Thursday, March 24, 2011

Rosa Perdida

O lugar vazio de um sítio que nem sabias que era importante, porque às tantas és melhor do que esperavas ser. O mundo tem esse impacto em ti, dá-te o sonho e o sabor do sangue.
Mas o Amor é mesmo o melhor que existe na essência Humana. E depois de tantos dias compridos e cheios de uma massiva tristeza, os esverdeados olhos esperam-te num abraço que só te cura as feridas se for o abraço dela. O precipicio de onde so saltas se aqueles braços te segurarem o folego. Porque há sensações pelas quais vale sempre a pena morrer, morrias para sentir os teus dedos entrelaçados nas manchas sedosas do cabelo. O sentimento de paz que te surge quando a silhueta se destaca da multidão e tu a identificas. Por mais densa que fosse a multidão, identificarias aquela silhueta em qualquer momento.
O lugar vazio de um sitio que nem te apercebeste que se colava ao teu coração enquanto quebrava a dureza do teu ego. E acabas por te encontrar no espelho com uma consciência mais fina. És melhor do que sempre julgaste que eras, melhor do que o melhor que desejaste ser. Porque o Amor é esse sopro de final de tarde Verão quente , enquanto as tuas mão memorizam a essência do mar.
Amachucou o papel na mão. Que importava? Enconstou para trás a cabeça e acariciou a longa barba branca. O lugar vazio de um sitio que nunca se apercebeu que játinha sido queimado há muito tempo, há quase tanto tempo como aquelas doces palavras que lhe voaram do peito para ela. Antes de ela nao querer saber , nao entender o valor. Antes de ela querer comparar o amor que ele lhe tinha com a vida ordenada e banal que sempre desejou a seguir ao seu típico celestial e aborrecido casamento.
Amachucou o papel e levantou-se. Depois de terem passados tantos anos, a dor era igual. Atenuou mas continuava latejante. Nao lhe doia que ela o tivesse deixado. O que lhe doia, desde aquele dia até hoje, era ele te-la amado.

Saturday, March 12, 2011

Desprezo

O som do meu riso ocupa, quase involuntariamente, esta sala quadrada que me dissipa a raiva que se vai misturando com o sangue, colando ao ego. Porque, no final, meu amigo, so me apetece olhar-te, ver quem és. E rir-me. É involuntario, acalento no meu espítito a ideia firme de que és uma vergonha ate para esta triste sociedade; és um atraso ate para quem já morreu neste tempo cinzento.
Oh! Não comprimas os músculos como se a tua dor fosse imensa, uma dor nunca é patética e sempre me orgulhei de não ser cruel. A dor, para ti, é quando rejeitam a oportunidade superficial e estúpida de preencheres o vazio que esse complexo de existencia deixou na tua essência. É que, meu amigo, nem sequer és cruel. Ou perspicaz. Ou movido por algo que imponha qualquer tipo de respeito, não é tudo tao pouco que , sinceramente, oiço o meu proprio riso onde julgava viver um consentido desprezo.
Ah! Outra vez, o teu eterno e ruidoso sentimento. Honestamente, deixas-me saudade da cruel e fria forma perspicaz como esta sociedade , as vezes, aniquila ideais e esventra egos demasiado bonitos para poderem viver aqui. Porque? Ah é tao simples, eles ao menos evocam respeito pela forma inteligente como se movem numa massa cinzenta baça abstracta a que se chama multidão. Ao menos eles puxam a evolução à força de a negarem. Tu puxas nada, reclamas nada. Sofres nada. Vales nada.
Por isso, meu amigo, meu inutil e oco amigo, ironicamente oiço-me a rir abertamente da tua patetica existencia. Após aquela irritação , so vejo um palhaço triste a continuar o seu patetico e feio espectaculo quando o publico já o rejeitou e já abandonou a sala.

Friday, February 25, 2011

Arte

Uma certa paz invade-me as vezes. Sinto uma enorme vontade de deixar o Sol entrar pela janela e aquecer a minha essência. Porque quando todos entregaram a Deus os seus sofrimentos eu alonguei o meu coraçao na arte. E a arte tornou-se no meu único Deus, a única forma de não praticar ateismo. Ou obter das entrelinhas da minha existencia um argumento filosofico agnostico.
A arte, sob qualquer sensação, é a minha religião. Desde a arte do heroi que libertou um país pela sua bélica crença na liberdade ( que lhe custou apenas a mortal vida) à forma como , de vez a vez, a tua voz me aconchega os pesadelos e os tornam irreais. Ou aquele quadro onde revejo, egoistamente, uma parte do meu ego que nunca lá esteve sem deixar de, efectivamente, estar lá ou o não veria.
A Arte é o meu único Deus. É o Sol que entra pela minha janela e torna o espirito leve. É a minha única religiao. E sou feliz com ela quando a tristeza , que chega sempre, nada pode contra este Sol quente e radioso. E estou em paz. É tudo o que importa. Tambem eu tenho um paraíso e um inferno, não são iguais aos teus mas não são menos verídicos ou válidos.

Tuesday, February 15, 2011

O Novo Aquiles

Quando sentires o doloroso e alongado chacinar da tua essência, será já tarde. Quando sentires o estalo cru dos teus ossos. Já é tarde.
Ah! Não vês? Ele herdou a força e a magnificiência de Aquiles mas a consciência da fragilidade do calcanhar oferece-lhe um destino diferente. E torna-se ainda melhor e maior ao reconhecer em quem não se quer tornar. Não quer ter qualquer semelhança contigo.
Por isso, nada podes tu contra ele, contra alguem como ele. Nada ganhas ao tentar vencer a suave e fria perspicácia dele. Diverte-te agora, enquantojulgas que podes. Enquanto a consciencia bruta de que és nada e miserável não está definida no teu corroído espirito, julgas que podes tentar humilhar um teu semelhante. A tua aguda e estridente ignoranância transforma-te nesse triste ser que não sabe viver.
A tua patética ignorância te não deixa ver que ele é um Aquiles renovado depois de lhe teres esmagado o calcanhar. Tornou-se ainda mais bélico e mais estratego, quando desejar entrar na guerra vence-a. Facilmente.
Quando ouvires o som dos teus ossos estalarem, quando sentires todos os teus musculos rasgados como papel, será tarde. Não devias ter tentado esmagar-lhe o espirito. Entende, ele é o novo Aquiles, ao proteger o calcanhar tornou-se invencível. Enquanto tu és apenas mais um triste e decadente mortal que se gasta em cobardias porque, quando te olhas ao espelho, tens essa inegavel certeza de que és pouco, de que és miserável. De que nada vales.
Ele é Aquiles, ao proteger o calcanhar tornou-se invencivel. Que podes tu contra alguem como ele? Diverte-te na tua ignorancia enquanto julgas que és Rei. Rei de Nada porque é isso que és.

Sunday, February 06, 2011

Orion

Meu amigo, todos nós somos miseráveis e existem apenas dois tipos de pessoas. As que reconhecem a sua miséria e que acabam por ser melhores e maiores que a desgraça que as define. E existem as outras, que nem sequer consciência da miséria que são têm e vivem nessa arrogante ignorância ilusória de que a existência deles é melhor e mais saudavel do que a dos outros.
Como vês, meu amigo, existem dois tipos de pessoas. As que são pessoas e as que fingem que são pessoas na esperança de serem recompensadas por serem mesquinhas e pequenas. Por serem rídiculas. E patéticas. E burras. E, indefinidamente, cómicas.
Mas, meu amigo, a tua miséria sempre foi um melódico e triste desconcertar interior. E a miséria que sou é o que tu foste, talvez a tenha herdado de ti. Talvez tenha isso como legado teu, essa triste de tão melancolicamente verídica, visao objectiva e abstracta do mundo.
Porém, posso dizer-te onde duramente erraste contigo. Porque, por mais miseravel que fosses, meu amigo, existe sempre Orion que te vela e te afaga o sono. Existe sempre a Orion, a estrela que reflecte a tua grave e melodica tristeza para não seres apenas a miséria que és. Existe sempre a Orion que, ao te nunca deixar só, evoca uma esperança bélica e te torna naquilo que fizeste com a miséria que tens consciencia de ser.
Porque somos todos miseraveis , meu amigo. Alguns , simplesmente, tornam-se em algo melhor do que isso. Entregam a pureza de um ideal de ego à Orion. Porque “estamos todos na lama, mas alguns conseguem ver as estrelas”.

Tuesday, February 01, 2011

Deslize

Eles tinham isso em comum, um amor excêntrico e aberto pela música. E, para eles, a música era o ponto máximo da existência de Deus sem se preocuparem se Ele existe ou não. A música era a beleza máxima de uma vida epicurista, era a Orion numa noite fresca de Verão, era um por-de-sol numa tarde quente. A música era a cor do espirito, o que os mantinha vivos. O que os mantinha juntos. O Amor pela música alongou-se , alcançou a verdadeira essência Humana. E a música é amor, é arte, é a sombra da solidão que os nunca deixava sós.
Mas so tinham isso em comum, o amor excêntrico e desmedido pela música. E, algures, ela trocou a música por algo mais futil sem, nunca no entanto, deixar de exibir esse aberto e azul amor pela música. E ele deixou de a amar, a música era a vida dele. A música era ele. Não tinham nada mais em comum. Eram opostos. O amor que lhe tinha perdeu o fundamento.

Monday, January 31, 2011

Ciclo

O Amor obriga-o a ser o que ele gostava de ser e ele gosta de ser só ele. O Amor obriga-o a cumprir esse papel até que esse papel que ele cumpre se torne real e ele seja isso. O Amor fá-lo alcançar esse ponto em que a ilusão se torna válida.
Mas ele gosta de ser só ele. Em alguns dias, gosta de ser apenas ele. E o Amor que tem pelo seu proprio ego fá-lo ser ele.Inteiramente e apenas ele. Esse mesmo ele, que harmoniza o Amor no teu peito. E cumpres esse papel até que se torne real, até que ele creia nesse eu que representas todos os dias. Até que essa imagem, essa permanente actuação se torne real. E tu sejas quem julgas que és. E tu te tornes em quem queres ser.

A Crença II

Sempre o silêncio como sombra claustrofobica de palavras mortas que alcançaram o futuro. E a crença de que um amanha melhor chegará num destes dias. Mas o teu Mestre está morto.
Entregas-te a pequenos prazeres, a tua fé já foi esventrada. Trocaste a esperança por um ego de aço. Trocaram-te a fé pela procura da credibilidade do ideal que te move. Porque o teu mestre está morto.
O teu rosto guarda as cicatrizes de todas as vezes que venceste. Não estarias aqui se não tivesses, habilidosamente, sobrevivido. Tornaste-te melhor porque venceste o teu próprio medo. Mas o teu mestre morreu, o medo , mesmo na sua cristalina utilidade, não desgraça tanto como a dor.
E assassinaste Deus antes de Ele existir, toda a plenitude de existencia que tens , pertence-te. Mas o teu mestre morreu. Em ti. E, agora, todas as palavras estão mortas porque perdeste a crença.

Friday, January 28, 2011

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Escreverei os versos mais tristes esta noite. Meu amor, o mundo é triste e a felicidade não deixa de ser uma disciplinada forma de viver. O ínicio guarda o mistério de não conseguires adivinhar o fim. Esgotámo-nos. Esgotámos as expectativas de um novo mundo que nunca chegou.
Escreverei os versos mais tristes esta noite. Meu amor, as estrelas não se comovem com a dor humana porque, quando a veem, outra diferente desgraça já se instalou. E outra aquecer-se-à nos meus braços assim como tu te aqueceràs nos braços de outro. Meu amor, esgotámo-nos. É inutil. Amei-te e, em momentos de cristalina existencia, amaste-me. E , agora, tudo é irrelevante porque se esgotou o Amor. Amaste-me e, em dourados segundos, amei-te. Amei-te até quando te não amei. Amo-te aínda, enquanto me esqueço. Amo-te ainda, enquanto o fim se instala e o passado se torna numa pequena e longíqua memória.
Escrevi os versos mais tristes esta noite. Meu amor, a ilusão tem a sua metade de verdade. Mas o Amor esgotou-se. E a estrela so te pode indicar o Norte se te quiseres perder. Porque o que foi passado tem a sua metade de inutil. Meu amor, recordo quem és mas já não reconheço a tua essência. Escrevi os versos mais tristes esta noite, o esquecimento nunca tem a sua metade de quente. Esgotámo-nos. Esgotei-me em todos os versos que escrevi. Esgotámo-nos.

