Friday, December 31, 2010

Essência

Era um encontro de bandas, a mais famosa, a mais conhecida era a ultima a tocar. E ele estava la sentado, tranquilo e orgulhoso de si mesmo. Treinava umas quantas horas por dia para melhorar a sua técnica. Pena que nunca tenha melhorado a sua alma, a sua essencia não evoluia. A sua essencia era muito pobre e a técnica não sustenta a música, não. Não. A técnica transforma essa ideia musical numa linguagem que seja perceptivel a todos.Pena que ele não soubesse isso mas, que é que sabia ele? A sua essencia era pobre, tinha as ambiçoes trocadas queria ser grande antes de gostar da imagem que vê no espelho.
Mas estava muito orgulhoso, muito rejubilante, afinal a sua banda era a penultima a tocar e mal podia esperar para descobrir quem era o guitarrista da ultima banda. Devia ser um homem espectacular, um artista, um bebedo eximio, um homem com visao. Um novo líder desta geração, tinha de ser muito grande para ser melhor que ele. Pegou numa revista qualquer e, distraido, começou a folhea-la , ocupado com os pensamentos sobre quem seria o guitarrista da ultima banda. Foi quando a viu, uma rapariga muito sossegada mas com uma auto-confiança de ferro. Os olhos azuis eram perspicazes e , ele adivinhou, que seriam capazes de ler os pensamentos das pessoas. Devia ser namorada de algum guitarrista, ou irmã. Sentou-se perto dela e introduziu uma conversa de ocasião. Ela era tudo menos comum e respondia-lhe em palavras curtas e forçosamente educadas. Estava aborrecida com ele. Quando foi chamado para tocar e se despediu dela, parecia bastante aliviada mas ele não viu, nunca ve nada que não goste, dai a sua arrogancia patetica.
Porém, quando voltou da sua actuaçao, ela ainda lá estava. E estava ainda mais cheio de si, mais contente e mais orgulhoso da sua técnica. Ficou destroçado quando ela lhe disse que não tinha gostado muito. Ele perguntou-lhe, educadamente, que é que ela percebia do assunto e ela disse que tambem tocava guitarra. Ele encontrou um topico de conversa que considerou que o favorecia: sabes, acho que tocar guitarra é uma coisa de homem, por melhor que as mulheres toquem, não sei. Não superam os homens. Ela ficou verdadeiramente ofendida e nem se deu ao incomodo de lhe responder e ele continuou: por exemplo, já ouviste o guitarrista da ultima banda? eu nunca o vi mas é o maior. Dava tudo para o conhecer, para aprender coisas com ele. Mas é um homem e nenhuma mulher o consegue superar. Para surpresa dele, ela concordou obedientemente e disse-lhe até já quando a ultima banda foi chamada ao palco.
“ Há conheces algum membro da banda, da ultima”, Perguntou, meio entusiasmado, meio ciumento. E ela, calmamente, virou-se para ele e sorriu: Conheço-os a todos, eu sou o guitarrista da banda.

