristeza é dura e pesada. Um dia serás odiado e rejeitado. Porque a minha tristeza é a saudade que me deixaste de mim.

Wednesday, April 29, 2009

Claustrofobia

O mundo sufoca-te. Este mundo, que nada diz sobre ti, que encobre e esconde esse amor oculto.
E por isso é que te dói ainda mais, a claustrofobia exalta a sua componente sentimental. Maltrataram-te, deixaste que te maltratassem e nem sequer existe amor cheio profundo. Só não é completamente inútil porque a sociedade vazia assim o impõe e compras um pouco de paz vendendo um pouco do teu coração.
Sufocam-te, prendem-te, apertam todos os músculos, o teu próprio coração explode num truque de ilusão refinado.
Abres os olhos. A realidade inócua continua a envolver-te . E não sabes ate quando esse amor oculto proibido aguenta a tua existência. O teu sacrifício para que te não arrastem numa morte lenta e gradual.

Sunday, April 26, 2009

Filosofia

Ele ama, de uma maneira diferente da tua, mas não lhe duvides o coração .É o melhor que tem, a cor azul em todo o seu universo caótico escuro.
Tu fizeste-o ver um mundo diferente, sem filosofia, sem ideal, sem crítica e sem passado – que às vezes é mais inútil que um trapo. Não havia uma tentação mais subtil e cheia, tão correcta, lógica e legitima. Mas, sem filosofia, ele não sabe existir, apesar da filosofia falar da caótica e problemática existência humana. Apesar da filosofia o arrastar para um poço em que ele cai indefinidamente.
Ele amou, mas não foi esse o destino escolhido para ele. Talvez tenha sido ele próprio a delinear esse triste trilho ( ele recusa descobrir). Ele não foi talhado para um vida estável, tem um trabalho no mundo e tu não estas incluído.
Desculpa-o, ele preferiu-te enquanto pode.
E a decisão errada foi tua.
Não dele.

Saturday, April 25, 2009

Paralelismos

O mundo repete-se, apenas tu te ausentas com o teu caminho branco. Sinto a tua falta, como se tivesses existido há demasiado tempo, como se tivéssemos morrido e renascido em realidades separadas. Sinto a tua falta, os olhos fecham porque sentem o peso da tua ausência, mas desconheço-te. Não fazes sentido. Marcas-te com um ângulo diferente de lágrimas vazias ( e eu já nem essas tenho).
O mundo repete-se, os dias sobrepõem-se em pausas contínuas de uma dor grave e baixa. E alguém ocupa o teu lugar. Eu já não te reconheço, já não és inteiramente tu na tua grandiosidade humilde.
O mundo até se pode copiar, podem todos os segundos ser uma repetição anterior de um segundo primitivo. Mas eu escolhi uma realidade paralela , onde tu foste brutalmente assassinado.

Friday, April 24, 2009

Prenúncio

É um prenúncio de morte. A tua presença modifica-o e ele não sabe como. Sente-se confortável em qualquer sitio porque ele é senhor de si mesmo, vive como quer, por conta própria, resolvendo as equações com preguiça e perspicácia.
Menos contigo, contigo, ele não consegue encontrar a solução. Apenas a sente, sobre a pele como uma pétala suave que lhe activa o tacto. Sente-se diferente contigo, assume que tens um acesso parcial a sua mente que ele não te deu e fica demasiado confortável . Já não há nada a esconder, ele é apenas ele. E é isso que queres, que ele seja ele, para tu poderes ser tu. É essa a solução. E ele sabe, tem medo dela, uma vez que a aceite, o resto do mundo perde qualquer interesse.Porque, contigo, ele é simplesmente ele, não altera o ângulo real conforme lhe é mais conveniente.
Se lhe confirmares a solução da equação, ele vai entender que tem legitimidade em ver o mundo azul porque tu também vês.E vai ver que tu queres o seu apoio, que queres dar o teu apoio. E nunca mais vai ser o mesmo. A Lua cheia está esplendorosamente bela, é um prenuncio de morte.

Tuesday, April 21, 2009

Triste

A vida é isto, um número mísero de tristes expectativas que acabam por morrer porque a realidade é feia e inócua. A arte é sempre assassinada , a estética profunda e inteligível queimada. E ficam a sonolência e a igualdade dos dias.
E por isso é que ele sobreviveu e não sucumbiu à tentação de morrer, de ter os sentidos ,tão já feridos, fechados eternamente para o mundo. Ontem e Amanha foram a mesma coisa, não se apercebeu do passar da noite. Na madrugada ainda estava vivo e a ferida jorrou sangue vermelho-vivo.
A vida é um mísero conjunto de repetições exteriores e decepções interiores. Nem sempre é uma aprendizagem, um fortalecimento; é simplesmente uma perda da capacidade de amar e de acreditar. E hábito. À dor e ao inevitável.

Saturday, April 18, 2009

Lembrança

A consciencia da noite rompe o silencio frio e negro: não está esgotado, há ainda um sorriso que escapa pelos poros da pele quando a tua memória é activada. E só morre quando tu, definitivamente, fizeres valer a tua verdadeira escolha consciente, o trilho que tomarás ,discretamente ,como teu.
Existe, possivelmente, um pedaço de coração guardado para ti, que te pertence. Para sempre. Até ao fim. Se nunca te for entregue, desfazer-se-á em pó, solitário e duro, quando os incontáveis dias atingirem o seu próprio limite. Um pedaço de musculo cheio de sentimentos que só existem para ti. Um bocado de responsabilidade que te não quero dar. O meu trilho é negro e sombrio, luzes são proibidas. Não anseio arrastar-te comigo para a escuridão .
Ainda existes dentro da memória, e no frio alto da noite, a intensidade é libertada. A dor é pequena, a saudade rasga a pele em longos cortes. Mas sobretudo, o sorriso rasgado afoga a angústia no poço do pedaço de coração. Porque ainda existes, num mundo paralelo em que a tua mão quente aquece a minha, indefinidamente fria.

