Monday, December 19, 2011

What a Wonderful World

Eu sou eu, um objecto em dinâmica contínua , parte integrante de um movimento que me altera e que vou alterando, suavemente, na proporção do meu tamanho e da minha relevância. Sou uma ideia que defendo activamente e que me caracteriza enquanto a personalizo, sou a oposição consciente incisiva na corrosão do ideal que desprezo.
E sou uma fonte de erros, de falhas e de incoerências antroplógicas cheias de uma lógica rigorosa ampla e humana porque sou egocêntrico equilibrado no optimismo do reflexo que identifico como meu. Sou uma reserva compactada das inovações que me favorecem ao oferecerem-me um lugar cheio de mérito existencial no mundo. Sou uma essência individualista arrongante, acredito que a minha ideologia tem , pelo menos, tantas hípoteses de estar correcta como qualquer outra.
Eu sou eu, apenas eu e, no final, sou apenas eu , que existe contigo em dinâmica contínua numa rede densa e suave de afectos que se nunca quebrou. Porque sou uma fonte de qualidades que se ornamentaram e que se tornaram mais elegantes no pensamento na coexistência uníssona contigo, desde sempre; sou, em alguns instantes, uma versão diferente de ti ( porque a existência precede a essência).

Friday, December 16, 2011

Desintegração

A interpretação do significado do conceito da palavra que já é uma interpretação em si. A confusão que fica do desentendimento na consciência de que o mundo não é apenas uma estrutura lógica correctamente organizada de forma a fazer friamente sentido. E o que é bom ou o que é mau perde-se na interpretação intimista pessoal dependente de cada experiência vivida.
Perdeste a vida na desintegração absoluta abstracta do porquê e foi assim que existir atingiu o apogeu na tua pele, a experiência após a experiência. Pedirem-te para ignorares o porquê é pedirem-te para não viveres, não há nada de puramente lógico na tua procura da razão inicial, curiosidade sensível da essência humana.
E o que não cabe no porquê é irrelevante, se não compreendes o fundamento matricial é porque o não vês inatamente e ele não te soa real. No final, as coisas são exactamente o que são, consequencias de viver para alem de ser espectador passivo de existir.
Não há sacrificio. Não há uma perda absoluta. A interpretação da palavra é a tua forma de ver o mundo, é o teu olhar, tudo é dinâmico e, se te não compreendem, é porque o teu ego original não é real. Perdes a vida a vive-la no clímax, a tua tristeza e a tua alegria são uma mesma coisa.

Monday, November 14, 2011

Amor II

Daqui sinto o cheiro do mar, tão distante numa proximidade espiritual. Sofri o dia todo na espera cheia de uma obessessão pacifica que a noite acalmasse e enternecesse a essência que é minha e que é do mundo.
Respiro fundo. Cheiro o mar, o som da brisa salgada cola-se aos ombros.Perguntei-me pelo valor de todas as palavras que digo, pronunciei nada porque tudo era artificial sem superficialidade. E o mar estava cinzento no azul aberto claro infinito.
Esperei o dia todo pela paz da noite. Sobraram palavras nenhumas. Até que, enfim, tu chegas.

Amor I

O Amor também é um dogma social desenhado em abstracto. Vejo, quando te olho , aquilo que teria gostado de querer. Nada é real tudo é válido, te não vejo porque não sei se me vejo. Observo, talvez, aquilo que gostava de me ter tornado entranhado enrolado na memória que julgo que te pertence.
E, no entanto, é simples.
Tu cumpriste o destino que era meu e sempre fui demasiado egocêntrico individualista para ver nos teus olhos o meu próprio reflexo. Sou demasiado eu para ser previsivel. Sou demasiado eu para ser narcisista.

Monday, November 07, 2011

Silêncio

Aborrece-me pensar que fecharei os olhos e um novo dia brotará da janela do mundo. Aborrece-me a convenção, talvez tenha uma qualquer dormente dor a oprimir o espirito e, dormir, é assumir que acordarei com ela no amanhã sem saber bem que dor é que me atormenta. Só sinto dormência, invevitabilidade do que é inevitável.
Talvez seja o oposto, há uma felicidade oblíqua inteira no negro da noite, silêncio profundo da minha essência em descanso tranquilo, só o ruído quente da música no vazio. Talvez seja o contrário, sinto-me em felicidade calma cheia de uma excentricidade quase filosófica. Talvez, importa pouco, significa quase o mesmo. Já me disseste tantas vezes que ver luz onde só há negro e encontrar aí a minha triste alegria é patético e mórbido e te já respondi inúmeras vezes que vives numa felicidade saltitante irritante de quem quer pouco da vida e se resigna a ter uma mente pobre e um espirito podre. Não sabes o que fazer ( viver a vida!) enquanto esperas a morte, não sabes existir.
Aborrece-me fechar os olhos e descansar o corpo, não quero a leveza de que a vida continua. Quero a vida em si. Quero o teu silêncio porque te não sabes entreter enquanto vives.

Saturday, November 05, 2011

Desconcerto

O problema em algo subjectivo abstracto, o problema do conceito de elitismo. Não saber ser menos do que se é, não saber reduzir ou simplificar e existir essa necessidade. De tornar tudo mais perceptível, ser um Ícaro experiente que aprendeu a sobreviver às quedas venceu o seu ego, jamais vencerá o Sol, lhe não sobra nada a seguir. Ícaro não quer vencer o Sol, o mundo perderia limites e tem de existir sitio para o amor viver.
Pensar para além do que é visivel, o desfazer do agora e o excessivo aproveitar do momento para a vida não ser gasta em algo, volátil, talvez. Não tornar a ideia superflua e ocamente excêntrica, depois perde-se o fundamento. O desprezo pela vida ao vive-la demasiado e a procura do equilibrio existencial.
Viver é simples, tão simples. E complicamos tanto, interpretar o que não existe para acontecer o que não estava previsto e evoluirmos nas rudes opiniões que se tornam mais elegantes com a inovação reciclável da inteligência (mas somos só Homens). E o desintegrar do conceito aureo de Amor porque tem de se confinar ao lugar fisico onde lhe é permitido respirar para nenhuma parte da vida objectiva ser perturbada. Somos só Homens e nem isso sabemos ser. E o meu pensamento e o meu ser perdem-se no profundo discordar da ideia base fundamental com a qual não consigo coexistir.

Thursday, October 20, 2011

Darwinismo

A suavidade da noite, a memória ténue de uma memória que permaneceu e que é real sem o ser, a mudança contínua constante oblíqua existe sempre quer a vejas quer escolhas ignora-la porque o frio que fica desta consciência é algo que não aguentas. A suavidade da existência, tenho a calma tranquila de quem venceu a guerra porque me assumi uno cheio de dualidades explícitas intimistas nessa batalha que tu , talvez não repares, mas é em nome da evolução.
Porque sempre fui um sobrevivente, fui hábil e flexível estratego em todos os instantes de todas as esquinas das ruas por onde passava e me esquecia o nome. Fui sempre eu e fui eu que permaneceu, firme direito bélico, nessa disputa. Cumpri o destino que escolhi para me oferecerem, sou Homem e não tenho medo nem do proprio medo. Não tenho medo da morte.
E muito menos tenho medo do cinzento macilento da tua essência fraca tísica patética. Sou Homem, tenho duvidas, tenho hesitações, tenho um turbilhão de percepções e sensações e sentimentos dentro de todo o meu ego mas não tenho medo, não desse tipo. Enfrento os meus fantasmas para lhes dar um outro nome e me serem uteis na vida que eu escolho, activamente e conscientemente, viver de forma a que a morte faça sentido e se enquadre naquilo que me define.
A suavidade da noite, venci uma batalha, porque existo e vivo e tenho o mundo na pele, porque vivo. Estou calmo, consciência de ter consciência e consciência de ter sido eu, Homem inteiro divino na sua imperfeição opaca. E tu, que temes tanto para as minhas palavras e a minha certeza de que eu sou eu te enervarem e perturbarem e descontrolarem tanto? (A vida que não sabes viver e a guerra que não tiveste perspicácia na derrota.)

Monday, October 10, 2011

Reminiscências de uma Morte

(La valse a mille temps) porque a vida é preciso vive-la, não deixaste de existir, não ainda. Não morreste em absoluto concreto, guio-me pela tua melodia que permanece aqui (que imagino eu). Não findaste tudo o que eras nem terminaste tudo o que gostavas de te não ter tornado. Não, não, deixaste algo por fazer, tenho eu as tuas memórias.
(La valse a mille temps), é a tua voz no mais profundo calcário do ser que tenho e que tento que se não perca do teu. É o teu conselho, o teu ensinamento, sempre fui discipulo teu. E ouço-te ainda, a recordar-me da minha juventude , a consciencializar-me de todo o prazer epicurista de viver e de querer ter mais do que uma qualquer existência, tão oferecida à minha essência volátil como foi a inevitabilidade da morte.(não, ensinaste-me a preciosidade metafórica concisa livre da vida) A tua advertência para eu aprender a ser eu, ser inteiro no trilho que escolhi como morte , que escolhi como final de tarde no azul salgado de um verão fresco e quente. A voz que se perdeu no tempo, que se misturou com o vento nocturno cheio de um som cheio de luz.
(La valse a mille temps, Pour que tu aies vingt ans et pour que j'aie vingt ans), no meio do ruído cavernoso da multidão de betão, só aqui estamos nós. A felicidade de viver prenche-me o espirito , sinto-me vivo, sinto-me Homem, quero viver, quero saber morrer. Quero ver o mar, sentir a espuma das ondas a salgar-me as ideias, quero que o sol me aqueça e ilumine a dor para ela não se sentir tão só. Quero imaginar que somos ambos jovens e fingir que tu ainda aqui estas e sentar-me a ouvir-te , quero que não importe que não seja real porque não deixa de ser verdadeiro honesto gesto.
(La valse a mille temps), e tu estás aqui e sinto-me feliz na infelicidade de já não existires, de te ver só quando não sei que te não posso ver. Mas estás aqui, importa pouco que não estejas, estás aqui e sinto-me feliz na miséria que é minha, na miséria que me torna mais Homem porque me define sem limitar o que é viver. Mas estás aqui e o mundo peganhento dúbio sujo de tanta mediocridade inócua a propósito de um enorme vazio humano enfadonho treme, treme à minha chegada porque só me vê a mim mas sou mais do que eu, estás aqui , tu, eternamente, ( la valse a mille temps) e nada pode a opaca negra lamentavel oca multidão com um rosto tão definido no nada que são contra nós. Contra ti. Nunca pode. (Une valse à cent ansune valse ça s'entend , a chaque carrefour)

Wednesday, October 05, 2011

Viver

Apetece-me devorar a vida, prende-la à alma que desacredito ter, sentir a liberdade máxima, procurar a única escravatura sublime que quebra o determinismo do destino (o amor). Hoje quero ser uno, quero ser o Universo e sentir-me exterior àquilo que sei ser-me, quero amar-te te não amando, tornar o teu rosto nos traços do retrato da ausência, sempre me pareceu saudavel permitir que a arte oriente e ampare a frustração ou a dor ( talvez porque o seja, facto em abstracto, ou porque aprendi assim a abraçar e a conviver com a dor que é minha em absoluto).
Apetece-me queimar suposições românticas ocas sem um porquê digno de existir, apetece-me um outro tipo de existência, uma mais violenta (a paixão intermitente no desejo de querer ser). Apetece-me existir em plenitude , ver-me só na multidão mas ser feliz em qualquer projecçao, em qualquer perspectiva, ser inteiro integro. Quero ser agradavel louco , quero –me incluir ao excluir ou ser o som dissonante que não pertence mas que torna tudo mais livre excêntrico profundo.
Quero viver violentamente mas de mansinho, apetecem-me os pequenos e discretos prazeres que me tornam mais Homem e menos besta, quero ser mais elegante requintado na forma como percepciono que penso. Apetece-me sentar em sítio nenhum e esperar que chegues, ser leal na minha infidelidade , não quero saber onde estás nem te quero dizer que o azul do mar me faz companhia do interior para o amplo e infinito exterior de mim. Apetece-me devorar a vida, ser irresponsável sem ser inconsequente ou ingénuo. Hoje quero ser imprevisivel, até para o meu mais profundo e denso inconsciente, desejo ser imprevisivel.