Monday, December 27, 2010

Não-Família

Família. Um conceito interessante, dos mais interessantemente controversos, talvez. Família. Mas sem aquele romantismo arrastado de filmes baratos com ideais dignos de alguem em que a ignorancia ocupa a maior parte do cerebro. Não, familia. Falo da familia, daquela que se escolhe ter para garantir uma parte do ego em movimento, em crescimento. Em evoluçao. E, surpreendentemente, em casa. Ah sim, familia. Irmaos de sangue ao estilo viking onde a lealdade é o altar maior, é a maior e mais dificil demonstração de coragem. E de amor.
Família. É dúbio. E o amor que se desenvolve ganha espaço num mundo que é frio e cru. Um amor que sempre esteve lá mas que em algum momento peculiar é activado e o mundo conquista um sitio sagrado e mitico, um canto da praia onde Sophia ainda esta viva, onde a menina dos fósforos encontrou a paz. Sim, isso é familia. Sem romantismos . A vida sempre foi uma coisa real, faze-la mover-se numa evolução melódica requer genialidade, requer amor. Não há genialidade sem amor e a genialidade mora as vezes em pequenos pedaços de quotidiano que conquistam um pedaço de coraçao quando tudo é esquecido porque o mundo é triste. E a familia está lá, a descongelar um coraçao perdido, uma alma quebrada. A familia está lá, no seu quotidiano descompassadamente ritmada, sincopado. E nasce aquele santuário, aquele canto da praia onde tudo é possivel, a Alice atravessou o espelho e encontrou um mundo que lhe fazia mais sentido, na areia lem-se ainda pequenos pensamentos de Oscar Wilde e , o mar, na sua eterna melancolia azul traz, de vez em quando, um principezinho que corre aquele canto de praia em busca da sua rosa. Sim, familia é esta segurança , este lugar seguro porque tudo é possivel. O conceito de familia não é seguro e confortavel porque é estavel. Oh não, é reconfortante e revigorante porque nada é estavel e tudo é possivel. Até a ferida que rasgou o coraçao de papel e esmagou o espirito pode ser curada.
Mas não um daqueles conceitos de familia baratos. Não é uma pintura vazia de uma ceia de Natal. Oh não, é precisamente o contrario. Irmaos de sangue, onde o coraçao é demasiado largo e fundo para não ultrapassar qualquer contratempo, qualquer obstaculo.Familia é este canto de praia onde a brisa marinha guardou a essencia de Cliff Burton e tu te sentas lá. Quieta, a ouvi-lo. A familia torna tudo possivel. Mas não aquela familia barata e previamente imaginada e construida. Oh não, não. Esta familia que tu escolheste como tua. Irmaos de sangue, ao estilo viking. Lealdade como bem maior, imaginaçao e utopia como ideal. Um lugar sagrado que não existe e, que por isso mesmo, vai existindo. E nos somos aquele lugar, onde a familia está para alem do laço de sangue sem deixar de ser, tambem, uma questao de hereditariedade. Familia, um conceito controverso. Mas não em nós, “pagoes inocentes da decandencia”, que construimos aquele canto da praia onde tudo sempre foi possivel e, por isso, conquistamos uma fracçao de genialidade, de louca e racional genialidade.


Para a minha irmã

Monday, December 20, 2010

Noite Estrelada II

O calor de uma noite intensamente fria. Sem música, sem som. A ausencia de qualquer coisa é ainda mais tenebrosa que o esguio grito de uma noite estrelada. E aquela noite nunca mais se alongou no tempo, estagnou à espera que a alguem a puxasse do poço onde o esquecimento é maior que outra qualquer coisa. Não, aquela noite é um buraco no tempo, um corte no peito. Porque a vida era demasiado simples, demasiado leve e boémia para sobreviver. Ou para não morrer, estagnada no tempo.
Mas a noite é calorosamente fria, como se o gelo não trespassasse qualquer coisa e o silencio devolve-me uma paz muda que não rasga a pele. Ate o bater do coraçao é mudo, ia jurar que às vezes não bate. Porque está demasiado frio e a noite alcançou-me a essencia. E aquela noite, a outra, nunca mais se vai repetir. Aquele estado de não responsabilidade não poderia durar para sempre. Nada dura para sempre.
Ficou gravada na pele, a tua essencia, ate hoje. Daquela noite que nunca mais se alongou no tempo. Somos outros eus, tao iguais e tao diferentes. A evolução deixou-nos exactamente no mesmo ponto. Como naquela noite, em que nos despedimos; como naquela noite, que é um buraco no tempo porque o calor de Verão não aquecia um frio que se instalara. O fim nunca tem a sua metade de quente.
Mas esta é uma noite fria, calorosamente fria. Porque somos os mesmos eus, perdidos naquela noite que se alongou no tempo. Perdidos naquela noite que durou ate hoje. Ate esta noite, em que o amor assumiu a sua forma de coral. É muda , colorida e ternamente silenciosa.
Afinal, só eu é que morri. Naquela noite em que me sentei à tua espera rejeitando a esperança que tinha do meu regresso. Sim, só eu é que morri.