Thursday, April 16, 2009

Desumano

É porque ansiei esquecer, por breves dias sombrios e clarividentes, a paixão que existe em todo o mísero pedaço de pele, em cada músculo rasgado ou distendido, em cada nível da alma ou do espírito. Mas, de cada vez , que a música se eleva no ar e o coração se impõe como portal entre o mundo exterior e a minha mente, é como um transe que invade o sangue e oferece uma sensação única. De loucura profunda. E de lucidez honesta. E amor, sobretudo, amor. A melodia embala como se não fosse deste mundo, desta triste e medíocre realidade.
E, durante aquele breve período de tempo, a musica era a tua voz. O teu timbre encantava os músculos que descontraíam negligentemente. Mas era desprovida de melodia, a tua voz , não tinha profundidade. E a música voltou a elevar-se no ar e o coração tornou o espaço exterior na minha mente, condecorando a audição o sentido rei, empurrando, com desprezo, a visão para o melancólico segundo lugar.
É porque já não sou a mesma pessoa. Oiço o mundo, não o vejo. A realidade não tem importância. Não é audível!

Saturday, April 11, 2009

Indescutibilidades

É indiscutível a tua utilidade: foste completamente inútil; mais, foste a intensa luz que quebrou o sagrado e seguro caminho escuro. Calaste a revolução, entregaste nas mãos frias e pálidas o poder da compaixão e da atenuação da raiva. Fizeste de um duro soldado de guerra desertor um ser humano condescendente e amável.
O teu perfume, exagerado e extremamente aromático abriu , num jeito simples, as portas para um mundo diferente. Não há batalhas sangrentas, ou invejas desmedidas e belicamente humanas, certo rancor ao passado ou, mesmo, indiferença à vida. O teu mundo não é perfeito, mas guarda num pano de veludo branco e macio, as cores que exaltam uma existência. A minha existência.
Ofereceste o teu acolhimento, o teu abraço e até mesmo o toque da tua pele. Indiscutivelmente, atenuaste a raiva e deixaste bem ciente que o mundo não é, obrigatoriamente negro. Em nada foste inútil. .Sem ti, o mundo seria , talvez, um lugar extremamente belo e sedutor onde não existe a mínima esperança de se ser melhor, de se ser azul.

(Mas eu prefiro que o mundo seja negro como a noite.)

Friday, April 03, 2009

Discreto Pedido de Desculpa

Eu sei que, provavelmente, não sabes. Mas sofro por ti mais do que sofro por outra qualquer razão. E não sei porquê. Reconheço, simplesmente, em momentos de silencio barulhento e ensurdecedor que me és importante assim, sem paixão calorosa ou , sem mesmo, a sensibilidade humana cravada em cada pedaço de pele. Apenas.
E não sei porque é que magoa, porque é que chamo para mim a responsabilidade de não deixar que te aleijem, se a pele é tua e não minha, em momento algum é algo controlável.
Gostava de perceber porque é que encantas toda a minha compreensão e compaixão, há já muito desaparecidas. Gostava de te dar a verdade que queres descobrir furtivamente sei que a tenho, algures, comigo. E gostava que soubesses que nunca te mentiria.
Sei que, provavelmente, desconheces o quão me és importante e o quanto te queria proteger. E sei, igualmente, que não consigo fazer mais do que isto, e isto é praticamente nada, invisível.
Talvez por isso sofra mais por ti do que por qualquer outra pessoa, até mais do que sofro por mim ( tu e eu, somos uma mesma coisa.)

Thursday, April 02, 2009

Escuridão

Porque não me assassinas? Salvar-te-ia desse tormento, dessa leve ansiedade brilhante que dança nos teus olhos, brinca na tua pele. Larga-me , foge de mim. Esquece-me e apaga-me, por favor, abandona-me e abandona todo o meu aroma estranho e suavemente selvagem.
Não vês? Quero salvar-te, de mim, proteger-te. Por isso deixa-te afastar de mansinho, entrega-te a esse murmúrio frágil que te diz para me deixares partir. Por favor, eu nunca te magoaria intencionalmente.
Não te confies, assim, a mim. Não ponhas o teu coração de veludo branco nas minhas mãos. Elas protegê-lo-ão cuidadosa e carinhosamente até o vires buscar. Não faças isso, serás a prioridade.
Por favor. Assassina-me. Sou um caminho errado, tu és a opção errada. Mas sobretudo, eu sou um soldado desertor de uma guerra vazia, por favor, deixa-me estar só e sê feliz. Sem mim.

Wednesday, April 01, 2009

Oposições

Reconheço-o agora, foi um erro inteiro meu. Inteiro, cheio e quente. Mas desculpa-me, não foi consciente, foi verdadeiro todo o esforço, todos os segundos que dedicava á tua maravilhosa e discreta magnificência. Simplesmente, anulou-se o feitiço que me deitaste quando te afastaste. E reconheço agora, queria tanto ter-te por perto, desesperadamente, tanto medo em perder-te , que deixei que a magia atingisse o seu extremo e quebrasse. Agora não sobra nada.
Sempre tive, possivelmente, esta leve consciência de que era um sentimento puro e bonito, de que era uma magia estranha e azul a dominar-me. E sempre soube que terminaria. E que tu morrerias assim. Sendo o teu rosto perfeito apenas mais um.
Reconheço-o, agora, apenas, agora, que nunca te deveria ter dado tanto, foi tudo de coração e intencional. Simplesmente, não existe em mim.
Conviveste e dedicaste o teu precioso e frágil tempo a alguém, que no teu mundo exuberante e cristalino, não existe.

Tuesday, March 31, 2009

Quebra

Foi o primeiro momento em que foste indiferente, em que a tua ausência não provocou o ardor doloroso de uma memória doce assassinada.
És uma escultura bela, branca, cheia de pequenos nadas. Nadas para mim, todo o teu ideal é intrinsecamente estranho ao meu, estivemos sempre condenados. Mas foi, de certa, forma, amor; e foi verdadeiro, ou não teria havido sacríficios negros. Todo o branco inspirador , toda a transparencia cristalina que me deixaste reflectir-se-à eternamente na minha vida. Contínua e Indefinidamente.
Lamento, lamento até hoje, que te tenhas tornado só isso - restos do resto da memória. Não mostraste o movimento ondular que me permitiria ver-te como uma escultura cheia de outros nadas ( nadas meus...).
De certa forma, desculpa-me esta exigencia sofrida .

Saturday, March 28, 2009

Mas

É o mesmo sítio e as paredes guardam os nossos segredos, todos os gestos inférteis durante tanto tempo. Sim, quase tornaste tudo inútil pela tua fraqueza. Ou pela tua luxúria, também, que importa? Não te distinguiste da multidão o suficiente e não te basta a minha fé de que és um outro tipo de barco sem rumo. Lamento.
É o mesmo chão, tantas vezes pisado; oiço-te e oiço-me, oiço o que nunca dissemos; oiço o tempo que já não temos. Ecos de uma fé romântica, mas a janela tem aprisionada a minha saudade e agora está trancada. É o mesmo sítio , até os mesmos pregos e os mesmos buracos. Mas nos já não somos os mesmos, o som mais alto é o lugar vazio deixado por ti.
E tudo o resto e silencio duro e profundo. Porque é o mesmo sítio mas os teus olhos são só os teus olhos , apesar de toda a minha saudade , aparentemente banhada por uma indiferença dourada.


