Saturday, October 23, 2010

Antítese

É um corte que nunca lhe vai sair da alma. Tu. Aqueles dias em que a vida elevou-se numa nova consciência, em que ele se tornou mais condescente e humano porque tu estavas lá e tu eras tu. Aqueles dias em que a tua visão do mundo alargou o seu proprio limite de horizonte e deixaste de ter um ego tão cheio de restrições bem fundamentadas.
Aqueles dias que foram inuteis. Aqueles dias que foram uma ilusao verídica de uma realidade que não existe, ele era um comboio em movimento contínuo. É um corte que nunca vai deixar de ser visivel no rosto belo dele. O amor que fluiu e que era profundamente errado.
Porque tu es esse ser, tao carinhosamente igual, tão belamente não especial. E ele tem esta excentricidade que o define sem dizer nada de importante sobre o coraçao dele. O amor que te tinha dizia tudo sobre o coraçao dele e o amor que lhe tinhas dizia tudo sobre a profunda definiçao de o que eras.
É um corte que nunca lhe vai sair da pele , nunca vai deixar de escorrer sangue no espirito. Porque sempre foi um comboio em movimento, sempre foi o seu proprio destino e tu sempre foste uma vida estavel e tranquila num qualquer lugar. E daqueles dias bonitos e inesqueciveis contigo só relembra a inutilidade de um amor que é a antítese do sentido do mundo.
Hoje já nem sequer existes mas quando te vê é o seu reflexo que perde nitidez.

Sunday, September 12, 2010

Dédalo e Ícaro II

Ele estava tao feliz, o Dédalo que é salvou o ícaro que nasceu nele e ambos venceram o Sol. Alias, estava tao descontraido e tranquilo que estava controlado, estava em paz interior.
Mas tu chegaste. E tu és apenas isso, a contrariedade, a consciencia das adversidades. Lembraste-o que o Ícaro tem sempre asas frageis e que algures teve sorte. Não e inteiramente verdade visto que aproveitar oportunadamente a sorte é deixar de ter sorte. Mas retiraste-o daquela calma existencial em que se encontrava. O teu sorriso carregado de desagrado lembrou-lhe que existem ainda outras vezes em que o Ícaro terá de vencer o Sol. Em que o Dédalo terá de acreditar tao fortemente no sonho do Ícaro para lhe endurecer as asas sem as tornar menos frageis e ambiguas. Como um bom sonho.
Mas ele é o Dédalo e o Ícaro. Carrega o sonho de voar e as formas estrategas de o fazer resultar. Não é um qualquer, não morrerá com tanta facilidade. E tu és so isso, uma sombra crua e negra que avisa o pior porque foi a única coisa que aprendeu a fazer depois de ter falho o acto de viver. Se acertares, tu sim, acertaste por sorte.
E ele é o Dédalo e o Ícaro. Morrerá com honra como morre alguem que concretiza a utopia que idealizou. Ele é tambem Ícaro e hoje venceu o Sol, tocou-lhe e sentiu o aroma quente de quem sobreviveu orgulhosamente. Ele é tambem Dédalo e hoje descobriu que a tua genialidade demoniaca e triste não o alcança porque ele é que é movido pela crença na fé.

Friday, September 10, 2010

A tua escolha é o que és

Lá no fundo ele sempre quis ser isto apesar de ter gasto algum tempo a esforçar-se arduamente por não ser. Porque é dificil e é duro mas a glória que lhe prometem esta para alem de qualquer coisa mundana. Ser senhor de si proprio e fazer a diferença para quem necessita de ajuda é uma glória sentimental incomparavel.
E ele hoje é isso. O ser a quem as riquezas de praticar actos crueis simplesmente não convenceram, ele praticou-as mas não compensaram. Ele foi o ser que escolheu fazer o que acreditava que era correcto, ele escolheu a luz. Conscientemente. Tem gravadas no instinto de defesa todas as crueldades que podia ter cometido mas escolhe, activamente, usa-las de forma diferente. O seu ego é enorme e a sua fome de o encher é ainda maior, o orgulho que tem de sentir de si mesmo é gigantesco. E preenche-o, assim. Tornando-se distinto da multidao porque mudou a direcçao quando escolheu ser o que é. Orienta-se de forma inesperada e honesta. Algures descobriu que o amor não tinha preço ou substituto. E tornou-se honestamente naquilo que é. O ser com o cerebro tao genialmente cruel como os outros, demonios humanos, mas com um coraçao puro e sagrado. Itálico
E alcançou a gloria maxima quando rejeitou a gloria por completo e se tornou humilde. E tem a distinçao maxima e o ego cheio, equilibradamente, no limite.