Saturday, December 11, 2010

O amor pelo Idealista

É uma alegria estranha. És algo no meio termo deste mundo horrivel, das-lhe tanto calor existencialista como o frio calcário de quem caminha solitário e triste por uma ideologia que só vai chegar depois da sua morte.
Mas vai lá Deus saber porquê, tem em ti uma fé esquisita, quase inabalavel. Ornamentada com tanta compaixão que nem chega a ser fé , é mais uma lógica abstracta prolongada no tempo. Talvez porque falhaste, falhaste durante tanto tempo que te purificaste assim, como um jogo vencido no inverso. Entao ele tem esta fé estranha em ti, não por crer que não falharás mas porque já falhaste mas ainda estas aqui , mas o teu coraçao é de seda azul cheio de metáforas dificeis de compreender. E porque, nunca verdadeiramente, lhe falhaste. De todas as vezes que precisou de ti , que precisou que te elevasses para além da mediocridade desta sociedade, tu elevaste-te. Não por teres em espirito a mesma ideia dele de como seria o mundo. Não. Elevaste-te porque falhaste e ele é aquele ser meio animal meio homem, cheio de uma triste felicidade às vezes e outras o encanto dele mora na felicidade melancolica com que se senta , invadido por uma esperança moribunda de que isto mude. Elevaste-te porque o amas, de alguma forma, de alguma maneira típica e genuina que o torna ele e que te torna tu.
E é uma alegria estranha, amar-te. Porque às vezes o coraçao fica pequeno porque pertences tanto a esta realidade vazia quanto o resto das pessoas que passeiam pela vida sem a viver. Mas o não deixas cair no abismo, das-lhe a mao e sussuras-lhe que esta vivo e que estas aqui por ele. No caminho solitário e triste de uma ideologia que ainda não chegou. Que o define e, como tal, tu defendes porque o amas. Porque ele é único aqui e tu o tambem és. Sobretudo quando ele te dá a mao e te não deixa so nesta realidade que te suprime a beleza da essencia que carregas no peito.

Thursday, November 25, 2010

Noite Estrelada

Ele sempre soube que não seria igual, que nunca mais seria igual. Aquela noite estrelada com aroma a alcool e cigarros e a uma nova hipotese não se repitiria. Nunca mais. E ele sabia, ele soube durante toda a noite. Assim como tu o soubeste, a noite toda. Mesmo quando o aroma de uma vida boémia se tornava romantico, ele sempre soube que nunca mais estariam naquele ponto, quase inocente de tao pouca inocencia.
E durante todo o tempo que esteve ausente o teu ser era recordado junto com aquele cheiro, com aquele ambiente. Boémio, suave, arriscado e romantico. Por isso é que não te esqueceu durante o tempo em que esteve ausente, o teu perfume era inigualavel. Por isso é que o deste como perdido. Porque ele nunca se perdeu de ti.
Esteve ausente do mundo , ele. Quis estudar o Amor de forma imparcial, quis compreender a sua genese. Mas acava por te sentir a falta e a ausencia de mais noites estreladas com cheiro a alcool e a cigarros cheias de um ambiente boemio, marginal e romantico. Cheias de algo que ele nunca tinha visto ou sentido mas que sempre coexistiram nele.
Ele sempre soube que aquela noite nunca seria igual às outras. Encontrou a definiçao do proprio Amor naquelas ruas sombrias encharcadas com vida genuina e alternativa. Encontrou-te a ti quando descobriu que aquele tinha sido sempre o teu perfume, o cheiro da sublime tentação dele.
Por isso é que regressou passado tanto tempo. A definiçao do Amor és tu com esse aroma caracteristico que ele correu o mundo à procura mas só descansou o coraçao junto de ti.
Porque ele sempre soube que a noite, aquela noite, nunca se repitiria. E, por isso mesmo, continua contigo à espera que aquela noite estrelada, cheia de uma essencia boemia ornamentada com uma nova esperança se repita e se torne maior. Porque a definiçao do Amor sempre foste tu, sempre foi o teu perfume, sempre foi a tua visão do mundo.

