Saturday, May 29, 2010

Reflexao

É sempre assim, das um pouco da tua essencia quando paras para, honestamente, olhares paraa pessoa que te sorri do outro lado . Do espelho, da perspectiva de simplesmente exsitir. É sempre assim, quando encontras preocupaçao no fundo do teu poço de sombras, arrancaste um pedaço de coraçao e entregaste-o numa caixa. E é sempre assim, este conceito alternativo de intimidade.
E o amor tambem é isto. Esta facilidade de coexistencia de egos, esta confissao silenciosa de receio e medo. Amor é ter sempre receio do conceito de fim precedido por um dramatico optimismo sensorial. Ah, sim amor tambem é optimismo. Faz-te feliz, torna-te leve e suave como o pássaro mais livre de qualquer ceu. Tudo se torna mais bonito quando te imaginas a voar.
Por isso é que é sempre assim. Se não deste um pouco da tua essencia quando paraste para sorrir à pessoa que se mantinha em frente a ti, do outro lado do espelho. Não amaste. E se ela não te deu nada seu para guardares na memória sensivel onde se guarda todos os factos pateticos que fazem sorrir nas entrelinhas de um pensamento. Tambem te nao amava.
E é sempre assim. Confude-se amor com uma ideia romantica de que há um Deus anonimo a amenizar o Universo agreste. E é sempre assim, pessoas pouco resistentes como tu atrasam a verdadeira evoluçao. Amor não é um estado de não-solidao.

Wednesday, May 26, 2010

Dureza

Continua a ser confusamente curiosa a forma como o teu Universo se inverteu e continuaste exactamente no mesmo lugar. Já não és tu e, no entanto, não poderia ser mais teu esse teu eu.
Não deixa de ser esquisita a rotina de uma época tornar-se numa memória distante da qual te lembras tenuamente. Foi a tua vida , foste tu, um eu bem definido e delimitado que depois morreu e que tu enterraste num canto da praia.
Apareceste de negro cru no teu funeral e foste o único que não gastou lágrimas prateadas. Foste o único que soube exactamente o que estava a acontecer e qual a drástica consequencia de um gesto tao inocente e tao simples. Por isso, foste o único no teu funeral cujo rosto foi firme e duro, insensivel como uma pedra. Não ias sentir a falta do teu eu.
Continua a ser estranho. Porque andaste a percorrer um circulo mas caminhaste sempre numa linha recta. Fim e Inicio. Tao simples , tao conciso, tao exacto. E, no entanto, perdeste-te nas voltas que deste.
És tu, continuas a ser tu. Mas quebraste a rotina de um eu que agora já nem sabes quem era. Tu, num mundo paralelo queimado. Não sentes qualquer saudade do teu morto eu.

Sunday, May 23, 2010

Inevitabilidades

Quanto a ele, sabe exactamente como chegou ate aqui. Vê a logica da repetição do padrao do qual não poderia fugir. Vê claramente a cor agreste do padrao simétrico e distante que nunca poderias ter evitado.
Não tens direito a esse desespero. Porque a fracção de possibilidade que ele teve foi tirada docemente por ti. Ah, que importa que não tenhas culpa? No final, tudo o que sabe, é que foste tu que arruinaste aquela existencia aurea e pacifica. Que importa que tenha sido uma fatalidade triste e melancolica ao som de um Sol que não tem força para aquecer? Que importa que tivesse sido um belo e romantico falhanço porque o amavas demais e ele amava-te e não podia nem devia? Agora está exactamente onde pertence.
Nada é perfeito. E ele vai-se sempre embora amanha, a pergunta é se sente a tua falta o suficiente para voltar sem nunca deixar de ter partido? Sim, a pergunta é essa. Consegues ficar com um pedaço dele ?
Não. Claro que não. E sempre souberam isso. Por isso é que ele sabe exactamente como chegou aqui, a esta realidade agradavel onde tu não existes.