Orfeu Envelheceu

Orfeu envelheceu. Entregou-se a um outro tipo de morte e a tristeza calcificou-lhe a essência. Orfeu envelheceu e nos fundos traços de uma existencia quase imortal lêm-se as entrelinhas de um amor que lhe arruinou a crença. Que o deixou vivo depois da morte ter ido ao seu encontro.
Orfeu envelheceu. Guarda aínda no peito o inconfundível perfume de Eurídice. Da sua Eurídice, ama-a quando a relembra. Ama-a só quando a ama, a não pode amar quando não a ama. Orfeu envelheceu, esqueceu o que era o amor , guardou apenas a memória do que era aquela vida. Orfeu envelheceu mas o mundo continua jovem.
Talvez não fosse Eurídice, talvez Orfeu tenha entregue a melodia única da sua lira à Eurídice que não era Eurídice. Mas está envelhecido, Orfeu. Ama-a ainda quando a relembra. A não pode amar quando a não ama porque o fogo congelou-lhe o coraçao. Orfeu envelheceu.
Sempre foi a Eurídice errada. E Orfeu está velho. A morte abraçou-o e deixou-o vivo para contemplar a o fim da sua harmoniosa essência todos os dias.
Orfeu envelheceu, era a Eurídice errada. Mas, de alguma forma, foi a sua Eurídice. Ele sempre foi Orfeu. Era a Eurídice errada mas era a sua Eurídice.

Wednesday, January 19, 2011

Incomodo

É um incomodo que lhe não sai da pele. Porque, quando o caos se apodera , a tua imagem reconforta-o. E ele sente-te a falta e deseja o teu abraço.
Mas tu és um eu morto. E ele é um eu morto, o eu dele que te amou. Morreu.
Quando uma qualquer desilusão se abate sobre o ego dele, sente-te a falta. Foste o único ser que nunca o compreendeu. Amaste-o sem o compreender.
É um incomodo que lhe não sai da pele. Só tu o conheces o suficiente para reconheceres as suaves extravagancias dele ou o momento em que o coraçao dele se despedaçou. E, tu. Tu nunca o compreendeste.
É um incomodo que lhe não sai do espirito. “Roubou todas as rosas dos jardins e chegou ao pe de ti de maos vazias”. E esse romance que não conseguiu singrar reflecte demasiado bem o que ele é.
É um incomodo corrosivo que lhe não sai da pele. Este amor que ainda te tem sem te dedicar amor algum.

Tuesday, January 18, 2011

Carta de Homícidio

Sinceramente, é uma parte brilhante do meu ego da qual há muito deixei de me orgulhar. A minha perspicácia tornou-se numa meia hipocrisia incisiva. E sempre preferi viver o suficiente para ver a ideologia que desprezo perder-se no tempo por ser demasiado medíocre. Sem pre tive essa mordaz cobardia em nome de uma calma e tranquila vingança crua que nunca era executada pela minha mão.
E, às vezes, é preciso sujar as mãos com sangue alheio para se ganhar o direito de viver com calma. A violência gera um ciclo de violência que uma paz utópica nunca atenua. E, não, não me consigo vanglorizar por ter unido a minha relutante sombria honestidade com um ideal que não singra aqui.
Porque o meu erro é culpa inteira vossa. É um clima de competição que a vossa mediocridade gera. O meu sangue está guardado porque sempre foi limpo, o que me misturei com voces foi uma fria estrategia . A minha triste ironia é tao concisa que a tomam como elogio. E o meu cru divertimento vive na forma como são tao facilmente enganados.
Não, não tenho um especial orgulho na minha brilhante estrategia de existir, conhecer-vos e manipular-vos. Mas , às tantas, nasce uma vontade calculista de derramar sangue e eu perdoo-me do meu proprio pecado. O erro sempre foi vosso. A minha brilhante forma de vos manipular faz com que a responsabilidade da vossa torturosa morte seja inteiramente vossa.

Monday, January 17, 2011

Last Kiss II

O meu amor morreu. Numa noite tranquila e pacata, cheia de linhas que desenhavam novos horizontes. O meu amor morreu na noite mais estrelada desse Verão.
Agarrei o meu amor até se despedir de mim, até me despedir de mim. Abracei o meu amor até a sua essência se confunfir com a minha pele. E senti o beijo doce de quem sabe que vai morrer. E o meu amor morreu nessa noite, nessa noite em que a lua iluminava tanto como o Sol. Agarrei o meu amor de perto, agarrei o meu amor até o luar desaparecer eternamente da sua essência. Da essência do meu amor.
Agarrei o meu amor até que o inevitável congelasse a minha consciência. O meu amor morreu nessa noite, na noite mais estrelada desse Verão, na noite em que as estrelas desenhavam um horizonte longíquo de uma vida que nunca se concretizou.
O meu amor morreu nessa noite. Na noite em que até a Lua se esgotou e a essência do meu amor entregou-se ao negro e eterno silêncio do vazio.
O meu amor morreu. Morreu nessa noite, nessa fresca , aromática e típica noite de Verão. E, quando vejo, o meu amor moribundo numa qualquer rua. Lembro-me. Lembro-me daquela infindável e suavemente perfeita noite de Verão em que o meu amor morreu.

Monday, January 10, 2011

Pain in the heart

A vida é simples. E às vezes o amor é linear. Tu é que tens os olhos iluminados com outra cor, tu é que nunca viste a simplicidade de uma existência pacífica e essa visão nunca se tornou válida. Foi por isso que a amaste e foi por isso que a não amas já. A simplicidade dela desenhou o inicio e o fim do teu amor. A vida nunca foi simples para ti, o amor teve sempre o peso da filosofia. A essência humana justifica tudo sem explicar nada. A simplicidade dela fazia-te ver uma outra realidade mais suave e mais bonita. Mas ela tornava tudo demasiado fácil. E a tua vida nunca foi fácil. Ou linear. O teu ego era filosofico ninguem se importou alguma vez com a melodia que orientava o teu coraçao. E deixaste de o ter em parte. Tornaste a tua mente equilibrada. Existencialista. Livre.
E não há nada de simplista no conceito de liberdade. Ela sempre foi simples, nunca foi livre. Amaste-a , mas os teus olhos sempre foram de uma outra cor. A da liberdade. E nunca foi uma escolha tua. Nunca foi linear, a tua forma de demonstrares que estas vivo.

Monday, January 03, 2011

Movimento Anti-Regras

Que azáfama com as regras! Vais acabar por premiar quem as souber quebrar com originalidade. Mas quem as não cumpre recebe a tua penalização, nunca tiveste esse espirito criativo que te permitia ser um Ícaro que venceu o Sol porque era espontaneo, as convenções normalmente são nocivas .
E eu vou continuar a ignorar as regras literárias das vírgulas e as palavras sem acentos continuam a ser perceptíveis. É o conteúdo que importa, o resto não deixa de ser ornamentação. Se compreendes o que escrevo, entao o resto é ornamentação.
Que azafama com regras que so ficam para a historia porque serão quebradas! Penaliza-me o que quiseres. Nada tem haver com as incorrecçoes com que escrevo, tem a ver com os mestres que sigo. Todos eles muito maiores que tu, cumpridor cego de regras obtusas.Ao contrário dos meus mestres que inventaram novas regras à força de as quebrarem por serem vazias
.

Sunday, January 02, 2011

O Amor

Disseram-lhe que o amor era isto. Uma forma bonita de coexistir com uma morte permanente.Mas so recorda os traços do teu rosto quando a morte lhe aconchega o sono.
Talvez tenham razao. E o amor seja so uma metáfora que mantem o espirito faminto por uma nova sensação. Mas é irrelevante, a pele dele memorizou a essencia do teu sorriso. E, quando uma qualquer consciencia dolorosa e humanamente avassaladora lhe atravessa o peito, lembra-se que te sente a falta e uma dor pacifica instala-se.
Talvez o amor seja so uma forma diferente de se entregar o coraçao a uma morte que se alonga no tempo. Mas, quando adormece, a tua memoria protege-o de pesadelos reais e ele perde o medo de morrer. Porque, se morrer, é de uma forma melodicamente bonita.

Rosa Azul

A melodia do silencio deixa que o calcario escorregue pela tua consciencia. Falhaste. Porque a tua tristeza sempre foi melancólica mas violenta .
Ela esperou por ti.Incansavelmente. Naquela esquina sombria. Ela esperou , esperou que o tempo te trouxesse com ele nas suas esquivas formas de governar o mundo. Mas tu nunca chegaste porque deixaste a tua rosa morrer. E percebeu que se chegasses , chegavas demasiado tarde e , entao, mais valia que tivesses morrido. Mais vale nunca do que demasiado tarde.
Falhaste. E é um desconserto que não consegues apaziguar na tua alma. A figura dela, expectante, crente. A esperança que é o inicio da ruína. E o abraço que nunca lhe deste porque a tua rosa morreu. De que te valeria ofereces-lhe todas as flores de todos os jardins? A tua rosa morreu, as tuas mãos estariam sempre vazias.
Melhor era que ela te desse como morto. Perdeste a tua rosa. Mesmo que que a tivesses encontrado naquela esquina, não serias tu. Porque a tua rosa morreu nas tuas maos à força de a quereres, desesperadamente, salvar.

Saturday, January 01, 2011

Fénix

Um dia calmo, igual a tantos outros. São todos semelhantes, os dias, a diferença és tu que a fazes e, às vezes, a vida é demasiado simples para não seres atingido com essa complexidade existencialista que distorce o raio de luz.
No meio da rua, no meio de uma multidao sem rosto. Anónima. Como são todas as multidões. Respiras fundo e tapas o teu rosto singular com o capuz do casaco, queres ser reconhecido pelo não-reconhecimento. É uma metáfora desfocada e cheia de nevoeiro. Todos estão expostos e são todos demasiado pouco para mostrarem qualquer tipo de espirito.
Respiras fundo. Paras no meio do passeio. É uma loja de brinquedos, é uma loja de crianças. Ah, foi o inicio do teu pesadelo, foi o teu momento de maior felicidade. Foi o inicio dessa tua tortura arranhada e arrastada, procura anular-te melodicamente em vez de te assassinar. Foste uma criança brilhante, brilhante à tua maneira. Foste tu e todos desenharam traços da tua personalidade, da tua vida e tornaste-te grande. Tornaste-te o melhor de todos. Tornaste-te no rosto que se reconhece no meio da multidao vazia porque é impossivel verem quem és. So se ve o que és e isso eles não vem. Foste uma criança feliz, foste uma tarde de Verão com o som da Orion e aroma de amoras e tornaste-te numa fénix. Mas não há fenix nesta realidade e tu és so um homem melancolico que parou para observar uma loja de brinquedos. Porque foste uma infancia feliz e agora estao todos mortos, todos com excepçao de ti porque te tornaram numa fénix. Quase invencivel, quase imortal. Mas te não roubaram a sensibilidade, a humaninade. Te não tiraram o que te fazia ser brilhante: a forma perspicaz e estratega como compreendes humildemente a essencia humana. És uma fenix mas não deixas de ser uma fenix solitária.
Um dia monotono. Não te traz nada de novo porque a ausencia de novidade tambem é uma forma de inovação. E tu dominas tudo isso, tu sempre tiveste esse ego dualista que te mantem vivo sem te manter insensivel. Mas eles morreram todos, a tua infancia foi queimada. E tu estás em frente a uma loja de brinquedos a lembrar-te de uma criança que em tempos foste tu. És um sobrevivente. A tua forma de seres genial é sobreviveres humildemente, demonstrando inteligencia sem demonstrares supremacia. A tua genialidade está na forma como os teus semelhantes te penalizam por seres sempre melhor que eles. Sempre algo diferente.
Tiras o capuz da cabeça. Já o não necessitas. Às vezes torna-se exaustivo penalizarem-te por algo que não tens culpa. És um sobrevivente, um estratego inato. És uma fenix. Mas tantas vezes que preferias ter morrido. Com eles, com todos eles. Com a tua infancia. Misturas-te com a multidao , é indiferente. Estás indefinidamente descontextualizado.

