Saturday, August 21, 2010

Liberdade

Tributo a William Wallace, libertador da Escócia

Apedrejaste o herói. Quiseste humilhá-lo para o assassinar depois de estar já morto. Mas só conseguiste esvaziar o corpo divino de sangue rubro. Só conseguiste esventrar a carne. O herói sobrevive ao seu proprio corpo. Sobrevive ao seu proprio tempo.
Torturaste o herói. Quiseste vence-lo , demonstrar-lhe a sua patética efemeridade. A fragilidade da sua pele humana. A tua raiva surda contra algo muito maior do que alguma vez serás levou-te a perderes-te no poder que o herói exercia sobre ti. Nunca o superaste , nunca o venceste. Nunca. Quiseste torturá-lo para não exibires a impotencia mediocre que te definia. Mas o herói não era como tu, mortal. Não. Trazia consigo o som divino da liberdade em cada insignificante gesto.O heroi trazia consigo um fogo impossivel de extinguir. Era divino. Mais, era livre.
E tu nunca foste melhor que o medo que sentias dele ou melhor que o medo que quiseste incutir. Nunca foste capaz de um feito maior, nunca alcançaste a coragem.
E se julgas na tua triste e patetica figura de poder prepotente que venceste. Vê. Perdeste. Perdeste tudo. O herói conquistou a liberdade apesar depois de o teres assassinado cruamente. Era divino porque era livre. E os homens seguem a coragem, arrastou com ele a multidao a que nenhum exército pode fazer frente alguma vez. A vontade de vencer foi a vontade de ser livre. E isso é invencivel.
E, se ainda julgas na tua estupidez alcunhada de nobre, que venceste algo. Vê melhor. No sitio onde ainda reinas, no sitio onde torturaste e assassinaste o herói, eu choro a morte dele. Do Messias. Mas sobretudo, venho honrar e enaltecer a memoria do heroi. A inspiraçao que foi. Mais. Que ainda é. Porque assassinaste o heroi, desfizeste o homem em pedaços. Mas nunca assassinaste a liberdade que o movia.
Repito. Vim ao teu sitio dourado honrar o heroi. Torna-lo ainda mais divino. Ainda mais eterno. Ainda mais livre. E recordar o seu nome e contar a sua historia. Renasce-lo. O teu nome é o nome da sombra cruel , nojenta e vergonhosa que assombra a humanidade. E, como tal, mereces permanecer na penumbra.
Vim honrar o heroi. Lembrar a sua existencia. Porque “todos os homens morrem mas nem todos vivem realmente.” Vê como perdeste tudo e perdes ainda. O heroi viveu , vive ainda e viverá sempre. Porque os homens seguem a coragem. Porque o heroi tornou-se num simbolo da humanidade, numa figura de verdadeiro poder que orienta e protege os que acreditam. Na liberdade.

Thursday, July 29, 2010

Intermitência

A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. E não importa onde mora o corte fundo da decapitação, outro dia nascerá. Poderás não manter quem és mas nunca fugirás ao que és. Daí que seja inutil, adiares a morte da noite porque ela termina de qualquer maneira.
E uma brisa fresca nocturna alcançar-te-á. Um dia deixará de ser importante, as coisas na tua vida tem o sentido que lhes deres e esse sentido será o único verdadeiro. De resto, nenhuma falha é infundamentada. O universo tende para o caos mas tu és um caos organizado, qualquer erro é lógico, qualquer erro tem uma causa e uma consequencia.
Mas não tens qualquer expectativa de inglória. Na verdade, a desgraça que ocorrer na madrugada não é culpa tua, sabes bem quanto vales. Mas esta realidade não pronuncia a mesma lingua que tu, o problema de comunicaçao inato alcançou o teu espirito.
A tua perspectiva é de vencedor. Mas como poderás ter alguma glória quando não te entendem, falando tu a lingua deles? Como poderás alcançar esse tipo de sucesso expectante se a diferença ajeita-se suavemente nos conceitos profundos que vos movem?
A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. Nem esses escassos minutos de noite viva que te restam. O problema não morre aqui. Os teus te não entendem, os teus são nada
para ti.

Monday, July 26, 2010

Last Kiss

Apagou o cigarro no cinzeiro e observou o fim da chama, o fim do fogo. Alguma vez o vais deixar? Ele não consegue apagar-te mais do que isto, não consegue desviar os olhos do cigarro desfeito pelo desespero com que o apagou.
Apagou o cigarro . Respirou fundo. A angustia estava enrolada na garganta, apertava os nervos do peito. Roubaram-te, roubaram-no. E o desespero dá-lhe uma energia esquisita para se mover. E fuma outro e outro. E bebe, já perdeu a noção do que esta a beber. Já te perdeu, que mais importa?
O cigarro desfeito lembra-lhe o teu corpo desfeito e amassado. O teu ser sem vida, perdida nos braços dele que nada podiam fazer. O desespero dele em devolver-te a vida que te tiraram violentamente. O desespero dele para que não fosse verdade. O grito calcário que escureu a noite quando a verdade crua o atingiu. A corrida louca que fez para fugir do presente. A corrida louca que fez para gastar os musculos, os ossos, o fisico porque o interior estava desfeito. Como o teu corpo, coberto de sangue, sangue inocente. A corrida louca que fez para se cansar , para ficar abandonado a um canto à espera que a morte ou que uma maior crueldade o abraçasse.
Apagou o cigarro no cinzeiro. Observou o fim da chama. O insulto violento , desesperado edoloroso ao acidente que te roubou, que o roubou. O insulto violento , torturado e trémulo ao Deus que não existe. Apagou o cigarro no cinzeiro e voltou para ela no meio da noite. Nada tem que ver contigo, não tem essa fragilidade e essa doçura que te tornavam um anjo na terra. Um anjo morto nos braços dele, ainda hoje sente a textura do teu sangue na pele.
Alguma vez o vais deixar? Alguma vez ele vai deixar de ter estes pesadelos frívolos em noites suaves sobre o dia da tua morte? Sobre o dia em que parte dele tambem morreu? Mas tem horror a esquecer-te, a deixar-te morrer, eternamente. Por isso apaga o cigarro violentamente e observa fixamente o cigarro desfeito, tao desfeito como o teu corpo inerte nos braços dele. As lagrimas puras dele não te acordaram. Mas tem horror a esquecer-se da suavidade aromatica da tua memoria, todas as noites acorda com o pesadelo real que o tortura. Prefere isso a deixar-te morrer, assim.

Wednesday, July 21, 2010

Carta aos falhados arrogantes

Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia colada ao coraçao seco e imundo. Porque o mundo é coerente, quanto menos se é mais justificaçoes terao de existir. E tu és tao pouco! Certo, é certo nunca tiveste oportunidade de seres grande, de seres um Sol aberto e brilhante no céu que aquece e ilumina. Mas podias ser decente, podias aguentar-te , podias ter uma boa morte.
Mas não.
Obviamente que não.
Mal aguentas existir nessa carcaça que enbelezas todos os dias ao espelho. És nada, assim o escolheste. Mal aguentas olhar o teu rosto pouco atraente no espelho. E de nada vale partir o espelho , por isso, no teu jeito patetico de fingir que és um sobrevivente, deformaste a alma. O teu rosto tornar-se-ia hediondo se não fosse demasiado triste, demasiado cómico. És so um ser triste que, por querer desesperadamente adaptar-se e esta realidade rejeitar o teu amor, usou o ódio como mascara.
Não. Espera. Correcção.
Usou a sua propria desgraça, usou o seu falhanço para mostrar que sobrevive e que não precisa de ter um lugar aqui. Que rejeita um lugar aqui.
É tao triste. És tao triste! E tao banal. Quase inofensivo, basta o respirar de um verdadeiro sobrevivente para te reduzir a menos que pó.
Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia que queres enfiar a força no mundo para não contemplares o circo cheio de palhaços tristes que és.
És um espectaculo triste , tao patetico que provoca o riso . Mas o teu ser frustado não tem graça, quando a cortina descer, verás que ninguem bate palmas.
Podias não ter sido um sol que ilumina e aquece. Mas podias ter sido decente. E alguem bateria palmas por teres sobrevivido . Só conseguiste aumentar a repugna e a aversao à tua existencia. “Os homens seguem a coragem”, devias ter feito o mesmo.
Obviamente que não.
És so um espectaculo triste que termina sem palmas, não conseguiste divertir nem os sádicos com a tortura que tentas esconder mas que sustenta a tua fealdade existencial.
(Lamento, e física.)

Saturday, July 17, 2010

Existir

Sentado no canto da praia. Na mente tem gravada a tua voz. Repetida, repetida. A frase, a melodia das palavras que lhe são estrangeiras mas familiares. Porque se fossemos apenas o que estamos destinados a ser demonstávamos a inexistencia de destino algum. Ele não quer ser isso, uma convençao repetitiva e triste.
Sentado no canto da praia. Calmo, sereno. A raiva que circula no sangue atenou o proprio sentimento de raiva que existe nele. Resta-lhe um pouco de tristeza, de melancolia, de cansaço, talvez. Está cansado, da raiva e da ausencia de raiva. Por isso deixa-se estar tranquilo no silencio de seda negro da noite. A ouvir o som agradavel da àgua. A contemplar o sentimento sublime de existir.
E a tua voz sempre presente no espirito dele. Repetida, repetida, repetida... Sentado no canto da praia, o seu santuário, o lugar sagrado isento de marcas que revelem a pertença dele a uma terra. Ou a uma nação. Isento de memorias bélicas que lhe causaram as cicatrizes espirituais e a marca dos condenados à morte tatuado no coraçao . A praia que é dele sem o ser. Nasceu num canto daquela praia, a ouvir o arrastar paciente do mar. Consertou-se e reconstruiu-se naquela praia, a maravilhar-se com os minusculos graos de areia que lhe provocam comixao nos dedos.
Sentado no canto da praia onde pertence, o santuario de religiao nenhuma. E a tua voz , e a tua voz , sempre presente. A relembrar-lhe o lugar que lhe pertence ,o lugar onde ele pertence.E a tua voz a cantar-lhe, numa melodia bonita, a sua condenaçao e salvaçao. A dizerlhe que as cicatrizes são feridas sãs.
Sempre a tua voz no canto daquela praia. Repetida, repetida, repetida, repetida... “
Music is your only friend until the end”, Sentado naquele canto da praia. Só. Com o mar. Em sintonia com o mundo nocturno . Só quando a realidade cala a sua voz estridente é que ele alcança alguma paz e ouve a tua voz. Ouve-te a ti, o teu ser perdido no teu tempo e arrastado ate ao tempo dele. Sentado naquela praia, num canto que não existe. O canto é ele.

Monday, July 12, 2010

Recurso a Eugénio de Andrade


Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias...


Eugénio de Andrade ( As Mãos e os frutos)

Thursday, July 08, 2010

Carta à Sociedade

Não quer ser isso. O filho prodigo que segura a mao do mundo quando o mundo lhe corroi a vida. Não quer ser o mártir amado e adorado enquanto o seu corpo jaz imovel e frio abandonado numa terra qualquer. Não quer ser isso, uma vida cheia de sucesso que lhe diz nada.
O falhanço nunca teve um sabor amargo tao agradavel. Se o mundo não esperar nada dele entao deixa-o em paz. Deixa-o livre. Na tua visao, mal se aguenta sozinho como vais contar com ele para alguma coisa? O falhanço nunca teve um sabor tao doce. Ao menos acabou a mentira patetica que se instalou. Acabou o conto de fadas triste ,dramatico e forçosamente feliz com um final visivelmente programado. Ele sempre disse que faria algo novo e que ninguem o ouvia. Ninguem lhe prestou atençao e ele continuou a avisar que um dia ia quebrar. Sempre disse isso, que gostava de quebrar convençoes pateticas que continuam de pé porque as pessoas não aguentam a sua propria frustraçao.
Não quer ser isso. Uma humana versao de Cristo que representa o bem e o perdao. Porque ninguem o desculpa a ele, ninguem olha para ele. Usam-no, exploram-no , violam-no. Arrancaram-lhe a privacidade, a liberdade, a unicidade suave e bela do ser dele. E ele quis de volta. E agrediram-no , disseram-lhe que o amavam, ninguem o ama mais que voces.
Não quer ser isso. Um filho prodigo que segura a mao do mundo sabendo que isso é a sua propria morte. Não quer ser filho, não quer ser nada. Quer ser ele, apenas ele.
E ele já esta quebrado. Já o quebraram. Parou a chacina. E embora tenha falhado sente que está no caminho certo.
Longe de vos. Monstros deglutores da originalidade para garantir a existencia da vossa existencia patetica.