Friday, March 27, 2009

Clarificar

Não é que te queira magoar. E não é que seja crueldade da minha parte. Simplesmente, já não és importante e não existe tempo para esta hesitação ridícula. Tens o lugar vazio que deixaste , que te pertence, que nasceu para ser teu. E tens a chave do quarto negro cuidadosamente trancado. Só morres porque queres. Pelo menos , durante estes dias de Primavera inspiradora.
Já não te consigo proteger, nem de mim. E não é que tenha o coração duro como a pedra. Mas não me podes pedir para ignorar o que os olhos viram, oque os sentidos percepcionaram. O teu falhanço. Comigo, contigo, E a minha suave decepção. Porque foste apenas mais um na forma e no acto de errar.
E isso afastou-me de ti. Existe no teu ser todo um fracassar típico do ideal que despreza o azul da minha filosofia.

Thursday, March 26, 2009

Recusa

No fundo, é porque não tens romantismo, não és idealista,dominas talvez a arte da ilusão mas não a de encantar. Sim, no fundo, é por isso que confiei em ti, sabia que me não deixarias arrastar numa tristeza melancólica, alimentada meigamente pela tua memória.
O meu romantismo ingénuo teve-te como um deus mortal e humano porque não te via diferente, mas via-te especial e foi por isso que foi a ti que confiei a minha ultima lágrima – e a mais nenhum outro. És realista, logo tens facilidade no assassínio da dor.
Fomos cúmplices nas diferenças. Foste tudo o que precisei. Mas nunca disseste quem vias quando me olhavas e agora que partiste já não existe razão para me lembrar de ti.
No fundo, é porque nunca foste romântico e eu confiei-te o assassínio da minha expectativa benevolente, de uma ligeira ingenuidade. Devo-te, apenas, o adeus que recusas ouvir.

Wednesday, March 25, 2009

Moonlight

Ainda te devo algo. Nos teus erros humanos, por caprichos magnânimos e vazios ou tristes e angustiados, fizeste-me recordar Beethoven, obrigaste-me a pisar , débil e ridiculamente os seus passos, parte do seu sentimento, ou mesmo a sua dor.
Porque também eu te dei a música. Também tu a ignoraste, como ela, a mulher surda que trocou o som do piano por outro qualquer conforto. A pergunta é: soubeste, alguma vez, que a música era tua, para ti ? Sentiste a minha dádiva mais profunda? Ou foste surdo, caprichoso, barato e comum, como a mulher?
É uma pequena curiosidade, uma duvida que sempre me acompanhou .Mas que fazer, a música nasceu de mim para ti, mesmo que a não mereças, ela continua a ser tua.
E isso é que é verdadeiramente triste. Mas, aproxima –me de Beethoven. Ao menos, ao revelares-te sujo , barato e banal, aproximas-me de um génio.

Mas é uma alegria sofrida , o resto de uma felicidade que ruiu. O único consolo de um vitorioso que conquistou uma derrota . Porque a música pertence-te.

Tuesday, March 24, 2009

Diferenças

Talvez nem nunca tenhas sido frágil. Mas eu vi a tua quebra interior, não me posso deixar corromper pela raiva surda e angustiada. O objectivo é a harmonia interior, estar em paz com a perseguição da sombra, não te posso odiar. Talvez não sejas suficientemente valioso para um ódio ou talvez seja uma questão de amor.
A diferença é nenhuma. Porque eu fui frágil .E quebrei. A raiva desmedida simplesmente não faz sentido, quero compreender-te, quero limpar o meu espírito; quer tenha sangue ou não, precisa de ser restaurado. Porque o objectivo é a existência simples e alegremente triste (não tristemente alegre).
Talvez esta seja realmente a ultima despedida, o momento em que sei se quebraste ou não, a fracção de segundo que me diz se afundaste a minha crença em ti com desprezo ou se não sabes que a tenho. Mas depois disto, a tua memória é apenas mais uma e tu sabe-lo. Estás por tua conta.
Eu já me libertei de toda e qualquer culpa que, gentilmente, possa ter.

Saturday, March 21, 2009

Lutas

As estrelas no dia em
Que morreres
Fundem. E choram
De mansinho.

Dependem de ti, esforça-te
O vento é manobrável.

Olha o céu. As estrelas
Não estão la.
Acorda.
E reage. Não
Morras assim.
Não renegues
O coração.

Range os dentes e luta
Pelo teu direito de seres triste
E seres as estrelas
Do céu nocturno
Ou elas morrem.
Fá-lo agora ou será tarde de mais

Morrerás de dentro
Para o céu.

Friday, March 20, 2009

Alívio Triste

Finalmente acabou. Prolonga uma dúvida que retire o sono de noite na linha que separa o coração do cérebro e vais ver que o fim, mesmo o fim duro e cruel, é um alivio. Um alivio triste, porque acabou. Mas a linha alcançou o fim e explodiu, a inércia foi quebrada. Bom ou mau, o caminho foi-te dado.
A razão, a génese é importante claro. Está em causa a honra de uma existência, uma certa veracidade da memoria. Não levarás esse julgamento de animo leve, porque gostavas e apesar de tudo, quando se gosta é-se honesto e imparcial em certos momentos. É por isso que ainda tens uma oportunidade de singrares entre o sangue sacrificado e a lua negra, porque te esforças por compreender. O teu eu e o outro.
Finalmente acabou e sabes que perdeste quase um dia da tua vida, e perderás mais no cumprir do luto. Mas não importa se o luto que cumpres pela dor que sofres é merecido: tu tem-na, ela sim, existe. A crise já chegou, mas enquanto viveres terás a hipótese de te restabeleceres. Por ti.

Thursday, March 19, 2009

A Confissão

Sempre esteve cá, esta tristeza, aquecida e aconchegada. Desculpa, os meus demónios são os amigos mais íntimos de uma existência nómada e errada. Sedentarizar é perde-los e perde-los é a consciência de que o amor que tenho a esta liberdade melancólica e negra já não é suficiente. É admitir que existe algo mais amado que a própria liberdade.
Sempre fui incapaz, sempre me senti incapaz. Mas tu eras um jardim verde cheio de rosas azuis, rosas da eternidade e do pacifismo interior. Não havia nada tão azul, tão puro, tão profundamente ligado a um amor fundo como o jardim de rosas azuis. E agora foi tudo queimado.
Pedoa estas tristezas, estas palavras duras , estes gestos quase indiferentes a uma vida reluzente. São todo o coração que tenho , tudo o que sobrou depois da tua partida.