Friday, December 31, 2010

Essência

Era um encontro de bandas, a mais famosa, a mais conhecida era a ultima a tocar. E ele estava la sentado, tranquilo e orgulhoso de si mesmo. Treinava umas quantas horas por dia para melhorar a sua técnica. Pena que nunca tenha melhorado a sua alma, a sua essencia não evoluia. A sua essencia era muito pobre e a técnica não sustenta a música, não. Não. A técnica transforma essa ideia musical numa linguagem que seja perceptivel a todos.Pena que ele não soubesse isso mas, que é que sabia ele? A sua essencia era pobre, tinha as ambiçoes trocadas queria ser grande antes de gostar da imagem que vê no espelho.
Mas estava muito orgulhoso, muito rejubilante, afinal a sua banda era a penultima a tocar e mal podia esperar para descobrir quem era o guitarrista da ultima banda. Devia ser um homem espectacular, um artista, um bebedo eximio, um homem com visao. Um novo líder desta geração, tinha de ser muito grande para ser melhor que ele. Pegou numa revista qualquer e, distraido, começou a folhea-la , ocupado com os pensamentos sobre quem seria o guitarrista da ultima banda. Foi quando a viu, uma rapariga muito sossegada mas com uma auto-confiança de ferro. Os olhos azuis eram perspicazes e , ele adivinhou, que seriam capazes de ler os pensamentos das pessoas. Devia ser namorada de algum guitarrista, ou irmã. Sentou-se perto dela e introduziu uma conversa de ocasião. Ela era tudo menos comum e respondia-lhe em palavras curtas e forçosamente educadas. Estava aborrecida com ele. Quando foi chamado para tocar e se despediu dela, parecia bastante aliviada mas ele não viu, nunca ve nada que não goste, dai a sua arrogancia patetica.
Porém, quando voltou da sua actuaçao, ela ainda lá estava. E estava ainda mais cheio de si, mais contente e mais orgulhoso da sua técnica. Ficou destroçado quando ela lhe disse que não tinha gostado muito. Ele perguntou-lhe, educadamente, que é que ela percebia do assunto e ela disse que tambem tocava guitarra. Ele encontrou um topico de conversa que considerou que o favorecia: sabes, acho que tocar guitarra é uma coisa de homem, por melhor que as mulheres toquem, não sei. Não superam os homens. Ela ficou verdadeiramente ofendida e nem se deu ao incomodo de lhe responder e ele continuou: por exemplo, já ouviste o guitarrista da ultima banda? eu nunca o vi mas é o maior. Dava tudo para o conhecer, para aprender coisas com ele. Mas é um homem e nenhuma mulher o consegue superar. Para surpresa dele, ela concordou obedientemente e disse-lhe até já quando a ultima banda foi chamada ao palco.
“ Há conheces algum membro da banda, da ultima”, Perguntou, meio entusiasmado, meio ciumento. E ela, calmamente, virou-se para ele e sorriu: Conheço-os a todos, eu sou o guitarrista da banda.

Monday, December 27, 2010

Não-Família

Família. Um conceito interessante, dos mais interessantemente controversos, talvez. Família. Mas sem aquele romantismo arrastado de filmes baratos com ideais dignos de alguem em que a ignorancia ocupa a maior parte do cerebro. Não, familia. Falo da familia, daquela que se escolhe ter para garantir uma parte do ego em movimento, em crescimento. Em evoluçao. E, surpreendentemente, em casa. Ah sim, familia. Irmaos de sangue ao estilo viking onde a lealdade é o altar maior, é a maior e mais dificil demonstração de coragem. E de amor.
Família. É dúbio. E o amor que se desenvolve ganha espaço num mundo que é frio e cru. Um amor que sempre esteve lá mas que em algum momento peculiar é activado e o mundo conquista um sitio sagrado e mitico, um canto da praia onde Sophia ainda esta viva, onde a menina dos fósforos encontrou a paz. Sim, isso é familia. Sem romantismos . A vida sempre foi uma coisa real, faze-la mover-se numa evolução melódica requer genialidade, requer amor. Não há genialidade sem amor e a genialidade mora as vezes em pequenos pedaços de quotidiano que conquistam um pedaço de coraçao quando tudo é esquecido porque o mundo é triste. E a familia está lá, a descongelar um coraçao perdido, uma alma quebrada. A familia está lá, no seu quotidiano descompassadamente ritmada, sincopado. E nasce aquele santuário, aquele canto da praia onde tudo é possivel, a Alice atravessou o espelho e encontrou um mundo que lhe fazia mais sentido, na areia lem-se ainda pequenos pensamentos de Oscar Wilde e , o mar, na sua eterna melancolia azul traz, de vez em quando, um principezinho que corre aquele canto de praia em busca da sua rosa. Sim, familia é esta segurança , este lugar seguro porque tudo é possivel. O conceito de familia não é seguro e confortavel porque é estavel. Oh não, é reconfortante e revigorante porque nada é estavel e tudo é possivel. Até a ferida que rasgou o coraçao de papel e esmagou o espirito pode ser curada.
Mas não um daqueles conceitos de familia baratos. Não é uma pintura vazia de uma ceia de Natal. Oh não, é precisamente o contrario. Irmaos de sangue, onde o coraçao é demasiado largo e fundo para não ultrapassar qualquer contratempo, qualquer obstaculo.Familia é este canto de praia onde a brisa marinha guardou a essencia de Cliff Burton e tu te sentas lá. Quieta, a ouvi-lo. A familia torna tudo possivel. Mas não aquela familia barata e previamente imaginada e construida. Oh não, não. Esta familia que tu escolheste como tua. Irmaos de sangue, ao estilo viking. Lealdade como bem maior, imaginaçao e utopia como ideal. Um lugar sagrado que não existe e, que por isso mesmo, vai existindo. E nos somos aquele lugar, onde a familia está para alem do laço de sangue sem deixar de ser, tambem, uma questao de hereditariedade. Familia, um conceito controverso. Mas não em nós, “pagoes inocentes da decandencia”, que construimos aquele canto da praia onde tudo sempre foi possivel e, por isso, conquistamos uma fracçao de genialidade, de louca e racional genialidade.


Para a minha irmã

Monday, December 20, 2010

Noite Estrelada II

O calor de uma noite intensamente fria. Sem música, sem som. A ausencia de qualquer coisa é ainda mais tenebrosa que o esguio grito de uma noite estrelada. E aquela noite nunca mais se alongou no tempo, estagnou à espera que a alguem a puxasse do poço onde o esquecimento é maior que outra qualquer coisa. Não, aquela noite é um buraco no tempo, um corte no peito. Porque a vida era demasiado simples, demasiado leve e boémia para sobreviver. Ou para não morrer, estagnada no tempo.
Mas a noite é calorosamente fria, como se o gelo não trespassasse qualquer coisa e o silencio devolve-me uma paz muda que não rasga a pele. Ate o bater do coraçao é mudo, ia jurar que às vezes não bate. Porque está demasiado frio e a noite alcançou-me a essencia. E aquela noite, a outra, nunca mais se vai repetir. Aquele estado de não responsabilidade não poderia durar para sempre. Nada dura para sempre.
Ficou gravada na pele, a tua essencia, ate hoje. Daquela noite que nunca mais se alongou no tempo. Somos outros eus, tao iguais e tao diferentes. A evolução deixou-nos exactamente no mesmo ponto. Como naquela noite, em que nos despedimos; como naquela noite, que é um buraco no tempo porque o calor de Verão não aquecia um frio que se instalara. O fim nunca tem a sua metade de quente.
Mas esta é uma noite fria, calorosamente fria. Porque somos os mesmos eus, perdidos naquela noite que se alongou no tempo. Perdidos naquela noite que durou ate hoje. Ate esta noite, em que o amor assumiu a sua forma de coral. É muda , colorida e ternamente silenciosa.
Afinal, só eu é que morri. Naquela noite em que me sentei à tua espera rejeitando a esperança que tinha do meu regresso. Sim, só eu é que morri.

Saturday, December 11, 2010

O amor pelo Idealista

É uma alegria estranha. És algo no meio termo deste mundo horrivel, das-lhe tanto calor existencialista como o frio calcário de quem caminha solitário e triste por uma ideologia que só vai chegar depois da sua morte.
Mas vai lá Deus saber porquê, tem em ti uma fé esquisita, quase inabalavel. Ornamentada com tanta compaixão que nem chega a ser fé , é mais uma lógica abstracta prolongada no tempo. Talvez porque falhaste, falhaste durante tanto tempo que te purificaste assim, como um jogo vencido no inverso. Entao ele tem esta fé estranha em ti, não por crer que não falharás mas porque já falhaste mas ainda estas aqui , mas o teu coraçao é de seda azul cheio de metáforas dificeis de compreender. E porque, nunca verdadeiramente, lhe falhaste. De todas as vezes que precisou de ti , que precisou que te elevasses para além da mediocridade desta sociedade, tu elevaste-te. Não por teres em espirito a mesma ideia dele de como seria o mundo. Não. Elevaste-te porque falhaste e ele é aquele ser meio animal meio homem, cheio de uma triste felicidade às vezes e outras o encanto dele mora na felicidade melancolica com que se senta , invadido por uma esperança moribunda de que isto mude. Elevaste-te porque o amas, de alguma forma, de alguma maneira típica e genuina que o torna ele e que te torna tu.
E é uma alegria estranha, amar-te. Porque às vezes o coraçao fica pequeno porque pertences tanto a esta realidade vazia quanto o resto das pessoas que passeiam pela vida sem a viver. Mas o não deixas cair no abismo, das-lhe a mao e sussuras-lhe que esta vivo e que estas aqui por ele. No caminho solitário e triste de uma ideologia que ainda não chegou. Que o define e, como tal, tu defendes porque o amas. Porque ele é único aqui e tu o tambem és. Sobretudo quando ele te dá a mao e te não deixa so nesta realidade que te suprime a beleza da essencia que carregas no peito.

Thursday, November 25, 2010

Noite Estrelada

Ele sempre soube que não seria igual, que nunca mais seria igual. Aquela noite estrelada com aroma a alcool e cigarros e a uma nova hipotese não se repitiria. Nunca mais. E ele sabia, ele soube durante toda a noite. Assim como tu o soubeste, a noite toda. Mesmo quando o aroma de uma vida boémia se tornava romantico, ele sempre soube que nunca mais estariam naquele ponto, quase inocente de tao pouca inocencia.
E durante todo o tempo que esteve ausente o teu ser era recordado junto com aquele cheiro, com aquele ambiente. Boémio, suave, arriscado e romantico. Por isso é que não te esqueceu durante o tempo em que esteve ausente, o teu perfume era inigualavel. Por isso é que o deste como perdido. Porque ele nunca se perdeu de ti.
Esteve ausente do mundo , ele. Quis estudar o Amor de forma imparcial, quis compreender a sua genese. Mas acava por te sentir a falta e a ausencia de mais noites estreladas com cheiro a alcool e a cigarros cheias de um ambiente boemio, marginal e romantico. Cheias de algo que ele nunca tinha visto ou sentido mas que sempre coexistiram nele.
Ele sempre soube que aquela noite nunca seria igual às outras. Encontrou a definiçao do proprio Amor naquelas ruas sombrias encharcadas com vida genuina e alternativa. Encontrou-te a ti quando descobriu que aquele tinha sido sempre o teu perfume, o cheiro da sublime tentação dele.
Por isso é que regressou passado tanto tempo. A definiçao do Amor és tu com esse aroma caracteristico que ele correu o mundo à procura mas só descansou o coraçao junto de ti.
Porque ele sempre soube que a noite, aquela noite, nunca se repitiria. E, por isso mesmo, continua contigo à espera que aquela noite estrelada, cheia de uma essencia boemia ornamentada com uma nova esperança se repita e se torne maior. Porque a definiçao do Amor sempre foste tu, sempre foi o teu perfume, sempre foi a tua visão do mundo.

Wednesday, November 24, 2010

Cinzento Fúnebre

Talvez te doa porque deixaste esse mundo paralelo eternamente aberto e ele não vai cá estar para te dizer que de todas as vezes que o Inverno se instala, a Primavera sucede-o. Talvez te magoe porque foi uma hipotese que so viste quando ela deixou de existir e pior do que chegar em contratempo é sentires que o tempo passou por ti e não se despediu. Como ele.
Epera que te não sintas só, sem ele. Já não volta o mundo das sombras é um mundo ilusório que desfaz o caminho assim que é pisado. E não, ele já não volta foi lhe roubado qualquer coisa porque o mundo é so isto. Um conjunto de pessoas tristes , tão habituadas à sua propria miseria que vender a alma para pagar uma qualquer dívida não tem qualquer relevancia. Porque o mundo , as vezes, torna-se so nisto, numa sucessao de acontecimentos tristes em que o Amor se dissolve nas crueldades melancolicas e patéticas do mundo sem o deixar renascer e florir os campos de novo, o Amor.
Saber o que é que magoa ou porque é que magoa é irrelevante. É filosofia, é meramente um exercicio filosofico e ele já não volta. Não, o tempo passou pela tua pele .Mais, passou pelo espirito dele e onde mora agora já o não podes acalmar dos terrores do mundo que ele viu e foi vitima. Não, o tempo já passou por ti ficou a memoria de uma metáfora que nunca se concretizou porque o mundo , às vezes, é simplesmente um lugar cruel em que o desespero de uma oportunidade que torne a vida melhor e mais suportavel conduz a uma crua , sangrenta e desumana forma de viver.
Não, não ele não volta de onde está agora. Nunca mais. Nunca mais vais poder confortar-te ao conforta-lo. Não, o teu amigo, o teu único amigo já não regressa desse caminho triste onde o puseram injustamente, precocemente sem o consentimento dele.
Perdeste um amigo mas , mesmo do alto do sitio cheio de tons de cinzento funebre, ele sorri-te. E pede-te para te não sentires so sem ele porque a pureza do teu espirito torna-te na única esperança deste mundo
.