Wednesday, September 08, 2010

Dédalo e Ícaro

Essa tua tranquilidade ansiosa perante a possivel morte é estranhamente agradavel. Porque tudo o que tiveste durante estes anos foi a tua miséria, a tua desgraça era a única que era tua por direito.
A sorte procura os audazes e a tua pericia estratega manteve-te vivo. Mas muito pouco da riqueza que possuis te pertence. Porque acreditavas que eras um milagre e algures tornaste-te num. Quebraste muitas convençoes crueis, a tua coragem levou-te para alem de muitos limites de muitos horizontes. Porém os sonhos que tornaste reais não eram os teus sonhos. Eras um Dédalo em auxilio de todos os Icaros que te procuravam. Sempre tiveste sucesso em concretizar os sonhos dos outros porque eras um milagre, um ser cheio de uma sorte audaz. E não era o teu sonho ou perderias a sorte.
Mas não agora. Despiste-te de todas as personagens que te definem e assumiste o papel de seres apenas tu. Perdeste toda a sorte porque perdeste a perspicácia nesse ponto. Procuraste o teu sonho, arriscaste a vida por ele. Não foste estratego, não foste Dédalo. Foste Icaro disciplinado pelo teu Dédalo a tentar alcançar o Sol. Foste um Icaro sem Dédalo porque esse era o teu papel.
Talvez morras amanha. Talvez, talvez. Mas essa morte é tua, arriscaste o que tinhas a única mascara que não consegues arrancar de ti. E por isso estas tranquilo, é algo que é teu por direito. Conquistaste a hipotese e isso apesar de não ser suficiente é um optimo começo.
Porque tu so tentaste vencer o que era invencivel para os outros. É a primeira vez que tentas não falhar naquilo em que acreditas. É inteiramente compreensivel que falhes a primeira vez mas se a morte não for fisica, meu amigo, continuas de pé.
Porque es o Dédalo e és o Ícaro. E serás sempre um milagre, nem que seja por rejeitares se-lo numa questao de leal honestidade. Tens uma ansiosa calma para saber o resultado na madrugada mas há algo que já te pertence.
O teu destino és tu quem decide.

Metade homem, metade besta

Metade homem. Metade besta.
Essa metade humana é condescente, é generosa. Tens um largo coraçao, uma honesta tolerancia e compreensao para quem souber identificar a tua lealdade de ferro. Uma nova e melhor versao do mundo move-te neste mundo, move-te se necessário, até à morte e para alem dela. Tens um coraçao limpo dos pecados do mundo o teu amor é honesto.
Metade homem. Metade besta.
Não consegues bloquear o fascinio pela inteligencia crua e fina, pela genialidade de uma acçao cruel justificada por uma alma desfeita em pedaços. A perspicácia e a astúcia aplicadas sabiamente, quer seja para conquistar o bem ou o mal. E no final, é essa metade de besta que te salva e que te faz sobreviver. Consegues deixar o teu coraçao à porta e sentar-te calmamente no dia da derradeira batalha sem ele. E não sentes nada a não ser que costumavas ter coraçao e ele agora não esta contigo.
Metade homem, metade besta.
Porque a tua metade de homem é esperançosa, é frágil. É movida por uma fé bonita. A tua metade besta salva-te , garante o respeito. Deixa-te entrar numa sala sem coraçao envolvendo-te num encanto peculiar de quem não vai cair com facilidade. A metade besta oferece-te um sorriso estranho mas tranquilo.
Metade homem e metade besta. No meio de uma guerra que nasce em ti tu alcançaste um equilibrio inconfudivel.