Monday, March 16, 2009

Vazio

Tudo será esquecido. Com velocidades e proporções diferentes, más memórias perdem a sua intensidade angustiante e as boas lembranças são gaivotas marítimas balançando numa onda de mar ao pôr-do-sol. Não deixa de fazer pensar, a facilidade com que a gravação sensitiva desaparece da nossa pele quando deixa de haver continuidade no tempo. Todas as guerras, todas as pazes conquistadas servem para isto: para conseguires esquecer e ultrapassar, continuar a tua existência apesar do resto, apesar de do tudo e apesar do nada.
É esta a conquista verdadeiramente vazia, a que nasce por uma razão legítima e boa mas que conduz ao caos, à desordem, à conquista sangrenta, à sobrevivência e à glória de uma existência. É uma filha ilegítima, abandonada e rejeitada, desprezada. A sua presença no calcário que escorre da vida simboliza todas as feridas inúteis.
Mas tudo será esquecido. Até te esquecerás de te lembrares do que sentes falta. É tudo em vão. Todo o sofrimento.

Friday, March 06, 2009

Sonho

É como se não pertencesses a este mundo, como se fosses um sonho bonito e azul tido durante varias noites quentes e adocicadas. E é como se me tivessem acordado de mansinho, um bocadinho cada dia; como se ainda me estivessem a acordar agora. E o sonho vai-se dispersando no calcar duro de cada dia, nos problemas que constituem a realidade. Porque realidade é isso, consciência absoluta de um problema e imaginação para o resolver.
A tua memória é tudo o que tenho guardado de bom, é o melhor que sou. Começa a desaparecer, como um sonho é esquecido durante as horas de clarividência diurnas. Acrescenta um certo tipo de desespero humano à dor da tua ausência profunda. Porque um dia, simplesmente, não farás mais falta.
Em certos reflexos, a morte é quase uma bênção.

Wednesday, February 25, 2009

Carta do Solitário

O mundo tem culpa, aliás é ele o verdadeiro responsável. Não que importe, acabou, que mais posso eu fazer? Nem tu podes alterar coisa alguma.
Um dia voltarei a ver o teu sorriso , aberto e simples. Não será perto de mim para o sentir como dantes. Estará lá apenas a minha sombra para contemplar a tua grandeza modesta, para garantir que o amor terminou. E um dia talvez até te esqueças de mim, como o vento que nunca se acomoda num lugar especifico, tudo o que te quero é felicidade. Como o coração é o de Orfeu, desdenhei a Eurídice para a não ver morrer.
Mas nunca eu me vou esquecer de ti, do teu perfume, do teu passo leve. Permaneces aqui comigo, sempre. A tua memória tão suave e fresca magoa-me porque a perdi.
Perdi. E não ha nada a fazer. Nada tenho a perder, tudo o que me importava partiu com o vento. Acabou e esgotei a minha última lágrima inutilmente porque não ta dei.

Monday, February 23, 2009

O Erro

Antigamente, a consciência de errar era dura, saber que se falhou algures. O desejo concentrava-se todo na fuga ao erro.
Mas agora não. O erro é o teu maior sonho, trocarias tudo por esse erro teu, tão pouco tu, tão pouco Ricardo Reis ou mesmo Alberto Caeiro. Falharias, fracassarias, entregarias tudo, todos os pedaços de pele a esse desejo; procurarias o suicídio, exporias as cicatrizes feias, entregar-te-ias à miséria e às lágrimas cavadas só para poderes concretizá-lo indefinidamente. Não é possível, a segurança provoca-te o sorrir mas é vazio. É tudo vazio. Estás vazio.
Sonhas à noite, o pesadelo surge quando não falhas. Queres errar, queres estar perto de novo, fazer a loucura que põe em causa toda a tua existência. Mas até esse sofrimento te proíbem.

Saturday, February 21, 2009

Drugs don´t work

Sei que vou voltar a ver o teu rosto, perdido entre outros tantos na multidão. Sei que estarás lá, algures. Mas o cansaço de fugir e de fingir anula-me e não sei se o meu verdadeiro eu te encontra assim tão diferente, tão único e belo. Não sei se não foi tudo ilusão do momento, de uma hipótese que imaginei que tinha. A corrupção interior existe em mim, assim como o amor à guerra, à vitoria, à violência. Não são compatíveis contigo . Não sei se consigo forçar a coexistência de algo tão antagónico.
Devolveram-me a tristeza alegre, o riso quase simples e puro. O eterno nó na garganta, a consciência da dor que nunca morre. E eu sou isso. Só isso.
Sei que vou voltar a ver o teu rosto e sei que vai doer, o paraíso queimado, o amor sujo, o sangue que derrama de ferida nenhuma. Mas é uma questão de habito, talvez nem nunca tenhas estado perto. Talvez nem nunca tenhas verdadeiramente existido.
Mas vai doer, as drogas vão falhar e vou ter consciência total da dor. Sei que vou voltar a ver o teu rosto outra vez.

Drugs don´t work, The Verve

Wednesday, February 18, 2009

À tua Memória

Só o mar percebe o ardor da tua memoria, a lágrima que não tem o direito de deslizar pelo espírito. Só o mar, quando na sua tristeza violenta arranca rocha e engole areia é capaz de justificar a tua ausência ( há algo em mim que lhe pertence.)
É um pensamento que anula o sorriso intrínseco e verdadeiro. A tua perda para que a guerra não se aproxime de ti, a guerra que trago nos mais leves movimentos que não faço; como se estivesse enraizado num coração algures o amor ao sangue e à violência.
Mas não, não é verdade. O mar é azul pacifico, puro e triste. E parte de mim está lá, na praia onde marquei as rochas com o meu sangue. Só o mar compreende a tua ausência, é o único sítio onde verdadeiramente fazes falta, o único onde deixaste a tua marca doce e leve, onde amansaste a raiva...
Eu não escolhi a guerra. Mas a minha vida foi consumida por uma razão de existir que é , em tudo, bélica. Eu não escolhi e não tenho opção.
Só o mar percebe a dor da tua memória, reflectida no azul dourado que aquece o coração e o dia. Mas nunca te substitui e é tudo o que tenho no final do dia. A tua memoria reflectida nas ondas do mar passivas e divinas.