Monday, June 28, 2010

Orfeu & Eurídice

Oh por todos os deuses. És um outro rosto da Eurídidice. A que pertence ao Orfeu moribundo , acabado e devastado pela morte da outra Eurídice que tem no peito. A outra Eurídice, a quem salvou a vida ao rejeita-la. A que lhe deixou um buraco profundo por ter sido uma desilusao. Não era a Euridice, a sua Euridice. Ainda está viva e ainda se sente rancorosamente rejeitada. Nem sequer compreendeu que o Orfeu dele a salvou...
E, oh por todos os deuses, já não se consegue importar com a tua morte, o Orfeu que é ele. És diferente, és independente. És livre. Te não pode salvar porque não necessitas de salvamento algum. És livre. És a Eurídice livre do livre Orfeu em que se tornou.
Mas ele continua a ser o Orfeu, o mítico. Continua a ir-te buscar-te ao Inferno. Continua a fazer qualquer coisa por ti. E tu, enquanto Eurídice, vais-te apercebendo que ele te ama, nas entrelinhas do Orfeu que ele é, vais-te apercebendo que és a sua Eurídice, a preferencia inata.
E, oh por todos os deuses, ele ama-te. O Orfeu que tem no peito. E sofre por ti.
Não se consegue importar com a sua morte crua. Desde que percebas que és única. A única. A Eurídice do Orfeu dele.

Sunday, June 27, 2010

Destruição

É o teu ser. É essa tua necessidade de posse. De seres o final estonteante de um filme de suspense. De seres uma brilhante ponte , correctamente construida, entre mundos desfeitos e separados. É essa tua psicotica necessidade de seres importante, de seres o único ser verdadeiramente importante.
Deprime-me. E entristece-me. Não porque não brilho , mas porque me vais roubar qualquer sucesso que tenha. Vais querer partilhar uma gloria que não é tua. E interiorizarás os meus fracassos, como se tivesses culpa nos meus erros. Tens, mas não no sentido que julgas. Sufocas, crias um ambiente de estufa onde tu és a abelha-rainha e todos os outros te servem. Tu reges o mundo.
Mas não sou assim, eu. Mais uma abelha dessa tua triste colmeia. Isso não sou eu, quero ser algo novo sempre quis ser um ser novo. Por isso, não contes comigo para continuar a iludir-te so para não te enfrentares ao espelho. Não vou ficar aqui, não vou partilhar o meu sucesso ou o meu falhanço. Seja o que for, é meu. E a culpa que tens é uma culpa que nem sequer reconheces que existe.
É o teu ser. Obececado em controlar porque não tem a minina auto-disciplina.

Thursday, June 17, 2010

Brilho

A tua ausencia,
Tem o cheiro do mar de Verão
Numa noite fria
E esmigalhada.

Como uma estrela fundida,
Inócua no céu de seda
Sou uma existencia
Triste e heróica
Imóvel no tempo
Taciturno.

O grito é mudo,
O silêncio ofuscou
O mundo.
E respiro, aqui
Estando em lado
Nenhum.

A dor foi beijada
Pelo vazio.
Nada sinto nada sou.
Mas tenho esta arte
Pura e primitiva.

A tua ausencia
Brilha-me na pele.
E o mundo encontra
Uma beleza fina
No meu ser
Invisivel.

Saturday, May 29, 2010

Reflexao

É sempre assim, das um pouco da tua essencia quando paras para, honestamente, olhares paraa pessoa que te sorri do outro lado . Do espelho, da perspectiva de simplesmente exsitir. É sempre assim, quando encontras preocupaçao no fundo do teu poço de sombras, arrancaste um pedaço de coraçao e entregaste-o numa caixa. E é sempre assim, este conceito alternativo de intimidade.
E o amor tambem é isto. Esta facilidade de coexistencia de egos, esta confissao silenciosa de receio e medo. Amor é ter sempre receio do conceito de fim precedido por um dramatico optimismo sensorial. Ah, sim amor tambem é optimismo. Faz-te feliz, torna-te leve e suave como o pássaro mais livre de qualquer ceu. Tudo se torna mais bonito quando te imaginas a voar.
Por isso é que é sempre assim. Se não deste um pouco da tua essencia quando paraste para sorrir à pessoa que se mantinha em frente a ti, do outro lado do espelho. Não amaste. E se ela não te deu nada seu para guardares na memória sensivel onde se guarda todos os factos pateticos que fazem sorrir nas entrelinhas de um pensamento. Tambem te nao amava.
E é sempre assim. Confude-se amor com uma ideia romantica de que há um Deus anonimo a amenizar o Universo agreste. E é sempre assim, pessoas pouco resistentes como tu atrasam a verdadeira evoluçao. Amor não é um estado de não-solidao.

Wednesday, May 26, 2010

Dureza

Continua a ser confusamente curiosa a forma como o teu Universo se inverteu e continuaste exactamente no mesmo lugar. Já não és tu e, no entanto, não poderia ser mais teu esse teu eu.
Não deixa de ser esquisita a rotina de uma época tornar-se numa memória distante da qual te lembras tenuamente. Foi a tua vida , foste tu, um eu bem definido e delimitado que depois morreu e que tu enterraste num canto da praia.
Apareceste de negro cru no teu funeral e foste o único que não gastou lágrimas prateadas. Foste o único que soube exactamente o que estava a acontecer e qual a drástica consequencia de um gesto tao inocente e tao simples. Por isso, foste o único no teu funeral cujo rosto foi firme e duro, insensivel como uma pedra. Não ias sentir a falta do teu eu.
Continua a ser estranho. Porque andaste a percorrer um circulo mas caminhaste sempre numa linha recta. Fim e Inicio. Tao simples , tao conciso, tao exacto. E, no entanto, perdeste-te nas voltas que deste.
És tu, continuas a ser tu. Mas quebraste a rotina de um eu que agora já nem sabes quem era. Tu, num mundo paralelo queimado. Não sentes qualquer saudade do teu morto eu.

Sunday, May 23, 2010

Inevitabilidades

Quanto a ele, sabe exactamente como chegou ate aqui. Vê a logica da repetição do padrao do qual não poderia fugir. Vê claramente a cor agreste do padrao simétrico e distante que nunca poderias ter evitado.
Não tens direito a esse desespero. Porque a fracção de possibilidade que ele teve foi tirada docemente por ti. Ah, que importa que não tenhas culpa? No final, tudo o que sabe, é que foste tu que arruinaste aquela existencia aurea e pacifica. Que importa que tenha sido uma fatalidade triste e melancolica ao som de um Sol que não tem força para aquecer? Que importa que tivesse sido um belo e romantico falhanço porque o amavas demais e ele amava-te e não podia nem devia? Agora está exactamente onde pertence.
Nada é perfeito. E ele vai-se sempre embora amanha, a pergunta é se sente a tua falta o suficiente para voltar sem nunca deixar de ter partido? Sim, a pergunta é essa. Consegues ficar com um pedaço dele ?
Não. Claro que não. E sempre souberam isso. Por isso é que ele sabe exactamente como chegou aqui, a esta realidade agradavel onde tu não existes.

Sunday, May 16, 2010

Inutil

“O passado é inutil como um trapo”. Ele passou pela tua rua e a memória daqueles tempos doces de cheiro a amoras selvagens brilhou-lhe no coraçao durante uma fracção de tempo. Mas depois até essa memória da memória lhe desaparece da mente. E a memória é objectiva, é fria. Não sente nada para alem de uma sensaçao de familiaridade, que é sempre uma sensação suavemente calorosa. Não sente para alem daquele arrepio de Déjá Vu porque já apanhou este autocarro antes, já saiu nesta mesma paragem antes, contigo a salvo no peito.
Mas é inutil. Porque é o mesmo eu dele. É o mesmo autocarro. É a mesma rotina, o mesmo quotidiano. É a mesma cidade, permaneceu imóvel a esse romance falhado.
Um romance falhado serve unicamente para uma especie de aviso de não repetiçao. Uma cicatriz no coraçao. Um romance falhado é uma marca sensorial e so serve para isso, para se dizer que se viveu de alguma forma de alguma maneira. Amor não existe sem um certo conceito de aleatoridade.
Foi tudo inutil, agora nada existe. Até o falhanço foi inutil. Gastaste-o e ele renasceu e já não sabe quem és.Recorda-te como se recorda de uma equaçao brilhante matemática ou de monumento magnificiente que o fascinou. Recorda-te sem se lembrar de quem és.
“O passado é inutil como um trapo”.

Friday, May 14, 2010

Destino

Se pensares bem, ele estava destinado a ser isto. Desdo o inicio. Desde sempre. O falhanço espectacular da tua propria expectativa. Se vires correctamente, como naqueles filmes memoraveis que viste tantas vezes, concluiras que ele nunca pode ser outra qualquer coisa. Para alem disto. Deste ser.
Sei que o tentaste salvar. Mas era inutil. O salvamento era inutil. Ele não queria ser salvo, nunca quis. Houve, de facto, uma altura em que procurou uma outra saida. Mais bonita, mais adequada. Mas não, não teve essa oportunidade. Acabou exactamente como acabam as pessoas como ele.
Etende. Ele quer perder-se em cigarros sombrios, em uisques sucessivos. Ele quer ser esse ser. Ele nasceu para ser esse ser. Podes esforçar-te por evitar mas não podes bloquear aquele nervo sensorial e consciente que o leva exactamente para onde pertence.Para onde lhe guardam um lugar.
O mundo dos loucos. É esse o seu lar. Bem tentou ele, ganhar outro lar contigo. Mas foi inutil. Ele tambem é louco, sempre o foi. Sempre o será. Aquilo a que chamas salvaçao é uma forma de vida.É a forma de vida dele, desde o inicio. Desde sempre.
Ele é feliz assim. Inteiramente louco. Inteiramente ele. Adiaste este destino, mas não o podias bloquear. Ele é ele, nasceu para isto. Foi tempo de vida inutil que gastaram os dois.
“Life is ours and we live it our way.”

Thursday, May 13, 2010

Carta de Despedida

Afogar a mágoa em qualquer coisa , ainda que seja corrosiva, soa melhor do que deixa-la viver a vida que ainda existe em mim. Deixa-la viver a existencia que é a minha.
Lamento.
Se não estás aqui é porque , lá no fundo, nunca quiseste ficar e eu nunca quis que ficasses. É porque, lá no fundo, não existes. Já não existes. Os mortos algum dia acabam por ser esquecidos. Nunca quis eu, verdadeiramente, que ficasses.
Lamento.
Por mim. Porque todos os mortos serão esquecidos, um dia. E sei que algures morri. Haverá um dia em que já não saberei quem sou. Haverá um dia em que me esgotarei em pensamentos inuteis e vazios. Precedentes de actos que nunca executei. Algures, morri.
Lamento.
Que me tenhas ferido na única coisa intocavel na existencia humana – o meu conceito de futuro.

Sunday, May 09, 2010

"Scream of the butterfly"

Que dia é hoje? Que importa? Todos os dias são iguais, uns mais proximos do Inverno e outros mais proximos do Verao. Todos os dias são iguais. Não teimes nisso, em entristecer-me ao som da tua expectativa genial frustrada e violentada. Todos os dias são diferentes, cada dia é divinal , mesmo que nenhum de nos se aperceba disso. Não me arrastes para essa tua tristeza desmedida de uma vida mal vivida. A miséria não procura companhia, procura uma justificação para se entregar a um suicidio aborrecido.
Deixa-me em paz, deixa-me só na minha felicidade de ser sozinho. Te não necessito. Lamento, és mais do que inutil. Crucificas a paciencia. Deixa-me aqui , feliz comigo. Procuras emendar a tua triste e patética vida no meu futuro que ainda se não concretizou. Mas, etende, o futuro é meu e vou dar-lhe o som que melhor me soar. A tua opiniao é so isso, uma opiniao. Tiveste a tua oportunidade de decidir o som que querias ser. Se a perdeste não me culpes, não me responsabilizes. O som que perdeste era o teu, eu tenho o meu . Não é algo que se transmita. Se falhaste a vida é culpa tua.
Que dia é hoje? Não quero saber. É um dia comum em que decidi quem quero ser.
E adeus. Não sou essa pessoa, que fica para te fazer menos infeliz. Devias ter vivido quando podias , se agora é tarde para ti é cedo ainda para mim. Lamento, adeus.
Sei exactamente que dia é hoje. É o dia do grito da borboleta. O dia da Liberdade.