Tuesday, September 07, 2010

O novo Herói

O teu rosto é o rosto de uma multidao que não tem força para gritar. Emprestas o teu grito bélico e o teu braço leal aqueles que foram encurralados e cegados. Emprestas a compaixao violenta do teu coraçao aqueles que querem a libertaçao mas perderam a força e a força da esperança para se mexerem.
Podias ser um deles, dos que cegam e encurralam e assassinam em actos que não deixam sangue rubro escorrer. Podias se-lo, tens a mesma genese, a mesma liberdade e a mesma violencia. Mas o que tu desejas ardentemente é não seres um monstro e isso é tudo o que és. O que escolhes não ser é o que és, o que perdes mostra a cor da tua alma.
Por isso seguras e agarras aqueles que já perderam a voz para pedir ajuda. Corres o mundo por aqueles que já desistiram de lutar, afundados na tristeza que os sufocou. E estás lá com eles, a ver o brilho elouquente da morte em cada pedaço de sombra.
Existes para salvar quem o mundo escolheu matar . Um deus qualquer deu-te todas as capacidades que tem os outros unindo-as a uma consciencia humana e sensitiva. Colocou-te num sitio ao qual não pertences. Tornou-te igual aos que praticam as crueldades alheias e aos que as sofrem e no final a escolha foi tua.
O teu rosto é o rosto de todos que resistiram mas algures foram chacinados e não se conseguem mover. E, no final, a luta é entre ti e os teus irmaos.
No final és tu, movido por inumeras almas que te pediram ajuda e os teus irmaos que as torturaram. No final, é uma luta de titãs.

Sê Humilde

Para que o prazer do fracasso alheio? Isso não dimnui o teu. Nem o aumenta, apenas evidencia. Para que o amor à destruiçao sem proposito? Ouve, quando destrois deves ter o proposito de construir a única legitimidade para praticares esse horror é a liberdade. Destruiçao sem proposito é pior que a destruição por si só.
O que é que te dá, saberes que não foste o único a errar o caminho? Quantos mais afundares menos hipoteses tens de te salvar. Salvares alguem do mesmo erro que tu é a única forma de te ajudares. Quereres a destruiçao para te integrares e te sentires bem em frente ao espelho é um acto estupido e ignorante. Vais misturar-te com uma multidao onde vais ser apenas mais um. Falhado, fracassado. Falhaste a vida e falhaste no acto de viver.
Ter razao não vale isso, o queimar frio do teu coraçao. Porque se perderes a subtileza de sentir, de ter compaixao. Não tens razao, nunca a tiveste. Mesmo que acertes, não tens razao. Previste o acontecimento baseado em factos duvidosos, foi mais sorte que genialidade.E ter razao não vale isso, nada vale. Mas tu já te afundaste, não me vais ouvir não me afundei.

Monday, September 06, 2010

What ever happened

Ele quer ser esquecido . Nao quer que as suas carismáticas ideias e peculiares angulos de respiração sejam recordados Mais do que ser esquecido, ele deseja nunca ser lembrado.
Porque não vai ficar aqui. Não vai ficar aqui de forma nenhuma. É uma opção ilusória, é preciso viver de mentiras mal estruturadas para acreditar que ele pode ficar. Mais vale que vivas assim, sem ele. Que saibas conscientemente que ele não vai ficar aqui mesmo que retorne sempre. Não fica aqui de maneira alguma.
Porque é so isto, ele. Um comboio em continuo movimento com destino certo mas indecifrável. Um comboio destinado a não ter destino.
Inspirado em What ever happened, The Strokes

Saturday, September 04, 2010

Desfecho triste

Gostava de te dizer que não te perdoo mas na verdade é um gesto inútil. Sendo irrefutável, a existência da solidão é agradável. E compreendo-te.Não posso negar a nossa sintonia no nível da desgraça interna. Não te posso acusar.
Mas gostava de te não perdoar para continuares vivo comigo. Para existires em mim. Só para te manter vivo.Aqui.
Porém não posso fingir que te não compreendo. Demasiado bem, apesar de abstractamente. Perdoei-me porque tu existes. E, na verdade, não erraste perdoar é uma palavra que demonstra a minha dor. Apenas.
A tua despedidade é estranhamente dolorosa. Porque não me pões em causa . (E ,talvez por isso, sinta verdadeiramente a falta. )

É tudo nada. Menos que a memória mais volátil.