Saturday, October 23, 2010

Antítese

É um corte que nunca lhe vai sair da alma. Tu. Aqueles dias em que a vida elevou-se numa nova consciência, em que ele se tornou mais condescente e humano porque tu estavas lá e tu eras tu. Aqueles dias em que a tua visão do mundo alargou o seu proprio limite de horizonte e deixaste de ter um ego tão cheio de restrições bem fundamentadas.
Aqueles dias que foram inuteis. Aqueles dias que foram uma ilusao verídica de uma realidade que não existe, ele era um comboio em movimento contínuo. É um corte que nunca vai deixar de ser visivel no rosto belo dele. O amor que fluiu e que era profundamente errado.
Porque tu es esse ser, tao carinhosamente igual, tão belamente não especial. E ele tem esta excentricidade que o define sem dizer nada de importante sobre o coraçao dele. O amor que te tinha dizia tudo sobre o coraçao dele e o amor que lhe tinhas dizia tudo sobre a profunda definiçao de o que eras.
É um corte que nunca lhe vai sair da pele , nunca vai deixar de escorrer sangue no espirito. Porque sempre foi um comboio em movimento, sempre foi o seu proprio destino e tu sempre foste uma vida estavel e tranquila num qualquer lugar. E daqueles dias bonitos e inesqueciveis contigo só relembra a inutilidade de um amor que é a antítese do sentido do mundo.
Hoje já nem sequer existes mas quando te vê é o seu reflexo que perde nitidez.

Sunday, September 12, 2010

Dédalo e Ícaro II

Ele estava tao feliz, o Dédalo que é salvou o ícaro que nasceu nele e ambos venceram o Sol. Alias, estava tao descontraido e tranquilo que estava controlado, estava em paz interior.
Mas tu chegaste. E tu és apenas isso, a contrariedade, a consciencia das adversidades. Lembraste-o que o Ícaro tem sempre asas frageis e que algures teve sorte. Não e inteiramente verdade visto que aproveitar oportunadamente a sorte é deixar de ter sorte. Mas retiraste-o daquela calma existencial em que se encontrava. O teu sorriso carregado de desagrado lembrou-lhe que existem ainda outras vezes em que o Ícaro terá de vencer o Sol. Em que o Dédalo terá de acreditar tao fortemente no sonho do Ícaro para lhe endurecer as asas sem as tornar menos frageis e ambiguas. Como um bom sonho.
Mas ele é o Dédalo e o Ícaro. Carrega o sonho de voar e as formas estrategas de o fazer resultar. Não é um qualquer, não morrerá com tanta facilidade. E tu és so isso, uma sombra crua e negra que avisa o pior porque foi a única coisa que aprendeu a fazer depois de ter falho o acto de viver. Se acertares, tu sim, acertaste por sorte.
E ele é o Dédalo e o Ícaro. Morrerá com honra como morre alguem que concretiza a utopia que idealizou. Ele é tambem Ícaro e hoje venceu o Sol, tocou-lhe e sentiu o aroma quente de quem sobreviveu orgulhosamente. Ele é tambem Dédalo e hoje descobriu que a tua genialidade demoniaca e triste não o alcança porque ele é que é movido pela crença na fé.

Friday, September 10, 2010

A tua escolha é o que és

Lá no fundo ele sempre quis ser isto apesar de ter gasto algum tempo a esforçar-se arduamente por não ser. Porque é dificil e é duro mas a glória que lhe prometem esta para alem de qualquer coisa mundana. Ser senhor de si proprio e fazer a diferença para quem necessita de ajuda é uma glória sentimental incomparavel.
E ele hoje é isso. O ser a quem as riquezas de praticar actos crueis simplesmente não convenceram, ele praticou-as mas não compensaram. Ele foi o ser que escolheu fazer o que acreditava que era correcto, ele escolheu a luz. Conscientemente. Tem gravadas no instinto de defesa todas as crueldades que podia ter cometido mas escolhe, activamente, usa-las de forma diferente. O seu ego é enorme e a sua fome de o encher é ainda maior, o orgulho que tem de sentir de si mesmo é gigantesco. E preenche-o, assim. Tornando-se distinto da multidao porque mudou a direcçao quando escolheu ser o que é. Orienta-se de forma inesperada e honesta. Algures descobriu que o amor não tinha preço ou substituto. E tornou-se honestamente naquilo que é. O ser com o cerebro tao genialmente cruel como os outros, demonios humanos, mas com um coraçao puro e sagrado. Itálico
E alcançou a gloria maxima quando rejeitou a gloria por completo e se tornou humilde. E tem a distinçao maxima e o ego cheio, equilibradamente, no limite.

Wednesday, September 08, 2010

Dédalo e Ícaro

Essa tua tranquilidade ansiosa perante a possivel morte é estranhamente agradavel. Porque tudo o que tiveste durante estes anos foi a tua miséria, a tua desgraça era a única que era tua por direito.
A sorte procura os audazes e a tua pericia estratega manteve-te vivo. Mas muito pouco da riqueza que possuis te pertence. Porque acreditavas que eras um milagre e algures tornaste-te num. Quebraste muitas convençoes crueis, a tua coragem levou-te para alem de muitos limites de muitos horizontes. Porém os sonhos que tornaste reais não eram os teus sonhos. Eras um Dédalo em auxilio de todos os Icaros que te procuravam. Sempre tiveste sucesso em concretizar os sonhos dos outros porque eras um milagre, um ser cheio de uma sorte audaz. E não era o teu sonho ou perderias a sorte.
Mas não agora. Despiste-te de todas as personagens que te definem e assumiste o papel de seres apenas tu. Perdeste toda a sorte porque perdeste a perspicácia nesse ponto. Procuraste o teu sonho, arriscaste a vida por ele. Não foste estratego, não foste Dédalo. Foste Icaro disciplinado pelo teu Dédalo a tentar alcançar o Sol. Foste um Icaro sem Dédalo porque esse era o teu papel.
Talvez morras amanha. Talvez, talvez. Mas essa morte é tua, arriscaste o que tinhas a única mascara que não consegues arrancar de ti. E por isso estas tranquilo, é algo que é teu por direito. Conquistaste a hipotese e isso apesar de não ser suficiente é um optimo começo.
Porque tu so tentaste vencer o que era invencivel para os outros. É a primeira vez que tentas não falhar naquilo em que acreditas. É inteiramente compreensivel que falhes a primeira vez mas se a morte não for fisica, meu amigo, continuas de pé.
Porque es o Dédalo e és o Ícaro. E serás sempre um milagre, nem que seja por rejeitares se-lo numa questao de leal honestidade. Tens uma ansiosa calma para saber o resultado na madrugada mas há algo que já te pertence.
O teu destino és tu quem decide.

Metade homem, metade besta

Metade homem. Metade besta.
Essa metade humana é condescente, é generosa. Tens um largo coraçao, uma honesta tolerancia e compreensao para quem souber identificar a tua lealdade de ferro. Uma nova e melhor versao do mundo move-te neste mundo, move-te se necessário, até à morte e para alem dela. Tens um coraçao limpo dos pecados do mundo o teu amor é honesto.
Metade homem. Metade besta.
Não consegues bloquear o fascinio pela inteligencia crua e fina, pela genialidade de uma acçao cruel justificada por uma alma desfeita em pedaços. A perspicácia e a astúcia aplicadas sabiamente, quer seja para conquistar o bem ou o mal. E no final, é essa metade de besta que te salva e que te faz sobreviver. Consegues deixar o teu coraçao à porta e sentar-te calmamente no dia da derradeira batalha sem ele. E não sentes nada a não ser que costumavas ter coraçao e ele agora não esta contigo.
Metade homem, metade besta.
Porque a tua metade de homem é esperançosa, é frágil. É movida por uma fé bonita. A tua metade besta salva-te , garante o respeito. Deixa-te entrar numa sala sem coraçao envolvendo-te num encanto peculiar de quem não vai cair com facilidade. A metade besta oferece-te um sorriso estranho mas tranquilo.
Metade homem e metade besta. No meio de uma guerra que nasce em ti tu alcançaste um equilibrio inconfudivel.

Tuesday, September 07, 2010

O novo Herói

O teu rosto é o rosto de uma multidao que não tem força para gritar. Emprestas o teu grito bélico e o teu braço leal aqueles que foram encurralados e cegados. Emprestas a compaixao violenta do teu coraçao aqueles que querem a libertaçao mas perderam a força e a força da esperança para se mexerem.
Podias ser um deles, dos que cegam e encurralam e assassinam em actos que não deixam sangue rubro escorrer. Podias se-lo, tens a mesma genese, a mesma liberdade e a mesma violencia. Mas o que tu desejas ardentemente é não seres um monstro e isso é tudo o que és. O que escolhes não ser é o que és, o que perdes mostra a cor da tua alma.
Por isso seguras e agarras aqueles que já perderam a voz para pedir ajuda. Corres o mundo por aqueles que já desistiram de lutar, afundados na tristeza que os sufocou. E estás lá com eles, a ver o brilho elouquente da morte em cada pedaço de sombra.
Existes para salvar quem o mundo escolheu matar . Um deus qualquer deu-te todas as capacidades que tem os outros unindo-as a uma consciencia humana e sensitiva. Colocou-te num sitio ao qual não pertences. Tornou-te igual aos que praticam as crueldades alheias e aos que as sofrem e no final a escolha foi tua.
O teu rosto é o rosto de todos que resistiram mas algures foram chacinados e não se conseguem mover. E, no final, a luta é entre ti e os teus irmaos.
No final és tu, movido por inumeras almas que te pediram ajuda e os teus irmaos que as torturaram. No final, é uma luta de titãs.

Sê Humilde

Para que o prazer do fracasso alheio? Isso não dimnui o teu. Nem o aumenta, apenas evidencia. Para que o amor à destruiçao sem proposito? Ouve, quando destrois deves ter o proposito de construir a única legitimidade para praticares esse horror é a liberdade. Destruiçao sem proposito é pior que a destruição por si só.
O que é que te dá, saberes que não foste o único a errar o caminho? Quantos mais afundares menos hipoteses tens de te salvar. Salvares alguem do mesmo erro que tu é a única forma de te ajudares. Quereres a destruiçao para te integrares e te sentires bem em frente ao espelho é um acto estupido e ignorante. Vais misturar-te com uma multidao onde vais ser apenas mais um. Falhado, fracassado. Falhaste a vida e falhaste no acto de viver.
Ter razao não vale isso, o queimar frio do teu coraçao. Porque se perderes a subtileza de sentir, de ter compaixao. Não tens razao, nunca a tiveste. Mesmo que acertes, não tens razao. Previste o acontecimento baseado em factos duvidosos, foi mais sorte que genialidade.E ter razao não vale isso, nada vale. Mas tu já te afundaste, não me vais ouvir não me afundei.

Monday, September 06, 2010

What ever happened

Ele quer ser esquecido . Nao quer que as suas carismáticas ideias e peculiares angulos de respiração sejam recordados Mais do que ser esquecido, ele deseja nunca ser lembrado.
Porque não vai ficar aqui. Não vai ficar aqui de forma nenhuma. É uma opção ilusória, é preciso viver de mentiras mal estruturadas para acreditar que ele pode ficar. Mais vale que vivas assim, sem ele. Que saibas conscientemente que ele não vai ficar aqui mesmo que retorne sempre. Não fica aqui de maneira alguma.
Porque é so isto, ele. Um comboio em continuo movimento com destino certo mas indecifrável. Um comboio destinado a não ter destino.
Inspirado em What ever happened, The Strokes

Saturday, September 04, 2010

Desfecho triste

Gostava de te dizer que não te perdoo mas na verdade é um gesto inútil. Sendo irrefutável, a existência da solidão é agradável. E compreendo-te.Não posso negar a nossa sintonia no nível da desgraça interna. Não te posso acusar.
Mas gostava de te não perdoar para continuares vivo comigo. Para existires em mim. Só para te manter vivo.Aqui.
Porém não posso fingir que te não compreendo. Demasiado bem, apesar de abstractamente. Perdoei-me porque tu existes. E, na verdade, não erraste perdoar é uma palavra que demonstra a minha dor. Apenas.
A tua despedidade é estranhamente dolorosa. Porque não me pões em causa . (E ,talvez por isso, sinta verdadeiramente a falta. )

É tudo nada. Menos que a memória mais volátil.