Sunday, September 11, 2011

Dia de trabalho

É a ultima noite de liberdade, vivo neste mundo cresce em mim a necessidade de desorganizar um caos correctamente organizado. É a ultima noite de liberdade, desta leve forma de respirar e o meu corpo pede a mais tranquila das noites. Queria viver , é a ultima noite de uma epoca pacifica, de uma epoca tranquilizante. Queria esgotar a vida, observar o mar no fundo da janela dos meus olhos e inundar-me de uma vida selvagem civilizada por ideais cujos mestres já estão mortos.
É a ultima noite de liberdade, a loucura de não ter praticado loucura alguma. O desabafo da solidão, sentia-me a falta. Queria paz e o aborrecimento de um quotidiano quase apatico. Na ultima noite desta liberdade, na ultima noite antes da azafama de uma cidade pequena para tanta vida que dela escorre, so desejei a paz. Relembrar-me das boas memórias sem pensar nelas. Estou em mais que calma de existência, como que drogado por ter vivido e por ter sido louco, lucidamente louco, descanso agora. Qual o sentido de viver se não perdemos um majestoso tempo arrastado em que pensamos nas loucuras e o nosso espirito parte com as aves porque fomos livres, artistas filosofos abstractos, na forma como a vida se prendia ao estomago?
É a ultima noite de liberdade, vivo neste mundo tambem preciso de exercitar o meu cerebro. Preciso de sentir a ausência desta paz para me saber melhor no seu regresso. É a ultima noite desta leve forma de olhar o mundo, amanhã sou parte do ruído da cidade. Por isso estou em paz. Em tranquilidade existencial. Porque sou livre, não me roubará isso um caótico quotidiano que só os ignorantes apreciam. Sou livre, terei a mais descansada das noites porque sempre fui livre e guardo memorias de ser livre debaixo da pele.

Roma

Choro por ti. Choro por mim, não quero o mesmo destino triste, partilho já uma parte do teu fado. A tua essência, tão humana, foste deus tendo tido sempre uma carne fragil. Queimada, destruiste-te a força de te construires, algures o teu sonho afundou-se em ti e acordaste no dia seguinte com tanto vazio dentro de ti sem te aperceberes sequer.
Choro por ti, pela tua fé quebrada. Tão mortal , tão magnificiente, tão falivel. Uma sucessão de sucessos que conduziu ao pior dos fracassos. E hoje o teu rosto é relembrado pela tua loucura quando perdeste a tua fé e o quando o vazio te guiou. Foste cruel, foste desumana, perdeste-te e continuaste de pé na teimosia de quem não aceitou que morreu. Perdeste a tua dignidade em honra de um tempo que se já tinha petrificado e és relembrada por isso. Quando a tua fé se afundou na concretização errada de um sonho bonito, afogou-se a tua grandiosidade. Afogou-se a tua utopia.
Choro por ti e lamento por mim, procuro-te sempre nas entrelinhas aborrecidas e cansativas do meu quotidiano. Lamento por mim, tenho a astúcia crua do teu pensamento a iluminar-me a sombra. Mas tenho-te saudades, tantas saudades, abro a janela na noite profunda e o teu aroma paira na cidade, ergueste-lhe os alicerces civilazacionais. É um vento discreto, porque perdeste a tua fé devagarinho, deixaste que a única religiao que alguma vez te moveu dissolver-se na poderosa magnificiencia que estava envelhecida. Mas tenho-te tantas saudades e esta é uma noite calma, tranquila, guerra nenhuma vigia o céu, ninguem te precisa, nem eu invoquei a tua estratega perspicácia. Choro por ti, lamento tanto a tua triste história cadenciada numa melodia cheia de lógica. Humana, lógica humana.

Monday, September 05, 2011

Jim Morrison

No teu corpo desfeito entregam-se os teus crentes . Dissolvidos pela tristeza de já não existires, preenchidos pela existência divina inovadora, abstracta magnificiente que tiveste ( que tens ainda).
No teu corpo desfeito deixei eu a minha melhor melodia , deixei eu o meu clandestino cigarro numa cidade que não é a minha. Sou teu crente, deus homem , morto por um tempo que não era o teu. Sigo a tua voz que ainda hoje é signo de futuro. Sigo a tua melodia ímpar e encontro-te vivo na morte que te definiu antes de sequer ter eu aberto os ouvidos para saber de que cor é o mundo.
Ao teu corpo desfeito deixei eu o meu obrigado mais profundo honesto, a mais elegante e sincera arte que em mim escorre. Sigo-te, que seria de mim sem a tua existência para me fazer companhia na solidão gelada de uma noite demasiado quente? Ao teu corpo desfeito deixo eu a prova de que a tua vida não foi inutil. De que não foi vazia, de que não és um corpo oco.Foi crueldade ignorante alheia, a tua morte.

Apolo

Metáfora da clarividência, quebras o silêncio da noite com a melodia do sol que és.Símbolo da luz, trazes contigo a calma e a perseverança que se nunca alongam o suficiente.
Deus jovem, mortal de tão Homem, viram-se para ti as orações mas só as ouves quando tens tempo. É difícil o teu ego, tens uma crueldade momentânea egoísta. Mas tens em ti a arte, nenhuma melodia se assemelha a beleza da tua lira. Tens o dom de iluminar as trevas nocturnas que se instalam nos corações dos homens, tens o dom da cura, atenuas a dor, Deus da medicina, atenuas o sofrimento. E tens mais dons aínda, num combate oblíquo com o mais negro que em ti respira.
És homem de tão sedento de prazeres baratos, tens tudo em plena magnificiência e perdes-te nessa leveza de seres Deus. És dual, ego diagonal, és pai dos Homens.
Metáfora da clarividência, entrego a ti a minha oração, Deus da música curandeiro. Nessa melodia única da tua lira mora o meu antigo coração.

Tuesday, August 09, 2011

Unhappy Girl

“Sempre pensei que o amor fosse complexo. É tao biológico quanto é racional. É tão creativo e inovador quanto é antigo. É tão humano quanto é animalesco.. É o mais denso pensamento existencialista; é o mais elaborado narcisismo que acaba por alcançar ferozmente o altruísmo. O mundo alimenta-se deste amor que é sustentado por um peculuiar e puro egocentrismo.
Mas o Amor é simples. Amo-te apenas porque tu és tu, um inteiro ser que é um Universo caoticamente organizado só para mim. A beleza do teu rosto não deixa tambem de ser desenhada pelos meus olhos. E amo-te com a complexidade que existe na suavidade do mar de uma tarde de Verão. O Amor é volátil e é efémero como uma flor.Amo-te apenas porque tu és tu.”


Ele dobrou de novo a carta, as palavras dela tinham sido verdade, o já não eram. Não, não o eram para ele. Mas as palavras, aquela inutil folha de papel guardava perfeitamente a essência dela. E ela era única , era dual. Vivia do que sentia, vivia da melodia que o mar lhe cantava ao ouvido, vivia de sensações extremas e da consciência no final da noite. Vivia da tristeza em paralelo com a alegria. Ela vivia da vida que germinava dentro dela, era única. Era dual, tao melancólica e tão carismáticamente alegre.
Ama-a ainda, por isso. Ama-la-à sempre, mesmo quando o amor se esgotar, ama-la-à sempre. Porque ela libertou-se da dor daquelas palavras , resumo de um futuro sem futuro, ao escreve-las. Naquele pedaço de papel respirava o coração dela. Ela tinha um elegante e melódico conceito de arte. Mas ele não. A única arte dele era ela, era o perfume dela, era a essência dela e ela já tinha partdo. Porque ela percebia e vivia da arte e ele vivia numa realidade organizada , fixa e imutável onde não mora a ideia improvavel.

Saturday, June 11, 2011

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Eu já escrevi os tristes versos com a melodia da tua essência, não tenho nenhuma reminiscência tua a não ser uma velha e gasta familiaridade. Tenho gravada na pele, a memória fraca do amor que existiu. E que já não existe.
Tenho a tua memória sem ter a minha, já desenhei a minha tristeza naquelas palavras , veladas por um manto estrelado. Me não culpes se as estrelas so te falarem desse leve e doce amor que existiu e que já morreu. As estrelas só espelham passado e a tua melodia era tudo o que tinha. Disse-te tantas vezes que já era demasiado tarde e que as palavras se gastam, os gestos são queimados pela luz do sol e o amor flui na àgua.
Meu amor, serás de outro, és de outro e não me magoa porque o amor não deixa de ser inutil. Já perdi o ego que te amava, se esse meu eu já não existe, tu nunca exististe. E o amor é inutil. Fica a memória da memória que um dia foi verdade.
Amei-te quando te amei e, amei-te até, quando te não amei. Pouco importa a beleza desse passado, meu amor, pouco importa que me ames ainda , apesar de já me não amares. É inutil, meu amor, é inutil. Esquecer-te-às e serei uma desfocada memória de uma memoria que não existe.
E amo outra ( e amarás outro) , sem nunca te substituir, substitui porque, no passado o amor é irrelevante.
Já escrevi os tristes , melancólicos e arrastados versos naquela noite. Já me causaste essa dor e eu esqueci-me da sensação. Já me esqueci que me tinha esquecido. De ti. Esqueci até o esquecimento.
Meu amor, já escrevi os tristes versos naquela noite. Já me causaste a última dor e, aquela tristeza grave melódica que me envolveu, é uma memória longíqua. Liberta-te de um passado que é inutil. Deixa que o esquecimento corroa a minha memória.

Sunday, May 15, 2011

Evolução

Caminhas só. Causaste a tua propria solidão quando decidiste que angulo teria o teu nascimento, escolheste, inocentemente, pertencer a esse lado da luz num tempo cheio de escuridão.
E , amanhã, lá vais tu cumprir o teu ritual de tortura. Agora, nos tempos modernos, eles tornaram-se piedosos e esquivam-se de coleccionar cabeças, não, tentam que a tua essência se dissipe e te mistures num cântico uníssono com eles. Mas o não farás, nunca. Aguardas sempre o dia do sacrificio, aguardas sempre a tua sentença enquanto orientas a tua vida segundo a tua ideia. Enquanto procuras que as tuas simples palavras tenham algum efeito nos inconscientes. Dás o teu melhor para ganhares segundo a tua crença no núcleo do sistema deles.
Caminhas só mas não estás só. Tens em ti a força dos teus Mestres. Tens em ti a força daquilo que crês ser melhor. Tens contigo aqueles que contigo concordam e , que na tua companhia, partilham a tua tortura. E, essa amizade que se instala ,é ornamentada com a mais leal das lealdades. Isso, nunca vao eles perceber e, só por isso, poderás perder a batalha e a tua vida de nada valer mas, eles, que são tantos ficaram reduzidos a menos que pó: porque caminhas só mas carregas em ti a inovaçao.

Friday, May 06, 2011

Prometeu

Um dia, o teu Mestre já aqui não estará para tentar salvar o teu ego. Porque o Inferno existe em ti e queima-te a originalidade de seres tu se não souberes coexistir com o que descobres no teu reflexo de vidro.
Mas, mas às vezes, não consegues não rejeitar o teu proprio Mestre. Para continuar dignamente vivo, tem uma crua irascíbilidade que se torna crua; não tem compaixão pela mentalidade que é claustrofobica e retrógada, nem quando é um humano choro tão compreensivel que se torna desculpavel. Porque o teu Mestre foi mestre da sua própria essência antes de te tornares seu aprendiz.
Um dia, o teu Mestre desiste de ti. Observa que te defendes e que resistes a grandes e visiveis questões, que és brilhante na crueldade que é facilmente audível. Mas abandonas-te nos pequenos pormenores persuasivos do quotidiano. E o maior perigo respira aí, nas pequenas nuances da rotina que se entranham na tua pele, que consomem a tua individualidade incoscientemente.
Um dia, estarás só numa pequena e quadrada comunidade a viver uma vida artificial, a respirar uma liberdade que não existe porque não há nenhuma marca de individualidade. Porque, o teu Mestre, é sabia e astutamente individual, é senhor de si proprio, é perspicaz e é agil. É conhecedor da essência humana, a dele e a dos outros. Observa as pequenas fraquezas e vence porque acertou nas pequenas fraquezas. Cede a grandes e visiveis questões, mas é ele que controla os pequenos pormenores persuasivos do quotidiano. E, se tu não resistes inconscientemente, das entranhas do teu ser, às pequenas pressões, às pequenas e não audiveis torturas do quotidiano, és apenas fraco e débil porque não tens em ti uma essência matricial que te faz discordar, inatamente, do que não concordas .És impotente na resistência à agressão silenciosa e dissimulada.