Sunday, May 16, 2010

Inutil

“O passado é inutil como um trapo”. Ele passou pela tua rua e a memória daqueles tempos doces de cheiro a amoras selvagens brilhou-lhe no coraçao durante uma fracção de tempo. Mas depois até essa memória da memória lhe desaparece da mente. E a memória é objectiva, é fria. Não sente nada para alem de uma sensaçao de familiaridade, que é sempre uma sensação suavemente calorosa. Não sente para alem daquele arrepio de Déjá Vu porque já apanhou este autocarro antes, já saiu nesta mesma paragem antes, contigo a salvo no peito.
Mas é inutil. Porque é o mesmo eu dele. É o mesmo autocarro. É a mesma rotina, o mesmo quotidiano. É a mesma cidade, permaneceu imóvel a esse romance falhado.
Um romance falhado serve unicamente para uma especie de aviso de não repetiçao. Uma cicatriz no coraçao. Um romance falhado é uma marca sensorial e so serve para isso, para se dizer que se viveu de alguma forma de alguma maneira. Amor não existe sem um certo conceito de aleatoridade.
Foi tudo inutil, agora nada existe. Até o falhanço foi inutil. Gastaste-o e ele renasceu e já não sabe quem és.Recorda-te como se recorda de uma equaçao brilhante matemática ou de monumento magnificiente que o fascinou. Recorda-te sem se lembrar de quem és.
“O passado é inutil como um trapo”.

Friday, May 14, 2010

Destino

Se pensares bem, ele estava destinado a ser isto. Desdo o inicio. Desde sempre. O falhanço espectacular da tua propria expectativa. Se vires correctamente, como naqueles filmes memoraveis que viste tantas vezes, concluiras que ele nunca pode ser outra qualquer coisa. Para alem disto. Deste ser.
Sei que o tentaste salvar. Mas era inutil. O salvamento era inutil. Ele não queria ser salvo, nunca quis. Houve, de facto, uma altura em que procurou uma outra saida. Mais bonita, mais adequada. Mas não, não teve essa oportunidade. Acabou exactamente como acabam as pessoas como ele.
Etende. Ele quer perder-se em cigarros sombrios, em uisques sucessivos. Ele quer ser esse ser. Ele nasceu para ser esse ser. Podes esforçar-te por evitar mas não podes bloquear aquele nervo sensorial e consciente que o leva exactamente para onde pertence.Para onde lhe guardam um lugar.
O mundo dos loucos. É esse o seu lar. Bem tentou ele, ganhar outro lar contigo. Mas foi inutil. Ele tambem é louco, sempre o foi. Sempre o será. Aquilo a que chamas salvaçao é uma forma de vida.É a forma de vida dele, desde o inicio. Desde sempre.
Ele é feliz assim. Inteiramente louco. Inteiramente ele. Adiaste este destino, mas não o podias bloquear. Ele é ele, nasceu para isto. Foi tempo de vida inutil que gastaram os dois.
“Life is ours and we live it our way.”

Thursday, May 13, 2010

Carta de Despedida

Afogar a mágoa em qualquer coisa , ainda que seja corrosiva, soa melhor do que deixa-la viver a vida que ainda existe em mim. Deixa-la viver a existencia que é a minha.
Lamento.
Se não estás aqui é porque , lá no fundo, nunca quiseste ficar e eu nunca quis que ficasses. É porque, lá no fundo, não existes. Já não existes. Os mortos algum dia acabam por ser esquecidos. Nunca quis eu, verdadeiramente, que ficasses.
Lamento.
Por mim. Porque todos os mortos serão esquecidos, um dia. E sei que algures morri. Haverá um dia em que já não saberei quem sou. Haverá um dia em que me esgotarei em pensamentos inuteis e vazios. Precedentes de actos que nunca executei. Algures, morri.
Lamento.
Que me tenhas ferido na única coisa intocavel na existencia humana – o meu conceito de futuro.