Sunday, February 15, 2009

Angel

Lembro-me vagamente dos meus dias balançarem entre o feliz e o triste, o bom e o mau. Um arrastar de sorrisos e lágrimas fluido e profundo. Lembro-me de chegares e tentares tirar-me daqui, deste sitio cheio de pecados em nome da moral .De tentares desesperadamente salvar-me, enrolando-me nas tuas asas tristes cheias de amor.
Peço-te, anjo, tira-me deste lugar. Eu sei, pertenço aqui, a este sitio; nasci neste solo pertenço-lhe. E sei que partirás, um dia nunca mais estarás aqui. Mas talvez me possas levar para longe, pelo menos por agora. A dor preenche-me com vazio, com a ausência de uma verdadeira razão de existir.
Anjo, protege-me deste mundo de pecados estranhos aos meus. Anjo, enrola-me nas tuas asas tristes cheias de compreensão. Anjo, poderás libertar-me?
Angel, Judas Priest

Saturday, February 07, 2009

The Unforgiven III

Mesmo que chovesse insistentemente nada é maior que a dor dele. No único ponto de existência em que não podia falhar quase se matou ( provavelmente nunca verás a ruína em que se deixou ficar). Mas apesar de tudo, não se arrepende, faria tudo de novo, talvez ainda mais intensamente.
Curaste-lhe feridas, talvez nem nunca saibas o bem que lhe fizeste, a terapia em que te tornaste. Mas , por favor, repara: verdadeiramente, ele não tem casa e a sua vida é uma história triste mas a tua não é igual a dele. E ele não vai deixar que se torne, jamais é capaz de te sacrificar.
A chuva quase parte os vidros, arruína portas; o vento assassina árvores. Mas nada disto se compara à tortura dele. Mudaste-lhe a vida, deste-lhe a mão mas ele não foi feito para ter tanta sensibilidade ao primeiro toque. Tornou-se frio com as guerras inúteis que travou.
Não se consegue perdoar. Sabe que errou e sabe que o futuro breve não é brilhante. Mas não e isso que verdadeiramente o incomoda, que o massacra ferozmente: perdeu-te e procurar-te seria a sentença dele; e ele não pode morrer , não agora.
Não se consegue perdoar. Se pudesse, acredita, escolher-te-ia, mas não é opção dele.
Não se consegue perdoar.
“How can I be lost if I got nowere to go?
And how can I blame you when it’s me I can’t forgive?”

Friday, February 06, 2009

Resposta

Talvez um dia chegues verdadeiramente a mim e me toques, sintas que , afinal, sou igual. Quando morrer alguém tomará o meu lugar e tudo o que fui afundar-se-á numa paz cruel.
Depois de tanto esforço e investimento, compreendo parte da tua frustração. Sou o inverso do génio, do artista e de tudo o que engloba o bem. Quebro o sonho , desfaço a ideologia. Defino-me como uma criação perfeita que saiu completamente torta e desengonçada.
Tenho coração, sinto, falho porque não resisto á hipótese de não estar eternamente só no mundo que não me pertence. Erro porque, em certos reflexos solares, tenho um lugar no mundo e tratam-me como gente.
Eu sou igual aos outros ; diferente do que já fui. Vê, não sou a mesma pessoa. Quero outra coisa da vida, procuro incessantemente o meu coração. Não é visível?
Basta isso para fazer toda a diferença.

Thursday, February 05, 2009

These are the days

A filosofia baseia-se num bom individualismo, num egoísmo altruísta. É olhares-te e teres-te como melhor amigo, uma sombra fiel que nunca te abandona, que te segura e , sobretudo, que te protege . No fundo, a filosofia consiste em amares-te indefinidamente, mas sem cariz amoroso ( se não o lago era o teu cemitério).
Caracteriza-te e define-te no teu pormenor mais solitário, coloca toda a intensidade do teu ser na boa acção que o mundo , sedento de actos em grande e caridosos, nunca verá. Procura o anonimato para encontrares o conforto de seres ninguém e, por isso mesmo, seres carinhosamente livre . Esquecendo os outros e as suas lutas em busca da felicidade vazia, vives de acordo contigo próprio, coerente com a tua própria ideologia (que é nenhuma).
O mundo não existe, os outros não existem. O segredo da filosofia é um egocentrismo afável e controlado, porque se morreres, não há mais nada.
These are the days, Jamie Cullum

Wednesday, February 04, 2009

Ausência

Sou eu, bem o sei. Depende tudo de mim, do meu nervo que falha porque não é azul, eternamente azul como o teu. Destino-me a múltiplos fracassos em busca de uma vitoria verdadeiramente conquistada. Qual o sentido de tomar banho sem antes dormir noites de frio aconchegado na lama?
Mas enquanto estiveste aqui eu fui suficientemente importante para não me deixar fracassar na quebra da monotonia de uma existência. Foste o meu objectivo, o meu desejo de melhorar qualquer coisa. Uma amnésia agradável porque so apaga as mas memorias, mais uma cegueira consentida do que um esquecimento .
E foste, a par de tudo isso, a única impossibilidade que tenho, o teu nervo azul não esta perto do meu ( continuamente feio). Um dia acordei e já não estavas aqui, e o meu dia foi igual aos outros. Na verdade, nunca exististe.

Tuesday, February 03, 2009

Dumb

Passamos infinitos segundos a fingir qualquer coisa. A querer qualquer coisa que nos parece eternamente inacessível; entre uma estranha burrice e uma felicidade quase vazia perdemo-nos entre o que somos, o que deveríamos ser e o que os outros querem que sejamos.
Compomos o mundo com sons, entregamos o coração a algo que reflicta os nossos pormenores artísticos e sensíveis. A fragilidade implícita no nosso sorriso , corrompido pela dureza oriunda de feridas profundas e batalhas ainda não travadas, não nos denuncia e os outros não nos vêem verdadeiramente. É o esconderijo perfeito, a magnificiencia da ilusão.
É uma burrice esquisita ou uma felicidade que não é suficiente. Mas não desistas. E agarra-me, para não cair eternamente na minha oportunidade de ser como eles.