WinGs, 21/04/2009

Thursday, September 02, 2010

Lucidez

O fogo sempre o fascinou.Se por um lado era simbolo da força da clarividencia de uma luz dificil de apagar. Por outro era simbolo da destruição sem qualquer compaixao, quase imparavel . Maior que qualquer homem. E o fogo sempre o atraiu como um íman. Magnetico.
Tinha o isqueiro na mao. A tentação de sentir o calor da chama e de ver as cores magnetizantes do fogo foi muito maior que ele. A adrenalina do perigo fe-lo mover os olhos e procurar o papel, o medo que vivia nas suas maos tremulas não o impediu.Pegou no papel, num pequeno e insignificante papel. Aparentemente. Aquele papel resumia em palavras concisas uma vida que ele já tinha abandonado. Uma vida que não era a dele. Uma vida que o fez feliz e que depois o deixou entregue ao vazio de uma felicidade sem proposito.
Entao, no calor da noite, rasgou o papel em dois. Queimou apenas um pedaço e observou, maravilhado, o fogo expandir-se- Soprou e apagou. Mas não conseguia parar . Queimou a outra metade, movido por uma energia que quase o deixava em transe
Mas a chama era muito maior, muito mais atraente. Observou minuciosamente a destruiçao das palavras enquanto o fogo lhe fugia ao controlo. Queimou ao de leve os dedos e o medo inato libertou-o do transe.Atirou o papel para o chao e pisou-o.
Olhou de novo para o papel, para o que restava dele. Eram migalhas, apenas migalhas. De uma vida que viveu mas que nunca foi dele. Não tinha escolhido aquela vida e agora já não era importante. Queimou a metáfora. Queimou o facto.
Desde sempre que o fogo era fascinante para ele. Desde que se lembra. Deitou-se calmamente na cama, relaxado pela satisfaçao de ter visto arder. Aquele pequeno papel. Era certo que era louco. Mas se-lo-ia mais se não tivesse queimado aquele papel. É por ser louco que é livre. Livre ate de fantasmas , não ha nada que aquele fogo dele não queime.

Saturday, August 21, 2010

Liberdade

Tributo a William Wallace, libertador da Escócia

Apedrejaste o herói. Quiseste humilhá-lo para o assassinar depois de estar já morto. Mas só conseguiste esvaziar o corpo divino de sangue rubro. Só conseguiste esventrar a carne. O herói sobrevive ao seu proprio corpo. Sobrevive ao seu proprio tempo.
Torturaste o herói. Quiseste vence-lo , demonstrar-lhe a sua patética efemeridade. A fragilidade da sua pele humana. A tua raiva surda contra algo muito maior do que alguma vez serás levou-te a perderes-te no poder que o herói exercia sobre ti. Nunca o superaste , nunca o venceste. Nunca. Quiseste torturá-lo para não exibires a impotencia mediocre que te definia. Mas o herói não era como tu, mortal. Não. Trazia consigo o som divino da liberdade em cada insignificante gesto.O heroi trazia consigo um fogo impossivel de extinguir. Era divino. Mais, era livre.
E tu nunca foste melhor que o medo que sentias dele ou melhor que o medo que quiseste incutir. Nunca foste capaz de um feito maior, nunca alcançaste a coragem.
E se julgas na tua triste e patetica figura de poder prepotente que venceste. Vê. Perdeste. Perdeste tudo. O herói conquistou a liberdade apesar depois de o teres assassinado cruamente. Era divino porque era livre. E os homens seguem a coragem, arrastou com ele a multidao a que nenhum exército pode fazer frente alguma vez. A vontade de vencer foi a vontade de ser livre. E isso é invencivel.
E, se ainda julgas na tua estupidez alcunhada de nobre, que venceste algo. Vê melhor. No sitio onde ainda reinas, no sitio onde torturaste e assassinaste o herói, eu choro a morte dele. Do Messias. Mas sobretudo, venho honrar e enaltecer a memoria do heroi. A inspiraçao que foi. Mais. Que ainda é. Porque assassinaste o heroi, desfizeste o homem em pedaços. Mas nunca assassinaste a liberdade que o movia.
Repito. Vim ao teu sitio dourado honrar o heroi. Torna-lo ainda mais divino. Ainda mais eterno. Ainda mais livre. E recordar o seu nome e contar a sua historia. Renasce-lo. O teu nome é o nome da sombra cruel , nojenta e vergonhosa que assombra a humanidade. E, como tal, mereces permanecer na penumbra.
Vim honrar o heroi. Lembrar a sua existencia. Porque “todos os homens morrem mas nem todos vivem realmente.” Vê como perdeste tudo e perdes ainda. O heroi viveu , vive ainda e viverá sempre. Porque os homens seguem a coragem. Porque o heroi tornou-se num simbolo da humanidade, numa figura de verdadeiro poder que orienta e protege os que acreditam. Na liberdade.

Thursday, July 29, 2010

Intermitência

A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. E não importa onde mora o corte fundo da decapitação, outro dia nascerá. Poderás não manter quem és mas nunca fugirás ao que és. Daí que seja inutil, adiares a morte da noite porque ela termina de qualquer maneira.
E uma brisa fresca nocturna alcançar-te-á. Um dia deixará de ser importante, as coisas na tua vida tem o sentido que lhes deres e esse sentido será o único verdadeiro. De resto, nenhuma falha é infundamentada. O universo tende para o caos mas tu és um caos organizado, qualquer erro é lógico, qualquer erro tem uma causa e uma consequencia.
Mas não tens qualquer expectativa de inglória. Na verdade, a desgraça que ocorrer na madrugada não é culpa tua, sabes bem quanto vales. Mas esta realidade não pronuncia a mesma lingua que tu, o problema de comunicaçao inato alcançou o teu espirito.
A tua perspectiva é de vencedor. Mas como poderás ter alguma glória quando não te entendem, falando tu a lingua deles? Como poderás alcançar esse tipo de sucesso expectante se a diferença ajeita-se suavemente nos conceitos profundos que vos movem?
A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. Nem esses escassos minutos de noite viva que te restam. O problema não morre aqui. Os teus te não entendem, os teus são nada
para ti.

Monday, July 26, 2010

Last Kiss

Apagou o cigarro no cinzeiro e observou o fim da chama, o fim do fogo. Alguma vez o vais deixar? Ele não consegue apagar-te mais do que isto, não consegue desviar os olhos do cigarro desfeito pelo desespero com que o apagou.
Apagou o cigarro . Respirou fundo. A angustia estava enrolada na garganta, apertava os nervos do peito. Roubaram-te, roubaram-no. E o desespero dá-lhe uma energia esquisita para se mover. E fuma outro e outro. E bebe, já perdeu a noção do que esta a beber. Já te perdeu, que mais importa?
O cigarro desfeito lembra-lhe o teu corpo desfeito e amassado. O teu ser sem vida, perdida nos braços dele que nada podiam fazer. O desespero dele em devolver-te a vida que te tiraram violentamente. O desespero dele para que não fosse verdade. O grito calcário que escureu a noite quando a verdade crua o atingiu. A corrida louca que fez para fugir do presente. A corrida louca que fez para gastar os musculos, os ossos, o fisico porque o interior estava desfeito. Como o teu corpo, coberto de sangue, sangue inocente. A corrida louca que fez para se cansar , para ficar abandonado a um canto à espera que a morte ou que uma maior crueldade o abraçasse.
Apagou o cigarro no cinzeiro. Observou o fim da chama. O insulto violento , desesperado edoloroso ao acidente que te roubou, que o roubou. O insulto violento , torturado e trémulo ao Deus que não existe. Apagou o cigarro no cinzeiro e voltou para ela no meio da noite. Nada tem que ver contigo, não tem essa fragilidade e essa doçura que te tornavam um anjo na terra. Um anjo morto nos braços dele, ainda hoje sente a textura do teu sangue na pele.
Alguma vez o vais deixar? Alguma vez ele vai deixar de ter estes pesadelos frívolos em noites suaves sobre o dia da tua morte? Sobre o dia em que parte dele tambem morreu? Mas tem horror a esquecer-te, a deixar-te morrer, eternamente. Por isso apaga o cigarro violentamente e observa fixamente o cigarro desfeito, tao desfeito como o teu corpo inerte nos braços dele. As lagrimas puras dele não te acordaram. Mas tem horror a esquecer-se da suavidade aromatica da tua memoria, todas as noites acorda com o pesadelo real que o tortura. Prefere isso a deixar-te morrer, assim.

Wednesday, July 21, 2010

Carta aos falhados arrogantes

Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia colada ao coraçao seco e imundo. Porque o mundo é coerente, quanto menos se é mais justificaçoes terao de existir. E tu és tao pouco! Certo, é certo nunca tiveste oportunidade de seres grande, de seres um Sol aberto e brilhante no céu que aquece e ilumina. Mas podias ser decente, podias aguentar-te , podias ter uma boa morte.
Mas não.
Obviamente que não.
Mal aguentas existir nessa carcaça que enbelezas todos os dias ao espelho. És nada, assim o escolheste. Mal aguentas olhar o teu rosto pouco atraente no espelho. E de nada vale partir o espelho , por isso, no teu jeito patetico de fingir que és um sobrevivente, deformaste a alma. O teu rosto tornar-se-ia hediondo se não fosse demasiado triste, demasiado cómico. És so um ser triste que, por querer desesperadamente adaptar-se e esta realidade rejeitar o teu amor, usou o ódio como mascara.
Não. Espera. Correcção.
Usou a sua propria desgraça, usou o seu falhanço para mostrar que sobrevive e que não precisa de ter um lugar aqui. Que rejeita um lugar aqui.
É tao triste. És tao triste! E tao banal. Quase inofensivo, basta o respirar de um verdadeiro sobrevivente para te reduzir a menos que pó.
Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia que queres enfiar a força no mundo para não contemplares o circo cheio de palhaços tristes que és.
És um espectaculo triste , tao patetico que provoca o riso . Mas o teu ser frustado não tem graça, quando a cortina descer, verás que ninguem bate palmas.
Podias não ter sido um sol que ilumina e aquece. Mas podias ter sido decente. E alguem bateria palmas por teres sobrevivido . Só conseguiste aumentar a repugna e a aversao à tua existencia. “Os homens seguem a coragem”, devias ter feito o mesmo.
Obviamente que não.
És so um espectaculo triste que termina sem palmas, não conseguiste divertir nem os sádicos com a tortura que tentas esconder mas que sustenta a tua fealdade existencial.
(Lamento, e física.)

Saturday, July 17, 2010

Existir

Sentado no canto da praia. Na mente tem gravada a tua voz. Repetida, repetida. A frase, a melodia das palavras que lhe são estrangeiras mas familiares. Porque se fossemos apenas o que estamos destinados a ser demonstávamos a inexistencia de destino algum. Ele não quer ser isso, uma convençao repetitiva e triste.
Sentado no canto da praia. Calmo, sereno. A raiva que circula no sangue atenou o proprio sentimento de raiva que existe nele. Resta-lhe um pouco de tristeza, de melancolia, de cansaço, talvez. Está cansado, da raiva e da ausencia de raiva. Por isso deixa-se estar tranquilo no silencio de seda negro da noite. A ouvir o som agradavel da àgua. A contemplar o sentimento sublime de existir.
E a tua voz sempre presente no espirito dele. Repetida, repetida, repetida... Sentado no canto da praia, o seu santuário, o lugar sagrado isento de marcas que revelem a pertença dele a uma terra. Ou a uma nação. Isento de memorias bélicas que lhe causaram as cicatrizes espirituais e a marca dos condenados à morte tatuado no coraçao . A praia que é dele sem o ser. Nasceu num canto daquela praia, a ouvir o arrastar paciente do mar. Consertou-se e reconstruiu-se naquela praia, a maravilhar-se com os minusculos graos de areia que lhe provocam comixao nos dedos.
Sentado no canto da praia onde pertence, o santuario de religiao nenhuma. E a tua voz , e a tua voz , sempre presente. A relembrar-lhe o lugar que lhe pertence ,o lugar onde ele pertence.E a tua voz a cantar-lhe, numa melodia bonita, a sua condenaçao e salvaçao. A dizerlhe que as cicatrizes são feridas sãs.
Sempre a tua voz no canto daquela praia. Repetida, repetida, repetida, repetida... “
Music is your only friend until the end”, Sentado naquele canto da praia. Só. Com o mar. Em sintonia com o mundo nocturno . Só quando a realidade cala a sua voz estridente é que ele alcança alguma paz e ouve a tua voz. Ouve-te a ti, o teu ser perdido no teu tempo e arrastado ate ao tempo dele. Sentado naquela praia, num canto que não existe. O canto é ele.