Sunday, May 09, 2010

"Scream of the butterfly"

Que dia é hoje? Que importa? Todos os dias são iguais, uns mais proximos do Inverno e outros mais proximos do Verao. Todos os dias são iguais. Não teimes nisso, em entristecer-me ao som da tua expectativa genial frustrada e violentada. Todos os dias são diferentes, cada dia é divinal , mesmo que nenhum de nos se aperceba disso. Não me arrastes para essa tua tristeza desmedida de uma vida mal vivida. A miséria não procura companhia, procura uma justificação para se entregar a um suicidio aborrecido.
Deixa-me em paz, deixa-me só na minha felicidade de ser sozinho. Te não necessito. Lamento, és mais do que inutil. Crucificas a paciencia. Deixa-me aqui , feliz comigo. Procuras emendar a tua triste e patética vida no meu futuro que ainda se não concretizou. Mas, etende, o futuro é meu e vou dar-lhe o som que melhor me soar. A tua opiniao é so isso, uma opiniao. Tiveste a tua oportunidade de decidir o som que querias ser. Se a perdeste não me culpes, não me responsabilizes. O som que perdeste era o teu, eu tenho o meu . Não é algo que se transmita. Se falhaste a vida é culpa tua.
Que dia é hoje? Não quero saber. É um dia comum em que decidi quem quero ser.
E adeus. Não sou essa pessoa, que fica para te fazer menos infeliz. Devias ter vivido quando podias , se agora é tarde para ti é cedo ainda para mim. Lamento, adeus.
Sei exactamente que dia é hoje. É o dia do grito da borboleta. O dia da Liberdade.

Thursday, May 06, 2010

Obsessão

A consciencia cai sobre ele como o fim temático e lógico de um intimidante filme de terror. Não, não é ele que é louco. Ou boémio. Ou desfasado. O problema és tu e essa tua desmedida maneira petulante de ver o mundo. Talvez um dia descubras que ele é rei de si proprio, tem a ideologia debaixo da pele. Não te necessita, não necessita de qualquer voz autoritária que o faça esgotar a vida num sonho que não é o seu. É o teu.
Ele é livre. Um dia vais ver isso. E que ainda não endoideceu. O mundo não ve a sua insanidade porque ela, na verdade, ainda não existe. Teve o mérito de a tornar util, canalizou-a artisticamente para algo que faça sentido. Por isso é que a arte lhe vive nos poros da pele e do espirito. Resume toda a doença que ainda não lhe conseguiste incutir.
Porque ele não é doido. Tu é que és. Tu e todas as tuas manias. Tu e todas as tuas ideias psicadélicas e distorcidas sobre o Amor. Porque nada disto tem que ver com o amor. Não podes cobrar-lhe uma expectativa falhada. Porque se são as tuas expectativas devias te-las cumprido tu. Construi-lo para cumprir o destino no qual te mostraste incompetente , na tentativa de desenhares o vazio do mundo perante a tua genialidade. É cruel.
E é inutil.
Porque a consciencia cai sobre ele como o fim de um brilhante filme de terror. No final, o assassino frio é ele. Só que é em legitima defesa, a perspicácia absolutamente louca brilha-lhe nos olhos.

Monday, May 03, 2010

Liberdade

Acorda todos os dias e leva a mao ao rosto , levemente preocupado com o que faz com a sua existencia. Suspira. Suspira outra vez. Arrepende-se de qualquer coisa. Talvez.Tem uma sensaçao estranha a passar-lhe pela pele.
Provavelmente acordou demasiado tarde, os olhos custam-lhe a abrir para encarar o sol do mundo. Provavelmente demorou demasiado tempo a adormecer. Tem algo fixo na mente que tende a não despegar do peito. Provavelmente, vive essa ideia até ao limite que consegue imaginar. Sente uma enorme vontade de ser ele proprio. Sente uma enorme vontade de beber a sua bebida alcoolica preferida até gastar toda a sede. Sente uma enorme vontade de esgotar todos os cigarros que ainda não comprou. Sente uma enorme vontade de procurar a rapariga que lhe realça o nervo azul que o mundo desconhece.
Todos os dias quando acorda leva a mão ao rosto. E, quando se questiona sobre o que anda a fazer com a sua vida, está implicita na reflexão uma ausencia de futuro que o extasia. O amanha existe mas tem cores indefinidas. Está presenta na pergunta uma suavidade boémia, retrato do ser que ele é. Do ser que ele quer ser.
Não sabe o que anda a fazer da sua existencia. Nada lhe dá mais prazer. E nada lhe garante que está a escolher algo que não deixa de ser correcto. A preocupação é um acto de consciencia social, ele gosta de ter sentido nenhum.