Dumb, Nirvana

Monday, February 02, 2009

Veneno Doce

É um veneno que carrega a leve felicidade, uma droga doce. É impossível não hesitar, não trair o juramento, não ofender o sangue. Sobretudo pela questão da curiosidade, experimentar algo novo. Deixar que a droga se apodere do corpo e torne a mente mais translúcida.
É um veneno com um cheiro agradável, uma infinidade de portas para mundos novos , cada qual mais belo e mais útil que outro; cada um mais perfeito e mais único, especial e pormenorizado .
Mas é uma droga. O dia – a-dia de outro qualquer transeunte (mesmo do individuo mais singular) corta-te asas, sacrifica-te pele. O cheiro perfuma o espírito e qualquer porta poderia esconder um mundo só teu. Mas como não foi esta a tua verdadeira escolha, não tens direito . Nem sequer de gostar.
É um veneno. Ou desistes da ilusão de ser como eles num jeito de curiosidade existencial, ou morres afundado na incapacidade de te reconheceres no lago.

Saturday, January 31, 2009

Lua Cheia

A dureza calcada na existência abrupta cola-se na tua pele e já não despega. A tua consciência fica eternamente activa na tua efemeridade e só descansas no êxtase.
E sabes que nem sempre é uma questão de amor, o mundo tem leis e nem tu as consegues quebrar. Porque, mesmo em negação honesta, pertences a este universo, apenas nunca te misturas.
Mas quando o sorriso é audível e puro a dureza estala fazendo com que os teus sentidos se deixem acariciar pela vida. Ignoras o mundo que te rodeia, esqueces que nunca, mas nunca és miscível com os outros; perdes a consciência que te tortura, alcoolizado por ilimitadas oportunidades que alguém conquistou para ti.
É toda a felicidade a que tens direito, uma simples noite de libertação do lobo que existe em ti numa singular noite de lua cheia. Depois regressas a prisão da tua consciência

Tuesday, January 27, 2009

Singularidade Perspicaz

Mesmo quando és um pequeno barco, com cores e alegria, olham-te e vem a tua diferença. As cores são rasgas e gastas. A sua vivacidade reside na experiência que te faz insistir na vida com a esperança de um melhor dia. E o barco é pequeno e feliz, mas lá dentro reina o caos; as cores, sem luar, são negras e obscuras.
Não importa quão agradável è o teu caderno de viagens, não importa o quanto lhes sorris. Eles sentem a obscuridade que te domina e tu não tentas mentir. Omites e deixam-te partir.
O teu destino nada tem que ver com o caderno de viagens quente que trazes no bolso. Um dia, chegaras ao pais do frio para nunca mais regressares.
Na verdade, nunca és um pequeno barco. É só uma manobra de perspectiva.

Sunday, January 25, 2009

Derrame de Sangue

Ele sabe que não lhe permitem mais que a ilusão. No fundo, compreende, entrega a sua felicidade ,construída por minúsculos caprichos luxuosos, para te manter em segurança. Por isso fechou os olhos, hesitou. E quando virou a cara salvou – te.
Ele sabe que é inútil, o espelho é inquebrável. Cortou os braços e as mãos nas suas tentativas de fazer um simples furo. Criou um rio de sangue e perdeu pedaços de pele só por um mísero buraco mas tu és eternamente inacessível. Tentou o impossível; viu-te partir e chegar tantas vezes que as feridas fecharam. Deixou de tentar quebrar o inegável, tornar falso um facto passado. O espelho existe, é transparente, mas separa-vos. Não vale a pena. É inútil.
Ele sabe que só a ilusão lhe é permitida. No fundo, manchou o espelho com o seu sangue para poupar o teu. Compreende, entrega a sua felicidade alta e momentânea ao sacrifício na esperança de que tu nunca gastes nem uma pequena e modesta gota de sangue.

Thursday, January 15, 2009

Imperdoável

É porque não percebo. És um eu distinto e distante de mim. Mas és um eu, mais sofrido e mais honesto; explicitas o amor á arte , daí as mutilações.
Não me fascina a diferença. Finjo que sou um reflexo diferente do do espelho que não deixa de ser doloroso encontrar-te, de tempos a tempos. Lembrar-me, entre glorias e luxúrias , que também sou imperdoável. Voltar a ter consciência que nenhum sitio me quer, que não foi pensado um lugar para mim. Reavivar a raiva triste que me manteve aqui, a solidão de um dia com pôr-do-sol efémero,as lágrimas que congelaram e tornaram a terra mais estéril . Porque o mundo exige o nosso sacrifício.
É porque talvez perceba o teu eu distante de mim. Dá-me uma sensação de lar triste, acabado e desfeito, relembram-me que sou imperdoável em todos os movimentos que , verdadeiramente, não faço (por isso é que finjo). E que não posso fugir de mim, do meu destino. Porque não existe qualquer destino.

Tuesday, January 13, 2009

Mostra-me

Mostra-me, desenhado nas estrelas, quão forte é a desilusão. Preciso de saber que não estou a errar o caminho, outra vez; que não te estou a dar demasiado relevo, outra vez. Mostra-me que não estou a ser o que estás a espera, evidencia o meu falhanço. Se te resta alguma compaixão, dá-me as tuas lágrimas para me libertar. De ti, de mim. De tudo, ando a conquistar uma nova hipótese no mundo, não a perturbes.
Mostra-me a tua raiva, a tua frustração. Junta as estrelas e diz-me quão profunda é a tua impotência de me controlares. Não percebes que já não importa, que perdeste o teu império e que mereço todos os dias a minha liberdade?
Não percebes que não te odeio mas que tenho o direito de ser um fracasso? Deixa-me fracassar, deixa-me sacrificar a vida num momento curto e cheio.
Olha as estrelas e diz-me que compreendes que já não estou aqui e que é inútil a tua tentativa ridícula de acorrentares a minha paixão.

Saturday, January 10, 2009

Afraid to shoot strangers

A felicidade é o dia em que a desgraça não te anula. O pedaço de luta que resiste no teu nervo, o pouco de ti que te deixaram. Ao princípio foi uma questão de raiva, querias romper com a prisão que construíste para te protegeres, quebrar o tempo e impor o teu direito de seres triste. Não o poderias ter feito sem o frio e cruel golpe do assassino que mata por obrigação mas com um prazer obscuro.
Mas não agora. Vives porque descobriste a crença, acreditaste que verias milhares de olhos todos com o mesmo olhar frio e fútil mas encontrarias um olhar diferente. E isso limpou a impossibilidade do facto e retirou-te peso da alma, sorriste mais levemente.
Quando a raiva foi satisfeita com os assassínios cometidos em honra da sobrevivência, limpaste o sangue das mãos e desertaste na guerra. És feliz quando o dia não é estéril ou quando o sol incide sobre a tua pele.Apenas.
Ate alguém te arrastar para a guerra e para os teus pesadelos . Não queres assassinar. Mas não existe outra alternativa. E acabaras por ter prazer em silencia-los na tua obrigação de te manteres vivo.