Monday, July 12, 2010

Recurso a Eugénio de Andrade


Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias...


Eugénio de Andrade ( As Mãos e os frutos)

Thursday, July 08, 2010

Carta à Sociedade

Não quer ser isso. O filho prodigo que segura a mao do mundo quando o mundo lhe corroi a vida. Não quer ser o mártir amado e adorado enquanto o seu corpo jaz imovel e frio abandonado numa terra qualquer. Não quer ser isso, uma vida cheia de sucesso que lhe diz nada.
O falhanço nunca teve um sabor amargo tao agradavel. Se o mundo não esperar nada dele entao deixa-o em paz. Deixa-o livre. Na tua visao, mal se aguenta sozinho como vais contar com ele para alguma coisa? O falhanço nunca teve um sabor tao doce. Ao menos acabou a mentira patetica que se instalou. Acabou o conto de fadas triste ,dramatico e forçosamente feliz com um final visivelmente programado. Ele sempre disse que faria algo novo e que ninguem o ouvia. Ninguem lhe prestou atençao e ele continuou a avisar que um dia ia quebrar. Sempre disse isso, que gostava de quebrar convençoes pateticas que continuam de pé porque as pessoas não aguentam a sua propria frustraçao.
Não quer ser isso. Uma humana versao de Cristo que representa o bem e o perdao. Porque ninguem o desculpa a ele, ninguem olha para ele. Usam-no, exploram-no , violam-no. Arrancaram-lhe a privacidade, a liberdade, a unicidade suave e bela do ser dele. E ele quis de volta. E agrediram-no , disseram-lhe que o amavam, ninguem o ama mais que voces.
Não quer ser isso. Um filho prodigo que segura a mao do mundo sabendo que isso é a sua propria morte. Não quer ser filho, não quer ser nada. Quer ser ele, apenas ele.
E ele já esta quebrado. Já o quebraram. Parou a chacina. E embora tenha falhado sente que está no caminho certo.
Longe de vos. Monstros deglutores da originalidade para garantir a existencia da vossa existencia patetica.

Monday, June 28, 2010

Orfeu & Eurídice

Oh por todos os deuses. És um outro rosto da Eurídidice. A que pertence ao Orfeu moribundo , acabado e devastado pela morte da outra Eurídice que tem no peito. A outra Eurídice, a quem salvou a vida ao rejeita-la. A que lhe deixou um buraco profundo por ter sido uma desilusao. Não era a Euridice, a sua Euridice. Ainda está viva e ainda se sente rancorosamente rejeitada. Nem sequer compreendeu que o Orfeu dele a salvou...
E, oh por todos os deuses, já não se consegue importar com a tua morte, o Orfeu que é ele. És diferente, és independente. És livre. Te não pode salvar porque não necessitas de salvamento algum. És livre. És a Eurídice livre do livre Orfeu em que se tornou.
Mas ele continua a ser o Orfeu, o mítico. Continua a ir-te buscar-te ao Inferno. Continua a fazer qualquer coisa por ti. E tu, enquanto Eurídice, vais-te apercebendo que ele te ama, nas entrelinhas do Orfeu que ele é, vais-te apercebendo que és a sua Eurídice, a preferencia inata.
E, oh por todos os deuses, ele ama-te. O Orfeu que tem no peito. E sofre por ti.
Não se consegue importar com a sua morte crua. Desde que percebas que és única. A única. A Eurídice do Orfeu dele.

Sunday, June 27, 2010

Destruição

É o teu ser. É essa tua necessidade de posse. De seres o final estonteante de um filme de suspense. De seres uma brilhante ponte , correctamente construida, entre mundos desfeitos e separados. É essa tua psicotica necessidade de seres importante, de seres o único ser verdadeiramente importante.
Deprime-me. E entristece-me. Não porque não brilho , mas porque me vais roubar qualquer sucesso que tenha. Vais querer partilhar uma gloria que não é tua. E interiorizarás os meus fracassos, como se tivesses culpa nos meus erros. Tens, mas não no sentido que julgas. Sufocas, crias um ambiente de estufa onde tu és a abelha-rainha e todos os outros te servem. Tu reges o mundo.
Mas não sou assim, eu. Mais uma abelha dessa tua triste colmeia. Isso não sou eu, quero ser algo novo sempre quis ser um ser novo. Por isso, não contes comigo para continuar a iludir-te so para não te enfrentares ao espelho. Não vou ficar aqui, não vou partilhar o meu sucesso ou o meu falhanço. Seja o que for, é meu. E a culpa que tens é uma culpa que nem sequer reconheces que existe.
É o teu ser. Obececado em controlar porque não tem a minina auto-disciplina.

Thursday, June 17, 2010

Brilho

A tua ausencia,
Tem o cheiro do mar de Verão
Numa noite fria
E esmigalhada.

Como uma estrela fundida,
Inócua no céu de seda
Sou uma existencia
Triste e heróica
Imóvel no tempo
Taciturno.

O grito é mudo,
O silêncio ofuscou
O mundo.
E respiro, aqui
Estando em lado
Nenhum.

A dor foi beijada
Pelo vazio.
Nada sinto nada sou.
Mas tenho esta arte
Pura e primitiva.

A tua ausencia
Brilha-me na pele.
E o mundo encontra
Uma beleza fina
No meu ser
Invisivel.

Saturday, May 29, 2010

Reflexao

É sempre assim, das um pouco da tua essencia quando paras para, honestamente, olhares paraa pessoa que te sorri do outro lado . Do espelho, da perspectiva de simplesmente exsitir. É sempre assim, quando encontras preocupaçao no fundo do teu poço de sombras, arrancaste um pedaço de coraçao e entregaste-o numa caixa. E é sempre assim, este conceito alternativo de intimidade.
E o amor tambem é isto. Esta facilidade de coexistencia de egos, esta confissao silenciosa de receio e medo. Amor é ter sempre receio do conceito de fim precedido por um dramatico optimismo sensorial. Ah, sim amor tambem é optimismo. Faz-te feliz, torna-te leve e suave como o pássaro mais livre de qualquer ceu. Tudo se torna mais bonito quando te imaginas a voar.
Por isso é que é sempre assim. Se não deste um pouco da tua essencia quando paraste para sorrir à pessoa que se mantinha em frente a ti, do outro lado do espelho. Não amaste. E se ela não te deu nada seu para guardares na memória sensivel onde se guarda todos os factos pateticos que fazem sorrir nas entrelinhas de um pensamento. Tambem te nao amava.
E é sempre assim. Confude-se amor com uma ideia romantica de que há um Deus anonimo a amenizar o Universo agreste. E é sempre assim, pessoas pouco resistentes como tu atrasam a verdadeira evoluçao. Amor não é um estado de não-solidao.

Wednesday, May 26, 2010

Dureza

Continua a ser confusamente curiosa a forma como o teu Universo se inverteu e continuaste exactamente no mesmo lugar. Já não és tu e, no entanto, não poderia ser mais teu esse teu eu.
Não deixa de ser esquisita a rotina de uma época tornar-se numa memória distante da qual te lembras tenuamente. Foi a tua vida , foste tu, um eu bem definido e delimitado que depois morreu e que tu enterraste num canto da praia.
Apareceste de negro cru no teu funeral e foste o único que não gastou lágrimas prateadas. Foste o único que soube exactamente o que estava a acontecer e qual a drástica consequencia de um gesto tao inocente e tao simples. Por isso, foste o único no teu funeral cujo rosto foi firme e duro, insensivel como uma pedra. Não ias sentir a falta do teu eu.
Continua a ser estranho. Porque andaste a percorrer um circulo mas caminhaste sempre numa linha recta. Fim e Inicio. Tao simples , tao conciso, tao exacto. E, no entanto, perdeste-te nas voltas que deste.
És tu, continuas a ser tu. Mas quebraste a rotina de um eu que agora já nem sabes quem era. Tu, num mundo paralelo queimado. Não sentes qualquer saudade do teu morto eu.

Sunday, May 23, 2010

Inevitabilidades

Quanto a ele, sabe exactamente como chegou ate aqui. Vê a logica da repetição do padrao do qual não poderia fugir. Vê claramente a cor agreste do padrao simétrico e distante que nunca poderias ter evitado.
Não tens direito a esse desespero. Porque a fracção de possibilidade que ele teve foi tirada docemente por ti. Ah, que importa que não tenhas culpa? No final, tudo o que sabe, é que foste tu que arruinaste aquela existencia aurea e pacifica. Que importa que tenha sido uma fatalidade triste e melancolica ao som de um Sol que não tem força para aquecer? Que importa que tivesse sido um belo e romantico falhanço porque o amavas demais e ele amava-te e não podia nem devia? Agora está exactamente onde pertence.
Nada é perfeito. E ele vai-se sempre embora amanha, a pergunta é se sente a tua falta o suficiente para voltar sem nunca deixar de ter partido? Sim, a pergunta é essa. Consegues ficar com um pedaço dele ?
Não. Claro que não. E sempre souberam isso. Por isso é que ele sabe exactamente como chegou aqui, a esta realidade agradavel onde tu não existes.

Sunday, May 16, 2010

Inutil

“O passado é inutil como um trapo”. Ele passou pela tua rua e a memória daqueles tempos doces de cheiro a amoras selvagens brilhou-lhe no coraçao durante uma fracção de tempo. Mas depois até essa memória da memória lhe desaparece da mente. E a memória é objectiva, é fria. Não sente nada para alem de uma sensaçao de familiaridade, que é sempre uma sensação suavemente calorosa. Não sente para alem daquele arrepio de Déjá Vu porque já apanhou este autocarro antes, já saiu nesta mesma paragem antes, contigo a salvo no peito.
Mas é inutil. Porque é o mesmo eu dele. É o mesmo autocarro. É a mesma rotina, o mesmo quotidiano. É a mesma cidade, permaneceu imóvel a esse romance falhado.
Um romance falhado serve unicamente para uma especie de aviso de não repetiçao. Uma cicatriz no coraçao. Um romance falhado é uma marca sensorial e so serve para isso, para se dizer que se viveu de alguma forma de alguma maneira. Amor não existe sem um certo conceito de aleatoridade.
Foi tudo inutil, agora nada existe. Até o falhanço foi inutil. Gastaste-o e ele renasceu e já não sabe quem és.Recorda-te como se recorda de uma equaçao brilhante matemática ou de monumento magnificiente que o fascinou. Recorda-te sem se lembrar de quem és.
“O passado é inutil como um trapo”.

Friday, May 14, 2010

Destino

Se pensares bem, ele estava destinado a ser isto. Desdo o inicio. Desde sempre. O falhanço espectacular da tua propria expectativa. Se vires correctamente, como naqueles filmes memoraveis que viste tantas vezes, concluiras que ele nunca pode ser outra qualquer coisa. Para alem disto. Deste ser.
Sei que o tentaste salvar. Mas era inutil. O salvamento era inutil. Ele não queria ser salvo, nunca quis. Houve, de facto, uma altura em que procurou uma outra saida. Mais bonita, mais adequada. Mas não, não teve essa oportunidade. Acabou exactamente como acabam as pessoas como ele.
Etende. Ele quer perder-se em cigarros sombrios, em uisques sucessivos. Ele quer ser esse ser. Ele nasceu para ser esse ser. Podes esforçar-te por evitar mas não podes bloquear aquele nervo sensorial e consciente que o leva exactamente para onde pertence.Para onde lhe guardam um lugar.
O mundo dos loucos. É esse o seu lar. Bem tentou ele, ganhar outro lar contigo. Mas foi inutil. Ele tambem é louco, sempre o foi. Sempre o será. Aquilo a que chamas salvaçao é uma forma de vida.É a forma de vida dele, desde o inicio. Desde sempre.
Ele é feliz assim. Inteiramente louco. Inteiramente ele. Adiaste este destino, mas não o podias bloquear. Ele é ele, nasceu para isto. Foi tempo de vida inutil que gastaram os dois.
“Life is ours and we live it our way.”

Thursday, May 13, 2010

Carta de Despedida

Afogar a mágoa em qualquer coisa , ainda que seja corrosiva, soa melhor do que deixa-la viver a vida que ainda existe em mim. Deixa-la viver a existencia que é a minha.
Lamento.
Se não estás aqui é porque , lá no fundo, nunca quiseste ficar e eu nunca quis que ficasses. É porque, lá no fundo, não existes. Já não existes. Os mortos algum dia acabam por ser esquecidos. Nunca quis eu, verdadeiramente, que ficasses.
Lamento.
Por mim. Porque todos os mortos serão esquecidos, um dia. E sei que algures morri. Haverá um dia em que já não saberei quem sou. Haverá um dia em que me esgotarei em pensamentos inuteis e vazios. Precedentes de actos que nunca executei. Algures, morri.
Lamento.
Que me tenhas ferido na única coisa intocavel na existencia humana – o meu conceito de futuro.