Wednesday, November 24, 2010

Cinzento Fúnebre

Talvez te doa porque deixaste esse mundo paralelo eternamente aberto e ele não vai cá estar para te dizer que de todas as vezes que o Inverno se instala, a Primavera sucede-o. Talvez te magoe porque foi uma hipotese que so viste quando ela deixou de existir e pior do que chegar em contratempo é sentires que o tempo passou por ti e não se despediu. Como ele.
Epera que te não sintas só, sem ele. Já não volta o mundo das sombras é um mundo ilusório que desfaz o caminho assim que é pisado. E não, ele já não volta foi lhe roubado qualquer coisa porque o mundo é so isto. Um conjunto de pessoas tristes , tão habituadas à sua propria miseria que vender a alma para pagar uma qualquer dívida não tem qualquer relevancia. Porque o mundo , as vezes, torna-se so nisto, numa sucessao de acontecimentos tristes em que o Amor se dissolve nas crueldades melancolicas e patéticas do mundo sem o deixar renascer e florir os campos de novo, o Amor.
Saber o que é que magoa ou porque é que magoa é irrelevante. É filosofia, é meramente um exercicio filosofico e ele já não volta. Não, o tempo passou pela tua pele .Mais, passou pelo espirito dele e onde mora agora já o não podes acalmar dos terrores do mundo que ele viu e foi vitima. Não, o tempo já passou por ti ficou a memoria de uma metáfora que nunca se concretizou porque o mundo , às vezes, é simplesmente um lugar cruel em que o desespero de uma oportunidade que torne a vida melhor e mais suportavel conduz a uma crua , sangrenta e desumana forma de viver.
Não, não ele não volta de onde está agora. Nunca mais. Nunca mais vais poder confortar-te ao conforta-lo. Não, o teu amigo, o teu único amigo já não regressa desse caminho triste onde o puseram injustamente, precocemente sem o consentimento dele.
Perdeste um amigo mas , mesmo do alto do sitio cheio de tons de cinzento funebre, ele sorri-te. E pede-te para te não sentires so sem ele porque a pureza do teu espirito torna-te na única esperança deste mundo
.

Saturday, October 23, 2010

Antítese

É um corte que nunca lhe vai sair da alma. Tu. Aqueles dias em que a vida elevou-se numa nova consciência, em que ele se tornou mais condescente e humano porque tu estavas lá e tu eras tu. Aqueles dias em que a tua visão do mundo alargou o seu proprio limite de horizonte e deixaste de ter um ego tão cheio de restrições bem fundamentadas.
Aqueles dias que foram inuteis. Aqueles dias que foram uma ilusao verídica de uma realidade que não existe, ele era um comboio em movimento contínuo. É um corte que nunca vai deixar de ser visivel no rosto belo dele. O amor que fluiu e que era profundamente errado.
Porque tu es esse ser, tao carinhosamente igual, tão belamente não especial. E ele tem esta excentricidade que o define sem dizer nada de importante sobre o coraçao dele. O amor que te tinha dizia tudo sobre o coraçao dele e o amor que lhe tinhas dizia tudo sobre a profunda definiçao de o que eras.
É um corte que nunca lhe vai sair da pele , nunca vai deixar de escorrer sangue no espirito. Porque sempre foi um comboio em movimento, sempre foi o seu proprio destino e tu sempre foste uma vida estavel e tranquila num qualquer lugar. E daqueles dias bonitos e inesqueciveis contigo só relembra a inutilidade de um amor que é a antítese do sentido do mundo.
Hoje já nem sequer existes mas quando te vê é o seu reflexo que perde nitidez.

Sunday, September 12, 2010

Dédalo e Ícaro II

Ele estava tao feliz, o Dédalo que é salvou o ícaro que nasceu nele e ambos venceram o Sol. Alias, estava tao descontraido e tranquilo que estava controlado, estava em paz interior.
Mas tu chegaste. E tu és apenas isso, a contrariedade, a consciencia das adversidades. Lembraste-o que o Ícaro tem sempre asas frageis e que algures teve sorte. Não e inteiramente verdade visto que aproveitar oportunadamente a sorte é deixar de ter sorte. Mas retiraste-o daquela calma existencial em que se encontrava. O teu sorriso carregado de desagrado lembrou-lhe que existem ainda outras vezes em que o Ícaro terá de vencer o Sol. Em que o Dédalo terá de acreditar tao fortemente no sonho do Ícaro para lhe endurecer as asas sem as tornar menos frageis e ambiguas. Como um bom sonho.
Mas ele é o Dédalo e o Ícaro. Carrega o sonho de voar e as formas estrategas de o fazer resultar. Não é um qualquer, não morrerá com tanta facilidade. E tu és so isso, uma sombra crua e negra que avisa o pior porque foi a única coisa que aprendeu a fazer depois de ter falho o acto de viver. Se acertares, tu sim, acertaste por sorte.
E ele é o Dédalo e o Ícaro. Morrerá com honra como morre alguem que concretiza a utopia que idealizou. Ele é tambem Ícaro e hoje venceu o Sol, tocou-lhe e sentiu o aroma quente de quem sobreviveu orgulhosamente. Ele é tambem Dédalo e hoje descobriu que a tua genialidade demoniaca e triste não o alcança porque ele é que é movido pela crença na fé.