Thursday, May 06, 2010

Obsessão

A consciencia cai sobre ele como o fim temático e lógico de um intimidante filme de terror. Não, não é ele que é louco. Ou boémio. Ou desfasado. O problema és tu e essa tua desmedida maneira petulante de ver o mundo. Talvez um dia descubras que ele é rei de si proprio, tem a ideologia debaixo da pele. Não te necessita, não necessita de qualquer voz autoritária que o faça esgotar a vida num sonho que não é o seu. É o teu.
Ele é livre. Um dia vais ver isso. E que ainda não endoideceu. O mundo não ve a sua insanidade porque ela, na verdade, ainda não existe. Teve o mérito de a tornar util, canalizou-a artisticamente para algo que faça sentido. Por isso é que a arte lhe vive nos poros da pele e do espirito. Resume toda a doença que ainda não lhe conseguiste incutir.
Porque ele não é doido. Tu é que és. Tu e todas as tuas manias. Tu e todas as tuas ideias psicadélicas e distorcidas sobre o Amor. Porque nada disto tem que ver com o amor. Não podes cobrar-lhe uma expectativa falhada. Porque se são as tuas expectativas devias te-las cumprido tu. Construi-lo para cumprir o destino no qual te mostraste incompetente , na tentativa de desenhares o vazio do mundo perante a tua genialidade. É cruel.
E é inutil.
Porque a consciencia cai sobre ele como o fim de um brilhante filme de terror. No final, o assassino frio é ele. Só que é em legitima defesa, a perspicácia absolutamente louca brilha-lhe nos olhos.

Monday, May 03, 2010

Liberdade

Acorda todos os dias e leva a mao ao rosto , levemente preocupado com o que faz com a sua existencia. Suspira. Suspira outra vez. Arrepende-se de qualquer coisa. Talvez.Tem uma sensaçao estranha a passar-lhe pela pele.
Provavelmente acordou demasiado tarde, os olhos custam-lhe a abrir para encarar o sol do mundo. Provavelmente demorou demasiado tempo a adormecer. Tem algo fixo na mente que tende a não despegar do peito. Provavelmente, vive essa ideia até ao limite que consegue imaginar. Sente uma enorme vontade de ser ele proprio. Sente uma enorme vontade de beber a sua bebida alcoolica preferida até gastar toda a sede. Sente uma enorme vontade de esgotar todos os cigarros que ainda não comprou. Sente uma enorme vontade de procurar a rapariga que lhe realça o nervo azul que o mundo desconhece.
Todos os dias quando acorda leva a mão ao rosto. E, quando se questiona sobre o que anda a fazer com a sua vida, está implicita na reflexão uma ausencia de futuro que o extasia. O amanha existe mas tem cores indefinidas. Está presenta na pergunta uma suavidade boémia, retrato do ser que ele é. Do ser que ele quer ser.
Não sabe o que anda a fazer da sua existencia. Nada lhe dá mais prazer. E nada lhe garante que está a escolher algo que não deixa de ser correcto. A preocupação é um acto de consciencia social, ele gosta de ter sentido nenhum.

Sunday, May 02, 2010

Last Kiss

Posso dar-te a mao mas, etende, isso não vai anular a tua morte. Morremos todos. Mas dou-te a mao, agora e sempre. Porém, etende, é indiferente. Não a vou conseguir aquecer eternamente.
Posso fingir, por fracções de momentos, que existe uma hipotese de me tornar exactamente naquilo que gostavas que fosse. Até posso fingir, mas compreende, é a tua desilusão. Provavelmente mais vale veres agora o monstro que acarinhaste e que nunca será principe algum. Não, não negues. Sabes que é verdade, vejo o meu reflexo de monstro nos teus olhos. Sempre vi, era esse o teu encanto. O silencio seco e duro de um facto duro inegável.
Posso dizer-te palavras mais agradaveis e mais bonitas. Mas o fim é sempre o fim. E depois do fim existe sempre nada. Posso dizer-te palavras que aliviem a tua consciencia mas nunca vao atenuar a dor no peito.Já devias saber que o teu coração é muito mais largo e pesado do que alguma vez a tua existencia será. Apesar de serem uma mesma coisa.
Posso dar-te a mao, mas etende, é irrelevante. Eras a minha rosa e agora és uma rosa enjelhada e rasgada. Posso dar-te a mao mas , observa, já morremos os dois.

Thursday, April 29, 2010

Excepção

Custou-te o coração essa escolha esquisita mas tornou-te maior. Superaste o teu velho eu.
Porque ela amava-te irresponsavelmente , elouquentemente. Dedicou-se a suspirar por ti todos os segundos tremulos de cada respiração. Ela amou-te, do fundo do seu largo coração. E esse amor errado e desmedido dava-te o prazer supremo da posse de um tesouro raro e precioso. Amava-la de volta com toda a tua selvagem existencia , carinhosamente civilizada pelo amor puro dela.
Mas no final do dia continuavas sedento de uma qualquer sensação de prazer. Esgotavas todos os teus cigarros sombrios e todas garrafas de uisque para te esqueceres do teu eu animalesco. Que ela não conseguiu acalmar no teu peito. No final da noite, eras profundamente triste e obscuro na solidão crua e fria. Amavas alguem que fazia sentido nenhum no teu conceito de mundo.
Então deixaste-a viver a vida que ela queria ter, incoscientemente. Disseste-lhe palavras duras , farpas do teu coraçao. Não servias para ela, nunca serviste. Não eras o indicado, não eras o correcto. Não lhe podias dar aquela vida que era o destino dela. Entao deixaste a deixar-te, calmo e sereno. Duro como uma pedra , imóvel.
Depois deixaste de conseguir aliviar a dor com os teus exageros sensoriais. Todas as mulheres que amaste tornavam-se, no final da noite, uma memória ténue e corrosiva da beleza dela.
Amaste-a, amaste-a tanto que reconheceste que não eras o melhor para ela. Daí que te doa ve-la a passear, meio triste meio contente, de mao dada com um homem estavel e amavel, banal e agradavel. Ve-la a viver uma vida inteiramente oca e vazia, um futuro detalhadamente definido.
Sempre soubeste que era esta a vida que ela acabaria por ter. Mas nunca conseguiste abandonar a sensaçao de dor. Deste-lhe o teu coraçao, profundo. E ela não so não percebeu como abdicou de si propria. Porque ves que sente a tua falta na sua tristeza, enquanto passeia sorridente de mao dada com um homem comum. Amar-te- à sempre.
Custou-te o coraçao, essa escolha heróica. Mas sentes que falhaste qualquer coisa.

Wednesday, April 28, 2010

Eterno Orfeu

Talvez a tua memoria seja tao imortal quanto a mortalidade dele. Talvez nunca se consiga esquecer de ti, talvez nunca consiga deixar de ser o ser bonito e caloroso que criaste no eu agreste dele. Belo mas exoticamente selvagem.
Talvez existas no final de todas as noites. Talvez o teu som persista em todas as mulheres que amou depois de ti. Algumas amou por serem reflexos fracos e debeis teus, outras porque eram o teu oposto. Acendiam na pele dele todo o ser que não era contigo. Algumas amou porque te amava e te procurava incansavelmente no mundo. Outras amou porque quis assassinar-se em pequenas luxurias que afogavam a mágoa da tua ausencia. Talvez nessa altura ele já te não amasse, apenas não soubesse existir sem ti. Deste-lhe um eu novo mas ele sempre foi apenas ele. Talvez ele te procure eternamente pelo mundo. E te encontre ocasionalmente. Ou talvez algum dia alguem supere essa tua doce e aromatica memoria e não torne todas as noites dele exoticamente selvagens mas vazias.

Thursday, April 01, 2010

Demasiado tarde

O silencio fundo caiu sobre ele. Não é ironico? Sempre sentiu o ardor frio da tua ausencia mas só agora é que tem consciencia. Porque naqueles tempos sentia saudade de si proprio, não havia forma de te confiar a praia que era so dele estando a praia em cinzas. Não existia espaço para ti porque não existia espaço para ele.
Mas agora é ele o silencio negro da noite. Agora é ele o silencio pesado e solitário da noite . E apercebe-se que a tua ausencia lhe doi. Não como doi o fim de um extasiante puro amor. Ou o fim de uma paixao que consumiu o espirito. Doi-lhe porque lhe fazes falta nos pequenos pormenores peculiares. Doi-lhe porque o fazes sentir só. Doi-lhe porque descobriu que reconstruiu a praia queimada e violentada que era dele porcausa de ti. Por tu existires, para tu exitires. Sem ti, simplesmente não teria sido possivel.
Tu não sabes isso e ele acabou de descobrir. Sente a tua falta, como uma dor fria e fina que o vai anulando devagarinho. Não é nenhum amor extasiante ou alguma paixao ferverosa .Nao há anestesia. Está lucido. Sente a dor grave em cada nervo.
O silencio profundo adormeceu-o. Um sonho aconchegá-lo-á durante a noite. Sim, sonhará que te entrega a chave da sua praia azul reconstruida e que deixa de sentir tao fortemente a tua ausencia. E que não é demasiado tarde.
Para perceberes que é amor. Apenas não é extasiante ( daí que sejas um vicio pessoal dele, que o amolece mortalmente sem nunca ser causa de morte).

Dedicação

Tens de parar de o pressionar. Ele não nasceu para exibir a cicatriz funda gravada a sangue no espirito, tatuagem de quem sente a crueldade do mundo na pele.
Tens de comprender. Ele não tem essa cicatriz. É verdade que viu a crueldade fria, a injustiça mordaz mas não a sentiu. Tudo o que tem são os acidentes a que qualquer um está sujeito enquanto ainda respirar nesta realidade.
Mas, inatamente, queres que entre na guerra contigo. O teu infimo desejo é que também seja a guerra dele, para garantir a eficácia astuta e discreta do ataque dele.
Mas não é a guerra dele. Entra como estratego não como soldado. E entra na guerra quando se ve obrigado ou quando uma consciencia racional e sensorial o orientam no sentido bélico. Ele não tem cicatriz, não é a guerra dele.
Tens de olhar para ele. Ver o seu horror à destruiçao. Tens de compreender que quando entra na guerra contigo entra porque te acredita. Porque te não consegue abandonar. Tens a sua compaixao, a sua amabilidade. Tens a sua fé.
O que ele tem gravado a sangue no espirito é muito pior que a tua cicatriz. És tu que lhe trazes a ruína se não compreenderes que ele te protege com a propria vida.

Sunday, March 21, 2010

Pedra Filosofal

Ouço a tua voz em tom de alerta. Os teus movimentos bruscos e preocupados. Mas hoje ninguem vai morrer. Hoje não haverá sangue em lado algum. Não etendes, não podes viver so para ganhar a guerra. Mesmo que a guerra não seja uma guerra, mesmo que seja pelo teu direito de existir. Mesmo que tenhas as razoes mais solidas deste mundo e do outro para quereres ganhar a guerra.
Um dia terás de sentir o prazer de criar. Algo que não tenha como objectivo a destruiçao. Um dia terás de sentir o prazer da leveza de se ser feliz, mesmo que seja apenas por uma fracçao de segundos. Um dia terás de fazer o que eu faço agora. Fingir que a guerra não existe, que a mediocridade alheia não me sujou o sangue com lama obscura. Não estou a ignorar nenhum facto, nem sequer estou a ser cobarde. Aproveito a vida enquanto ainda a tenho em mim.
Por isso, hoje não me fales disso. Da ruina ordinaria que os outros são.
Hoje sou livre. Hoje sou eu (so eu). Com as costas confortavelmente seguradas pela cadeira. Hoje é um dia que vale a pena memorizar o cheiro. O som. A cor e a textura azul.
Se não houvessem dias como o de hoje, tao banais, não teria qualquer razao para entrar na guerra contigo. Tens de aprender que se vives para a guerra, es a guerra.
E devias ser o Sol ameno de uma tarde Verão. Não um Inverno gasto em folhas que envelheceram demasiado cedo.
(O melhor soldado é o que tem um sitio para onde voltar
)

Saturday, March 20, 2010

O fim

Ele tem por vezes esse impulso louco . De pegar no casaco e correr à tua procura. De escrever a carta com as palavras cuidadas que nunca te confessou. Às vezes é consumido por uma vontade extasiante de te ter de volta. De ajeitar o passado. De se ter de volta. De regressar àqueles dias longos e sorridentes de Verão.
Mas depois é como se o coração revisse pormenorizadamente os dias de chuva que se seguiram. É como se , naquela fracçao de segundos, lhe esgotassem todos os “se”. Todas as hipoteses. Todos os argumentos. Como se naquele intervalo entre levantar-se da cadeira e pegar no casaco alguem lhe descansasse a mao no ombro e concretizasse a verdade que sente mas que não tem coragem para soletrar. Porque soletrar a tua ausencia torna-a ainda mais real.
Ele tem esse impulso louco. Absolutamente alucinado. De que algum dia vais perceber a carta que nunca te vai enviar.
Morreste naquele dia, o teu ser foi dissolvido na chuva. E ele fugiu de todos os cemitérios mas consegues encontrá-lo sempre de alguma forma.
Ele tem esse impulso louco. Mas arracantaste-lhe toda loucura que tinha naquele dia de chuva.