Sunday, May 09, 2010

"Scream of the butterfly"

Que dia é hoje? Que importa? Todos os dias são iguais, uns mais proximos do Inverno e outros mais proximos do Verao. Todos os dias são iguais. Não teimes nisso, em entristecer-me ao som da tua expectativa genial frustrada e violentada. Todos os dias são diferentes, cada dia é divinal , mesmo que nenhum de nos se aperceba disso. Não me arrastes para essa tua tristeza desmedida de uma vida mal vivida. A miséria não procura companhia, procura uma justificação para se entregar a um suicidio aborrecido.
Deixa-me em paz, deixa-me só na minha felicidade de ser sozinho. Te não necessito. Lamento, és mais do que inutil. Crucificas a paciencia. Deixa-me aqui , feliz comigo. Procuras emendar a tua triste e patética vida no meu futuro que ainda se não concretizou. Mas, etende, o futuro é meu e vou dar-lhe o som que melhor me soar. A tua opiniao é so isso, uma opiniao. Tiveste a tua oportunidade de decidir o som que querias ser. Se a perdeste não me culpes, não me responsabilizes. O som que perdeste era o teu, eu tenho o meu . Não é algo que se transmita. Se falhaste a vida é culpa tua.
Que dia é hoje? Não quero saber. É um dia comum em que decidi quem quero ser.
E adeus. Não sou essa pessoa, que fica para te fazer menos infeliz. Devias ter vivido quando podias , se agora é tarde para ti é cedo ainda para mim. Lamento, adeus.
Sei exactamente que dia é hoje. É o dia do grito da borboleta. O dia da Liberdade.

Thursday, May 06, 2010

Obsessão

A consciencia cai sobre ele como o fim temático e lógico de um intimidante filme de terror. Não, não é ele que é louco. Ou boémio. Ou desfasado. O problema és tu e essa tua desmedida maneira petulante de ver o mundo. Talvez um dia descubras que ele é rei de si proprio, tem a ideologia debaixo da pele. Não te necessita, não necessita de qualquer voz autoritária que o faça esgotar a vida num sonho que não é o seu. É o teu.
Ele é livre. Um dia vais ver isso. E que ainda não endoideceu. O mundo não ve a sua insanidade porque ela, na verdade, ainda não existe. Teve o mérito de a tornar util, canalizou-a artisticamente para algo que faça sentido. Por isso é que a arte lhe vive nos poros da pele e do espirito. Resume toda a doença que ainda não lhe conseguiste incutir.
Porque ele não é doido. Tu é que és. Tu e todas as tuas manias. Tu e todas as tuas ideias psicadélicas e distorcidas sobre o Amor. Porque nada disto tem que ver com o amor. Não podes cobrar-lhe uma expectativa falhada. Porque se são as tuas expectativas devias te-las cumprido tu. Construi-lo para cumprir o destino no qual te mostraste incompetente , na tentativa de desenhares o vazio do mundo perante a tua genialidade. É cruel.
E é inutil.
Porque a consciencia cai sobre ele como o fim de um brilhante filme de terror. No final, o assassino frio é ele. Só que é em legitima defesa, a perspicácia absolutamente louca brilha-lhe nos olhos.

Monday, May 03, 2010

Liberdade

Acorda todos os dias e leva a mao ao rosto , levemente preocupado com o que faz com a sua existencia. Suspira. Suspira outra vez. Arrepende-se de qualquer coisa. Talvez.Tem uma sensaçao estranha a passar-lhe pela pele.
Provavelmente acordou demasiado tarde, os olhos custam-lhe a abrir para encarar o sol do mundo. Provavelmente demorou demasiado tempo a adormecer. Tem algo fixo na mente que tende a não despegar do peito. Provavelmente, vive essa ideia até ao limite que consegue imaginar. Sente uma enorme vontade de ser ele proprio. Sente uma enorme vontade de beber a sua bebida alcoolica preferida até gastar toda a sede. Sente uma enorme vontade de esgotar todos os cigarros que ainda não comprou. Sente uma enorme vontade de procurar a rapariga que lhe realça o nervo azul que o mundo desconhece.
Todos os dias quando acorda leva a mão ao rosto. E, quando se questiona sobre o que anda a fazer com a sua vida, está implicita na reflexão uma ausencia de futuro que o extasia. O amanha existe mas tem cores indefinidas. Está presenta na pergunta uma suavidade boémia, retrato do ser que ele é. Do ser que ele quer ser.
Não sabe o que anda a fazer da sua existencia. Nada lhe dá mais prazer. E nada lhe garante que está a escolher algo que não deixa de ser correcto. A preocupação é um acto de consciencia social, ele gosta de ter sentido nenhum.

Sunday, May 02, 2010

Last Kiss

Posso dar-te a mao mas, etende, isso não vai anular a tua morte. Morremos todos. Mas dou-te a mao, agora e sempre. Porém, etende, é indiferente. Não a vou conseguir aquecer eternamente.
Posso fingir, por fracções de momentos, que existe uma hipotese de me tornar exactamente naquilo que gostavas que fosse. Até posso fingir, mas compreende, é a tua desilusão. Provavelmente mais vale veres agora o monstro que acarinhaste e que nunca será principe algum. Não, não negues. Sabes que é verdade, vejo o meu reflexo de monstro nos teus olhos. Sempre vi, era esse o teu encanto. O silencio seco e duro de um facto duro inegável.
Posso dizer-te palavras mais agradaveis e mais bonitas. Mas o fim é sempre o fim. E depois do fim existe sempre nada. Posso dizer-te palavras que aliviem a tua consciencia mas nunca vao atenuar a dor no peito.Já devias saber que o teu coração é muito mais largo e pesado do que alguma vez a tua existencia será. Apesar de serem uma mesma coisa.
Posso dar-te a mao, mas etende, é irrelevante. Eras a minha rosa e agora és uma rosa enjelhada e rasgada. Posso dar-te a mao mas , observa, já morremos os dois.

Thursday, April 29, 2010

Excepção

Custou-te o coração essa escolha esquisita mas tornou-te maior. Superaste o teu velho eu.
Porque ela amava-te irresponsavelmente , elouquentemente. Dedicou-se a suspirar por ti todos os segundos tremulos de cada respiração. Ela amou-te, do fundo do seu largo coração. E esse amor errado e desmedido dava-te o prazer supremo da posse de um tesouro raro e precioso. Amava-la de volta com toda a tua selvagem existencia , carinhosamente civilizada pelo amor puro dela.
Mas no final do dia continuavas sedento de uma qualquer sensação de prazer. Esgotavas todos os teus cigarros sombrios e todas garrafas de uisque para te esqueceres do teu eu animalesco. Que ela não conseguiu acalmar no teu peito. No final da noite, eras profundamente triste e obscuro na solidão crua e fria. Amavas alguem que fazia sentido nenhum no teu conceito de mundo.
Então deixaste-a viver a vida que ela queria ter, incoscientemente. Disseste-lhe palavras duras , farpas do teu coraçao. Não servias para ela, nunca serviste. Não eras o indicado, não eras o correcto. Não lhe podias dar aquela vida que era o destino dela. Entao deixaste a deixar-te, calmo e sereno. Duro como uma pedra , imóvel.
Depois deixaste de conseguir aliviar a dor com os teus exageros sensoriais. Todas as mulheres que amaste tornavam-se, no final da noite, uma memória ténue e corrosiva da beleza dela.
Amaste-a, amaste-a tanto que reconheceste que não eras o melhor para ela. Daí que te doa ve-la a passear, meio triste meio contente, de mao dada com um homem estavel e amavel, banal e agradavel. Ve-la a viver uma vida inteiramente oca e vazia, um futuro detalhadamente definido.
Sempre soubeste que era esta a vida que ela acabaria por ter. Mas nunca conseguiste abandonar a sensaçao de dor. Deste-lhe o teu coraçao, profundo. E ela não so não percebeu como abdicou de si propria. Porque ves que sente a tua falta na sua tristeza, enquanto passeia sorridente de mao dada com um homem comum. Amar-te- à sempre.
Custou-te o coraçao, essa escolha heróica. Mas sentes que falhaste qualquer coisa.

Wednesday, April 28, 2010

Eterno Orfeu

Talvez a tua memoria seja tao imortal quanto a mortalidade dele. Talvez nunca se consiga esquecer de ti, talvez nunca consiga deixar de ser o ser bonito e caloroso que criaste no eu agreste dele. Belo mas exoticamente selvagem.
Talvez existas no final de todas as noites. Talvez o teu som persista em todas as mulheres que amou depois de ti. Algumas amou por serem reflexos fracos e debeis teus, outras porque eram o teu oposto. Acendiam na pele dele todo o ser que não era contigo. Algumas amou porque te amava e te procurava incansavelmente no mundo. Outras amou porque quis assassinar-se em pequenas luxurias que afogavam a mágoa da tua ausencia. Talvez nessa altura ele já te não amasse, apenas não soubesse existir sem ti. Deste-lhe um eu novo mas ele sempre foi apenas ele. Talvez ele te procure eternamente pelo mundo. E te encontre ocasionalmente. Ou talvez algum dia alguem supere essa tua doce e aromatica memoria e não torne todas as noites dele exoticamente selvagens mas vazias.

Thursday, April 01, 2010

Demasiado tarde

O silencio fundo caiu sobre ele. Não é ironico? Sempre sentiu o ardor frio da tua ausencia mas só agora é que tem consciencia. Porque naqueles tempos sentia saudade de si proprio, não havia forma de te confiar a praia que era so dele estando a praia em cinzas. Não existia espaço para ti porque não existia espaço para ele.
Mas agora é ele o silencio negro da noite. Agora é ele o silencio pesado e solitário da noite . E apercebe-se que a tua ausencia lhe doi. Não como doi o fim de um extasiante puro amor. Ou o fim de uma paixao que consumiu o espirito. Doi-lhe porque lhe fazes falta nos pequenos pormenores peculiares. Doi-lhe porque o fazes sentir só. Doi-lhe porque descobriu que reconstruiu a praia queimada e violentada que era dele porcausa de ti. Por tu existires, para tu exitires. Sem ti, simplesmente não teria sido possivel.
Tu não sabes isso e ele acabou de descobrir. Sente a tua falta, como uma dor fria e fina que o vai anulando devagarinho. Não é nenhum amor extasiante ou alguma paixao ferverosa .Nao há anestesia. Está lucido. Sente a dor grave em cada nervo.
O silencio profundo adormeceu-o. Um sonho aconchegá-lo-á durante a noite. Sim, sonhará que te entrega a chave da sua praia azul reconstruida e que deixa de sentir tao fortemente a tua ausencia. E que não é demasiado tarde.
Para perceberes que é amor. Apenas não é extasiante ( daí que sejas um vicio pessoal dele, que o amolece mortalmente sem nunca ser causa de morte).

Dedicação

Tens de parar de o pressionar. Ele não nasceu para exibir a cicatriz funda gravada a sangue no espirito, tatuagem de quem sente a crueldade do mundo na pele.
Tens de comprender. Ele não tem essa cicatriz. É verdade que viu a crueldade fria, a injustiça mordaz mas não a sentiu. Tudo o que tem são os acidentes a que qualquer um está sujeito enquanto ainda respirar nesta realidade.
Mas, inatamente, queres que entre na guerra contigo. O teu infimo desejo é que também seja a guerra dele, para garantir a eficácia astuta e discreta do ataque dele.
Mas não é a guerra dele. Entra como estratego não como soldado. E entra na guerra quando se ve obrigado ou quando uma consciencia racional e sensorial o orientam no sentido bélico. Ele não tem cicatriz, não é a guerra dele.
Tens de olhar para ele. Ver o seu horror à destruiçao. Tens de compreender que quando entra na guerra contigo entra porque te acredita. Porque te não consegue abandonar. Tens a sua compaixao, a sua amabilidade. Tens a sua fé.
O que ele tem gravado a sangue no espirito é muito pior que a tua cicatriz. És tu que lhe trazes a ruína se não compreenderes que ele te protege com a propria vida.