Sunday, May 02, 2010

Last Kiss

Posso dar-te a mao mas, etende, isso não vai anular a tua morte. Morremos todos. Mas dou-te a mao, agora e sempre. Porém, etende, é indiferente. Não a vou conseguir aquecer eternamente.
Posso fingir, por fracções de momentos, que existe uma hipotese de me tornar exactamente naquilo que gostavas que fosse. Até posso fingir, mas compreende, é a tua desilusão. Provavelmente mais vale veres agora o monstro que acarinhaste e que nunca será principe algum. Não, não negues. Sabes que é verdade, vejo o meu reflexo de monstro nos teus olhos. Sempre vi, era esse o teu encanto. O silencio seco e duro de um facto duro inegável.
Posso dizer-te palavras mais agradaveis e mais bonitas. Mas o fim é sempre o fim. E depois do fim existe sempre nada. Posso dizer-te palavras que aliviem a tua consciencia mas nunca vao atenuar a dor no peito.Já devias saber que o teu coração é muito mais largo e pesado do que alguma vez a tua existencia será. Apesar de serem uma mesma coisa.
Posso dar-te a mao, mas etende, é irrelevante. Eras a minha rosa e agora és uma rosa enjelhada e rasgada. Posso dar-te a mao mas , observa, já morremos os dois.

Thursday, April 29, 2010

Excepção

Custou-te o coração essa escolha esquisita mas tornou-te maior. Superaste o teu velho eu.
Porque ela amava-te irresponsavelmente , elouquentemente. Dedicou-se a suspirar por ti todos os segundos tremulos de cada respiração. Ela amou-te, do fundo do seu largo coração. E esse amor errado e desmedido dava-te o prazer supremo da posse de um tesouro raro e precioso. Amava-la de volta com toda a tua selvagem existencia , carinhosamente civilizada pelo amor puro dela.
Mas no final do dia continuavas sedento de uma qualquer sensação de prazer. Esgotavas todos os teus cigarros sombrios e todas garrafas de uisque para te esqueceres do teu eu animalesco. Que ela não conseguiu acalmar no teu peito. No final da noite, eras profundamente triste e obscuro na solidão crua e fria. Amavas alguem que fazia sentido nenhum no teu conceito de mundo.
Então deixaste-a viver a vida que ela queria ter, incoscientemente. Disseste-lhe palavras duras , farpas do teu coraçao. Não servias para ela, nunca serviste. Não eras o indicado, não eras o correcto. Não lhe podias dar aquela vida que era o destino dela. Entao deixaste a deixar-te, calmo e sereno. Duro como uma pedra , imóvel.
Depois deixaste de conseguir aliviar a dor com os teus exageros sensoriais. Todas as mulheres que amaste tornavam-se, no final da noite, uma memória ténue e corrosiva da beleza dela.
Amaste-a, amaste-a tanto que reconheceste que não eras o melhor para ela. Daí que te doa ve-la a passear, meio triste meio contente, de mao dada com um homem estavel e amavel, banal e agradavel. Ve-la a viver uma vida inteiramente oca e vazia, um futuro detalhadamente definido.
Sempre soubeste que era esta a vida que ela acabaria por ter. Mas nunca conseguiste abandonar a sensaçao de dor. Deste-lhe o teu coraçao, profundo. E ela não so não percebeu como abdicou de si propria. Porque ves que sente a tua falta na sua tristeza, enquanto passeia sorridente de mao dada com um homem comum. Amar-te- à sempre.
Custou-te o coraçao, essa escolha heróica. Mas sentes que falhaste qualquer coisa.