WinGs, 21/04/2009

Thursday, September 02, 2010

Lucidez

O fogo sempre o fascinou.Se por um lado era simbolo da força da clarividencia de uma luz dificil de apagar. Por outro era simbolo da destruição sem qualquer compaixao, quase imparavel . Maior que qualquer homem. E o fogo sempre o atraiu como um íman. Magnetico.
Tinha o isqueiro na mao. A tentação de sentir o calor da chama e de ver as cores magnetizantes do fogo foi muito maior que ele. A adrenalina do perigo fe-lo mover os olhos e procurar o papel, o medo que vivia nas suas maos tremulas não o impediu.Pegou no papel, num pequeno e insignificante papel. Aparentemente. Aquele papel resumia em palavras concisas uma vida que ele já tinha abandonado. Uma vida que não era a dele. Uma vida que o fez feliz e que depois o deixou entregue ao vazio de uma felicidade sem proposito.
Entao, no calor da noite, rasgou o papel em dois. Queimou apenas um pedaço e observou, maravilhado, o fogo expandir-se- Soprou e apagou. Mas não conseguia parar . Queimou a outra metade, movido por uma energia que quase o deixava em transe
Mas a chama era muito maior, muito mais atraente. Observou minuciosamente a destruiçao das palavras enquanto o fogo lhe fugia ao controlo. Queimou ao de leve os dedos e o medo inato libertou-o do transe.Atirou o papel para o chao e pisou-o.
Olhou de novo para o papel, para o que restava dele. Eram migalhas, apenas migalhas. De uma vida que viveu mas que nunca foi dele. Não tinha escolhido aquela vida e agora já não era importante. Queimou a metáfora. Queimou o facto.
Desde sempre que o fogo era fascinante para ele. Desde que se lembra. Deitou-se calmamente na cama, relaxado pela satisfaçao de ter visto arder. Aquele pequeno papel. Era certo que era louco. Mas se-lo-ia mais se não tivesse queimado aquele papel. É por ser louco que é livre. Livre ate de fantasmas , não ha nada que aquele fogo dele não queime.

Saturday, August 21, 2010

Liberdade

Tributo a William Wallace, libertador da Escócia

Apedrejaste o herói. Quiseste humilhá-lo para o assassinar depois de estar já morto. Mas só conseguiste esvaziar o corpo divino de sangue rubro. Só conseguiste esventrar a carne. O herói sobrevive ao seu proprio corpo. Sobrevive ao seu proprio tempo.
Torturaste o herói. Quiseste vence-lo , demonstrar-lhe a sua patética efemeridade. A fragilidade da sua pele humana. A tua raiva surda contra algo muito maior do que alguma vez serás levou-te a perderes-te no poder que o herói exercia sobre ti. Nunca o superaste , nunca o venceste. Nunca. Quiseste torturá-lo para não exibires a impotencia mediocre que te definia. Mas o herói não era como tu, mortal. Não. Trazia consigo o som divino da liberdade em cada insignificante gesto.O heroi trazia consigo um fogo impossivel de extinguir. Era divino. Mais, era livre.
E tu nunca foste melhor que o medo que sentias dele ou melhor que o medo que quiseste incutir. Nunca foste capaz de um feito maior, nunca alcançaste a coragem.
E se julgas na tua triste e patetica figura de poder prepotente que venceste. Vê. Perdeste. Perdeste tudo. O herói conquistou a liberdade apesar depois de o teres assassinado cruamente. Era divino porque era livre. E os homens seguem a coragem, arrastou com ele a multidao a que nenhum exército pode fazer frente alguma vez. A vontade de vencer foi a vontade de ser livre. E isso é invencivel.
E, se ainda julgas na tua estupidez alcunhada de nobre, que venceste algo. Vê melhor. No sitio onde ainda reinas, no sitio onde torturaste e assassinaste o herói, eu choro a morte dele. Do Messias. Mas sobretudo, venho honrar e enaltecer a memoria do heroi. A inspiraçao que foi. Mais. Que ainda é. Porque assassinaste o heroi, desfizeste o homem em pedaços. Mas nunca assassinaste a liberdade que o movia.
Repito. Vim ao teu sitio dourado honrar o heroi. Torna-lo ainda mais divino. Ainda mais eterno. Ainda mais livre. E recordar o seu nome e contar a sua historia. Renasce-lo. O teu nome é o nome da sombra cruel , nojenta e vergonhosa que assombra a humanidade. E, como tal, mereces permanecer na penumbra.
Vim honrar o heroi. Lembrar a sua existencia. Porque “todos os homens morrem mas nem todos vivem realmente.” Vê como perdeste tudo e perdes ainda. O heroi viveu , vive ainda e viverá sempre. Porque os homens seguem a coragem. Porque o heroi tornou-se num simbolo da humanidade, numa figura de verdadeiro poder que orienta e protege os que acreditam. Na liberdade.