Sunday, March 21, 2010

Pedra Filosofal

Ouço a tua voz em tom de alerta. Os teus movimentos bruscos e preocupados. Mas hoje ninguem vai morrer. Hoje não haverá sangue em lado algum. Não etendes, não podes viver so para ganhar a guerra. Mesmo que a guerra não seja uma guerra, mesmo que seja pelo teu direito de existir. Mesmo que tenhas as razoes mais solidas deste mundo e do outro para quereres ganhar a guerra.
Um dia terás de sentir o prazer de criar. Algo que não tenha como objectivo a destruiçao. Um dia terás de sentir o prazer da leveza de se ser feliz, mesmo que seja apenas por uma fracçao de segundos. Um dia terás de fazer o que eu faço agora. Fingir que a guerra não existe, que a mediocridade alheia não me sujou o sangue com lama obscura. Não estou a ignorar nenhum facto, nem sequer estou a ser cobarde. Aproveito a vida enquanto ainda a tenho em mim.
Por isso, hoje não me fales disso. Da ruina ordinaria que os outros são.
Hoje sou livre. Hoje sou eu (so eu). Com as costas confortavelmente seguradas pela cadeira. Hoje é um dia que vale a pena memorizar o cheiro. O som. A cor e a textura azul.
Se não houvessem dias como o de hoje, tao banais, não teria qualquer razao para entrar na guerra contigo. Tens de aprender que se vives para a guerra, es a guerra.
E devias ser o Sol ameno de uma tarde Verão. Não um Inverno gasto em folhas que envelheceram demasiado cedo.
(O melhor soldado é o que tem um sitio para onde voltar
)

Saturday, March 20, 2010

O fim

Ele tem por vezes esse impulso louco . De pegar no casaco e correr à tua procura. De escrever a carta com as palavras cuidadas que nunca te confessou. Às vezes é consumido por uma vontade extasiante de te ter de volta. De ajeitar o passado. De se ter de volta. De regressar àqueles dias longos e sorridentes de Verão.
Mas depois é como se o coração revisse pormenorizadamente os dias de chuva que se seguiram. É como se , naquela fracçao de segundos, lhe esgotassem todos os “se”. Todas as hipoteses. Todos os argumentos. Como se naquele intervalo entre levantar-se da cadeira e pegar no casaco alguem lhe descansasse a mao no ombro e concretizasse a verdade que sente mas que não tem coragem para soletrar. Porque soletrar a tua ausencia torna-a ainda mais real.
Ele tem esse impulso louco. Absolutamente alucinado. De que algum dia vais perceber a carta que nunca te vai enviar.
Morreste naquele dia, o teu ser foi dissolvido na chuva. E ele fugiu de todos os cemitérios mas consegues encontrá-lo sempre de alguma forma.
Ele tem esse impulso louco. Mas arracantaste-lhe toda loucura que tinha naquele dia de chuva.

Tuesday, March 16, 2010

Azul Celeste

Vê se tens dó de ti já que me fazes ver-te. Já que me ofereces essa sensação de vómito ao menos faz algo de útil por ti. Olha-te ao espelho, traça com o teu dedo as curvas do nada que és. Ah, sim, és nada. E não digas que o tambem sou ou que o meu anonimato existencial não me permite poder para afirmar tal barbaridade.
Tu és tão nada quanto o céu é azul. Quanto o Sol é amarelo-alaranjado. A tua cor é o nada. Sorris-me tentando evidenciar uma malícia (mas não tens inteligencia suficiente para teres malícia). Dizes-me que o céu não e verdadeiramente azul, depende tudo da luz branca. Como um prisma triangular trespassado por um raio de Sol.
E é exactamente ai que afirmo. És nada. Quando ves o ceu azul claro vivo ele torna-se azul, é a forma como vais conhecer o mundo que ainda tens pela frente.Há uma doce simplicidade na forma como o céu vai ser sempre azul, apesar de o não ser. O que para ti é real é o que te torna diferente de todos os outros semelhantes.
A tua cor é nada. Tu és nada. Vejo-o tao claramente como vejo o imenso azul celeste.
Repara, ser nada, é uma hiperbole. A expressão é uma metáfora.
Mas tu desconheces o que é uma metáfora. Fiz só uma aproximação inocente. És tao pouco que se arredonda para nada sem grande prejuízo.

Monday, March 08, 2010

Enredo

Já viste a desgraça em que se meteu por insistir em algo que o coraçao discordava? Não lhe peças isso. Para ficar contigo, talvez ate por ti. Não lhe peças esse fim arrastado e melancolico, estendido ao sol num dia demasiado frio. Se desejares verdadeiramente que ele insista naquilo que estrangula a essencia dele ou o não conheces. Ou desejas a morte dele como companhia.
Mas não, claro que não. Tu somente sentirás a falta dele descontroladamente. O amor que lhe tens atenua-se quando ves, nem que seja por uma fracçao de tempo. Se perderes até esse pequeno e fragil momento, que te sobra? Nada.
Já viste a desgraça em que persistes em continuar?É tao facil permaneceres com ele, basta que lhe cedas o direito da diferença. Se o deixares ser senhor de si proprio poderás acompanha-lo para qualquer lugar.
Mas tu nem sequer concebes esse conceito de pura liberdade ... Já viste a tristeza em que ambos se afundaram ? Tal qual um navio que perdeu a fé na estrela que o guiava.

Sunday, March 07, 2010

Excerto

O vento é demasiado agressivo e agreste para sugerir um romance fresco de Verão. E eles não tinham essa sorte de qualquer forma.
É dificil vencer um conjunto de realidades duras e inócuas que não respeitam e destroem o teu coraçao.


WinGs, Agosto de 2009

Tuesday, March 02, 2010

Orfeu e Eurídice

Esse falhanço tem o encanto triste de um pássaro desmembrado que espera, pacificamente, essa morte arrastada no tempo tao infinito e tao curto.
O teu sucesso como Eurídice é o declínio dele enquanto Orfeu. Porque é que não vos salvaste quando ele te libertou do seu amor ? Ele libertou-te dessa morte romanticamente destinada a ser crua e concisa. O teu Orfeu abandonou-te para te salvar.
Mas tu só sentiste o abandono na pele. Fizeste o correcto, afastaste-te. Como Eurídice que és, a ausencia do teu Orfeu esmagou-te. Esmagou a tua doce ingenuidade.
Mas esse falhanço tem a melodia carismática da morte, daquela que é suave e até convidativa. E o deus frívolo e paranoico que te escolheu como Eurídice escolheu-te demasiado bem.
Porque quando reencontraste o teu Orfeu não se preencheu no peito a dignidade de quem carrega a dor aguda do abandono . Viste o teu Orfeu, de novo, só importava isso. Nem sequer reparaste que ele o tinha afogado cruelmente, o Orfeu que era. Para mais ninguem morrer nesse triste destino. Mas tu não viste a ausencia dele nele, fizeste-o renascer sem renascer.Ele nunca te abandonou...
E agora vao morrer os dois, juntos. Porque enquanto a Eurídice que vive aconchegada no teu peito quente não desistir de amar Orfeu, ele ama-a incondicionalmente.
O teu Orfeu entregou a sua musica ao Inferno para tu poderes respirar , suavemente, cada momento de felicidade suprema. Porque ele morreu quando te deixou.
Bastava que o não amasses verdadeiramente para te salvares. E salva-lo depois a ele.
O deus que vos escolheu escolheu-vos delicadamente. A forma como cumprem heroicamente um destino tao patético tem o som do riso da propria morte


WinGs

Thursday, February 25, 2010

Mecanica do Coração

Essa continua chacina do coraçao de pano dele tem de parar. Não sentes qualquer espécie de uma qualquer piedade quando olhas directamente para o sofrimento dele? Mesmo que desistas agora dessa tortura sentimental , mesmo que agora o deixes a sos com a tua repetitiva morte já lhe rasgaste o coraçao. Porque era um coraçao de pano, quase não era real. Era so um coraçao de pano...
Pedes clemencia, alias, pedes que olhem para ti. Repetes, alternando entre lagrimas doces e salgadas, que o amaste incondicionalmente. Completamente irracionalmente. No apogeu do teu desespero confessas que lhe ofereceste o teu coraçao, real e resistente, para substituir o de pano, tao fragil, tao hesitante. Quiseste ficar com essa debilidade humana dele, quiseste ajudá-lo. Honestamente. Porque o querias a ele, a acompanhar-te todos os segundos mudos. Pedes clemencia, pedes-lhe que te oiça. Porque ele era o teu tesouro mais precioso, tao raro e tao brilhante que duvidavas que pudesse ser teu.
Mas essa latente tortura do coraçao dele tem de encontrar um fim. Tudo o que ele se lembra é de lhe quereres tirar o coraçao de pano. Não percebeu a tua verdadeira intençao e encarou-te como os outros. Os que o não acreditam, os que o odeiam.
Mesmo que desistas agora dessa claustrofobia sensorial, já é demasiado tarde. A tua salvaçao vinha do coraçao de pano dele e ele já o deitou no lixo, como se deitam as cosias inuteis.
Porque era so um coraçao de pano ...
Inspirado no livro Mecanica do Coraçao

Wednesday, February 24, 2010

Rosa Azul

Ele não tem em ti a fé do universo. Alias, em ti ele não deposita nada, não espera nada. Nem sequer espera algo. Por isso é que esta a um pequeno passo de te amar : és um intenso caminho florido com imensas opções abertas e cheias.

WinGs

Saturday, February 20, 2010

Poder

A tua organização automatizada irrita-o. Tens de o desculpar, chamaram-lhe inumeras vezes animal intelectualmente civilizado (Porém animal).
Mas o animal melodicamente civilizado que é conquistou uma forma de conhecer o mundo que ésensorial. Destingue-se de qualquer multidão pela forma como a descofidica. A compreende. Pela forma como interpreta as pequenas variações que vai sofrendo . Só ele realmente repara nas vozes silenciosas discordantes da unicidade inócua de uma multidão certa e correcta.
Como aquela a que pertences, cegamente. Frívolamente. E ele encanta-te por fazer o que nunca vais conseguir igualar. Ele move a multidao, qualquer uma. Ele orienta-a. A multidao segue-o inatamente. Porque ele é simplesmente um animal que se soube disciplinar e que se basta a si proprio. Tu matarias por esse lugar.
Por isso é que o teu rosto não é visivel na multidão. És cuidadosamente obediente.
Tens de o desculpar. Essa forma de organizaçao de vida aborrece-o.

Monday, February 15, 2010

Regresso Fantasma

Oh por favor não me deixes voltar. Porque é que me deixaste voltar? Ah! O teu consolo é a tua voz fria e suave. Dizes-me que ignorar não é saudavel. Nem sequer é util. Dizes-me o mito de manter fantasmas é um mito triste. Pela sua melancolica opcionalidade.
Dizes-me que serei mais forte e mais resistente se enfrentar aquelas paredes de ferro. Se olhar de frente para aquela prisao tao. Bonita à sua maneira. Dizes-me que tenho de acreditar em mim, que não vou ceder porque já fugi de lá.
Não compreendes que é uma prisao? Uma prisao porque não odeio. Seria tudo mais facil se fosse odio mas não é. Ódio.É amor, a outra coisa. É uma questao de razao de existir. Por isso é que é uma prisão, não me deixa sentir . O amor que me escorre nas veias, que se envidencia até na textura da minha sombra. Esse mesmo amor não existe lá. Não é permitido ( nem sequer é normal lá)
A tua voz fria e suave. Consciente e lúcida do que vou perder. Do que posso conquistar. Dizes-me que tenho de voltar lá, tenho de me despedir. Da prisao. Para que me guardem um verdadeiro e honesto respeito, para não perder a credibilidade.
Dizes-me que ignorar nem sequer é uma acto perspicaz . Tenho de lá voltar e sentir a dignidade no meu espirito. Sair de lá como alguem que inovou uma pequena realidade e não como mais um cobarde que se deixou arrastar por qualquer coisa que aliviasse a dor de simpelesmente
. Existir.

Wednesday, February 03, 2010

Fim

Deixa-o respirar. Foi a escolha dele, deixar-te para trás. E tu escolheste deixa-lo fazer, nao o conseguiste impedir de optar pelo sonho que o movia. Que não foi opção nenhuma porque ele era a visão que tinha do mundo. E se tu não fazias parte dessa realidade excêntrica e inovadora não podia ficar contigo. Nunca pôde. Liberta-te da ilusão.
Deixa-o chorar. Deixa-o lamentar a tua morte enquanto o tentas abraçar. Ele nem sequer sabe se foi a melhor escolha. Ou se existe isso, esse conceito estridente de melhor. Ele acredita que não, apenas não conseguiu escapar ao seu próprio destino. E tu morreste , a dor é aguda. A tua morte. Inevitável. Enquanto ele cumpria o seu pomposo destino. De herói discreto.
Deixa-o respirar.Deixa-o dissecar a escolha que nunca existiu. Insistes em abraçá-lo. Vais acabar por desistir perante a apatia firme dele.
Não acredita em fantasmas. Por isso é que ignora o teu choro, o teu abraço. A tua dor.