Wednesday, April 28, 2010

Eterno Orfeu

Talvez a tua memoria seja tao imortal quanto a mortalidade dele. Talvez nunca se consiga esquecer de ti, talvez nunca consiga deixar de ser o ser bonito e caloroso que criaste no eu agreste dele. Belo mas exoticamente selvagem.
Talvez existas no final de todas as noites. Talvez o teu som persista em todas as mulheres que amou depois de ti. Algumas amou por serem reflexos fracos e debeis teus, outras porque eram o teu oposto. Acendiam na pele dele todo o ser que não era contigo. Algumas amou porque te amava e te procurava incansavelmente no mundo. Outras amou porque quis assassinar-se em pequenas luxurias que afogavam a mágoa da tua ausencia. Talvez nessa altura ele já te não amasse, apenas não soubesse existir sem ti. Deste-lhe um eu novo mas ele sempre foi apenas ele. Talvez ele te procure eternamente pelo mundo. E te encontre ocasionalmente. Ou talvez algum dia alguem supere essa tua doce e aromatica memoria e não torne todas as noites dele exoticamente selvagens mas vazias.

Thursday, April 01, 2010

Demasiado tarde

O silencio fundo caiu sobre ele. Não é ironico? Sempre sentiu o ardor frio da tua ausencia mas só agora é que tem consciencia. Porque naqueles tempos sentia saudade de si proprio, não havia forma de te confiar a praia que era so dele estando a praia em cinzas. Não existia espaço para ti porque não existia espaço para ele.
Mas agora é ele o silencio negro da noite. Agora é ele o silencio pesado e solitário da noite . E apercebe-se que a tua ausencia lhe doi. Não como doi o fim de um extasiante puro amor. Ou o fim de uma paixao que consumiu o espirito. Doi-lhe porque lhe fazes falta nos pequenos pormenores peculiares. Doi-lhe porque o fazes sentir só. Doi-lhe porque descobriu que reconstruiu a praia queimada e violentada que era dele porcausa de ti. Por tu existires, para tu exitires. Sem ti, simplesmente não teria sido possivel.
Tu não sabes isso e ele acabou de descobrir. Sente a tua falta, como uma dor fria e fina que o vai anulando devagarinho. Não é nenhum amor extasiante ou alguma paixao ferverosa .Nao há anestesia. Está lucido. Sente a dor grave em cada nervo.
O silencio profundo adormeceu-o. Um sonho aconchegá-lo-á durante a noite. Sim, sonhará que te entrega a chave da sua praia azul reconstruida e que deixa de sentir tao fortemente a tua ausencia. E que não é demasiado tarde.
Para perceberes que é amor. Apenas não é extasiante ( daí que sejas um vicio pessoal dele, que o amolece mortalmente sem nunca ser causa de morte).

Dedicação

Tens de parar de o pressionar. Ele não nasceu para exibir a cicatriz funda gravada a sangue no espirito, tatuagem de quem sente a crueldade do mundo na pele.
Tens de comprender. Ele não tem essa cicatriz. É verdade que viu a crueldade fria, a injustiça mordaz mas não a sentiu. Tudo o que tem são os acidentes a que qualquer um está sujeito enquanto ainda respirar nesta realidade.
Mas, inatamente, queres que entre na guerra contigo. O teu infimo desejo é que também seja a guerra dele, para garantir a eficácia astuta e discreta do ataque dele.
Mas não é a guerra dele. Entra como estratego não como soldado. E entra na guerra quando se ve obrigado ou quando uma consciencia racional e sensorial o orientam no sentido bélico. Ele não tem cicatriz, não é a guerra dele.
Tens de olhar para ele. Ver o seu horror à destruiçao. Tens de compreender que quando entra na guerra contigo entra porque te acredita. Porque te não consegue abandonar. Tens a sua compaixao, a sua amabilidade. Tens a sua fé.
O que ele tem gravado a sangue no espirito é muito pior que a tua cicatriz. És tu que lhe trazes a ruína se não compreenderes que ele te protege com a propria vida.