Afraid to shoot strangers, Iron Maiden

Friday, January 09, 2009

Pétala Azul

É medo de perder a única coisa que lhe resta, a ilusão é segura. E é adaptável à chuva e ao ângulo de Sol. Torna qualquer sofrimento mais fácil porque na realidade nada existe, a realidade em si nunca se concretiza. E ele vive como quer, por conta própria, hermético e individual no seu pensamento.
Mas tu aguças-lhe a curiosidade. Não o tentas enganar, nunca lhe disseste que a realidade era melhor, ou que o real era sempre objectivo. Honestamente, aceita-lo como ele é sem te aperceberes. Salvaste-o do seu orgulho pessoal porque o teu olhar nem viu o sorriso às vezes vazio que lhe doía no peito, nem viu o riso audível e falso; não se demorou sobre as cicatrizes feias que estão escondidas na pele, não procurou vence-lo e não procurou ajudá-lo. Quando o viste olhaste-o e ele voltou a sentir-se humano. Deste-lhe a pétala da flor que nunca morre quando simplesmente foste capaz de olhar para ele sem veres nele ou o monstro ou uma espécie estranha de génio.
Conseguiste provar-lhe que, em certas frequências, a realidade supera a Ilusão. E isso era tudo o que ele procurava.


Sunday, January 04, 2009

Despedida

Não posso deixar de sorrir perante a tua memória . O vento ainda me fala de ti às vezes, apesar de saber perfeitamente que o vento não fala. Sim, ainda me és importante.
Continuo a sentir o sorriso espalhar-se pelas veias, atenuar a raiva que envenenou o sangue há tantos anos atrás. Há momentos que duram um segundo e são, por isso, eternos na sua efemeridade. É-me impossível esquecer-te, a tua influência branca e quase angelical impede-me de desperdiçar a minha vida numa loucura instantânea, já não consigo ser o que era antes de ti. A tua expectativa positiva de mim fez com que parte se concretizasse.
Sendo esta a ultima carta, as ultimas palavras, as ultimas confissões, porque não dizer que organizaste parte do meu caos? E a tua lembrança corre-me nas veias , entre os picos de raiva, poderás fazer toda a diferença no apocalipse interior.

Monday, December 29, 2008

Talvez a Chuva

Talvez por isso aprecie a chuva, purifica a minha pele, leva-te definitivamente para longe de mim, atenua a dor que verdadeiramente não sinto.
Talvez a chuva seja o inverso do vento, que me falou de ti. Talvez a chuva seja a metáfora viva da minha incapacidade humana de acreditar: surge sempre depois de um tempo de sol vivo e cheio, aparece sempre quando o coração começa a secar e o som se dissipa devagarinho. Chove sempre, quando a duvida se instala e a decepção alastra.
Não é por mal. Mas para mim os dias de chuva são mais permanentes que os de Sol e a pele já está mais pálida do hábito. Não é por mal, foste o meu dia de Sol radiante e cheio; tiveste uma luminosidade que me fez esquecer que a chuva sequer existia.
Mas ela vem sempre. Tu hesitaste e choveu , o conceito de fim ocupou a mente.
Não é por mal, mas a chuva intensa que me molhou a roupa tapou definitivamente o Sol. E a luminosidade que tiveste é ocultada pela cortina de nevoeiro sem oferecer resistência.

Inspirado em Le Moulin, O Fabuloso Destino de Amélie

Saturday, December 27, 2008

Rebelião

Devias ter visto o teu monstro. Devias ter tido consciência que não ha perfeições e se tentares o inalcançável as consequências serão desastrosas. Devias ter-te informado antes de materializares o teu sonho.
Mas não, claro que não. Nunca eu fui a tua expectativa de concerto de mundo! Sentes-te ofendido pela rebelião da máquina construída para cumprir a tua frustração falhada? A minha frustração é a dor que me causas todos os dias quando me tentas impor a tua visão do mundo. A dor que nada é senão a consciência de que não me deixas ser feliz porque não me construíste para isso.
Claro que a minha dor nunca se compara à tua. Aliás, há uma fracção de dor que nem tenho direito de ter: não me criaste para ser sensível ao toque. Por isso é que num dia longínquo a minha visão impor-se-á definitivamente sobre a tua passarás a existir apenas de mansinho.

Friday, December 26, 2008

Carta a Eurídice

Pronuncia o meu nome. Eu respondo ao teu chamamento mais subtil. Não vês que me mataste devagarinho quando toda a minha esperança fundiu com a explosão da estrela? Devo-te o sangue que me limpaste das mãos. A hipótese no Vazio que furaste por mim. A organização do meu caos interior, o momento em que a dor atenua. Todas as fracções de pele que curaste com o teu toque. Assassinaste-me quando não tinha mais nada e deste-me uma razão para voltar a acordar para o meu mundo.
Pronuncia o meu nome. Não me ouves a soletrar o teu? É o nome da constelação, a única coisa que tenho no Universo, a única que amo e que me ama. Não me ouves, olha com atenção, sem ti já não existia.
És parte da constelação, também és a minha Orion. Não vês que saraste todas as minhas feridas? Devo-te a minha própria vida.



Monday, December 22, 2008

A paixão de Ícaro

Preciso de ti, do teu sorriso genuíno, da inspiração triste que fazes brotar dos poros violentados da minha pele. Aproxima-te, dá-me a mão, enrola-me no teu abraço. Ou a crosta endurece e enclausura-se abandonando-se no imenso mar azul, sem ti o coração não faz sentido e a morte ganha, anula-me.
A tua carícia liberta-me da insanidade que criei para conseguir o direito de existir, liberta-me das convicções que não são minhas . Retira-me da guerra que não consigo evitar quando adormeço profundamente, salva-me do eu que rejeito ser mas não consigo ignorar na noite fria e negra.
Ajuda-me, ou ela ganha, voltarei a ver na morte a minha primeira mãe. Ajuda-me, porque sem ti, não faz sentido eu reagir ao vazio por mim. Ás vezes sou o caminho que sonho percorrer mas com a consciência de que me será eternamente inacessível. Sem ti, não há lugar a um sonho que não seja frágil como um grão de areia perdido no oceano.