Thursday, July 29, 2010

Intermitência

A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. E não importa onde mora o corte fundo da decapitação, outro dia nascerá. Poderás não manter quem és mas nunca fugirás ao que és. Daí que seja inutil, adiares a morte da noite porque ela termina de qualquer maneira.
E uma brisa fresca nocturna alcançar-te-á. Um dia deixará de ser importante, as coisas na tua vida tem o sentido que lhes deres e esse sentido será o único verdadeiro. De resto, nenhuma falha é infundamentada. O universo tende para o caos mas tu és um caos organizado, qualquer erro é lógico, qualquer erro tem uma causa e uma consequencia.
Mas não tens qualquer expectativa de inglória. Na verdade, a desgraça que ocorrer na madrugada não é culpa tua, sabes bem quanto vales. Mas esta realidade não pronuncia a mesma lingua que tu, o problema de comunicaçao inato alcançou o teu espirito.
A tua perspectiva é de vencedor. Mas como poderás ter alguma glória quando não te entendem, falando tu a lingua deles? Como poderás alcançar esse tipo de sucesso expectante se a diferença ajeita-se suavemente nos conceitos profundos que vos movem?
A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. Nem esses escassos minutos de noite viva que te restam. O problema não morre aqui. Os teus te não entendem, os teus são nada
para ti.

Monday, July 26, 2010

Last Kiss

Apagou o cigarro no cinzeiro e observou o fim da chama, o fim do fogo. Alguma vez o vais deixar? Ele não consegue apagar-te mais do que isto, não consegue desviar os olhos do cigarro desfeito pelo desespero com que o apagou.
Apagou o cigarro . Respirou fundo. A angustia estava enrolada na garganta, apertava os nervos do peito. Roubaram-te, roubaram-no. E o desespero dá-lhe uma energia esquisita para se mover. E fuma outro e outro. E bebe, já perdeu a noção do que esta a beber. Já te perdeu, que mais importa?
O cigarro desfeito lembra-lhe o teu corpo desfeito e amassado. O teu ser sem vida, perdida nos braços dele que nada podiam fazer. O desespero dele em devolver-te a vida que te tiraram violentamente. O desespero dele para que não fosse verdade. O grito calcário que escureu a noite quando a verdade crua o atingiu. A corrida louca que fez para fugir do presente. A corrida louca que fez para gastar os musculos, os ossos, o fisico porque o interior estava desfeito. Como o teu corpo, coberto de sangue, sangue inocente. A corrida louca que fez para se cansar , para ficar abandonado a um canto à espera que a morte ou que uma maior crueldade o abraçasse.
Apagou o cigarro no cinzeiro. Observou o fim da chama. O insulto violento , desesperado edoloroso ao acidente que te roubou, que o roubou. O insulto violento , torturado e trémulo ao Deus que não existe. Apagou o cigarro no cinzeiro e voltou para ela no meio da noite. Nada tem que ver contigo, não tem essa fragilidade e essa doçura que te tornavam um anjo na terra. Um anjo morto nos braços dele, ainda hoje sente a textura do teu sangue na pele.
Alguma vez o vais deixar? Alguma vez ele vai deixar de ter estes pesadelos frívolos em noites suaves sobre o dia da tua morte? Sobre o dia em que parte dele tambem morreu? Mas tem horror a esquecer-te, a deixar-te morrer, eternamente. Por isso apaga o cigarro violentamente e observa fixamente o cigarro desfeito, tao desfeito como o teu corpo inerte nos braços dele. As lagrimas puras dele não te acordaram. Mas tem horror a esquecer-se da suavidade aromatica da tua memoria, todas as noites acorda com o pesadelo real que o tortura. Prefere isso a deixar-te morrer, assim.