Friday, April 29, 2011

The severed garden

O dia nasceu cinzento apesar de o Sol iluminar a cidade. O dia nasceu cinzento, irremediavelmente cinzento, tem de existir harmonia entre o ego dele e o resto do mundo. Apesar do calor, apertou o casaco negro contra o peito, o preto era lhe confortavel e não sentia nem frio nem calor, sentia apenas a necessidade de apertar o preto contra o peito. Aquecer o gelo que lhe corria nas veias.
Passou o portão, sempre num passo lento e firme, a tristeza tem às vezes este sorriso. O choro alto e claustrofóbico de uma mulher incomodou-o, havia uma fracçao de uma inocente ignorância na forma como estava desesperada. No choro longo e sofrido, ouvia-se uma falta de espirito, uma observação dele demasiado crua, talvez. Mas ele ouvia essa falta de resistência , essa entrega fraca à morte. E continuou a caminhar, estava à tua procura. A dor dele pertencia-lhe, a não desejava partilhar com o mundo.
Algum tempo depois, encontrou-te. Sentou-se à tua frente, calmo e sereno, o rosto impassivel, impenetravel. Do bolso retiou o maço de tabaco, acendeu um cigarro. Deixou que o fumo fosse na tua direcçao. Uma multidão vestida de negro passou por ele, amaldiçoou-o , gritou-lhe. Não entendiam.
Conversou contigo, fez-te perguntas. Respondeste-lhe nessa tua voz grave e despreocupada. Tu és a única pessoa que não tem uma consciência profunda do que te aconteceu e , ele, percebeu tudo demasiado tarde. Era um destino demasiado triste que tentou evitar como pode. Ignorou esse destino certo teu até que se tornou verdade.


O homem acabou o seu trabalho de alisar a terra. Estava habituado aquele ambiente negro e triste do cemitério, estava habtiuado à dor das familias que deixavam naquele sitio o que restava de uma esperança cruel. O homem trabalhava no cemitério há muitos, muitos anos, mas nunca tinha visto nada como aquilo. Um homem novo, com um casaco negro preso ao peito, sentado à frente de uma terra por preencher a fumar.A ignorar todo o ambiente que o circundava. A indiferença dele era a expressao fisica da dor , uma dor ornamentada com uma dignidade respeitavel. Ele estava bem, estava triste. Nada podia ser feito por ele, a morte é irreversivel. So não compreendia , o pedaço de terra na sua frente , não tinha nenhuma campa.

Algum tempo depois levantou-se. Olhou-te uma ultima vez. Pediu-te desculpa, não ia regressar tao depressa. Tambem ele necessitava da doce solidão. Precisava que a tristeza se ajeitasse, que se tornasse artistica.
Tirou o casaco negro do corpo, começou a sentir o calor a ajeitar-se na pele. Tinha uma bruta consciencia ele, queria dizer-te para aliviar o pensamento que estava preso à mente dele. Que lhe era inato. Por isso é que te disse que preferia que o teu suícidio tivesse sido físico, preferia que tivesses como tecto aquele pedaço de terra. Porque morreste quando deixaste de existir, e, completamente morto estás hoje. Seria mais facil se te pudesse chorar naquele sitio. Seria mais facil ver o corpo inerte do seu irmao ao lado de tantos outros.
Mas escolheste um destino ainda mais triste, a arte da tua tristeza foi ainda mais profunda. Arruinas-te um pedaço do ego dele com essa tua morte.

Monday, April 25, 2011

Berlim

Havia um encanto diferente naquela cidade, talvez fosse apenas o meu ego à procura de uma textura diferente para o coração. Mas nenhuma me deixou uma melancolia tao embaladora quanto aquela.

A minha mente prende ao peito a memoria para que a cidade nao morra em mim com a sua vida citadina e calma, aquela boemia e pacífica forma de existir. Os edificios destruídos como recordação de uma guerra; os inovadores e novos que foram construídos e que escondem a ruína fantasma de uma época obscura sem a silenciar. Os jardins que eram bosques com as àrvores grandes e tristes. O povo tao diferente do meu, a diferença exibida pela aparencia exterior.

Há um encanto diferente naquela cidade, nenhuma me deixou tanta melancolia. Ajeitava-se perfeitamente ao meu ego, guardava-me um lugar como a minha cidade nunca guardou ( e, agora, depois da minha traição, guarda-me menos que nada). Há uma sincronização uníssona que aínda hoje torna a noite fresca com aroma a uma suave saudade. E, mesmo depois dos outros sitios que os meus olhos memorizaram, é aquela cidade que o ego vê. Sempre.

Porque a diferença estava no meu ego e , numa nao existente feliz coincidência, encontrou naquela cidade tudo o que desejava ser. Aquela cidade é o meu reflexo, o que também desejei ser.

E, agora, a minha essência tem aquelas cores, nenhuma a iguala. Ou atenua a saudade.

Thursday, April 21, 2011

Cores de Paris

Talvez se tenham esgotado as palavras, às tantas ele pintava o seu proprio defice na realidade. Talvez desenhasse tudo o que o nao compreendia e tudo o que ele nao compreendia. Talvez a arte tenha sido uma forma de enquadrar a tristeza na filosofia que sempre acreditou: a arte é inutil, sem proposito, metaforica e bem fundamentada. Garante um certo optimismo por quebrar uma solidão que se instala involuntariamente. Uma solidão que se instala na solidão dele, a solidão que ele tanto ama.

Por isso é que sempre foste o quadro principal. Nunca entendeu o Amor e nunca entendeu o porquê de dissecar o Amor. Nunca te conseguiu questionar o porque de isso te ser tao importante, de lhe sentires a ausencia e a distancia e a indiferença só porque, para ele, o Amor é algo diferente. Sente quando sente. Quando o vento lhe beija a face, quando uma esquina lhe dá saudades da tua mão, quando o alcool e o cigarro nao compensam a tua companhia.

Talvez por isso se tenham esgotado as palavras. Já se cansou de se tentar perceber para te explicar o que é ele. Ele é ele. E o Amor dele é a imagem de como existe no mund. Por isso é que sempre o inspiraste e ele nunca pintou nada exactamente sobre ti. Nunca entendeu o Amor, nunca o quis entender. Ama-te como te ama. Sente-te a falta quando lhe fazes falta. Ama-te por nunca conseguir desenhar a beleza que a tua essência tem para ele. Porque nunca compreendeu o amor, ama-te. Talvez, talvez por isso, devesses compreender que tambem nao entendes o Amor.

Talvez por isso te consoles na Arte. É quando o descobres. É quando te descobres. É o que tem em comum. Esse apego estranho à arte.

Tuesday, April 12, 2011

Amizade

O mundo é um lugar curioso, tem uns ironicos contrastes. Ser melhor que esta realidade claustrofobica e circundante é quase tao dificil quanto é viver. E já me tinha esquecido da sensação que é a consciência bruta de quando o vento murmura, fria e violentamente, que viver implica mais que ir existindo de mansinho. É mais do que ir tendo picos de uma excêntrica felicidade e momentos de entrega à profunda e azul tristeza. Tinha-me esquecido que concordo contigo. Esqueci-me das marcas que tinha por não ser igual não sendo, abertamente, diferente. A minha igualdade deixou-me ir existindo e deixou-me, em momentos conscientes sóbrios, um sabor àspero na boca. Tornou a morte e a brutalidade que a resistência a uma igualdade barata, inutil que cicatrizam no espirito, um mísero e suportavel sofrimento. O mundo é um lugar curioso, tem uns ironicos contrastes. Ser melhor que esta realidade claustrofobica e circundante , é algo que fazes tao naturalmente como se fosse fácil. O que fizeste com o teu passado define o brilhante angulo do teu sorriso. E tens essa despreocupada forma de viver relaxa e responsavelmente. Tens essa intrinseca vontade de viver. E tens essa resistencia inata de quem crê honestamente no que faz. Por isso é que vives tao forte e honestamente como se fosse fácil.E já me tinha esquecido da aromática sensação que é de quando o vento nos beija o rosto e arrefece o espirito. Porque o que fui não limita o que serei, apenas queima algumas realidades paralelas que não se habtituariam ao meu ego. Já me tinha esquecido desse sublime prazer que é resistir. O mundo é um lugar elástico, tem a forma que impuseres que tenha. Porque quando se é livre, é se inteiramente original. E já me tinha esquecido do prazer que é defender o ideal e , quase idolatrar, estas cicatrizes que moram em quem discorda. Ate te encontrar e ver a forma despreocupada e natural com que lidas com a tua marca. É tua, define-te. Mas jamais te limita. E lembrei-me que existia de mansinho em vez de viver enquanto tu eras tu. Apenas tu. Melhor que toda esta circundante claustrofobica, banal e patetica realidade.

Thursday, March 24, 2011

Rosa Perdida

O lugar vazio de um sítio que nem sabias que era importante, porque às tantas és melhor do que esperavas ser. O mundo tem esse impacto em ti, dá-te o sonho e o sabor do sangue.
Mas o Amor é mesmo o melhor que existe na essência Humana. E depois de tantos dias compridos e cheios de uma massiva tristeza, os esverdeados olhos esperam-te num abraço que só te cura as feridas se for o abraço dela. O precipicio de onde so saltas se aqueles braços te segurarem o folego. Porque há sensações pelas quais vale sempre a pena morrer, morrias para sentir os teus dedos entrelaçados nas manchas sedosas do cabelo. O sentimento de paz que te surge quando a silhueta se destaca da multidão e tu a identificas. Por mais densa que fosse a multidão, identificarias aquela silhueta em qualquer momento.
O lugar vazio de um sitio que nem te apercebeste que se colava ao teu coração enquanto quebrava a dureza do teu ego. E acabas por te encontrar no espelho com uma consciência mais fina. És melhor do que sempre julgaste que eras, melhor do que o melhor que desejaste ser. Porque o Amor é esse sopro de final de tarde Verão quente , enquanto as tuas mão memorizam a essência do mar.
Amachucou o papel na mão. Que importava? Enconstou para trás a cabeça e acariciou a longa barba branca. O lugar vazio de um sitio que nunca se apercebeu que játinha sido queimado há muito tempo, há quase tanto tempo como aquelas doces palavras que lhe voaram do peito para ela. Antes de ela nao querer saber , nao entender o valor. Antes de ela querer comparar o amor que ele lhe tinha com a vida ordenada e banal que sempre desejou a seguir ao seu típico celestial e aborrecido casamento.
Amachucou o papel e levantou-se. Depois de terem passados tantos anos, a dor era igual. Atenuou mas continuava latejante. Nao lhe doia que ela o tivesse deixado. O que lhe doia, desde aquele dia até hoje, era ele te-la amado.

Saturday, March 12, 2011

Desprezo

O som do meu riso ocupa, quase involuntariamente, esta sala quadrada que me dissipa a raiva que se vai misturando com o sangue, colando ao ego. Porque, no final, meu amigo, so me apetece olhar-te, ver quem és. E rir-me. É involuntario, acalento no meu espítito a ideia firme de que és uma vergonha ate para esta triste sociedade; és um atraso ate para quem já morreu neste tempo cinzento.
Oh! Não comprimas os músculos como se a tua dor fosse imensa, uma dor nunca é patética e sempre me orgulhei de não ser cruel. A dor, para ti, é quando rejeitam a oportunidade superficial e estúpida de preencheres o vazio que esse complexo de existencia deixou na tua essência. É que, meu amigo, nem sequer és cruel. Ou perspicaz. Ou movido por algo que imponha qualquer tipo de respeito, não é tudo tao pouco que , sinceramente, oiço o meu proprio riso onde julgava viver um consentido desprezo.
Ah! Outra vez, o teu eterno e ruidoso sentimento. Honestamente, deixas-me saudade da cruel e fria forma perspicaz como esta sociedade , as vezes, aniquila ideais e esventra egos demasiado bonitos para poderem viver aqui. Porque? Ah é tao simples, eles ao menos evocam respeito pela forma inteligente como se movem numa massa cinzenta baça abstracta a que se chama multidão. Ao menos eles puxam a evolução à força de a negarem. Tu puxas nada, reclamas nada. Sofres nada. Vales nada.
Por isso, meu amigo, meu inutil e oco amigo, ironicamente oiço-me a rir abertamente da tua patetica existencia. Após aquela irritação , so vejo um palhaço triste a continuar o seu patetico e feio espectaculo quando o publico já o rejeitou e já abandonou a sala.