Tuesday, March 16, 2010

Azul Celeste

Vê se tens dó de ti já que me fazes ver-te. Já que me ofereces essa sensação de vómito ao menos faz algo de útil por ti. Olha-te ao espelho, traça com o teu dedo as curvas do nada que és. Ah, sim, és nada. E não digas que o tambem sou ou que o meu anonimato existencial não me permite poder para afirmar tal barbaridade.
Tu és tão nada quanto o céu é azul. Quanto o Sol é amarelo-alaranjado. A tua cor é o nada. Sorris-me tentando evidenciar uma malícia (mas não tens inteligencia suficiente para teres malícia). Dizes-me que o céu não e verdadeiramente azul, depende tudo da luz branca. Como um prisma triangular trespassado por um raio de Sol.
E é exactamente ai que afirmo. És nada. Quando ves o ceu azul claro vivo ele torna-se azul, é a forma como vais conhecer o mundo que ainda tens pela frente.Há uma doce simplicidade na forma como o céu vai ser sempre azul, apesar de o não ser. O que para ti é real é o que te torna diferente de todos os outros semelhantes.
A tua cor é nada. Tu és nada. Vejo-o tao claramente como vejo o imenso azul celeste.
Repara, ser nada, é uma hiperbole. A expressão é uma metáfora.
Mas tu desconheces o que é uma metáfora. Fiz só uma aproximação inocente. És tao pouco que se arredonda para nada sem grande prejuízo.

Monday, March 08, 2010

Enredo

Já viste a desgraça em que se meteu por insistir em algo que o coraçao discordava? Não lhe peças isso. Para ficar contigo, talvez ate por ti. Não lhe peças esse fim arrastado e melancolico, estendido ao sol num dia demasiado frio. Se desejares verdadeiramente que ele insista naquilo que estrangula a essencia dele ou o não conheces. Ou desejas a morte dele como companhia.
Mas não, claro que não. Tu somente sentirás a falta dele descontroladamente. O amor que lhe tens atenua-se quando ves, nem que seja por uma fracçao de tempo. Se perderes até esse pequeno e fragil momento, que te sobra? Nada.
Já viste a desgraça em que persistes em continuar?É tao facil permaneceres com ele, basta que lhe cedas o direito da diferença. Se o deixares ser senhor de si proprio poderás acompanha-lo para qualquer lugar.
Mas tu nem sequer concebes esse conceito de pura liberdade ... Já viste a tristeza em que ambos se afundaram ? Tal qual um navio que perdeu a fé na estrela que o guiava.

Sunday, March 07, 2010

Excerto

O vento é demasiado agressivo e agreste para sugerir um romance fresco de Verão. E eles não tinham essa sorte de qualquer forma.
É dificil vencer um conjunto de realidades duras e inócuas que não respeitam e destroem o teu coraçao.


WinGs, Agosto de 2009

Tuesday, March 02, 2010

Orfeu e Eurídice

Esse falhanço tem o encanto triste de um pássaro desmembrado que espera, pacificamente, essa morte arrastada no tempo tao infinito e tao curto.
O teu sucesso como Eurídice é o declínio dele enquanto Orfeu. Porque é que não vos salvaste quando ele te libertou do seu amor ? Ele libertou-te dessa morte romanticamente destinada a ser crua e concisa. O teu Orfeu abandonou-te para te salvar.
Mas tu só sentiste o abandono na pele. Fizeste o correcto, afastaste-te. Como Eurídice que és, a ausencia do teu Orfeu esmagou-te. Esmagou a tua doce ingenuidade.
Mas esse falhanço tem a melodia carismática da morte, daquela que é suave e até convidativa. E o deus frívolo e paranoico que te escolheu como Eurídice escolheu-te demasiado bem.
Porque quando reencontraste o teu Orfeu não se preencheu no peito a dignidade de quem carrega a dor aguda do abandono . Viste o teu Orfeu, de novo, só importava isso. Nem sequer reparaste que ele o tinha afogado cruelmente, o Orfeu que era. Para mais ninguem morrer nesse triste destino. Mas tu não viste a ausencia dele nele, fizeste-o renascer sem renascer.Ele nunca te abandonou...
E agora vao morrer os dois, juntos. Porque enquanto a Eurídice que vive aconchegada no teu peito quente não desistir de amar Orfeu, ele ama-a incondicionalmente.
O teu Orfeu entregou a sua musica ao Inferno para tu poderes respirar , suavemente, cada momento de felicidade suprema. Porque ele morreu quando te deixou.
Bastava que o não amasses verdadeiramente para te salvares. E salva-lo depois a ele.
O deus que vos escolheu escolheu-vos delicadamente. A forma como cumprem heroicamente um destino tao patético tem o som do riso da propria morte


WinGs

Thursday, February 25, 2010

Mecanica do Coração

Essa continua chacina do coraçao de pano dele tem de parar. Não sentes qualquer espécie de uma qualquer piedade quando olhas directamente para o sofrimento dele? Mesmo que desistas agora dessa tortura sentimental , mesmo que agora o deixes a sos com a tua repetitiva morte já lhe rasgaste o coraçao. Porque era um coraçao de pano, quase não era real. Era so um coraçao de pano...
Pedes clemencia, alias, pedes que olhem para ti. Repetes, alternando entre lagrimas doces e salgadas, que o amaste incondicionalmente. Completamente irracionalmente. No apogeu do teu desespero confessas que lhe ofereceste o teu coraçao, real e resistente, para substituir o de pano, tao fragil, tao hesitante. Quiseste ficar com essa debilidade humana dele, quiseste ajudá-lo. Honestamente. Porque o querias a ele, a acompanhar-te todos os segundos mudos. Pedes clemencia, pedes-lhe que te oiça. Porque ele era o teu tesouro mais precioso, tao raro e tao brilhante que duvidavas que pudesse ser teu.
Mas essa latente tortura do coraçao dele tem de encontrar um fim. Tudo o que ele se lembra é de lhe quereres tirar o coraçao de pano. Não percebeu a tua verdadeira intençao e encarou-te como os outros. Os que o não acreditam, os que o odeiam.
Mesmo que desistas agora dessa claustrofobia sensorial, já é demasiado tarde. A tua salvaçao vinha do coraçao de pano dele e ele já o deitou no lixo, como se deitam as cosias inuteis.
Porque era so um coraçao de pano ...
Inspirado no livro Mecanica do Coraçao

Wednesday, February 24, 2010

Rosa Azul

Ele não tem em ti a fé do universo. Alias, em ti ele não deposita nada, não espera nada. Nem sequer espera algo. Por isso é que esta a um pequeno passo de te amar : és um intenso caminho florido com imensas opções abertas e cheias.

WinGs

Saturday, February 20, 2010

Poder

A tua organização automatizada irrita-o. Tens de o desculpar, chamaram-lhe inumeras vezes animal intelectualmente civilizado (Porém animal).
Mas o animal melodicamente civilizado que é conquistou uma forma de conhecer o mundo que ésensorial. Destingue-se de qualquer multidão pela forma como a descofidica. A compreende. Pela forma como interpreta as pequenas variações que vai sofrendo . Só ele realmente repara nas vozes silenciosas discordantes da unicidade inócua de uma multidão certa e correcta.
Como aquela a que pertences, cegamente. Frívolamente. E ele encanta-te por fazer o que nunca vais conseguir igualar. Ele move a multidao, qualquer uma. Ele orienta-a. A multidao segue-o inatamente. Porque ele é simplesmente um animal que se soube disciplinar e que se basta a si proprio. Tu matarias por esse lugar.
Por isso é que o teu rosto não é visivel na multidão. És cuidadosamente obediente.
Tens de o desculpar. Essa forma de organizaçao de vida aborrece-o.

Monday, February 15, 2010

Regresso Fantasma

Oh por favor não me deixes voltar. Porque é que me deixaste voltar? Ah! O teu consolo é a tua voz fria e suave. Dizes-me que ignorar não é saudavel. Nem sequer é util. Dizes-me o mito de manter fantasmas é um mito triste. Pela sua melancolica opcionalidade.
Dizes-me que serei mais forte e mais resistente se enfrentar aquelas paredes de ferro. Se olhar de frente para aquela prisao tao. Bonita à sua maneira. Dizes-me que tenho de acreditar em mim, que não vou ceder porque já fugi de lá.
Não compreendes que é uma prisao? Uma prisao porque não odeio. Seria tudo mais facil se fosse odio mas não é. Ódio.É amor, a outra coisa. É uma questao de razao de existir. Por isso é que é uma prisão, não me deixa sentir . O amor que me escorre nas veias, que se envidencia até na textura da minha sombra. Esse mesmo amor não existe lá. Não é permitido ( nem sequer é normal lá)
A tua voz fria e suave. Consciente e lúcida do que vou perder. Do que posso conquistar. Dizes-me que tenho de voltar lá, tenho de me despedir. Da prisao. Para que me guardem um verdadeiro e honesto respeito, para não perder a credibilidade.
Dizes-me que ignorar nem sequer é uma acto perspicaz . Tenho de lá voltar e sentir a dignidade no meu espirito. Sair de lá como alguem que inovou uma pequena realidade e não como mais um cobarde que se deixou arrastar por qualquer coisa que aliviasse a dor de simpelesmente
. Existir.

Wednesday, February 03, 2010

Fim

Deixa-o respirar. Foi a escolha dele, deixar-te para trás. E tu escolheste deixa-lo fazer, nao o conseguiste impedir de optar pelo sonho que o movia. Que não foi opção nenhuma porque ele era a visão que tinha do mundo. E se tu não fazias parte dessa realidade excêntrica e inovadora não podia ficar contigo. Nunca pôde. Liberta-te da ilusão.
Deixa-o chorar. Deixa-o lamentar a tua morte enquanto o tentas abraçar. Ele nem sequer sabe se foi a melhor escolha. Ou se existe isso, esse conceito estridente de melhor. Ele acredita que não, apenas não conseguiu escapar ao seu próprio destino. E tu morreste , a dor é aguda. A tua morte. Inevitável. Enquanto ele cumpria o seu pomposo destino. De herói discreto.
Deixa-o respirar.Deixa-o dissecar a escolha que nunca existiu. Insistes em abraçá-lo. Vais acabar por desistir perante a apatia firme dele.
Não acredita em fantasmas. Por isso é que ignora o teu choro, o teu abraço. A tua dor.

Sunday, January 31, 2010

Reminiscência

Vá diz-lhe. A razao pela qual o torturas, assim. Amavelmente. Porque ele passou na tua rua e não te viu na janela e lembrou-se quando o esperavas. Pateticamente fiel á espera de uma fracção de felicidade. Ele passou na tua rua e tu não estavas la. Eras mesmo irresponsavelmente leal ao ponto de esperares por ele , todos os segundos de todos os dias?
Responde-lhe. Ele não te pergunta em palavras , nem que seja uma vez comunica na língua dele. Não esperes ouvir a pergunta . Porque ele passou na tua rua e lembrou-se de quanto lhe doeu esse abismo que não soubeste vencer. O abismo era ele, o mesmo ele que esperavas todos os dias. Incansavelmente. Só para o veres por um instante, amar-lhe o rasto da sombra. Como é que amas algo que não sabes o que é, que não compreendes o que é?
Vá, chora-o. Ele morreu. E nem sequer te deste conta, como é que podias esperar por ele todos os dias?
Mas esperaste. Como ninguém te disse que ele morreu, desististe de espera-lo. O mundo obrigou-te.
Mas responde-lhe. Não o tortures amavelmente. Se desejares aniquilá-lo ele sabe reagir.
Diz-lhe que nem quando o deste como perdido desististe dele, mantiveste-te fiel a ti, leal a ele. Fala-lhe da tua integridade.
Porque ele passou na tua rua, por baixo da tua janela. Sente a tua falta, às vezes gostava de não ter morrido. Ou de ter acreditado em ti. Mas nunca soubeste quem ele era, como podia ter fechado os olhos a isso?
Vá diz-lhe. Honestamente. Quere-lo de volta ou ganhaste consciência da estupidez patética que cometias todos os dias quando o esperavas nervosamente?Porque o amor é isso. Só isso.