Wednesday, July 21, 2010

Carta aos falhados arrogantes

Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia colada ao coraçao seco e imundo. Porque o mundo é coerente, quanto menos se é mais justificaçoes terao de existir. E tu és tao pouco! Certo, é certo nunca tiveste oportunidade de seres grande, de seres um Sol aberto e brilhante no céu que aquece e ilumina. Mas podias ser decente, podias aguentar-te , podias ter uma boa morte.
Mas não.
Obviamente que não.
Mal aguentas existir nessa carcaça que enbelezas todos os dias ao espelho. És nada, assim o escolheste. Mal aguentas olhar o teu rosto pouco atraente no espelho. E de nada vale partir o espelho , por isso, no teu jeito patetico de fingir que és um sobrevivente, deformaste a alma. O teu rosto tornar-se-ia hediondo se não fosse demasiado triste, demasiado cómico. És so um ser triste que, por querer desesperadamente adaptar-se e esta realidade rejeitar o teu amor, usou o ódio como mascara.
Não. Espera. Correcção.
Usou a sua propria desgraça, usou o seu falhanço para mostrar que sobrevive e que não precisa de ter um lugar aqui. Que rejeita um lugar aqui.
É tao triste. És tao triste! E tao banal. Quase inofensivo, basta o respirar de um verdadeiro sobrevivente para te reduzir a menos que pó.
Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia que queres enfiar a força no mundo para não contemplares o circo cheio de palhaços tristes que és.
És um espectaculo triste , tao patetico que provoca o riso . Mas o teu ser frustado não tem graça, quando a cortina descer, verás que ninguem bate palmas.
Podias não ter sido um sol que ilumina e aquece. Mas podias ter sido decente. E alguem bateria palmas por teres sobrevivido . Só conseguiste aumentar a repugna e a aversao à tua existencia. “Os homens seguem a coragem”, devias ter feito o mesmo.
Obviamente que não.
És so um espectaculo triste que termina sem palmas, não conseguiste divertir nem os sádicos com a tortura que tentas esconder mas que sustenta a tua fealdade existencial.
(Lamento, e física.)

Saturday, July 17, 2010

Existir

Sentado no canto da praia. Na mente tem gravada a tua voz. Repetida, repetida. A frase, a melodia das palavras que lhe são estrangeiras mas familiares. Porque se fossemos apenas o que estamos destinados a ser demonstávamos a inexistencia de destino algum. Ele não quer ser isso, uma convençao repetitiva e triste.
Sentado no canto da praia. Calmo, sereno. A raiva que circula no sangue atenou o proprio sentimento de raiva que existe nele. Resta-lhe um pouco de tristeza, de melancolia, de cansaço, talvez. Está cansado, da raiva e da ausencia de raiva. Por isso deixa-se estar tranquilo no silencio de seda negro da noite. A ouvir o som agradavel da àgua. A contemplar o sentimento sublime de existir.
E a tua voz sempre presente no espirito dele. Repetida, repetida, repetida... Sentado no canto da praia, o seu santuário, o lugar sagrado isento de marcas que revelem a pertença dele a uma terra. Ou a uma nação. Isento de memorias bélicas que lhe causaram as cicatrizes espirituais e a marca dos condenados à morte tatuado no coraçao . A praia que é dele sem o ser. Nasceu num canto daquela praia, a ouvir o arrastar paciente do mar. Consertou-se e reconstruiu-se naquela praia, a maravilhar-se com os minusculos graos de areia que lhe provocam comixao nos dedos.
Sentado no canto da praia onde pertence, o santuario de religiao nenhuma. E a tua voz , e a tua voz , sempre presente. A relembrar-lhe o lugar que lhe pertence ,o lugar onde ele pertence.E a tua voz a cantar-lhe, numa melodia bonita, a sua condenaçao e salvaçao. A dizerlhe que as cicatrizes são feridas sãs.
Sempre a tua voz no canto daquela praia. Repetida, repetida, repetida, repetida... “
Music is your only friend until the end”, Sentado naquele canto da praia. Só. Com o mar. Em sintonia com o mundo nocturno . Só quando a realidade cala a sua voz estridente é que ele alcança alguma paz e ouve a tua voz. Ouve-te a ti, o teu ser perdido no teu tempo e arrastado ate ao tempo dele. Sentado naquela praia, num canto que não existe. O canto é ele.

Monday, July 12, 2010

Recurso a Eugénio de Andrade


Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias...


Eugénio de Andrade ( As Mãos e os frutos)