Friday, February 25, 2011

Arte

Uma certa paz invade-me as vezes. Sinto uma enorme vontade de deixar o Sol entrar pela janela e aquecer a minha essência. Porque quando todos entregaram a Deus os seus sofrimentos eu alonguei o meu coraçao na arte. E a arte tornou-se no meu único Deus, a única forma de não praticar ateismo. Ou obter das entrelinhas da minha existencia um argumento filosofico agnostico.
A arte, sob qualquer sensação, é a minha religião. Desde a arte do heroi que libertou um país pela sua bélica crença na liberdade ( que lhe custou apenas a mortal vida) à forma como , de vez a vez, a tua voz me aconchega os pesadelos e os tornam irreais. Ou aquele quadro onde revejo, egoistamente, uma parte do meu ego que nunca lá esteve sem deixar de, efectivamente, estar lá ou o não veria.
A Arte é o meu único Deus. É o Sol que entra pela minha janela e torna o espirito leve. É a minha única religiao. E sou feliz com ela quando a tristeza , que chega sempre, nada pode contra este Sol quente e radioso. E estou em paz. É tudo o que importa. Tambem eu tenho um paraíso e um inferno, não são iguais aos teus mas não são menos verídicos ou válidos.

Tuesday, February 15, 2011

O Novo Aquiles

Quando sentires o doloroso e alongado chacinar da tua essência, será já tarde. Quando sentires o estalo cru dos teus ossos. Já é tarde.
Ah! Não vês? Ele herdou a força e a magnificiência de Aquiles mas a consciência da fragilidade do calcanhar oferece-lhe um destino diferente. E torna-se ainda melhor e maior ao reconhecer em quem não se quer tornar. Não quer ter qualquer semelhança contigo.
Por isso, nada podes tu contra ele, contra alguem como ele. Nada ganhas ao tentar vencer a suave e fria perspicácia dele. Diverte-te agora, enquantojulgas que podes. Enquanto a consciencia bruta de que és nada e miserável não está definida no teu corroído espirito, julgas que podes tentar humilhar um teu semelhante. A tua aguda e estridente ignoranância transforma-te nesse triste ser que não sabe viver.
A tua patética ignorância te não deixa ver que ele é um Aquiles renovado depois de lhe teres esmagado o calcanhar. Tornou-se ainda mais bélico e mais estratego, quando desejar entrar na guerra vence-a. Facilmente.
Quando ouvires o som dos teus ossos estalarem, quando sentires todos os teus musculos rasgados como papel, será tarde. Não devias ter tentado esmagar-lhe o espirito. Entende, ele é o novo Aquiles, ao proteger o calcanhar tornou-se invencível. Enquanto tu és apenas mais um triste e decadente mortal que se gasta em cobardias porque, quando te olhas ao espelho, tens essa inegavel certeza de que és pouco, de que és miserável. De que nada vales.
Ele é Aquiles, ao proteger o calcanhar tornou-se invencivel. Que podes tu contra alguem como ele? Diverte-te na tua ignorancia enquanto julgas que és Rei. Rei de Nada porque é isso que és.

Sunday, February 06, 2011

Orion

Meu amigo, todos nós somos miseráveis e existem apenas dois tipos de pessoas. As que reconhecem a sua miséria e que acabam por ser melhores e maiores que a desgraça que as define. E existem as outras, que nem sequer consciência da miséria que são têm e vivem nessa arrogante ignorância ilusória de que a existência deles é melhor e mais saudavel do que a dos outros.
Como vês, meu amigo, existem dois tipos de pessoas. As que são pessoas e as que fingem que são pessoas na esperança de serem recompensadas por serem mesquinhas e pequenas. Por serem rídiculas. E patéticas. E burras. E, indefinidamente, cómicas.
Mas, meu amigo, a tua miséria sempre foi um melódico e triste desconcertar interior. E a miséria que sou é o que tu foste, talvez a tenha herdado de ti. Talvez tenha isso como legado teu, essa triste de tão melancolicamente verídica, visao objectiva e abstracta do mundo.
Porém, posso dizer-te onde duramente erraste contigo. Porque, por mais miseravel que fosses, meu amigo, existe sempre Orion que te vela e te afaga o sono. Existe sempre a Orion, a estrela que reflecte a tua grave e melodica tristeza para não seres apenas a miséria que és. Existe sempre a Orion que, ao te nunca deixar só, evoca uma esperança bélica e te torna naquilo que fizeste com a miséria que tens consciencia de ser.
Porque somos todos miseraveis , meu amigo. Alguns , simplesmente, tornam-se em algo melhor do que isso. Entregam a pureza de um ideal de ego à Orion. Porque “estamos todos na lama, mas alguns conseguem ver as estrelas”.

Tuesday, February 01, 2011

Deslize

Eles tinham isso em comum, um amor excêntrico e aberto pela música. E, para eles, a música era o ponto máximo da existência de Deus sem se preocuparem se Ele existe ou não. A música era a beleza máxima de uma vida epicurista, era a Orion numa noite fresca de Verão, era um por-de-sol numa tarde quente. A música era a cor do espirito, o que os mantinha vivos. O que os mantinha juntos. O Amor pela música alongou-se , alcançou a verdadeira essência Humana. E a música é amor, é arte, é a sombra da solidão que os nunca deixava sós.
Mas so tinham isso em comum, o amor excêntrico e desmedido pela música. E, algures, ela trocou a música por algo mais futil sem, nunca no entanto, deixar de exibir esse aberto e azul amor pela música. E ele deixou de a amar, a música era a vida dele. A música era ele. Não tinham nada mais em comum. Eram opostos. O amor que lhe tinha perdeu o fundamento.

Monday, January 31, 2011

Ciclo

O Amor obriga-o a ser o que ele gostava de ser e ele gosta de ser só ele. O Amor obriga-o a cumprir esse papel até que esse papel que ele cumpre se torne real e ele seja isso. O Amor fá-lo alcançar esse ponto em que a ilusão se torna válida.
Mas ele gosta de ser só ele. Em alguns dias, gosta de ser apenas ele. E o Amor que tem pelo seu proprio ego fá-lo ser ele.Inteiramente e apenas ele. Esse mesmo ele, que harmoniza o Amor no teu peito. E cumpres esse papel até que se torne real, até que ele creia nesse eu que representas todos os dias. Até que essa imagem, essa permanente actuação se torne real. E tu sejas quem julgas que és. E tu te tornes em quem queres ser.

A Crença II

Sempre o silêncio como sombra claustrofobica de palavras mortas que alcançaram o futuro. E a crença de que um amanha melhor chegará num destes dias. Mas o teu Mestre está morto.
Entregas-te a pequenos prazeres, a tua fé já foi esventrada. Trocaste a esperança por um ego de aço. Trocaram-te a fé pela procura da credibilidade do ideal que te move. Porque o teu mestre está morto.
O teu rosto guarda as cicatrizes de todas as vezes que venceste. Não estarias aqui se não tivesses, habilidosamente, sobrevivido. Tornaste-te melhor porque venceste o teu próprio medo. Mas o teu mestre morreu, o medo , mesmo na sua cristalina utilidade, não desgraça tanto como a dor.
E assassinaste Deus antes de Ele existir, toda a plenitude de existencia que tens , pertence-te. Mas o teu mestre morreu. Em ti. E, agora, todas as palavras estão mortas porque perdeste a crença.

Friday, January 28, 2011

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Escreverei os versos mais tristes esta noite. Meu amor, o mundo é triste e a felicidade não deixa de ser uma disciplinada forma de viver. O ínicio guarda o mistério de não conseguires adivinhar o fim. Esgotámo-nos. Esgotámos as expectativas de um novo mundo que nunca chegou.
Escreverei os versos mais tristes esta noite. Meu amor, as estrelas não se comovem com a dor humana porque, quando a veem, outra diferente desgraça já se instalou. E outra aquecer-se-à nos meus braços assim como tu te aqueceràs nos braços de outro. Meu amor, esgotámo-nos. É inutil. Amei-te e, em momentos de cristalina existencia, amaste-me. E , agora, tudo é irrelevante porque se esgotou o Amor. Amaste-me e, em dourados segundos, amei-te. Amei-te até quando te não amei. Amo-te aínda, enquanto me esqueço. Amo-te ainda, enquanto o fim se instala e o passado se torna numa pequena e longíqua memória.
Escrevi os versos mais tristes esta noite. Meu amor, a ilusão tem a sua metade de verdade. Mas o Amor esgotou-se. E a estrela so te pode indicar o Norte se te quiseres perder. Porque o que foi passado tem a sua metade de inutil. Meu amor, recordo quem és mas já não reconheço a tua essência. Escrevi os versos mais tristes esta noite, o esquecimento nunca tem a sua metade de quente. Esgotámo-nos. Esgotei-me em todos os versos que escrevi. Esgotámo-nos.

Orfeu Envelheceu

Orfeu envelheceu. Entregou-se a um outro tipo de morte e a tristeza calcificou-lhe a essência. Orfeu envelheceu e nos fundos traços de uma existencia quase imortal lêm-se as entrelinhas de um amor que lhe arruinou a crença. Que o deixou vivo depois da morte ter ido ao seu encontro.
Orfeu envelheceu. Guarda aínda no peito o inconfundível perfume de Eurídice. Da sua Eurídice, ama-a quando a relembra. Ama-a só quando a ama, a não pode amar quando não a ama. Orfeu envelheceu, esqueceu o que era o amor , guardou apenas a memória do que era aquela vida. Orfeu envelheceu mas o mundo continua jovem.
Talvez não fosse Eurídice, talvez Orfeu tenha entregue a melodia única da sua lira à Eurídice que não era Eurídice. Mas está envelhecido, Orfeu. Ama-a ainda quando a relembra. A não pode amar quando a não ama porque o fogo congelou-lhe o coraçao. Orfeu envelheceu.
Sempre foi a Eurídice errada. E Orfeu está velho. A morte abraçou-o e deixou-o vivo para contemplar a o fim da sua harmoniosa essência todos os dias.
Orfeu envelheceu, era a Eurídice errada. Mas, de alguma forma, foi a sua Eurídice. Ele sempre foi Orfeu. Era a Eurídice errada mas era a sua Eurídice.

Wednesday, January 19, 2011

Incomodo

É um incomodo que lhe não sai da pele. Porque, quando o caos se apodera , a tua imagem reconforta-o. E ele sente-te a falta e deseja o teu abraço.
Mas tu és um eu morto. E ele é um eu morto, o eu dele que te amou. Morreu.
Quando uma qualquer desilusão se abate sobre o ego dele, sente-te a falta. Foste o único ser que nunca o compreendeu. Amaste-o sem o compreender.
É um incomodo que lhe não sai da pele. Só tu o conheces o suficiente para reconheceres as suaves extravagancias dele ou o momento em que o coraçao dele se despedaçou. E, tu. Tu nunca o compreendeste.
É um incomodo que lhe não sai do espirito. “Roubou todas as rosas dos jardins e chegou ao pe de ti de maos vazias”. E esse romance que não conseguiu singrar reflecte demasiado bem o que ele é.
É um incomodo corrosivo que lhe não sai da pele. Este amor que ainda te tem sem te dedicar amor algum.

Tuesday, January 18, 2011

Carta de Homícidio

Sinceramente, é uma parte brilhante do meu ego da qual há muito deixei de me orgulhar. A minha perspicácia tornou-se numa meia hipocrisia incisiva. E sempre preferi viver o suficiente para ver a ideologia que desprezo perder-se no tempo por ser demasiado medíocre. Sem pre tive essa mordaz cobardia em nome de uma calma e tranquila vingança crua que nunca era executada pela minha mão.
E, às vezes, é preciso sujar as mãos com sangue alheio para se ganhar o direito de viver com calma. A violência gera um ciclo de violência que uma paz utópica nunca atenua. E, não, não me consigo vanglorizar por ter unido a minha relutante sombria honestidade com um ideal que não singra aqui.
Porque o meu erro é culpa inteira vossa. É um clima de competição que a vossa mediocridade gera. O meu sangue está guardado porque sempre foi limpo, o que me misturei com voces foi uma fria estrategia . A minha triste ironia é tao concisa que a tomam como elogio. E o meu cru divertimento vive na forma como são tao facilmente enganados.
Não, não tenho um especial orgulho na minha brilhante estrategia de existir, conhecer-vos e manipular-vos. Mas , às tantas, nasce uma vontade calculista de derramar sangue e eu perdoo-me do meu proprio pecado. O erro sempre foi vosso. A minha brilhante forma de vos manipular faz com que a responsabilidade da vossa torturosa morte seja inteiramente vossa.