Tuesday, January 26, 2010

Persistência

Os anos começam a pesar-me nos ombros. Mas talvez esteja a envelhecer de uma forma jovem. Talvez não me tenha esquecido daquilo que gosto, daquilo que sou. Inevitavelmente, “sou o que perdi”. Continuo a ter uma atitude quase infantil. Perdi a criança dentro de mim e isso resume tudo o que sou.
A idade reflecte-se no espelho como uma necessidade urgente de escolha. E já me decidi, sim. Sei perfeitamente quem não vou ser. As mentiras que não vou gastar tempo a imaginar. A ilusão que não me proponho a erguer.
Lamento pela minha dura resistência. Conservo a minha jovialidade cuidadosamente, tenho dificuldade em aceitar um fim. Lamento pela minha insistência naquilo que gostava de ser e não do que o mundo gostava de me tornar. E lamento que o meu lamento seja uma ironia crua e arrojada que a realidade circundante nunca vai descodificar.
Os anos começam a pesar-me os ombros. Deixo-os encostarem-se melancolicamente na cadeira. Estou vivo. Envelheço porque estou vivo. E não existe nada melhor do que todas as oportunidades recatadamente escondidas nessa aparente banal palavra.Viver.

Wednesday, January 20, 2010

Crueldade

Ele não podia faze-lo. Não chores, não que não te amasse. Que não se importasse contigo. Simplesmente, não podia faze-lo. Por favor, pára com esse sofrimento que evoca a mais funda compaixão. Para de chorar, o mundo às vezes é apenas um sitio cru e frio .
Ele não podia faze-lo.Ah! Na altura teria vendido a alma ao diabo para ficar contigo e com essa tua realidade. Bonita e efémera. Suave e medianamente profunda. Teria dado a alma ao diabo, sem nada em troca, só para ser feliz contigo. Mas até o diabo se riu desse sonho momentâneo dele. Porque ele não podia faze-lo, a alma dele está protegida pelo amor supremo que dedicou a algo maior , muito maior que ele. Maior que qualquer Deus.
Por isso, não chores. Ele não podia, não era opção. Foi a maior ilusão que já viste, que já sentiste, que já ouviste. Ele. A sua beleza exótica e ferida. Porque sabes que ele sofria, só querias acarinhar-lhe as cicatrizes, coser-lhe as feridas. E ele sabia disso. Mas ele não podia faze-lo, curar-se. Queriam-no assim para a guerra , marcado. Para ter pelo que lutar por: o direito de existir sem correntes invisíveis e tortuosas.
Ele não podia faze-lo. Deus sabe que teria dado tudo por poder ficar, por manter esse sonho que tinham os dois. Mas agora é já demasiado tarde, conquistou a sua liberdade na guerra, trouxe mais marcas, mais cicatrizes, mais pesadelos vazios. E nada do que possas fazer o cura. A tua simples existência piora-o.
Por favor, não chores. Ele amou-te, simplesmente não podia faze-lo. Ele já não é ele.
O mundo ás vezes é apenas um sitio cru e frio.

Saturday, January 16, 2010

A Rua

A solução morava naquela rua gasta e velha. Não foi surpresa nenhuma para ele, sempre sonhou fugir lá, encontrar-se lá. Morrer lá. Naquela rua gasta e velha.
E todos os dias no comboio ouvia o inconsciente insatisfeito com a estabilidade moderada conquistada, com a vida azul que o consciente responsável realista omitia. E olhava da janela e via aquela rua, gasta e velha. Escondia algo especial. Sabia-o. Senti-a o. Mas não via nada de extraordinário, não ouvia nada de extraordinário e seguia com a sua vida convencionalmente normal.
Um dia perdeu-se perto daquela rua. Começou a sentir uma tranquilidade boa e esquisita, um frenesim que o levava ao êxtase calmamente. Não havia nada de errado naquela sensação exótica, no som que ouvia. Mas encontrou-se e a melodia morreu.
Nunca mais foi o mesmo. Decidiu-se por experimentar a voz do inconsciente (porque não?). Vagueou horas fantasmas ate que encontrou aquela rua. Gasta e velha.A solução morava naquela rua e ele tinha sido o escolhido. Desistiu de resistir ao chamamento.
Naquela rua gasta e velha morava a única hipótese de futuro que o mundo tinha. Quem a não viu ou rejeitou morrerá triste e jovem. Porque a solução mora la, escondida na aparência gasta e velha de um prédio flexível que resistiu ao seu próprio passado.

Tuesday, January 12, 2010

Memória

Houve um dia em que ele regressou para ti porque foi o que aprendeu a fazer. Para se sentir feliz e cheio. Ver-te, simples na tua divina beleza. Mas ele, nesse dia, não te procurou, queria apenas a memória fresca , doce e aromática que tinha tua. No dia em que ele regressou porque se automatizou morreste.
Foi nesse dia que desistiu de ti, desistiu dele próprio. Foi o fim, o principio de um longo e doloroso fim. Arrastado no tempo de uma forma cruel e fria. E todas as vezes que ele regressou depois desse dia serviram para negar que o tinham corrompido, que o tinham vencido porque lhe esgotaram e esvaziaram a mente. Ele amava-te irracionalmente e foi uma injustiça demasiado crua e frívola o que lhe fizeram.
Mas naquele dia tu morreste e ele não sabe ressuscitar mortos. Iniciou-se o fim, passaste a ser uma das melhores memorias vivas dele. E ele amava-te tanto! Fizeram-no esquecer-se disso, rasgaram-lhe e quebraram-lhe a mente. E, quando finalmente regressou verdadeiramente para ti, já era demasiado tarde. Já tinhas morrido, já não passavas de uma leve e desfocada memoria.
Porque houve um dia em que ele começou a morrer de mansinho e ninguém viu. E tu estavas demasiado longe dele para o guardares e acarinhares.

Thursday, January 07, 2010

Inevitavel

Ele promete que se vai esforçar por endireitar as coisas. Não consegue evitar sentir a tua falta. Agora que lhe devolveram o coração, apercebe-se que os olhos se tornam mais meigos com a tua memoria; que o sorriso é aberto e doce. Agora que tem de novo o coração vivo no peito chorou a tua morte, sempre foste a sua Eurídice.
Ele não conseguiu evitar desculpar-te . Houve um dia em que se apercebeu que o amavas verdadeiramente, incondicionalmente. Houve um dia que ele compreendeu que o teu erro advinha disso, da tua profunda irracionalidade. E desculpou-se, ele era-te igualmente irracional.
Ele promete que vai tentar compor-te. Que se vai tentar compor a si próprio. Porque, quando lhe devolveram a consciência da emoção, ele não conseguiu evitar sentir a falta de si próprio. Da leveza com que vivia a sua existência, da facilidade com que alcançava o êxtase.
Ele promete que se vai esforçar por melhorar tudo. Se for demasiado tarde, é-lhe ironicamente indiferente. Ele amou-te, algures. E é certo que se desculpou, mas o Orfeu dele morreu com a tua Eurídice. É apenas a vibração estonteante de vencer o destino, é apenas a herança do êxtase que lhe deixaste.
Por favor, não chores. A vida é simplesmente isto. A oportunidade vivida uma e uma única vez. E, lá no fundo, ele está condenado a reviver a tua memoria indefinidamente, terás até ao fim um pedaço do coração dele .

Sunday, January 03, 2010

Fantasma da Opera

Ela teve medo, os ossos tremeram com o poder da tua voz. Porque ela não podia amar um monstro. Deslumbrar-se com um monstro. Deixar-se encantar pelo que fizeste contigo. Por isso trocou-te, ele era comum. Tão comum que não assusta. Tu, um monstro de tonalidade baixa grave, serias um verdadeiro perigo.
Mas não duvides que ela te amava. Pela junção da fantasia com o mistério, pela forma como ela se relaxava ao som da tua voz. Grave , bela. Pela forma como a tua arbitraria e metafórica fealdade a encantava. Simplesmente era fraca , débil, superficial. Comum, como ele. A representação patética do patético salvador. Um herói vazio e bondoso e carinhoso. A estabilidade oca em pessoa.
Ela teve medo, escolheste mal. Legitimo. A profundidade que carregas no coração trouxe-te o deslumbramento inconsciente pela beleza. Tornaste o superficial profundo por seres fundo e honesto contigo. Mas erraste, nela. Ela é comum. Teve medo de te amar. Quem é que escolhe o monstro, a desfiguração, a escuridão? Quem seria ela depois de te escolher?
Então ficou com ele. Alguém tão inútil que nem merece nome, que quase não tem rosto.
A tua intensidade e a tua filosofia, soletradas com a tua voz divinal, assustaram-na. Nunca ela alguma vez conseguir-se-ia igualar à tua beleza. Porque nunca foste monstro nenhum, ela sempre o soube. O monstro é ela.

Thursday, December 17, 2009

Amanhecer

Amanhece demasiado cedo. A única vantagem é a consciencia bruta de que somos ainda muito novos. Para morrer. O dia amanheceu, nasceu agora, existe mais do que tempo para se existir tranquilamente; para reagir bem e de forma eficaz ao recente universo agreste.
Amanhece demasiado cedo. E é so nessa hesitação trémula linear, nesse instante tenso em que já é manhã mas o céu aínda é negro que sinto a tua falta. Talvez por termos existo nesse momento em que o tempo é indefinido. Ou talvez porque é uma fracção temporal sem destino, sem expectativas. É apenas transitório. No segundo a seguir é dia e no anterior foi noite profunda. O segundo intermedio que nunca existiu não possui qualquer ligaçao ao real.
Mas amanhece demasiado cedo. E apesar de sermos demasiado novos para morrer. Envelhecemos tanto que já não somos os mesmos.

Monday, December 07, 2009

Reflexão

Como é que falhámos tanto? Como é que nos tornámos nestes dois desconhecidos que se reconhecem em silêncios mudos , marcas de batalhas patéticas vencidas?
E como é que ainda não te apercebeste que sempre fui essa fraude? Sempre fiz a viagem ao sítio que não tinha qualquer interesse em conhecer, sempre tive um sucesso relativo naquilo que nutro um profundo e legítimo desprezo. Compreende, comigo tornas-te naquilo que gostavas de não ser: o eterno deslocado poético, duro estratego e afável.
Mas a minha componente de falha não é surpreendente, a falha sou eu. A minha existencia e a forma como vivo é um erro, a minha filosofia é um erro. Mas tu? Sempre foste a flor mais bela de um jardim pequeno que quando morre as pessoas só choram por uma fracção de segundos. A tua unicidade e especialidade sempre foram relativas.À primeira e superficial vista, todas as outras flores têm o teu perfume .
Como é que falhaste tanto? E propões-te a continuar a errar dessa forma poeticamente afável. Talvez até suavemente inócua.
Como é que falhámos tanto? O mundo. O eterno caos. E o nosso inocente pecado.

Thursday, November 26, 2009

Desilusão

Ele pede para compreenderes que o coração está noutro sítio; não o acompanha nos dias arrastados e melancólicos. Desde que te ausentaste naquele dia de Sol demasiado quente que ele o enterrou na praia. Compreende, por favor, ele implora-te que compreendas o crime que cometeu. A dor era tão ensurcedora e vibrantemente cruel que ele esfaqueou e enterrou o coração na praia onde foi feliz na infãncia.
Perdeu tudo quando enterrou o coraçao moribundo. Perdeu o amor, perdeu a compaixão. Restou-lhe a flexibilidade e uma disciplinada jovialidade sustentadas pela filosofia mental. Esfaqueou o coração vezes sem conta, estripou-se e afogou-se em sangue e desespero. A dor era um barulho demasiado violento e tu nao voltavas. Deixou de saber se alguma vez aqui estiveste verdadeiramente.
Porque o deixaste só? Deixaste-o só. Não viste quem era ele, nao compreendeste o que era ele e trespassaste o coração. Ele pede que compreendas que morreste com o seu adorado coração chacinado. Não interessa se voltaste ou se dizes que permaneceste sempre ao lado dele: foste-te embora quando ele se sentiu demasiado só, quando a dor começou a anulá-lo.
Ele gostava que compreendesses que não deseja causar-te nenhuma dor inútil. Não por amor a ti ( o nada define-te) mas por respeito ao coração moribundo que jaz abandonado na praia onde a infancia dele cresceu.
O coração dele. Esfaqueado pela desilusão de seres igual a toda a gente e ele amar-te mesmo assim.