Sunday, March 21, 2010

Pedra Filosofal

Ouço a tua voz em tom de alerta. Os teus movimentos bruscos e preocupados. Mas hoje ninguem vai morrer. Hoje não haverá sangue em lado algum. Não etendes, não podes viver so para ganhar a guerra. Mesmo que a guerra não seja uma guerra, mesmo que seja pelo teu direito de existir. Mesmo que tenhas as razoes mais solidas deste mundo e do outro para quereres ganhar a guerra.
Um dia terás de sentir o prazer de criar. Algo que não tenha como objectivo a destruiçao. Um dia terás de sentir o prazer da leveza de se ser feliz, mesmo que seja apenas por uma fracçao de segundos. Um dia terás de fazer o que eu faço agora. Fingir que a guerra não existe, que a mediocridade alheia não me sujou o sangue com lama obscura. Não estou a ignorar nenhum facto, nem sequer estou a ser cobarde. Aproveito a vida enquanto ainda a tenho em mim.
Por isso, hoje não me fales disso. Da ruina ordinaria que os outros são.
Hoje sou livre. Hoje sou eu (so eu). Com as costas confortavelmente seguradas pela cadeira. Hoje é um dia que vale a pena memorizar o cheiro. O som. A cor e a textura azul.
Se não houvessem dias como o de hoje, tao banais, não teria qualquer razao para entrar na guerra contigo. Tens de aprender que se vives para a guerra, es a guerra.
E devias ser o Sol ameno de uma tarde Verão. Não um Inverno gasto em folhas que envelheceram demasiado cedo.
(O melhor soldado é o que tem um sitio para onde voltar
)

Saturday, March 20, 2010

O fim

Ele tem por vezes esse impulso louco . De pegar no casaco e correr à tua procura. De escrever a carta com as palavras cuidadas que nunca te confessou. Às vezes é consumido por uma vontade extasiante de te ter de volta. De ajeitar o passado. De se ter de volta. De regressar àqueles dias longos e sorridentes de Verão.
Mas depois é como se o coração revisse pormenorizadamente os dias de chuva que se seguiram. É como se , naquela fracçao de segundos, lhe esgotassem todos os “se”. Todas as hipoteses. Todos os argumentos. Como se naquele intervalo entre levantar-se da cadeira e pegar no casaco alguem lhe descansasse a mao no ombro e concretizasse a verdade que sente mas que não tem coragem para soletrar. Porque soletrar a tua ausencia torna-a ainda mais real.
Ele tem esse impulso louco. Absolutamente alucinado. De que algum dia vais perceber a carta que nunca te vai enviar.
Morreste naquele dia, o teu ser foi dissolvido na chuva. E ele fugiu de todos os cemitérios mas consegues encontrá-lo sempre de alguma forma.
Ele tem esse impulso louco. Mas arracantaste-lhe toda loucura que tinha naquele dia de chuva.

Tuesday, March 16, 2010

Azul Celeste

Vê se tens dó de ti já que me fazes ver-te. Já que me ofereces essa sensação de vómito ao menos faz algo de útil por ti. Olha-te ao espelho, traça com o teu dedo as curvas do nada que és. Ah, sim, és nada. E não digas que o tambem sou ou que o meu anonimato existencial não me permite poder para afirmar tal barbaridade.
Tu és tão nada quanto o céu é azul. Quanto o Sol é amarelo-alaranjado. A tua cor é o nada. Sorris-me tentando evidenciar uma malícia (mas não tens inteligencia suficiente para teres malícia). Dizes-me que o céu não e verdadeiramente azul, depende tudo da luz branca. Como um prisma triangular trespassado por um raio de Sol.
E é exactamente ai que afirmo. És nada. Quando ves o ceu azul claro vivo ele torna-se azul, é a forma como vais conhecer o mundo que ainda tens pela frente.Há uma doce simplicidade na forma como o céu vai ser sempre azul, apesar de o não ser. O que para ti é real é o que te torna diferente de todos os outros semelhantes.
A tua cor é nada. Tu és nada. Vejo-o tao claramente como vejo o imenso azul celeste.
Repara, ser nada, é uma hiperbole. A expressão é uma metáfora.
Mas tu desconheces o que é uma metáfora. Fiz só uma aproximação inocente. És tao pouco que se arredonda para nada sem grande prejuízo.