Monday, January 17, 2011

Last Kiss II

O meu amor morreu. Numa noite tranquila e pacata, cheia de linhas que desenhavam novos horizontes. O meu amor morreu na noite mais estrelada desse Verão.
Agarrei o meu amor até se despedir de mim, até me despedir de mim. Abracei o meu amor até a sua essência se confunfir com a minha pele. E senti o beijo doce de quem sabe que vai morrer. E o meu amor morreu nessa noite, nessa noite em que a lua iluminava tanto como o Sol. Agarrei o meu amor de perto, agarrei o meu amor até o luar desaparecer eternamente da sua essência. Da essência do meu amor.
Agarrei o meu amor até que o inevitável congelasse a minha consciência. O meu amor morreu nessa noite, na noite mais estrelada desse Verão, na noite em que as estrelas desenhavam um horizonte longíquo de uma vida que nunca se concretizou.
O meu amor morreu nessa noite. Na noite em que até a Lua se esgotou e a essência do meu amor entregou-se ao negro e eterno silêncio do vazio.
O meu amor morreu. Morreu nessa noite, nessa fresca , aromática e típica noite de Verão. E, quando vejo, o meu amor moribundo numa qualquer rua. Lembro-me. Lembro-me daquela infindável e suavemente perfeita noite de Verão em que o meu amor morreu.

Monday, January 10, 2011

Pain in the heart

A vida é simples. E às vezes o amor é linear. Tu é que tens os olhos iluminados com outra cor, tu é que nunca viste a simplicidade de uma existência pacífica e essa visão nunca se tornou válida. Foi por isso que a amaste e foi por isso que a não amas já. A simplicidade dela desenhou o inicio e o fim do teu amor. A vida nunca foi simples para ti, o amor teve sempre o peso da filosofia. A essência humana justifica tudo sem explicar nada. A simplicidade dela fazia-te ver uma outra realidade mais suave e mais bonita. Mas ela tornava tudo demasiado fácil. E a tua vida nunca foi fácil. Ou linear. O teu ego era filosofico ninguem se importou alguma vez com a melodia que orientava o teu coraçao. E deixaste de o ter em parte. Tornaste a tua mente equilibrada. Existencialista. Livre.
E não há nada de simplista no conceito de liberdade. Ela sempre foi simples, nunca foi livre. Amaste-a , mas os teus olhos sempre foram de uma outra cor. A da liberdade. E nunca foi uma escolha tua. Nunca foi linear, a tua forma de demonstrares que estas vivo.

Monday, January 03, 2011

Movimento Anti-Regras

Que azáfama com as regras! Vais acabar por premiar quem as souber quebrar com originalidade. Mas quem as não cumpre recebe a tua penalização, nunca tiveste esse espirito criativo que te permitia ser um Ícaro que venceu o Sol porque era espontaneo, as convenções normalmente são nocivas .
E eu vou continuar a ignorar as regras literárias das vírgulas e as palavras sem acentos continuam a ser perceptíveis. É o conteúdo que importa, o resto não deixa de ser ornamentação. Se compreendes o que escrevo, entao o resto é ornamentação.
Que azafama com regras que so ficam para a historia porque serão quebradas! Penaliza-me o que quiseres. Nada tem haver com as incorrecçoes com que escrevo, tem a ver com os mestres que sigo. Todos eles muito maiores que tu, cumpridor cego de regras obtusas.Ao contrário dos meus mestres que inventaram novas regras à força de as quebrarem por serem vazias
.

Sunday, January 02, 2011

O Amor

Disseram-lhe que o amor era isto. Uma forma bonita de coexistir com uma morte permanente.Mas so recorda os traços do teu rosto quando a morte lhe aconchega o sono.
Talvez tenham razao. E o amor seja so uma metáfora que mantem o espirito faminto por uma nova sensação. Mas é irrelevante, a pele dele memorizou a essencia do teu sorriso. E, quando uma qualquer consciencia dolorosa e humanamente avassaladora lhe atravessa o peito, lembra-se que te sente a falta e uma dor pacifica instala-se.
Talvez o amor seja so uma forma diferente de se entregar o coraçao a uma morte que se alonga no tempo. Mas, quando adormece, a tua memoria protege-o de pesadelos reais e ele perde o medo de morrer. Porque, se morrer, é de uma forma melodicamente bonita.

Rosa Azul

A melodia do silencio deixa que o calcario escorregue pela tua consciencia. Falhaste. Porque a tua tristeza sempre foi melancólica mas violenta .
Ela esperou por ti.Incansavelmente. Naquela esquina sombria. Ela esperou , esperou que o tempo te trouxesse com ele nas suas esquivas formas de governar o mundo. Mas tu nunca chegaste porque deixaste a tua rosa morrer. E percebeu que se chegasses , chegavas demasiado tarde e , entao, mais valia que tivesses morrido. Mais vale nunca do que demasiado tarde.
Falhaste. E é um desconserto que não consegues apaziguar na tua alma. A figura dela, expectante, crente. A esperança que é o inicio da ruína. E o abraço que nunca lhe deste porque a tua rosa morreu. De que te valeria ofereces-lhe todas as flores de todos os jardins? A tua rosa morreu, as tuas mãos estariam sempre vazias.
Melhor era que ela te desse como morto. Perdeste a tua rosa. Mesmo que que a tivesses encontrado naquela esquina, não serias tu. Porque a tua rosa morreu nas tuas maos à força de a quereres, desesperadamente, salvar.

Saturday, January 01, 2011

Fénix

Um dia calmo, igual a tantos outros. São todos semelhantes, os dias, a diferença és tu que a fazes e, às vezes, a vida é demasiado simples para não seres atingido com essa complexidade existencialista que distorce o raio de luz.
No meio da rua, no meio de uma multidao sem rosto. Anónima. Como são todas as multidões. Respiras fundo e tapas o teu rosto singular com o capuz do casaco, queres ser reconhecido pelo não-reconhecimento. É uma metáfora desfocada e cheia de nevoeiro. Todos estão expostos e são todos demasiado pouco para mostrarem qualquer tipo de espirito.
Respiras fundo. Paras no meio do passeio. É uma loja de brinquedos, é uma loja de crianças. Ah, foi o inicio do teu pesadelo, foi o teu momento de maior felicidade. Foi o inicio dessa tua tortura arranhada e arrastada, procura anular-te melodicamente em vez de te assassinar. Foste uma criança brilhante, brilhante à tua maneira. Foste tu e todos desenharam traços da tua personalidade, da tua vida e tornaste-te grande. Tornaste-te o melhor de todos. Tornaste-te no rosto que se reconhece no meio da multidao vazia porque é impossivel verem quem és. So se ve o que és e isso eles não vem. Foste uma criança feliz, foste uma tarde de Verão com o som da Orion e aroma de amoras e tornaste-te numa fénix. Mas não há fenix nesta realidade e tu és so um homem melancolico que parou para observar uma loja de brinquedos. Porque foste uma infancia feliz e agora estao todos mortos, todos com excepçao de ti porque te tornaram numa fénix. Quase invencivel, quase imortal. Mas te não roubaram a sensibilidade, a humaninade. Te não tiraram o que te fazia ser brilhante: a forma perspicaz e estratega como compreendes humildemente a essencia humana. És uma fenix mas não deixas de ser uma fenix solitária.
Um dia monotono. Não te traz nada de novo porque a ausencia de novidade tambem é uma forma de inovação. E tu dominas tudo isso, tu sempre tiveste esse ego dualista que te mantem vivo sem te manter insensivel. Mas eles morreram todos, a tua infancia foi queimada. E tu estás em frente a uma loja de brinquedos a lembrar-te de uma criança que em tempos foste tu. És um sobrevivente. A tua forma de seres genial é sobreviveres humildemente, demonstrando inteligencia sem demonstrares supremacia. A tua genialidade está na forma como os teus semelhantes te penalizam por seres sempre melhor que eles. Sempre algo diferente.
Tiras o capuz da cabeça. Já o não necessitas. Às vezes torna-se exaustivo penalizarem-te por algo que não tens culpa. És um sobrevivente, um estratego inato. És uma fenix. Mas tantas vezes que preferias ter morrido. Com eles, com todos eles. Com a tua infancia. Misturas-te com a multidao , é indiferente. Estás indefinidamente descontextualizado.

Friday, December 31, 2010

Essência

Era um encontro de bandas, a mais famosa, a mais conhecida era a ultima a tocar. E ele estava la sentado, tranquilo e orgulhoso de si mesmo. Treinava umas quantas horas por dia para melhorar a sua técnica. Pena que nunca tenha melhorado a sua alma, a sua essencia não evoluia. A sua essencia era muito pobre e a técnica não sustenta a música, não. Não. A técnica transforma essa ideia musical numa linguagem que seja perceptivel a todos.Pena que ele não soubesse isso mas, que é que sabia ele? A sua essencia era pobre, tinha as ambiçoes trocadas queria ser grande antes de gostar da imagem que vê no espelho.
Mas estava muito orgulhoso, muito rejubilante, afinal a sua banda era a penultima a tocar e mal podia esperar para descobrir quem era o guitarrista da ultima banda. Devia ser um homem espectacular, um artista, um bebedo eximio, um homem com visao. Um novo líder desta geração, tinha de ser muito grande para ser melhor que ele. Pegou numa revista qualquer e, distraido, começou a folhea-la , ocupado com os pensamentos sobre quem seria o guitarrista da ultima banda. Foi quando a viu, uma rapariga muito sossegada mas com uma auto-confiança de ferro. Os olhos azuis eram perspicazes e , ele adivinhou, que seriam capazes de ler os pensamentos das pessoas. Devia ser namorada de algum guitarrista, ou irmã. Sentou-se perto dela e introduziu uma conversa de ocasião. Ela era tudo menos comum e respondia-lhe em palavras curtas e forçosamente educadas. Estava aborrecida com ele. Quando foi chamado para tocar e se despediu dela, parecia bastante aliviada mas ele não viu, nunca ve nada que não goste, dai a sua arrogancia patetica.
Porém, quando voltou da sua actuaçao, ela ainda lá estava. E estava ainda mais cheio de si, mais contente e mais orgulhoso da sua técnica. Ficou destroçado quando ela lhe disse que não tinha gostado muito. Ele perguntou-lhe, educadamente, que é que ela percebia do assunto e ela disse que tambem tocava guitarra. Ele encontrou um topico de conversa que considerou que o favorecia: sabes, acho que tocar guitarra é uma coisa de homem, por melhor que as mulheres toquem, não sei. Não superam os homens. Ela ficou verdadeiramente ofendida e nem se deu ao incomodo de lhe responder e ele continuou: por exemplo, já ouviste o guitarrista da ultima banda? eu nunca o vi mas é o maior. Dava tudo para o conhecer, para aprender coisas com ele. Mas é um homem e nenhuma mulher o consegue superar. Para surpresa dele, ela concordou obedientemente e disse-lhe até já quando a ultima banda foi chamada ao palco.
“ Há conheces algum membro da banda, da ultima”, Perguntou, meio entusiasmado, meio ciumento. E ela, calmamente, virou-se para ele e sorriu: Conheço-os a todos, eu sou o guitarrista da banda.