Thursday, July 08, 2010

Carta à Sociedade

Não quer ser isso. O filho prodigo que segura a mao do mundo quando o mundo lhe corroi a vida. Não quer ser o mártir amado e adorado enquanto o seu corpo jaz imovel e frio abandonado numa terra qualquer. Não quer ser isso, uma vida cheia de sucesso que lhe diz nada.
O falhanço nunca teve um sabor amargo tao agradavel. Se o mundo não esperar nada dele entao deixa-o em paz. Deixa-o livre. Na tua visao, mal se aguenta sozinho como vais contar com ele para alguma coisa? O falhanço nunca teve um sabor tao doce. Ao menos acabou a mentira patetica que se instalou. Acabou o conto de fadas triste ,dramatico e forçosamente feliz com um final visivelmente programado. Ele sempre disse que faria algo novo e que ninguem o ouvia. Ninguem lhe prestou atençao e ele continuou a avisar que um dia ia quebrar. Sempre disse isso, que gostava de quebrar convençoes pateticas que continuam de pé porque as pessoas não aguentam a sua propria frustraçao.
Não quer ser isso. Uma humana versao de Cristo que representa o bem e o perdao. Porque ninguem o desculpa a ele, ninguem olha para ele. Usam-no, exploram-no , violam-no. Arrancaram-lhe a privacidade, a liberdade, a unicidade suave e bela do ser dele. E ele quis de volta. E agrediram-no , disseram-lhe que o amavam, ninguem o ama mais que voces.
Não quer ser isso. Um filho prodigo que segura a mao do mundo sabendo que isso é a sua propria morte. Não quer ser filho, não quer ser nada. Quer ser ele, apenas ele.
E ele já esta quebrado. Já o quebraram. Parou a chacina. E embora tenha falhado sente que está no caminho certo.
Longe de vos. Monstros deglutores da originalidade para garantir a existencia da vossa existencia patetica.

Monday, June 28, 2010

Orfeu & Eurídice

Oh por todos os deuses. És um outro rosto da Eurídidice. A que pertence ao Orfeu moribundo , acabado e devastado pela morte da outra Eurídice que tem no peito. A outra Eurídice, a quem salvou a vida ao rejeita-la. A que lhe deixou um buraco profundo por ter sido uma desilusao. Não era a Euridice, a sua Euridice. Ainda está viva e ainda se sente rancorosamente rejeitada. Nem sequer compreendeu que o Orfeu dele a salvou...
E, oh por todos os deuses, já não se consegue importar com a tua morte, o Orfeu que é ele. És diferente, és independente. És livre. Te não pode salvar porque não necessitas de salvamento algum. És livre. És a Eurídice livre do livre Orfeu em que se tornou.
Mas ele continua a ser o Orfeu, o mítico. Continua a ir-te buscar-te ao Inferno. Continua a fazer qualquer coisa por ti. E tu, enquanto Eurídice, vais-te apercebendo que ele te ama, nas entrelinhas do Orfeu que ele é, vais-te apercebendo que és a sua Eurídice, a preferencia inata.
E, oh por todos os deuses, ele ama-te. O Orfeu que tem no peito. E sofre por ti.
Não se consegue importar com a sua morte crua. Desde que percebas que és única. A única. A Eurídice do Orfeu dele.

Sunday, June 27, 2010

Destruição

É o teu ser. É essa tua necessidade de posse. De seres o final estonteante de um filme de suspense. De seres uma brilhante ponte , correctamente construida, entre mundos desfeitos e separados. É essa tua psicotica necessidade de seres importante, de seres o único ser verdadeiramente importante.
Deprime-me. E entristece-me. Não porque não brilho , mas porque me vais roubar qualquer sucesso que tenha. Vais querer partilhar uma gloria que não é tua. E interiorizarás os meus fracassos, como se tivesses culpa nos meus erros. Tens, mas não no sentido que julgas. Sufocas, crias um ambiente de estufa onde tu és a abelha-rainha e todos os outros te servem. Tu reges o mundo.
Mas não sou assim, eu. Mais uma abelha dessa tua triste colmeia. Isso não sou eu, quero ser algo novo sempre quis ser um ser novo. Por isso, não contes comigo para continuar a iludir-te so para não te enfrentares ao espelho. Não vou ficar aqui, não vou partilhar o meu sucesso ou o meu falhanço. Seja o que for, é meu. E a culpa que tens é uma culpa que nem sequer reconheces que existe.
É o teu ser. Obececado em controlar porque não tem a minina auto-disciplina.

Thursday, June 17, 2010

Brilho

A tua ausencia,
Tem o cheiro do mar de Verão
Numa noite fria
E esmigalhada.

Como uma estrela fundida,
Inócua no céu de seda
Sou uma existencia
Triste e heróica
Imóvel no tempo
Taciturno.

O grito é mudo,
O silêncio ofuscou
O mundo.
E respiro, aqui
Estando em lado
Nenhum.

A dor foi beijada
Pelo vazio.
Nada sinto nada sou.
Mas tenho esta arte
Pura e primitiva.

A tua ausencia
Brilha-me na pele.
E o mundo encontra
Uma beleza fina
No meu ser
Invisivel.