Wednesday, November 11, 2009

Tributo

Não o faças, não desistas. Porque se conheceste o amor , o verdadeiro, então em algum ponto foste real e exististe numa qualquer realidade.
Perdeste muito. Perdeste tanto que ficaste com nada , quando te vês ao espelho quase não és tu. Violentaram-te , roubaram-te , foram sempre injustos. Nunca reconheceram o teu verdadeiro valor. E nada eles valem, são apenas mais. Sustentam a máxima de que a quantidade nunca supera a qualidade.
Não lhes dês ouvidos. Porque conheceste a doçura de teres um lar para onde voltar, um sítio que é teu. Até pode estar desfeito mas pertence-te.
Não o faças. Não desistas. É uma arte aprender a viver com a dor. E o mundo precisa de ti.
Eu preciso de ti.Porque melhoraste a minha minuscula e insignificante realidade com a tua existencia simples e íntegra. Bem sei que nunca te reconheram o merecido valor , que te roubaram e violentaram mas eu defendi-te e apoiei-te. Se desistires demonstras a minha inutilidade . E eu herdo o nada que te pertence, o valor nao reconhecido que tens.

Wednesday, November 04, 2009

Orfeu

Talvez exista uma remota hípotese de o Orfeu não morrer com a Eurídice. E conseguir salvá-la. Basta que ela , algures num passado conjunto, o magoe. O suficiente para que ele nao sofra o mesmo mas a ame da mesma maneira. Porque o amor é imune a esses caminhso cruzados de um destino que nasceu feliz.
E então Orfeu seria mais lúcido e conseguia salvá-la da segunda vez. Porque vê claramente que, racionalmente, nao pode hesitar, nao pode olhar para trás. Não pode duvidar da mão que segura dois fios de vida já quase cortados. E então Orfeu consegue não ser tão fragil e fraco, tão tipicamente humano.
Mas uma Eurídice nunca magoa um Orfeu. E um Orfeu nunca é lúcido.
É por isso que é triste o mito. A hípotese de salvação é ilusória. Nunca os vai conseguir salvar enquanto eles forem eles. Porque eles nunca erram verdadeiramente, são vítimas de uma fatalidade demasiado negra e demasiado cruel.
E é por isso que o mito é tão triste. Orfeu erra, sim, mas é tão compreensível, tão humano que deixa de ser um erro. Passa a ser uma consequencia. E ele é inocente. Culpá-lo de algo é um crime.
E é por isso que é demasiado triste o mito.

Wednesday, October 28, 2009

Suficiente

Porque esperaste desesperadamente que te afagassem a cabeça, que te limpassem o sangue das feridas cruas da alma.
E estás só. Porque amaste-a e ocasionalmente sentiste-te profundamente amado. Mas estás só, sentes a falta dela, sentes a tua falta. De quem eras quando a amavas, de quem ela era quando te amava. Irracionalmente. E ves ambos sentados, cumplices de um qualquer crime inocente . Juntos. E afinal tu estás só.
Porque descobriste que ela te amou e que nunca a amaste o suficiente. Se nao terias perdido a consciencia do sangue que escorre das feridas. Nao foi o suficiente para tornar o amor maior que o esquecimento, nao foi o suficiente para se tornar numa das tuas estrelas, que te iluminam e protegem carinhosamente.
Amaste-a.Mas nao o suficiente e recusas saber se ela te amou demasiado , se te tornaste nessa estrela que a pode aquecer e afagar em noites tristes e frias.Recusas. Porque a amas ainda o suficiente para saberes que a já não amas.

Saturday, October 24, 2009

Amor

Sim, claro, é amor porque sobrevive aos dias de sol e de chuva e os olhos têm a cor e a imensidão do mar. Retratam todos os dias de infancia passados na praia, o riso alto e o contentamento de quem não sabe que vai morrer. E que nada é.
Claro, é amor, se dançam alegremente no espirito a esperança , levemente filosofica, a exaltação da vida e o extase de existir. E os olhos têm a textura de amoras silvestres numa noite agradável de Verão; são o som da Orion e do vento fresco que fala de historias magnificas e desconhecidas.
É amor. Nem que seja um pouco se quando olhas nos olhos ves a alma e ela já viu e sentiu a desgraça, já conheceu a dor. É ríspida e dura apesar da leveza e da jovialidade. É amor se vês isso tudo e lamentas profundamente, se quase choras por solideraiedade aberta e franca.
Sim, claro, é amor. Nem que seja um pouco, nem que seja inconsciente. Se olhas e te identificas com a imensidao do ser que contemplas. Amor não deixa de ser isso, uma forma típica e emocionalmente forte de identificação.

Friday, October 23, 2009

Excepção

O barulho é de uma violencia estrondosa. Quebra-te a réstia de esperança que tens . Antigamente, depois da desgraça , adormecias tranquilo à espera de um melhor dia no duro conceito de amanha.
Agora procuras ansiosamente a excepção, a pecularidade que te fez permanecer aqui. Olhas em busca do cabelo desalinhado e escuro, o corpo esguio mas forte, todas as vincadas caracteristicas de uma excepção. Procuras em vão, sabes que a não vais encontrar porque está desincronizada de ti. Mas continuas a procurar e o barulho continua fundo e violento. Se existissem lágrimas talvez fossem desperdiçadas neste momento. Que ultrapassa o sufoco da claustrofobia do ruído ensurcedor.
Bebes o café, antes que fique demasiado frio. A excepção já não existe. Talvez te tenha abandonado. Bebes o café, o gesto mecânico que traduz o inevitável passar do tempo. Porque a excepção eras tu e tu já não acreditas.
Afundas-te no barulho , deixas que essa violação surda ocorra no teu ser. Porque a excepção eras tu e tu já não existes.

Friday, October 16, 2009

Conforto estéril

Tu não querias mudar o mundo. Não, nada disso. Querias ser correcto e querias viver segundo a tua ética filosofica definida e torna-lo num sitio levemente melhor porque serias tu. Um ser não cruel, que cura em vez de ferir. Não farias mudança nenhuma, a realidade seria igual a si propria depois da tua morte, depois da tua vida mas tu morrerias de maos limpas. E não sujarias nada, o mundo não pioraria com a tua existencia.
Agora já o não sabes. Porque te estriparam e te violentaram todos os dias por essa opçao tua e tiveste de te ter de volta. Tiveste de reaver o teu amor-proprio e o teu auto-conceito para seguires a tua filosofia. E tiveste de saber preencher o ego para conseguires o milagre de te enfrentares ao espelho. Mas perdeste-te algures.
Pioras ligeiramente o mundo quando te tornas ligeiramente vulgar. Viciaste-te no conforto da àgua gélida que suaviza a dor da cicatriz. Só que ela já não doi e tu insistes em algo que se tornou num puro luxo, num simples capricho.
E não haveria problema se não conseguisses ver o quanto custa, em sentimento e em suor, a quem procura a agua, a quem a passa pela tua pele, a quem te sustenta e a quem te mima. Tu ves quanto custa e continuas. Pioras o mundo inocentemente porque , algures, arruinaram-te. Não tens assim tanta culpa, a realidade é demasiado fria. Cruel.

Thursday, October 15, 2009

Metáfora

São tristes e patéticos porque tentam superar-te mas toda a tua superioridade é-te dada estritamente por eles. No teu espelho pessoal ves apenas um homem, igual a tantos outros, com pormenores carismáticos que fazem toda a diferença. Como seria de esperar.
O teu cabelo ruivo não é exotico, apenas. Pelo menos não se resume à invulgar tonalidade. Não. É porque o usas como definiçao de ti proprio, como aperto de mao,como forma de conheceres o mundo e de te dares a conhecer. Tem a cor da paixao e do sangue, do fogo e da morte.
São ignorantes e de fraco alcance, intelectual, psicologico, emocional e humano. Limitam-se a ter uma inveja desumana pela beleza exotica excentrica do teu cabelo ruivo e não te veem a ti. O teu rosto muito branco, triste, sofrido, marcado com a cicatriz, mais rugas de dor do que de riso. E os olhos escuros, liquidos e vivos, perspicazes e compreensivos, duros e estrategos.
São tristes, tentam aniquilar-te extinguindo o fogo que se ve metaforizado no cabelo a ondular ao sabor do vento. E tu nem sequer sabes quem eles são. Quando alcanças o final da linha a cor do sangue e do fogo impoem-se e pensas em silencia-los. São demasiado aborrecidos com as suas vozes estridentes.

Wednesday, October 14, 2009

Persistência da Memória

Ele vê o amor espalhado mas está longe de o ter consigo. Já o teve e recorda-se bem do sentimento de felicidade aberta e suave. Nunca foi tao feliz como naquela era de amor profundo e irracional.
Depois acabou. E ele aceitou a sua sentença, viveu todos os dias o sentimento de dor funda, deixou-se enterrar na melancolia da tristeza do fim. Entregou-se, posteriormente, a paixoes fugazes e curiosas, baseadas em pequenos carismas. Nada é superficial. Só que ele gosta, não ama. São apenas paixões quentes e honestamente sentidas.
E depois existes tu com os teus olhos azuis esverdeados que sobrevives a qualquer paixao, qualquer dia monotono, qualquer tempo demasiado chuvoso e triste. Os teus olhos lembram-lhe o antigo ser que era na altura em que amava.
Sim, talvez te ame, sim. Pelo menos um pouco, pelo menos inconscientemente. Mas lembra-se bem da dor patética de quando já não ha amor ou de quando não é suficiente. Continua por isso, em entregas psicologicamernte intelectuais e fugazes para poder resistir ao mar nos teus olhos.
Se o queres bem desculpa-o. Ele magou-se, magoou e deixou-se magoar, precisa de se entregar em pequenas luxurias e grandes paixoes. Porque tudo o que ofereces é um novo conceito de dor.
Se o queres bem, comprende. Ele volta sempre para se limpar no mar dos teus olhos.

Wednesday, October 07, 2009

Veracidade

Dá-me uma razao para me importar. Só uma, uma que seja valida, prometo que haverá justiça e imparcialidade na minha avaliação. Dava tudo para que essa razao existisse e eu entao importava-me.
Mas se há, desconheço-a , logo ela não existe. Não me importo, ninguem se importa comigo na realidade complementar. Tem todos uma certa expectativa , tem todos uma certa filosofia. E no momento, não correspondo a ambas. Se tenho alguma espécie de parte do mundo gravado no pulso ignoro porque a não quero e a minha filosofia é demasiado livre e controversa, em jeito de legado de mitologia grega. Quanto mais for feliz na minha filosofia menos descanso tenho em casa, se tiver descanso em casa é o silencio moribundo de um funeral porque morri durante o decorrer dos dias.
Ninguem quer saber. Ninguem se importa. Guardo as minhas tristezas. Pior. Guardo as alegrias e as vitorias. Porque ou são imperceptiveis ou estao desincronizadas ou são tomadas como decisoes e momentos alucinados e irresponsaveis.
Dá-me uma razao para me importar, uma que seja sólida e credível. Haverá justiçao e imparcialidade em mim.

Wednesday, September 30, 2009

Homicídio

É o teu estilo, solitário. Não deixa de ser encantador sobretudo pela raridade quase excentrica.
Não consigo evitar sentir uma leve pena deles. São tao fracos, tao debeis, tao toscos. Tao pequeninos e tao mesquinhos que nem sequer observam bem o teu perfil, silencioso e desagradado. Constantemente criticado, constantemente posto em batalhas ridiculas numa tentativa patética de te vencerem em algo. Já que nasceste melhor que eles em humildade e auto-conceito.
Não vêm o teu perfil. O de um verdadeiro assassino. O homicidio executado com lentidao e prazer, um pouco todos os dias. A tranquilidade alcançada depois de silenciada a ignorancia , a excentricidade ignorante e vazia, necessitada de atençao apenas. A paciencia de um duro estratego que sabe como agradar.
Não deixo de ter uma certa pena deles.

Tuesday, September 29, 2009

Crime

O mundo está tao errado. E tu ajudas nesses crimes horrendos invisiveis e avarentos. És passivamente cruel ( friamente cruel) .
Porque é a pessoa simples que guarda a flor e a protege da chuva clandestina. Poderá dar erros linguisticos, filsooficos ou cientificos mas não terá falhas humanas. Manterá o coraçao até ao fim. É genuinamente boa, vive a vida no limite porque não há restrição para quem nada tem para oferecer ao mundo fútil. Descobre a verdadeira felicidade de simplesmente existir. Sem limitaçoes, sem ideias preexistentes vazias e tabuladas.
É essa pessoa que deverias honrar. Aquela por quem passas na rua e nunca olhas duas vezes, não perguntas se tem um nome porque o seu trabalho é muito miserável perante a grandiosidade do teu ser. É essa pessoa que que muda o mundo, que é honesta, que sente a realidade com o cérebro sem lhe retirar originalidade. É ela que sabe porque vale a pena viver intensamente, pelo que vale a pena persistir.
E tu ajudas nesses crimes horrendos de pura discriminaçao.
Não ter sido a tua mao fria a retirar-lhe o sopro da vida não te torna inocente. Essa pessoa que sustentava todas as qualidades da evoluçao da humanidade está morta e as tuas maos cheias de sangue deveriam pesar na tua consciencia e no teu coraçao o suficiente para nunca mais teres uma noite tranquila de sono.