Monday, December 27, 2010

Não-Família

Família. Um conceito interessante, dos mais interessantemente controversos, talvez. Família. Mas sem aquele romantismo arrastado de filmes baratos com ideais dignos de alguem em que a ignorancia ocupa a maior parte do cerebro. Não, familia. Falo da familia, daquela que se escolhe ter para garantir uma parte do ego em movimento, em crescimento. Em evoluçao. E, surpreendentemente, em casa. Ah sim, familia. Irmaos de sangue ao estilo viking onde a lealdade é o altar maior, é a maior e mais dificil demonstração de coragem. E de amor.
Família. É dúbio. E o amor que se desenvolve ganha espaço num mundo que é frio e cru. Um amor que sempre esteve lá mas que em algum momento peculiar é activado e o mundo conquista um sitio sagrado e mitico, um canto da praia onde Sophia ainda esta viva, onde a menina dos fósforos encontrou a paz. Sim, isso é familia. Sem romantismos . A vida sempre foi uma coisa real, faze-la mover-se numa evolução melódica requer genialidade, requer amor. Não há genialidade sem amor e a genialidade mora as vezes em pequenos pedaços de quotidiano que conquistam um pedaço de coraçao quando tudo é esquecido porque o mundo é triste. E a familia está lá, a descongelar um coraçao perdido, uma alma quebrada. A familia está lá, no seu quotidiano descompassadamente ritmada, sincopado. E nasce aquele santuário, aquele canto da praia onde tudo é possivel, a Alice atravessou o espelho e encontrou um mundo que lhe fazia mais sentido, na areia lem-se ainda pequenos pensamentos de Oscar Wilde e , o mar, na sua eterna melancolia azul traz, de vez em quando, um principezinho que corre aquele canto de praia em busca da sua rosa. Sim, familia é esta segurança , este lugar seguro porque tudo é possivel. O conceito de familia não é seguro e confortavel porque é estavel. Oh não, é reconfortante e revigorante porque nada é estavel e tudo é possivel. Até a ferida que rasgou o coraçao de papel e esmagou o espirito pode ser curada.
Mas não um daqueles conceitos de familia baratos. Não é uma pintura vazia de uma ceia de Natal. Oh não, é precisamente o contrario. Irmaos de sangue, onde o coraçao é demasiado largo e fundo para não ultrapassar qualquer contratempo, qualquer obstaculo.Familia é este canto de praia onde a brisa marinha guardou a essencia de Cliff Burton e tu te sentas lá. Quieta, a ouvi-lo. A familia torna tudo possivel. Mas não aquela familia barata e previamente imaginada e construida. Oh não, não. Esta familia que tu escolheste como tua. Irmaos de sangue, ao estilo viking. Lealdade como bem maior, imaginaçao e utopia como ideal. Um lugar sagrado que não existe e, que por isso mesmo, vai existindo. E nos somos aquele lugar, onde a familia está para alem do laço de sangue sem deixar de ser, tambem, uma questao de hereditariedade. Familia, um conceito controverso. Mas não em nós, “pagoes inocentes da decandencia”, que construimos aquele canto da praia onde tudo sempre foi possivel e, por isso, conquistamos uma fracçao de genialidade, de louca e racional genialidade.


Para a minha irmã

Monday, December 20, 2010

Noite Estrelada II

O calor de uma noite intensamente fria. Sem música, sem som. A ausencia de qualquer coisa é ainda mais tenebrosa que o esguio grito de uma noite estrelada. E aquela noite nunca mais se alongou no tempo, estagnou à espera que a alguem a puxasse do poço onde o esquecimento é maior que outra qualquer coisa. Não, aquela noite é um buraco no tempo, um corte no peito. Porque a vida era demasiado simples, demasiado leve e boémia para sobreviver. Ou para não morrer, estagnada no tempo.
Mas a noite é calorosamente fria, como se o gelo não trespassasse qualquer coisa e o silencio devolve-me uma paz muda que não rasga a pele. Ate o bater do coraçao é mudo, ia jurar que às vezes não bate. Porque está demasiado frio e a noite alcançou-me a essencia. E aquela noite, a outra, nunca mais se vai repetir. Aquele estado de não responsabilidade não poderia durar para sempre. Nada dura para sempre.
Ficou gravada na pele, a tua essencia, ate hoje. Daquela noite que nunca mais se alongou no tempo. Somos outros eus, tao iguais e tao diferentes. A evolução deixou-nos exactamente no mesmo ponto. Como naquela noite, em que nos despedimos; como naquela noite, que é um buraco no tempo porque o calor de Verão não aquecia um frio que se instalara. O fim nunca tem a sua metade de quente.
Mas esta é uma noite fria, calorosamente fria. Porque somos os mesmos eus, perdidos naquela noite que se alongou no tempo. Perdidos naquela noite que durou ate hoje. Ate esta noite, em que o amor assumiu a sua forma de coral. É muda , colorida e ternamente silenciosa.
Afinal, só eu é que morri. Naquela noite em que me sentei à tua espera rejeitando a esperança que tinha do meu regresso. Sim, só eu é que morri.

Saturday, December 11, 2010

O amor pelo Idealista

É uma alegria estranha. És algo no meio termo deste mundo horrivel, das-lhe tanto calor existencialista como o frio calcário de quem caminha solitário e triste por uma ideologia que só vai chegar depois da sua morte.
Mas vai lá Deus saber porquê, tem em ti uma fé esquisita, quase inabalavel. Ornamentada com tanta compaixão que nem chega a ser fé , é mais uma lógica abstracta prolongada no tempo. Talvez porque falhaste, falhaste durante tanto tempo que te purificaste assim, como um jogo vencido no inverso. Entao ele tem esta fé estranha em ti, não por crer que não falharás mas porque já falhaste mas ainda estas aqui , mas o teu coraçao é de seda azul cheio de metáforas dificeis de compreender. E porque, nunca verdadeiramente, lhe falhaste. De todas as vezes que precisou de ti , que precisou que te elevasses para além da mediocridade desta sociedade, tu elevaste-te. Não por teres em espirito a mesma ideia dele de como seria o mundo. Não. Elevaste-te porque falhaste e ele é aquele ser meio animal meio homem, cheio de uma triste felicidade às vezes e outras o encanto dele mora na felicidade melancolica com que se senta , invadido por uma esperança moribunda de que isto mude. Elevaste-te porque o amas, de alguma forma, de alguma maneira típica e genuina que o torna ele e que te torna tu.
E é uma alegria estranha, amar-te. Porque às vezes o coraçao fica pequeno porque pertences tanto a esta realidade vazia quanto o resto das pessoas que passeiam pela vida sem a viver. Mas o não deixas cair no abismo, das-lhe a mao e sussuras-lhe que esta vivo e que estas aqui por ele. No caminho solitário e triste de uma ideologia que ainda não chegou. Que o define e, como tal, tu defendes porque o amas. Porque ele é único aqui e tu o tambem és. Sobretudo quando ele te dá a mao e te não deixa so nesta realidade que te suprime a beleza da essencia que carregas no peito.

Thursday, November 25, 2010

Noite Estrelada

Ele sempre soube que não seria igual, que nunca mais seria igual. Aquela noite estrelada com aroma a alcool e cigarros e a uma nova hipotese não se repitiria. Nunca mais. E ele sabia, ele soube durante toda a noite. Assim como tu o soubeste, a noite toda. Mesmo quando o aroma de uma vida boémia se tornava romantico, ele sempre soube que nunca mais estariam naquele ponto, quase inocente de tao pouca inocencia.
E durante todo o tempo que esteve ausente o teu ser era recordado junto com aquele cheiro, com aquele ambiente. Boémio, suave, arriscado e romantico. Por isso é que não te esqueceu durante o tempo em que esteve ausente, o teu perfume era inigualavel. Por isso é que o deste como perdido. Porque ele nunca se perdeu de ti.
Esteve ausente do mundo , ele. Quis estudar o Amor de forma imparcial, quis compreender a sua genese. Mas acava por te sentir a falta e a ausencia de mais noites estreladas com cheiro a alcool e a cigarros cheias de um ambiente boemio, marginal e romantico. Cheias de algo que ele nunca tinha visto ou sentido mas que sempre coexistiram nele.
Ele sempre soube que aquela noite nunca seria igual às outras. Encontrou a definiçao do proprio Amor naquelas ruas sombrias encharcadas com vida genuina e alternativa. Encontrou-te a ti quando descobriu que aquele tinha sido sempre o teu perfume, o cheiro da sublime tentação dele.
Por isso é que regressou passado tanto tempo. A definiçao do Amor és tu com esse aroma caracteristico que ele correu o mundo à procura mas só descansou o coraçao junto de ti.
Porque ele sempre soube que a noite, aquela noite, nunca se repitiria. E, por isso mesmo, continua contigo à espera que aquela noite estrelada, cheia de uma essencia boemia ornamentada com uma nova esperança se repita e se torne maior. Porque a definiçao do Amor sempre foste tu, sempre foi o teu perfume, sempre foi a tua visão do mundo.

Wednesday, November 24, 2010

Cinzento Fúnebre

Talvez te doa porque deixaste esse mundo paralelo eternamente aberto e ele não vai cá estar para te dizer que de todas as vezes que o Inverno se instala, a Primavera sucede-o. Talvez te magoe porque foi uma hipotese que so viste quando ela deixou de existir e pior do que chegar em contratempo é sentires que o tempo passou por ti e não se despediu. Como ele.
Epera que te não sintas só, sem ele. Já não volta o mundo das sombras é um mundo ilusório que desfaz o caminho assim que é pisado. E não, ele já não volta foi lhe roubado qualquer coisa porque o mundo é so isto. Um conjunto de pessoas tristes , tão habituadas à sua propria miseria que vender a alma para pagar uma qualquer dívida não tem qualquer relevancia. Porque o mundo , as vezes, torna-se so nisto, numa sucessao de acontecimentos tristes em que o Amor se dissolve nas crueldades melancolicas e patéticas do mundo sem o deixar renascer e florir os campos de novo, o Amor.
Saber o que é que magoa ou porque é que magoa é irrelevante. É filosofia, é meramente um exercicio filosofico e ele já não volta. Não, o tempo passou pela tua pele .Mais, passou pelo espirito dele e onde mora agora já o não podes acalmar dos terrores do mundo que ele viu e foi vitima. Não, o tempo já passou por ti ficou a memoria de uma metáfora que nunca se concretizou porque o mundo , às vezes, é simplesmente um lugar cruel em que o desespero de uma oportunidade que torne a vida melhor e mais suportavel conduz a uma crua , sangrenta e desumana forma de viver.
Não, não ele não volta de onde está agora. Nunca mais. Nunca mais vais poder confortar-te ao conforta-lo. Não, o teu amigo, o teu único amigo já não regressa desse caminho triste onde o puseram injustamente, precocemente sem o consentimento dele.
Perdeste um amigo mas , mesmo do alto do sitio cheio de tons de cinzento funebre, ele sorri-te. E pede-te para te não sentires so sem ele porque a pureza do teu espirito torna-te na única esperança deste mundo
.

Saturday, October 23, 2010

Antítese

É um corte que nunca lhe vai sair da alma. Tu. Aqueles dias em que a vida elevou-se numa nova consciência, em que ele se tornou mais condescente e humano porque tu estavas lá e tu eras tu. Aqueles dias em que a tua visão do mundo alargou o seu proprio limite de horizonte e deixaste de ter um ego tão cheio de restrições bem fundamentadas.
Aqueles dias que foram inuteis. Aqueles dias que foram uma ilusao verídica de uma realidade que não existe, ele era um comboio em movimento contínuo. É um corte que nunca vai deixar de ser visivel no rosto belo dele. O amor que fluiu e que era profundamente errado.
Porque tu es esse ser, tao carinhosamente igual, tão belamente não especial. E ele tem esta excentricidade que o define sem dizer nada de importante sobre o coraçao dele. O amor que te tinha dizia tudo sobre o coraçao dele e o amor que lhe tinhas dizia tudo sobre a profunda definiçao de o que eras.
É um corte que nunca lhe vai sair da pele , nunca vai deixar de escorrer sangue no espirito. Porque sempre foi um comboio em movimento, sempre foi o seu proprio destino e tu sempre foste uma vida estavel e tranquila num qualquer lugar. E daqueles dias bonitos e inesqueciveis contigo só relembra a inutilidade de um amor que é a antítese do sentido do mundo.
Hoje já nem sequer existes mas quando te vê é o seu reflexo que perde nitidez.