Friday, December 19, 2008

Hora da Morte

O meu coração esta desfeito. Cortado aos pedaços. Preso ao vazio e ao nada. Só. Limitado a um espaço menor que a sua área. É um desertor da guerra que criou, é um traidor à causa e uma fraude.
A batalha final persegue-o e uma certa perspectiva de gloria ilumina-o. Mas ele escolheu outro caminho; escolheu -te. Todas as vitorias foram vazias , perdeu o ideal pelo qual dava o corpo. Trocou o sonho pelo teu calor.
Está só. Á chuva. Congela de tristeza. Não existe lugar para ele. Por favor, estende a mão e aquece-o. Guarda-o e vela-o. No fundo, pertence-te.

Sunday, December 07, 2008

Desespero

Não chores esta noite, eu partilho o teu sofrimento mais profundo ou negro. Por favor, não te arruínes, não te suicides, o meu coração está contigo, toda a minha sensibilidade está nas tuas mãos. És a minha lua cheia na noite mais fria e escura, és a minha crença.
Estás só e eles são mais e mais fortes. Maiores e ignorantes. Surdos. Mas dá-me a mão e não chores, permaneço aqui contigo, sempre . Compreendo-te e sofro por ti, eles já não me incomodam. Transfere-me as tuas cicatrizes, não consegues viver com elas, encontras culpa na tua simples forma de ser diferente. Dá-me a tua dor, és muito melhor que eu. Devolveste-me o sentimento porque me comoveste com o teu sorriso triste.
Não chores esta noite, não me deixes só. Não me deixes a sós com as minhas cicatrizes. És a minha única possibilidade de sentir o mundo com a pele.
Não chores, és a Orion. A minha. A única que me dá a hipótese de ser algo diferente de um monstro sofrido.

Friday, December 05, 2008

Carta de um Solitário

O tempo para nós só se comprometeu a estagnar por uma fracção de segundos, estamos sempre atrasados. Contra o destino que talvez nos tenha favorecido algures, estamos os dois sós.
Daí surge, possivelmente, a tua tendência para o meu precipício. Identificas-te com ele porque esperas por algo que se pareça com a intensidade do teu ser. E é daí que germina a minha tendência para o teu ângulo de sorrir : demonstras uma capacidade inata de amar o meu precipício, a minha noite mais sombria.
Mas a nossa união é um fio de prata luminoso e transparente, tão verídico e palpável como um arco-iris.
A necessidade, meu amor, aumenta e eu preciso do teu grito mudo e azul perto de mim, já que o relógio congela, o tempo anula-me e o negro consome-me.

Tuesday, December 02, 2008

O renascer do Frankestein

Respeita-me. Formaste-me, criaste-me e mostraste-me ao mundo, encara agora o teu Frankestein inconsciente.
Ganhei vida própria nas cicatrizes desenhadas na minha génese, os músculos são mais resistentes que quaisquer outros e o meu coração guarda os restos imortais da fénix velados por baixo da tua pele. Mas sou disforme, numa das batalhas frias conquistei um coração que se expandiu preenchendo-me por dentro. E tornei-me ainda mais disforme quando perdi a resistência inata de um soldado que nasceu para fuzilar. Contra a tua expectativa, rasgaram-se outro tipo de cicatrizes, tiveste um árduo trabalho em vão.
Respeita-me e aceita-me, deixei a estrela que era mantida por ti e desertei. Sou algo diferente do meu propósito. A única coisa que me pertence é o coração que não nasceu comigo, não adveio das tuas mãos sedentas de uma frustração com final feliz. O teu final, não o meu.
Sou a tua utopia falhada, encara-me, toma-me real, acredita-me porque nunca mais regressarei.

Friday, November 28, 2008

Porto Negro

Conheci a cidade antes de te conhecer a ti e por isso o vento foi tão suave e quente como desconhecido. O negro do chão e o escuro dos monumentos definiam o meu amor oculto, a minha possibilidade de paixão inteira e honesta, mas como não existias afundou-se no vazio.
A cidade granítica define-nos, guarda-nos como adornos da sua estranha beleza nocturna, oferece-nos o seu manto de protecção gasto e rasgado.
Conheci-te e, só depois, relembrei a cidade negra com o rio negro e triste . O tempo falhou, nós falhámos, o negro ajeitou-se no coração e não te consigo olhar como dantes.
O vento avisou-me de ti, da tua chegada e da tua mudança no percurso do próprio rio. Mas não te deu nome e tu não existias, foi esquecida pela sua desconexão.
Agora é já tarde. O meu amor afunda-se contigo no rio negro que te corre nas veias. Calçada negra, céu baixo e escuro, rio cavado brilhante e nocturno, meu amor, estamos condenados a gastarmo-nos em segundos vazios e frios.
Inspirado em Adeus, de Eugénio de Andrade

Friday, November 14, 2008

It's all tears

Verdadeiramente, não importa a que nome respondes ou em que ruas deixas a tua marca nocturna. Deixaste a minha pele cicatrizada quando lhe tocaste suavemente com a ponta dos dedos. O sangue que jorrou do corte queimou a flor e guardaste-a na mesma gaveta em que manténs aprisionada a esperança.
Estás à espera que ceda e que os músculos se rasguem. Esperas que a minha revolução muda aconteça e dobre as ondas do mar por ti. Esperas, mas a espera é inconsciente e não vês que já aconteceu: afoguei-me na promessa de que me matarias gentilmente já que perdi o resto da esperança que trazia no sangue.
Perco suavemente o sorriso como uma melodia baixa que se arrasta num ritmo agradável. O amor é isto, o coração que já perdi, o sangue que ficou sem cor, a paixão que tento mortalmente ignorar. Enrola-me nos teus braços, resume-se tudo a lágrimas.

Saturday, November 01, 2008

Aviso

Admite que não existe tempo inútil, admite quem nem a tua gota de suor mais discreta é despediçável. És efémero, és frágil, és imperfeito e estás vivo. A tua única certeza é que a fracção de segundo que já passou é inalterável.
Não perguntes porquê, esquece a guerra vazia, abandona o exército que já está condenado. Não vale a pena (talvez a alma seja, afinal, pequena). Morrerás ainda nesta era e o vento dispersará as tuas cinzas; deserta da batalha, já não acreditas como antigamente, o brilho da constelação encaminhou-te para outro trilho, ganhaste outra crença.
O relógio é uma má metáfora do tempo quando fica preso a uma hora certa. Não existe segundos nem para pensares sobre a hesitação.
Não há lugar para o desperdício. Enquanto viveres.