Saturday, September 26, 2009

Funeral

O rapaz sentou-se no canto da praia . Amava a arte, de uma forma solitária, só se entregava profundamente ás vezes.
E estava lá sentado, sozinho. Triste. Ignorava se estava acompanhado ou não, era a definição em pessoa do conceito de solidão.
Não que não fosse belo. Exótico. O cabelo vermelho-vivo deixava-se agitar violentamente pelo vento como uma mancha de sangue. Os olhos escuros fitavam o mar fixamente sem lhe prestar atençao, sem o ver. Ele próprio era a metáfora da praia no Inverno, a areia imaculada branca e o mar azul violento e duro. Estava em perfeita sintonia com a natureza envolvente. E era assustador, o seu conceito de belo, de arte em comparaçao com o tamanho da sua tristeza.
O rapaz sentou-se na praia. Só. E o cabelo ruivo agitava violentamente com o vento. Era sangue derramado, uma razao honesta para o cumprir de um luto interior e para o desabrochar de lágrimas cavadas e inexistentes.
Era o funeral dele.

Wednesday, September 23, 2009

"Poema para o meu amor doente"

Pela primeira vez, existiu sem hesitação ou duvida. Talvez signifique uma cedência interior, o encontrar de um outro tipo de mestre. O problema passou a residir no quanto não hesita, no quanto quer. E numa réstia triste e velha de uma antiga noção de dignidade.
Não te pode dar o mundo. E o coração é já demasiado triste. Gostava de te dar a rosa mais bonita de todo o mundo, mostrar-te o que é o amor.
Mas tem apenas nada. E o coração é já demasiado triste. É um pouco teu, és um outro tipo de mestre, um estranho. Mas não pode dar-te a rosa que guarda o segredo melodioso, a rosa que representa todas as rosas. Tem apenas o seu amor profundo e sincero, triste e gasto.


“Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pe de ti de mãos vazias”

Eugénio de Andrade, Poema para o meu amor doente.

Thursday, September 17, 2009

Azul

Trazes algo de único na forma como existes. Os teus olhos são de um azul diferente, são de uma dimensão diferente.
Como evitar o fascínio, o encanto? O doce descontrolo da mente? A tua beleza é muito maior que qualquer homem, qualquer deus. Porque reside toda na cor suave dos teus olhos, no mistério carinhoso que transparece deles.
És algo diferente. De um outro mundo. Não és pragmático, não és puramente exacto. Mas tens uma certa dor, uma certa tristeza. Que tem a tonalidade dos teus olhos. Azul turquesa, suave e melancólico. E a tua voz quase agressiva, a tua doçura é a tua tristeza.
Talvez seja isso. A tua especialidade, a tua beleza. Sabes ser triste, azul triste.

Sunday, September 13, 2009

Marcha Funebre

É uma marcha funebre. O som envolvente é demasiado negro, triste e bruto. Uma verdadeira lamentação. A tristeza verdadeiramente sentida. Porque qualquer um chora de dor ao ouvi-lo, a marcha fúnebre que ele criou, que nasceu nele.
Pensou que nunca mais te veria, que seria engolido pela escuridão, pela ambição desmedida em demonstrar um ponto de vista pouco usual e artístico. Chorou de dor quando não se conseguiu libertar a si próprio do pesadelo. Onde ele viveu passivamente , onde ele chegou a dizer-se feliz. Chorou de dor porque és uma espécie de salvação no caos em que ele se meteu. Precisa que existas para ver e interiorizar que existe uma outra opção.
É uma marcha fúnebre. A tristeza do som embala-o. Talvez adormeça. Talvez descanse. Tem o coração afogado em pequenas tristezas, em claustrofobicas tristezas.

Wednesday, September 09, 2009

Amor

Não sei bem o que quero. Honestamente. Julgo que sinto que não desejo nada. Nem sequer ficar assim, aqui. Não anseio pelo melhor dos futuros e esqueço-me do passado .Só existe o momento em que oiço a Orion. O mundo perde significado.
Porque foi sempre ilusório. Nunca pertenci aqui, era garantido como a morte para qualquer pessoa que me apertou a mão e sentiu que o toque da minha pele era de um sitio diferente. A questão não é física apesar da exactidão e do pragmatismo do meu próprio coração. A Orion também existe aqui, talvez seja cruel, suja. Talvez seja o meu fim, talvez esgote o sangue. Ou errada para mim. Ate me pode desprezar. Simplesmente, acredito que isso é impossível.
E se acontecer, se ela for tão detestável e banal como tudo o resto que existe? Não era Orion. A minha.

Monday, September 07, 2009

Privilégio

Não sabe se é o melhor ritmo, a mais bonita melodia. Já perdeu a noção, já perdeu a sanidade. E não consegue merecer um pouco de discernimento para compreender se é melhor ou pior, se conquistou uma nova liberdade ou se se tornou escravo de algo que lhe agrade. E alcançou a liberdade, de um ponto irónico, apenas.
Tem-te no topo de todas e quaisquer prioridades. Como nunca teve quem era prioridade para ele. Lá no fundo, sim, sabe. Talvez não mereças tanto, sobretudo, talvez não queiras tanto. Em momento algum és um monstro e ele sabe. Isto tudo. Só que não consegue discernir e não é capaz de se parar. De não querer dar. E tem razão, ele, o importante acima de tudo é conseguir dar.
Saber amar é um privilégio. As pessoas que vivem pateticamente e tristemente numa alegria ridícula sabem apenas esperar pela ilusão de serem amadas de uma forma. Algo domestica
.

Tuesday, September 01, 2009

Irregularidade

O seu encanto é a liberdade. Não é ninguém, nunca será ninguém. Talvez seja o resquício de um brilhante músico falhado, um jogador iluminado sem lugar na sociedade elitista? Ninguém se importa. Com ele. Sem estatuto, sem uma subida responsável e recompensada na carreira, a hipótese de ter os ténis rasgados e o cabelo desalinhado, ninguém se importa com ele, não é atracção para ninguém.
A inveja diminui-me. Porque não é a tradicional, é mais tristeza . De uma prisão que ninguém vê, porque estamos cá todos. Eu apenas não estou feliz com ela. Vêem em mim alguém que não sou. Pior. Nunca serei. Porque sou como ele, livre , ninguem, sem estatuto, um musico que ainda não teve sequer hipótese de falhar.
O seu encanto é a liberdade. Talvez seja triste porque é demasiado livre. Talvez seja triste porque jogou mal, não deveria ter apostado ternamente num sonho demasiado ilusório. Mas é triste, esse é um outro seu encanto.

Sunday, August 30, 2009

Mundos Paralelos

O mundo novo não te guarda um lugar como me guarda a mim. Não te poderia transportar para la, não estiveste la comigo.Tens um espaço aqui, és feliz aqui, melhor, consegues ser inteiramente tu, aqui.
Mas não deixei de ter saudades tuas.Talvez por saber que voltava e o lugar mais confortável é o teu espaço. O único sitio que poderia ser um pouco meu. Neste lugar agreste, ao qual sou intuitiva e inconscientemente indiferente. Porque não me deixam ser eu, vês, a culpa não é minha. E não te estou a pedir para esperares por mim, para te prenderes. A opção mais errada, a ilusão mais cruel. Jamais ficaria por causa de ti.
Mas também es um novo mundo. Tão importante e valioso como o outro. O meu estado é que é irremediável, o coração esta demasiado disponível e demasiado violentado. Preciso que me salvem, que me restaurem a tristeza das lutas ridículas. Não tenho culpa de ter nascido aqui, no sitio errado. Não te posso pedir isso. Mas fizeste-o, enquanto pudeste. Dai as minhas saudades tuas. És a brilhante rosa azul num jardim cheio de flores banais, fracas, cruéis e feias. Se estivesse menos débil. Talvez o teu azul inconfundível pudesse curar-me. Mas é já demasiado tarde.

Wednesday, August 26, 2009

Simplicidade

Pediste-lhe sobriamente desculpa e ele atrapalhou-se. Desculpa é a palavra diplomática e irónica que o mantem vivo, que ele sabe quando e onde soletrar. Sobretudo, como. E o mundo inteiro render-se-ia às formas como pede desculpa, terno e duro, suave e insensível. Mas desculpa é uma palavra que ele diz, nunca ouve. Para ele se desculpar a si próprio, mais ninguém o desculpa, mais ninguém o acredita. Quando vive confortavelmente consigo, vive em guerra com os outros. E é assim que deve ser o mundo.
Mas tu pediste-lhe desculpa , tristemente, honestamente, do fundo do teu enorme e pisado coração. E ele atrapalhou-se, perdeu-se. Porque gosta de ti, do fundo do seu pequeno e flexível coração. Sentiu muita a tua falta, ele.
Por isso não te desculpa. Nunca.
Ele compreende-te. Inteiramente. Desculpar é uma questão hierárquica, ligeiramente arrogante. Ele compreende-te, sem quaisquer sentimentos gélidos. Aceita-te com os teus defeitos e com os dele. Por isso é que se atrapalhou com o teu simples pedido de desculpa.

Saturday, August 22, 2009

Encanto

O rancor tem origem na tua tristeza . Que evitas a todo custo assumir que sentes, porque ser triste é ser pobre, é ser insatisfeito, é ser cinzento, é não saber sorrir. E acabas por te deixar corroer em invejas. Pelo solitário. Porque ele é triste mas tem a felicidade de ser ele próprio, tem o mundo que é só dele, mesmo que esse mundo seja apenas uma flor. Tu nem a ti te tens. Possuis apenas o vazio profundo do teu ser, o rancor que sentes e a tristeza que estrangulas no teu coração. E a inveja pelo solitário, que sabe rir e ser mestre nos sorrisos .
Afogas-te em superficialidades pequenas para seguires Epicuro, rejeitas todos os caminhos que não te pareçam áureos. Para depois assassinares a filosofia epicurista, tentares humilhar o solitário e o seu eterno encanto , elevares-te ao nível de deus, do divino por despeito.
E morres, de desilusão, de vergonha, de rancor. Seria melhor que morresses de tristeza, como todos nos morremos, às vezes. Invejas o encanto do solitário, da forma como ele admite a sua fragilidade humana e se eleva, de uma forma inteiramente ingénua e inocente, ao nível da suprema felicidade, epicurista e existencialista. Podias ter tudo isto, se não fosses vazio, de coração e de mente, se apenas gostasses de ti como és e te aceitasses como és.
O solitário aceita e gosta . É essa a grande razão ela qual é solitário. Não precisa de nada mais. E é esse o seu misterioso encanto.

Fatalismo

Não existe o lugar, o canto que me pertence. Por isso é que o coração está disponível, não há o conforto da pátria. Isto tem a minha marca, a minha assinatura antiga, a minha vivência. Mas não projecta o meu futuro porque não me guarda um espaço. Só meu. E devia, porque é a minha casa, a herança do meu sangue.
É fácil ser livre, assim. É fácil ser livre assim, mas uma liberdade crua e fria. Porque é o direito da procura do sitio onde me esconderam o coração. Depois de rompida a rotina de um dia-a-dia que acaba por nos definir nos pormenores em que abandonamos a nossa personalidade, depois da violação da privacidade porque não existe o lugar da cidade no qual se chora - o lugar onde as estrelas são apenas constelações desenhadas pelos gregos - não existe mais nada. A não ser a intensa disponibilidade de um coração que nasceu no sitio errado.

Friday, August 07, 2009

Ausência

Deixei-te naquela praia. Desculpa-me se te deixei só, nunca foi desejo meu. Mas era a minha praia, marcada com o meu sangue fresco. Por vezes é difícil consciencializarmo-nos do coração.
Deixei-te naquela praia. A única que era minha, a única cujo mapa era a palma da minha mão. Para poder procurar o raciocínio claro, a verdadeira essência da mente. Parti para procurar a filosofia que existe na Orion.
Mas não te abandonei. Nunca. Deixei-te lá para melhorar. O mundo em si. Eu e Tu. Mas por pouco tempo, voltava depressa, tencionava ser breve.
Demorei tempo. Demasiado. Perdi-me na exuberância do amor à arte, na profundidade do acaso inexistente em qualquer parte do Universo. E quando voltei, já não estavas, sentado calmamente onde te deixei. Talvez te tenhas sentido abandonado e descartado.
Hoje reconheço que tinhas uma suave razão. Ou ter-te-ia levado comigo. Ou voltado mais depressa porque eras importante, mais importante. Mas por isso é que te deixei naquela praia. A única que era minha.