Sunday, September 12, 2010

Dédalo e Ícaro II

Ele estava tao feliz, o Dédalo que é salvou o ícaro que nasceu nele e ambos venceram o Sol. Alias, estava tao descontraido e tranquilo que estava controlado, estava em paz interior.
Mas tu chegaste. E tu és apenas isso, a contrariedade, a consciencia das adversidades. Lembraste-o que o Ícaro tem sempre asas frageis e que algures teve sorte. Não e inteiramente verdade visto que aproveitar oportunadamente a sorte é deixar de ter sorte. Mas retiraste-o daquela calma existencial em que se encontrava. O teu sorriso carregado de desagrado lembrou-lhe que existem ainda outras vezes em que o Ícaro terá de vencer o Sol. Em que o Dédalo terá de acreditar tao fortemente no sonho do Ícaro para lhe endurecer as asas sem as tornar menos frageis e ambiguas. Como um bom sonho.
Mas ele é o Dédalo e o Ícaro. Carrega o sonho de voar e as formas estrategas de o fazer resultar. Não é um qualquer, não morrerá com tanta facilidade. E tu és so isso, uma sombra crua e negra que avisa o pior porque foi a única coisa que aprendeu a fazer depois de ter falho o acto de viver. Se acertares, tu sim, acertaste por sorte.
E ele é o Dédalo e o Ícaro. Morrerá com honra como morre alguem que concretiza a utopia que idealizou. Ele é tambem Ícaro e hoje venceu o Sol, tocou-lhe e sentiu o aroma quente de quem sobreviveu orgulhosamente. Ele é tambem Dédalo e hoje descobriu que a tua genialidade demoniaca e triste não o alcança porque ele é que é movido pela crença na fé.

Friday, September 10, 2010

A tua escolha é o que és

Lá no fundo ele sempre quis ser isto apesar de ter gasto algum tempo a esforçar-se arduamente por não ser. Porque é dificil e é duro mas a glória que lhe prometem esta para alem de qualquer coisa mundana. Ser senhor de si proprio e fazer a diferença para quem necessita de ajuda é uma glória sentimental incomparavel.
E ele hoje é isso. O ser a quem as riquezas de praticar actos crueis simplesmente não convenceram, ele praticou-as mas não compensaram. Ele foi o ser que escolheu fazer o que acreditava que era correcto, ele escolheu a luz. Conscientemente. Tem gravadas no instinto de defesa todas as crueldades que podia ter cometido mas escolhe, activamente, usa-las de forma diferente. O seu ego é enorme e a sua fome de o encher é ainda maior, o orgulho que tem de sentir de si mesmo é gigantesco. E preenche-o, assim. Tornando-se distinto da multidao porque mudou a direcçao quando escolheu ser o que é. Orienta-se de forma inesperada e honesta. Algures descobriu que o amor não tinha preço ou substituto. E tornou-se honestamente naquilo que é. O ser com o cerebro tao genialmente cruel como os outros, demonios humanos, mas com um coraçao puro e sagrado. Itálico
E alcançou a gloria maxima quando rejeitou a gloria por completo e se tornou humilde. E tem a distinçao maxima e o ego cheio, equilibradamente, no limite.

Wednesday, September 08, 2010

Dédalo e Ícaro

Essa tua tranquilidade ansiosa perante a possivel morte é estranhamente agradavel. Porque tudo o que tiveste durante estes anos foi a tua miséria, a tua desgraça era a única que era tua por direito.
A sorte procura os audazes e a tua pericia estratega manteve-te vivo. Mas muito pouco da riqueza que possuis te pertence. Porque acreditavas que eras um milagre e algures tornaste-te num. Quebraste muitas convençoes crueis, a tua coragem levou-te para alem de muitos limites de muitos horizontes. Porém os sonhos que tornaste reais não eram os teus sonhos. Eras um Dédalo em auxilio de todos os Icaros que te procuravam. Sempre tiveste sucesso em concretizar os sonhos dos outros porque eras um milagre, um ser cheio de uma sorte audaz. E não era o teu sonho ou perderias a sorte.
Mas não agora. Despiste-te de todas as personagens que te definem e assumiste o papel de seres apenas tu. Perdeste toda a sorte porque perdeste a perspicácia nesse ponto. Procuraste o teu sonho, arriscaste a vida por ele. Não foste estratego, não foste Dédalo. Foste Icaro disciplinado pelo teu Dédalo a tentar alcançar o Sol. Foste um Icaro sem Dédalo porque esse era o teu papel.
Talvez morras amanha. Talvez, talvez. Mas essa morte é tua, arriscaste o que tinhas a única mascara que não consegues arrancar de ti. E por isso estas tranquilo, é algo que é teu por direito. Conquistaste a hipotese e isso apesar de não ser suficiente é um optimo começo.
Porque tu so tentaste vencer o que era invencivel para os outros. É a primeira vez que tentas não falhar naquilo em que acreditas. É inteiramente compreensivel que falhes a primeira vez mas se a morte não for fisica, meu amigo, continuas de pé.
Porque es o Dédalo e és o Ícaro. E serás sempre um milagre, nem que seja por rejeitares se-lo numa questao de leal honestidade. Tens uma ansiosa calma para saber o resultado na madrugada mas há algo que já te pertence.
O teu destino és tu quem decide.

Metade homem, metade besta

Metade homem. Metade besta.
Essa metade humana é condescente, é generosa. Tens um largo coraçao, uma honesta tolerancia e compreensao para quem souber identificar a tua lealdade de ferro. Uma nova e melhor versao do mundo move-te neste mundo, move-te se necessário, até à morte e para alem dela. Tens um coraçao limpo dos pecados do mundo o teu amor é honesto.
Metade homem. Metade besta.
Não consegues bloquear o fascinio pela inteligencia crua e fina, pela genialidade de uma acçao cruel justificada por uma alma desfeita em pedaços. A perspicácia e a astúcia aplicadas sabiamente, quer seja para conquistar o bem ou o mal. E no final, é essa metade de besta que te salva e que te faz sobreviver. Consegues deixar o teu coraçao à porta e sentar-te calmamente no dia da derradeira batalha sem ele. E não sentes nada a não ser que costumavas ter coraçao e ele agora não esta contigo.
Metade homem, metade besta.
Porque a tua metade de homem é esperançosa, é frágil. É movida por uma fé bonita. A tua metade besta salva-te , garante o respeito. Deixa-te entrar numa sala sem coraçao envolvendo-te num encanto peculiar de quem não vai cair com facilidade. A metade besta oferece-te um sorriso estranho mas tranquilo.
Metade homem e metade besta. No meio de uma guerra que nasce em ti tu alcançaste um equilibrio inconfudivel.

Tuesday, September 07, 2010

O novo Herói

O teu rosto é o rosto de uma multidao que não tem força para gritar. Emprestas o teu grito bélico e o teu braço leal aqueles que foram encurralados e cegados. Emprestas a compaixao violenta do teu coraçao aqueles que querem a libertaçao mas perderam a força e a força da esperança para se mexerem.
Podias ser um deles, dos que cegam e encurralam e assassinam em actos que não deixam sangue rubro escorrer. Podias se-lo, tens a mesma genese, a mesma liberdade e a mesma violencia. Mas o que tu desejas ardentemente é não seres um monstro e isso é tudo o que és. O que escolhes não ser é o que és, o que perdes mostra a cor da tua alma.
Por isso seguras e agarras aqueles que já perderam a voz para pedir ajuda. Corres o mundo por aqueles que já desistiram de lutar, afundados na tristeza que os sufocou. E estás lá com eles, a ver o brilho elouquente da morte em cada pedaço de sombra.
Existes para salvar quem o mundo escolheu matar . Um deus qualquer deu-te todas as capacidades que tem os outros unindo-as a uma consciencia humana e sensitiva. Colocou-te num sitio ao qual não pertences. Tornou-te igual aos que praticam as crueldades alheias e aos que as sofrem e no final a escolha foi tua.
O teu rosto é o rosto de todos que resistiram mas algures foram chacinados e não se conseguem mover. E, no final, a luta é entre ti e os teus irmaos.
No final és tu, movido por inumeras almas que te pediram ajuda e os teus irmaos que as torturaram. No final, é uma luta de titãs.

Sê Humilde

Para que o prazer do fracasso alheio? Isso não dimnui o teu. Nem o aumenta, apenas evidencia. Para que o amor à destruiçao sem proposito? Ouve, quando destrois deves ter o proposito de construir a única legitimidade para praticares esse horror é a liberdade. Destruiçao sem proposito é pior que a destruição por si só.
O que é que te dá, saberes que não foste o único a errar o caminho? Quantos mais afundares menos hipoteses tens de te salvar. Salvares alguem do mesmo erro que tu é a única forma de te ajudares. Quereres a destruiçao para te integrares e te sentires bem em frente ao espelho é um acto estupido e ignorante. Vais misturar-te com uma multidao onde vais ser apenas mais um. Falhado, fracassado. Falhaste a vida e falhaste no acto de viver.
Ter razao não vale isso, o queimar frio do teu coraçao. Porque se perderes a subtileza de sentir, de ter compaixao. Não tens razao, nunca a tiveste. Mesmo que acertes, não tens razao. Previste o acontecimento baseado em factos duvidosos, foi mais sorte que genialidade.E ter razao não vale isso, nada vale. Mas tu já te afundaste, não me vais ouvir não me afundei.

Monday, September 06, 2010

What ever happened

Ele quer ser esquecido . Nao quer que as suas carismáticas ideias e peculiares angulos de respiração sejam recordados Mais do que ser esquecido, ele deseja nunca ser lembrado.
Porque não vai ficar aqui. Não vai ficar aqui de forma nenhuma. É uma opção ilusória, é preciso viver de mentiras mal estruturadas para acreditar que ele pode ficar. Mais vale que vivas assim, sem ele. Que saibas conscientemente que ele não vai ficar aqui mesmo que retorne sempre. Não fica aqui de maneira alguma.
Porque é so isto, ele. Um comboio em continuo movimento com destino certo mas indecifrável. Um comboio destinado a não ter destino.
Inspirado em What ever happened, The Strokes

Saturday, September 04, 2010

Desfecho triste

Gostava de te dizer que não te perdoo mas na verdade é um gesto inútil. Sendo irrefutável, a existência da solidão é agradável. E compreendo-te.Não posso negar a nossa sintonia no nível da desgraça interna. Não te posso acusar.
Mas gostava de te não perdoar para continuares vivo comigo. Para existires em mim. Só para te manter vivo.Aqui.
Porém não posso fingir que te não compreendo. Demasiado bem, apesar de abstractamente. Perdoei-me porque tu existes. E, na verdade, não erraste perdoar é uma palavra que demonstra a minha dor. Apenas.
A tua despedidade é estranhamente dolorosa. Porque não me pões em causa . (E ,talvez por isso, sinta verdadeiramente a falta. )

É tudo nada. Menos que a memória mais volátil.



WinGs, 21/04/2009

Thursday, September 02, 2010

Lucidez

O fogo sempre o fascinou.Se por um lado era simbolo da força da clarividencia de uma luz dificil de apagar. Por outro era simbolo da destruição sem qualquer compaixao, quase imparavel . Maior que qualquer homem. E o fogo sempre o atraiu como um íman. Magnetico.
Tinha o isqueiro na mao. A tentação de sentir o calor da chama e de ver as cores magnetizantes do fogo foi muito maior que ele. A adrenalina do perigo fe-lo mover os olhos e procurar o papel, o medo que vivia nas suas maos tremulas não o impediu.Pegou no papel, num pequeno e insignificante papel. Aparentemente. Aquele papel resumia em palavras concisas uma vida que ele já tinha abandonado. Uma vida que não era a dele. Uma vida que o fez feliz e que depois o deixou entregue ao vazio de uma felicidade sem proposito.
Entao, no calor da noite, rasgou o papel em dois. Queimou apenas um pedaço e observou, maravilhado, o fogo expandir-se- Soprou e apagou. Mas não conseguia parar . Queimou a outra metade, movido por uma energia que quase o deixava em transe
Mas a chama era muito maior, muito mais atraente. Observou minuciosamente a destruiçao das palavras enquanto o fogo lhe fugia ao controlo. Queimou ao de leve os dedos e o medo inato libertou-o do transe.Atirou o papel para o chao e pisou-o.
Olhou de novo para o papel, para o que restava dele. Eram migalhas, apenas migalhas. De uma vida que viveu mas que nunca foi dele. Não tinha escolhido aquela vida e agora já não era importante. Queimou a metáfora. Queimou o facto.
Desde sempre que o fogo era fascinante para ele. Desde que se lembra. Deitou-se calmamente na cama, relaxado pela satisfaçao de ter visto arder. Aquele pequeno papel. Era certo que era louco. Mas se-lo-ia mais se não tivesse queimado aquele papel. É por ser louco que é livre. Livre ate de fantasmas , não ha nada que aquele fogo dele não queime.