Monday, March 08, 2010

Enredo

Já viste a desgraça em que se meteu por insistir em algo que o coraçao discordava? Não lhe peças isso. Para ficar contigo, talvez ate por ti. Não lhe peças esse fim arrastado e melancolico, estendido ao sol num dia demasiado frio. Se desejares verdadeiramente que ele insista naquilo que estrangula a essencia dele ou o não conheces. Ou desejas a morte dele como companhia.
Mas não, claro que não. Tu somente sentirás a falta dele descontroladamente. O amor que lhe tens atenua-se quando ves, nem que seja por uma fracçao de tempo. Se perderes até esse pequeno e fragil momento, que te sobra? Nada.
Já viste a desgraça em que persistes em continuar?É tao facil permaneceres com ele, basta que lhe cedas o direito da diferença. Se o deixares ser senhor de si proprio poderás acompanha-lo para qualquer lugar.
Mas tu nem sequer concebes esse conceito de pura liberdade ... Já viste a tristeza em que ambos se afundaram ? Tal qual um navio que perdeu a fé na estrela que o guiava.

Sunday, March 07, 2010

Excerto

O vento é demasiado agressivo e agreste para sugerir um romance fresco de Verão. E eles não tinham essa sorte de qualquer forma.
É dificil vencer um conjunto de realidades duras e inócuas que não respeitam e destroem o teu coraçao.


WinGs, Agosto de 2009

Tuesday, March 02, 2010

Orfeu e Eurídice

Esse falhanço tem o encanto triste de um pássaro desmembrado que espera, pacificamente, essa morte arrastada no tempo tao infinito e tao curto.
O teu sucesso como Eurídice é o declínio dele enquanto Orfeu. Porque é que não vos salvaste quando ele te libertou do seu amor ? Ele libertou-te dessa morte romanticamente destinada a ser crua e concisa. O teu Orfeu abandonou-te para te salvar.
Mas tu só sentiste o abandono na pele. Fizeste o correcto, afastaste-te. Como Eurídice que és, a ausencia do teu Orfeu esmagou-te. Esmagou a tua doce ingenuidade.
Mas esse falhanço tem a melodia carismática da morte, daquela que é suave e até convidativa. E o deus frívolo e paranoico que te escolheu como Eurídice escolheu-te demasiado bem.
Porque quando reencontraste o teu Orfeu não se preencheu no peito a dignidade de quem carrega a dor aguda do abandono . Viste o teu Orfeu, de novo, só importava isso. Nem sequer reparaste que ele o tinha afogado cruelmente, o Orfeu que era. Para mais ninguem morrer nesse triste destino. Mas tu não viste a ausencia dele nele, fizeste-o renascer sem renascer.Ele nunca te abandonou...
E agora vao morrer os dois, juntos. Porque enquanto a Eurídice que vive aconchegada no teu peito quente não desistir de amar Orfeu, ele ama-a incondicionalmente.
O teu Orfeu entregou a sua musica ao Inferno para tu poderes respirar , suavemente, cada momento de felicidade suprema. Porque ele morreu quando te deixou.
Bastava que o não amasses verdadeiramente para te salvares. E salva-lo depois a ele.
O deus que vos escolheu escolheu-vos delicadamente. A forma como cumprem heroicamente um destino tao patético tem o som do riso da propria morte


WinGs