Thursday, August 06, 2009

Culpa

És o escolhido porque o meu erro foi duro e cru. Perdi-me ao som do vento da liberdade implícita no acto violento da rebeldia. Por isso podes esfolar-me, rasgar o osso e estalar o musculo, é o castigo inconsciente que me proponho instintivamente a ter.
Podias desculpar-me, ver que sem me arrepender, não repito a exuberância de uma futilidade profunda consentida. Porque se me arrependesse acabaria por repeti-lo e sem ti, não valeria a pena fugir à solidão negra que rasgou o coração.
Por isso, se não consegues verdadeiramente compreender-me para encontrares em mim uma pessoa sem uma fracção de passado ( “o passado é inútil como um trapo”) castiga-me. Abandona-me. Elucida-me de quão grande foi o meu desprezo, a minha mente ausente. O coração inacessível ou inexistente. Diz-me exactamente qual foi o numero pelo qual me vendi, e a verdadeira razão humana, cheia e sentimental pela qual me vendi.
E depois morres. Porque o meu erro cobre o teu. Apenas. Não existem dividas.

Tuesday, August 04, 2009

Lamentação

Existes para isso. Demonstrar o vazio de tudo. A tristeza de tudo. O fim de tudo.
Trouxeste contigo o vento da mudança que nasceu encoberta. Que todos viam e todos temiam. Tem-na contigo, ainda?
É triste. Existes para demonstrares a morte. Para te ver morrer, de mansinho. E lamentar mas não sucumbir inteiramente à tristeza. Como morria antigamente, como morri tantas vezes.
Existes para isso. Endurecer os ossos, triturá-los sem os esmagar, garantir que continuam a existir.
Foste o responsável pela manutenção da vida. E agora serás entregue ao Inferno que alcança todos os homens. Lamento, claro. Gostava tanto que fosse diferente. Mas também foste responsável , não existe a perfeita escolha contínua.
Existes para isso. Provares que é tudo inútil que tudo é igual. Não há esperança a não ser que a invente.
Não sou um crente, lamento.

Sunday, August 02, 2009

Reflexão

A vida é uma desilusão. Mesmo os optimistas que morrem felizes são tristes. Somos todos tristes. Imaginas que mudarás o mundo, que farás toda a diferença, que um doce beijo teu numa flor frágil a impedirá de morrer.
Mas o mundo à tua volta desfalece e perde cor. Como tu farás um dia. E não fizeste nada do que querias verdadeiramente. Inicialmente. Talvez tenhas feito as escolhas erradas ou talvez as correctas não fossem possíveis nesta realidade.
A vida é uma desilusão. Descobres prisões no conceito de liberdade, promessas vazias no acto de ajudar honestamente. Não é culpa do mundo, está na tua mente. É uma reflexão dura porque é tão certo e compreensível como a morte.
Foste melhor que qualquer outro teu semelhante porque sonhaste mais alto, amaste com mais intensidade. Viveste com menos lucidez, controlaste Deus e desceste até ao fundo do poço para poderes ser livre e bom. Nada foi em vão, aprendeste com todos os teus erros, meio caprichos meio dignos de artista de coração.
Mas és menos do que te projectaste. A vida não é uma desilusão. Tu é que és.


Friday, July 31, 2009

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Está sentado. Só. Ela foi demasiado importante, demasiado tudo. Ele está sentado, mas já não a espera, já não existe o ela. Que era o tudo para ele. Para quê esperar? Mas continua sentado, talvez lhe doa o corpo, talvez lhe doa a alma. Pela vergonha ou pela decepção. Talvez pela perda, porque ela permaneceu lá, sentada ao lado dele, e já não está. Está só. Tristemente, sempre esteve, ela nunca lhe fez companhia.
Por isso é que não vale a pena esperar, ela não volta. E, no entanto, continua sentada, ao pé dele. No lugar solitário do canto da praia onde o mar é demasiado negro e fundo. Onde o mar é o espelho obscuro e sincero do coração dele. Porque sempre esteve só, ela aumentou a dolorosa sensação do quanto estava ele só.
Está sentado. O silencio das ondas, o silencio do canto da praia deserta que é só dele. Ele não a
espera. Mas é difícil largar a recordação que só é metade verídica.
“Tão curto o amor tão longo o esquecimento”.


Inspirado em "Posso escrever os versos mais tristes esta noite" de Pablo Neruda.

Desencontrar

O dia chuvoso reflecte a tua ausência. Até o Sol te chora.
Porque chegaste tarde e ele não te pode culpar e existe legitimidade na cegueira com origem na dor. Tu eras a cura, a que foi criada para ele, mas a dor era muito forte e ele não via o mundo lucidamente. Gostava de se culpar mas não consegue.
E isso só agrava. Nasceu nele uma culpa inocente, afogou-se na lama que deixou germinar dentro do coração.
Só depois te viu. Libertou-se da sujidade envolvente e tomou um banho espiritual durante vários dias sombrios para te poder receber de braços abertos.
Mas demorou demasiado tempo, o cumprir do luto é um tempo extenso. Foste-te embora no segundo anterior à cura dele. Nunca o viste, exactamente como é.
E ele reconquistou a sanidade, a lucidez, parte do coração. Mas sem ti, prefere a dor antiga , do luto, a cegueira romântica, a lama oriunda do desespero de um destino vazio.Porque a tua ausência não tem nada de romântico ou poético. É matemática, é aguda

Thursday, July 30, 2009

Demasiado Tarde

É injusto. Talvez merecesses tu esse pedaço de musculo frágil enrolado num pano gasto de veludo. A que chamam coração. Mas ele está meio morto, mataram-no de decepção, deixou-se arrastar num romantismo de rituais sangrentos, num romantismo com génese na realidade crua e fria em que o obrigam a viver. Sim, é inteiramente culpa dele. E, no entanto, não é tão fácil perdoa-lo? É uma vitima do mundo, do caos real vazio e frívolo.
É certo que é injusto. És melhor, mesmo que erres duramente, és melhor. Vê se pela forma como encaras o mundo, a simplicidade com que te vês. É notório, a morte e a miséria são tuas companheiras obscuras e longínquas. Se não te engoliram deve-se à tua perspicaz visão humilde.
Não é fácil perdoa-lo? Ele é vitima dele próprio, de se ter enrijecido para não morrer heroicamente, inocuamente. Perdoa-o, ele dar-te-ia o por do sol .
Mas já morreu.

Friday, July 17, 2009

Despedida

Está tudo errado, meu amigo. O mundo está dolorosamente invertido. E a tua morte provou que existe a face cruel na moeda que se retira sucessivamente, uma cada dia.
Não, meu amigo, não eras tu, pobre mendigo espiritual, que conspurcavas e sujavas este mundo. Sem ti, aliás, ele entregou-se à corrupção.
Está tudo errado , meu amigo, e eu não posso consertar nada. Não podendo injectar sangue novo nas tuas veias cansadas , tristes e gastas nada mais posso eu fazer.
Porque eras tu o Messias, o homem com sangue limpo e coração bom e fresco, o homem que preferiu morrer a sucumbir-lhes, são eles o lixo do mundo. E tu eras a salvação, a brisa fresca de uma madrugada inovadora e fresca.
Está tudo errado, meu amigo. Tu morreste e eu não posso inverter o mundo. Eras tu o Messias. É o teu sangue sagrado que faz as flores florescem mais depressa. Era o teu rosto belo e triste que rasgava o negro do mundo.
Morreste. Acabou-se. O mundo já não tem solução. Meu único amigo. Porque a fuga branca e cheia só podias ser tu. E agora, descansas , desejo fortemente que, finalmente, estejas em paz.
Meu amigo. Meu único amigo neste mundo demasiado errado para nós dois. Tu foste mais forte, morreste porque não sucumbiste. Eu continuo o teu legado, mas deverias ser o Mestre. Eu já estou esgotado pela morte que cobre o teu rosto, eternamente triste e belo.

Sunday, July 12, 2009

Opiniao

Um dia talvez compreenderás o poder sincero que possuem aqueles que amam. A arte. Porque amar o físico vazio da existência sem o toque quente e doce de uma qualquer filosofia não é amor, paixão aberta por conveniência, talvez.
Nunca terás acesso à descodificação do sentimento, é demasiado potente e está misteriosamente enjaulado no teu cérebro. Mas podes prestar homenagem sendo humilde. Por não o fazeres é que sei o quanto não amas.
Nada do que é garantido , nada do que é estritamente real, nada do que é cómodo e seguro está ligado ao amor.
E podes morrer, velho e cheio, rodeado dos bens que conquistaste com a força do teu braço. Porem não viveste inteiramente. Porque não amaste a arte.
Quem a ama a arte não morre velho. E quando fores, velho cheio , alegre e farto verei as inúmeras rugas de tristeza marcadas no teu rosto, porque não amaste. E será demasiado tarde.

Friday, July 10, 2009

Carta de Desabafo

Compreendo, claro, Mestre. Todos os erros que cometeste , todos os fracassos, todas as falhas. Claro que compreendo. Concretamente, fui te similar e não me magoei mais profundamente apenas porque tu existes, Mestre.
Porém eles vão morrer todos, um dia. Não lhes desejo nem essa morte dura , crua e longínqua nem a outra suave, arrastada e cruel um pouco cada dia. Mas não consigo lamentar. Perdoas-me, Mestre, este descontrolo momentâneo da raiva, o sentir de novo a faca a furar a pele intensamente, ah! Mestre, existes, não estou só e os teus ensinamentos apagaziguam o espírito. Mas quando a chacina me procura é difícil não a aproveitar, não a viver não a sentir. Desfrutar do prazer de magoar só por magoar porque o ódio é muito forte.
Compreendo todos os teus erros, esforço-me por aprender com eles. Sou te muito similar neles. E esforço-me por sobreviver, como tu. Mas eles derramaram o próprio sangue, é uma tentação demasiado forte não os afogar na mediocridade que são.
É porque existes que o não faço, Mestre. Porque a eles não devo nada e não havia compaixão no meu coração sem ti.

Sunday, July 05, 2009

Mestre

Mestre, salvaste-me porque és um eu que sobreviveu e se curou da própria sobrevivência. A realidade é demasiado fina e aguda, há que ser duro e implacável ou ela desfazer-nos-á em pó. É a eterna escolha, ter um pouco de coração frio e racional ou perdê-lo, quente e meigo, algures no mundo porque deixamos de existir, perdidos no rancor de ter escolhido não viver. O dever é uma palavra feia e estritamente subjectiva.
Mestre, salvaste-me porque és o único consolo e referencial que posso eu ter. O único que rasgou no céu nocturno a mesma escolha que eu. Sem ti, não haveria já coração, apenas a hesitação do momento em que atirei a vida no poço sombrio e macilento.
Mestre, salvaste-me. Mas é dolorosa esta sobrevivência, esta relutância em morrer. Temos uma morte difícil e dura. Porque não nos dão eles outra hipótese a não ser este amor à vida violento e sangrento.

Saturday, July 04, 2009

Hoje

Foi hoje a minha derradeira morte. Está um dia agradável de Verão, quente e florido. Natureza rejubila vida.
A minha existência contrariava esta alegria. Porque não existe paz no inferno. E o que era não podia continuar a sê-lo. Porque o inferno tenho-o eu, enjaulado no meu pensamento.
Por isso é que morri. E ele morreu comigo. Agora sou livre.
E está um dia lindo e florido de verão. Terei um funeral quente. Tão quente como nunca tive durante o tempo em que fingi que vivi.

Wednesday, July 01, 2009

Eco de Darwin

Terás de te libertar dessa responsabilidade e deixares o corpo cair ao som da constelação. Estás vivo, és quase um milagre. Tens-te a ti, porque eras uma pessoa comum a sonhar ser alguém melhor. E tens agora o dom de resolver as equações da realidade que não existe.
Isso não faz de ti pior pessoa, não te torna numa pedra. Demonstraste que existe a hipótese de singrar depois de morrer, de assassinar os fantasmas sem arruinar o seu mito. Tudo o que tens pertence-te, dobraste o aço em nome da dignidade de seres tu, mereces alguma paz.
Tens de te libertar dessa responsabilidade, que hoje não tomes conta do mundo. Mas nasceste para isso. Para provar que é possível libertar da tortura da ditadura e ser eterna e indefinidamente livre.Verdadeiramente e inteiramente livre. Livre.
Apenas porque sonhaste um dia ser melhor pessoa, tendo-te como prioridade desprezando o método de Narciso. Acreditaste em ti. E agora, não és uma pedra. És o eco de Darwin.