Saturday, August 21, 2010

Liberdade

Tributo a William Wallace, libertador da Escócia

Apedrejaste o herói. Quiseste humilhá-lo para o assassinar depois de estar já morto. Mas só conseguiste esvaziar o corpo divino de sangue rubro. Só conseguiste esventrar a carne. O herói sobrevive ao seu proprio corpo. Sobrevive ao seu proprio tempo.
Torturaste o herói. Quiseste vence-lo , demonstrar-lhe a sua patética efemeridade. A fragilidade da sua pele humana. A tua raiva surda contra algo muito maior do que alguma vez serás levou-te a perderes-te no poder que o herói exercia sobre ti. Nunca o superaste , nunca o venceste. Nunca. Quiseste torturá-lo para não exibires a impotencia mediocre que te definia. Mas o herói não era como tu, mortal. Não. Trazia consigo o som divino da liberdade em cada insignificante gesto.O heroi trazia consigo um fogo impossivel de extinguir. Era divino. Mais, era livre.
E tu nunca foste melhor que o medo que sentias dele ou melhor que o medo que quiseste incutir. Nunca foste capaz de um feito maior, nunca alcançaste a coragem.
E se julgas na tua triste e patetica figura de poder prepotente que venceste. Vê. Perdeste. Perdeste tudo. O herói conquistou a liberdade apesar depois de o teres assassinado cruamente. Era divino porque era livre. E os homens seguem a coragem, arrastou com ele a multidao a que nenhum exército pode fazer frente alguma vez. A vontade de vencer foi a vontade de ser livre. E isso é invencivel.
E, se ainda julgas na tua estupidez alcunhada de nobre, que venceste algo. Vê melhor. No sitio onde ainda reinas, no sitio onde torturaste e assassinaste o herói, eu choro a morte dele. Do Messias. Mas sobretudo, venho honrar e enaltecer a memoria do heroi. A inspiraçao que foi. Mais. Que ainda é. Porque assassinaste o heroi, desfizeste o homem em pedaços. Mas nunca assassinaste a liberdade que o movia.
Repito. Vim ao teu sitio dourado honrar o heroi. Torna-lo ainda mais divino. Ainda mais eterno. Ainda mais livre. E recordar o seu nome e contar a sua historia. Renasce-lo. O teu nome é o nome da sombra cruel , nojenta e vergonhosa que assombra a humanidade. E, como tal, mereces permanecer na penumbra.
Vim honrar o heroi. Lembrar a sua existencia. Porque “todos os homens morrem mas nem todos vivem realmente.” Vê como perdeste tudo e perdes ainda. O heroi viveu , vive ainda e viverá sempre. Porque os homens seguem a coragem. Porque o heroi tornou-se num simbolo da humanidade, numa figura de verdadeiro poder que orienta e protege os que acreditam. Na liberdade.

Thursday, July 29, 2010

Intermitência

A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. E não importa onde mora o corte fundo da decapitação, outro dia nascerá. Poderás não manter quem és mas nunca fugirás ao que és. Daí que seja inutil, adiares a morte da noite porque ela termina de qualquer maneira.
E uma brisa fresca nocturna alcançar-te-á. Um dia deixará de ser importante, as coisas na tua vida tem o sentido que lhes deres e esse sentido será o único verdadeiro. De resto, nenhuma falha é infundamentada. O universo tende para o caos mas tu és um caos organizado, qualquer erro é lógico, qualquer erro tem uma causa e uma consequencia.
Mas não tens qualquer expectativa de inglória. Na verdade, a desgraça que ocorrer na madrugada não é culpa tua, sabes bem quanto vales. Mas esta realidade não pronuncia a mesma lingua que tu, o problema de comunicaçao inato alcançou o teu espirito.
A tua perspectiva é de vencedor. Mas como poderás ter alguma glória quando não te entendem, falando tu a lingua deles? Como poderás alcançar esse tipo de sucesso expectante se a diferença ajeita-se suavemente nos conceitos profundos que vos movem?
A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. Nem esses escassos minutos de noite viva que te restam. O problema não morre aqui. Os teus te não entendem, os teus são nada
para ti.

Monday, July 26, 2010

Last Kiss

Apagou o cigarro no cinzeiro e observou o fim da chama, o fim do fogo. Alguma vez o vais deixar? Ele não consegue apagar-te mais do que isto, não consegue desviar os olhos do cigarro desfeito pelo desespero com que o apagou.
Apagou o cigarro . Respirou fundo. A angustia estava enrolada na garganta, apertava os nervos do peito. Roubaram-te, roubaram-no. E o desespero dá-lhe uma energia esquisita para se mover. E fuma outro e outro. E bebe, já perdeu a noção do que esta a beber. Já te perdeu, que mais importa?
O cigarro desfeito lembra-lhe o teu corpo desfeito e amassado. O teu ser sem vida, perdida nos braços dele que nada podiam fazer. O desespero dele em devolver-te a vida que te tiraram violentamente. O desespero dele para que não fosse verdade. O grito calcário que escureu a noite quando a verdade crua o atingiu. A corrida louca que fez para fugir do presente. A corrida louca que fez para gastar os musculos, os ossos, o fisico porque o interior estava desfeito. Como o teu corpo, coberto de sangue, sangue inocente. A corrida louca que fez para se cansar , para ficar abandonado a um canto à espera que a morte ou que uma maior crueldade o abraçasse.
Apagou o cigarro no cinzeiro. Observou o fim da chama. O insulto violento , desesperado edoloroso ao acidente que te roubou, que o roubou. O insulto violento , torturado e trémulo ao Deus que não existe. Apagou o cigarro no cinzeiro e voltou para ela no meio da noite. Nada tem que ver contigo, não tem essa fragilidade e essa doçura que te tornavam um anjo na terra. Um anjo morto nos braços dele, ainda hoje sente a textura do teu sangue na pele.
Alguma vez o vais deixar? Alguma vez ele vai deixar de ter estes pesadelos frívolos em noites suaves sobre o dia da tua morte? Sobre o dia em que parte dele tambem morreu? Mas tem horror a esquecer-te, a deixar-te morrer, eternamente. Por isso apaga o cigarro violentamente e observa fixamente o cigarro desfeito, tao desfeito como o teu corpo inerte nos braços dele. As lagrimas puras dele não te acordaram. Mas tem horror a esquecer-se da suavidade aromatica da tua memoria, todas as noites acorda com o pesadelo real que o tortura. Prefere isso a deixar-te morrer, assim.

Wednesday, July 21, 2010

Carta aos falhados arrogantes

Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia colada ao coraçao seco e imundo. Porque o mundo é coerente, quanto menos se é mais justificaçoes terao de existir. E tu és tao pouco! Certo, é certo nunca tiveste oportunidade de seres grande, de seres um Sol aberto e brilhante no céu que aquece e ilumina. Mas podias ser decente, podias aguentar-te , podias ter uma boa morte.
Mas não.
Obviamente que não.
Mal aguentas existir nessa carcaça que enbelezas todos os dias ao espelho. És nada, assim o escolheste. Mal aguentas olhar o teu rosto pouco atraente no espelho. E de nada vale partir o espelho , por isso, no teu jeito patetico de fingir que és um sobrevivente, deformaste a alma. O teu rosto tornar-se-ia hediondo se não fosse demasiado triste, demasiado cómico. És so um ser triste que, por querer desesperadamente adaptar-se e esta realidade rejeitar o teu amor, usou o ódio como mascara.
Não. Espera. Correcção.
Usou a sua propria desgraça, usou o seu falhanço para mostrar que sobrevive e que não precisa de ter um lugar aqui. Que rejeita um lugar aqui.
É tao triste. És tao triste! E tao banal. Quase inofensivo, basta o respirar de um verdadeiro sobrevivente para te reduzir a menos que pó.
Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia que queres enfiar a força no mundo para não contemplares o circo cheio de palhaços tristes que és.
És um espectaculo triste , tao patetico que provoca o riso . Mas o teu ser frustado não tem graça, quando a cortina descer, verás que ninguem bate palmas.
Podias não ter sido um sol que ilumina e aquece. Mas podias ter sido decente. E alguem bateria palmas por teres sobrevivido . Só conseguiste aumentar a repugna e a aversao à tua existencia. “Os homens seguem a coragem”, devias ter feito o mesmo.
Obviamente que não.
És so um espectaculo triste que termina sem palmas, não conseguiste divertir nem os sádicos com a tortura que tentas esconder mas que sustenta a tua fealdade existencial.
(Lamento, e física.)

Saturday, July 17, 2010

Existir

Sentado no canto da praia. Na mente tem gravada a tua voz. Repetida, repetida. A frase, a melodia das palavras que lhe são estrangeiras mas familiares. Porque se fossemos apenas o que estamos destinados a ser demonstávamos a inexistencia de destino algum. Ele não quer ser isso, uma convençao repetitiva e triste.
Sentado no canto da praia. Calmo, sereno. A raiva que circula no sangue atenou o proprio sentimento de raiva que existe nele. Resta-lhe um pouco de tristeza, de melancolia, de cansaço, talvez. Está cansado, da raiva e da ausencia de raiva. Por isso deixa-se estar tranquilo no silencio de seda negro da noite. A ouvir o som agradavel da àgua. A contemplar o sentimento sublime de existir.
E a tua voz sempre presente no espirito dele. Repetida, repetida, repetida... Sentado no canto da praia, o seu santuário, o lugar sagrado isento de marcas que revelem a pertença dele a uma terra. Ou a uma nação. Isento de memorias bélicas que lhe causaram as cicatrizes espirituais e a marca dos condenados à morte tatuado no coraçao . A praia que é dele sem o ser. Nasceu num canto daquela praia, a ouvir o arrastar paciente do mar. Consertou-se e reconstruiu-se naquela praia, a maravilhar-se com os minusculos graos de areia que lhe provocam comixao nos dedos.
Sentado no canto da praia onde pertence, o santuario de religiao nenhuma. E a tua voz , e a tua voz , sempre presente. A relembrar-lhe o lugar que lhe pertence ,o lugar onde ele pertence.E a tua voz a cantar-lhe, numa melodia bonita, a sua condenaçao e salvaçao. A dizerlhe que as cicatrizes são feridas sãs.
Sempre a tua voz no canto daquela praia. Repetida, repetida, repetida, repetida... “
Music is your only friend until the end”, Sentado naquele canto da praia. Só. Com o mar. Em sintonia com o mundo nocturno . Só quando a realidade cala a sua voz estridente é que ele alcança alguma paz e ouve a tua voz. Ouve-te a ti, o teu ser perdido no teu tempo e arrastado ate ao tempo dele. Sentado naquela praia, num canto que não existe. O canto é ele.

Monday, July 12, 2010

Recurso a Eugénio de Andrade


Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias...


Eugénio de Andrade ( As Mãos e os frutos)

Thursday, July 08, 2010

Carta à Sociedade

Não quer ser isso. O filho prodigo que segura a mao do mundo quando o mundo lhe corroi a vida. Não quer ser o mártir amado e adorado enquanto o seu corpo jaz imovel e frio abandonado numa terra qualquer. Não quer ser isso, uma vida cheia de sucesso que lhe diz nada.
O falhanço nunca teve um sabor amargo tao agradavel. Se o mundo não esperar nada dele entao deixa-o em paz. Deixa-o livre. Na tua visao, mal se aguenta sozinho como vais contar com ele para alguma coisa? O falhanço nunca teve um sabor tao doce. Ao menos acabou a mentira patetica que se instalou. Acabou o conto de fadas triste ,dramatico e forçosamente feliz com um final visivelmente programado. Ele sempre disse que faria algo novo e que ninguem o ouvia. Ninguem lhe prestou atençao e ele continuou a avisar que um dia ia quebrar. Sempre disse isso, que gostava de quebrar convençoes pateticas que continuam de pé porque as pessoas não aguentam a sua propria frustraçao.
Não quer ser isso. Uma humana versao de Cristo que representa o bem e o perdao. Porque ninguem o desculpa a ele, ninguem olha para ele. Usam-no, exploram-no , violam-no. Arrancaram-lhe a privacidade, a liberdade, a unicidade suave e bela do ser dele. E ele quis de volta. E agrediram-no , disseram-lhe que o amavam, ninguem o ama mais que voces.
Não quer ser isso. Um filho prodigo que segura a mao do mundo sabendo que isso é a sua propria morte. Não quer ser filho, não quer ser nada. Quer ser ele, apenas ele.
E ele já esta quebrado. Já o quebraram. Parou a chacina. E embora tenha falhado sente que está no caminho certo.
Longe de vos. Monstros deglutores da originalidade para garantir a existencia da vossa existencia patetica.