Friday, September 10, 2010

A tua escolha é o que és

Lá no fundo ele sempre quis ser isto apesar de ter gasto algum tempo a esforçar-se arduamente por não ser. Porque é dificil e é duro mas a glória que lhe prometem esta para alem de qualquer coisa mundana. Ser senhor de si proprio e fazer a diferença para quem necessita de ajuda é uma glória sentimental incomparavel.
E ele hoje é isso. O ser a quem as riquezas de praticar actos crueis simplesmente não convenceram, ele praticou-as mas não compensaram. Ele foi o ser que escolheu fazer o que acreditava que era correcto, ele escolheu a luz. Conscientemente. Tem gravadas no instinto de defesa todas as crueldades que podia ter cometido mas escolhe, activamente, usa-las de forma diferente. O seu ego é enorme e a sua fome de o encher é ainda maior, o orgulho que tem de sentir de si mesmo é gigantesco. E preenche-o, assim. Tornando-se distinto da multidao porque mudou a direcçao quando escolheu ser o que é. Orienta-se de forma inesperada e honesta. Algures descobriu que o amor não tinha preço ou substituto. E tornou-se honestamente naquilo que é. O ser com o cerebro tao genialmente cruel como os outros, demonios humanos, mas com um coraçao puro e sagrado. Itálico
E alcançou a gloria maxima quando rejeitou a gloria por completo e se tornou humilde. E tem a distinçao maxima e o ego cheio, equilibradamente, no limite.

Wednesday, September 08, 2010

Dédalo e Ícaro

Essa tua tranquilidade ansiosa perante a possivel morte é estranhamente agradavel. Porque tudo o que tiveste durante estes anos foi a tua miséria, a tua desgraça era a única que era tua por direito.
A sorte procura os audazes e a tua pericia estratega manteve-te vivo. Mas muito pouco da riqueza que possuis te pertence. Porque acreditavas que eras um milagre e algures tornaste-te num. Quebraste muitas convençoes crueis, a tua coragem levou-te para alem de muitos limites de muitos horizontes. Porém os sonhos que tornaste reais não eram os teus sonhos. Eras um Dédalo em auxilio de todos os Icaros que te procuravam. Sempre tiveste sucesso em concretizar os sonhos dos outros porque eras um milagre, um ser cheio de uma sorte audaz. E não era o teu sonho ou perderias a sorte.
Mas não agora. Despiste-te de todas as personagens que te definem e assumiste o papel de seres apenas tu. Perdeste toda a sorte porque perdeste a perspicácia nesse ponto. Procuraste o teu sonho, arriscaste a vida por ele. Não foste estratego, não foste Dédalo. Foste Icaro disciplinado pelo teu Dédalo a tentar alcançar o Sol. Foste um Icaro sem Dédalo porque esse era o teu papel.
Talvez morras amanha. Talvez, talvez. Mas essa morte é tua, arriscaste o que tinhas a única mascara que não consegues arrancar de ti. E por isso estas tranquilo, é algo que é teu por direito. Conquistaste a hipotese e isso apesar de não ser suficiente é um optimo começo.
Porque tu so tentaste vencer o que era invencivel para os outros. É a primeira vez que tentas não falhar naquilo em que acreditas. É inteiramente compreensivel que falhes a primeira vez mas se a morte não for fisica, meu amigo, continuas de pé.
Porque es o Dédalo e és o Ícaro. E serás sempre um milagre, nem que seja por rejeitares se-lo numa questao de leal honestidade. Tens uma ansiosa calma para saber o resultado na madrugada mas há algo que já te pertence.
O teu destino és tu quem decide.

Metade homem, metade besta

Metade homem. Metade besta.
Essa metade humana é condescente, é generosa. Tens um largo coraçao, uma honesta tolerancia e compreensao para quem souber identificar a tua lealdade de ferro. Uma nova e melhor versao do mundo move-te neste mundo, move-te se necessário, até à morte e para alem dela. Tens um coraçao limpo dos pecados do mundo o teu amor é honesto.
Metade homem. Metade besta.
Não consegues bloquear o fascinio pela inteligencia crua e fina, pela genialidade de uma acçao cruel justificada por uma alma desfeita em pedaços. A perspicácia e a astúcia aplicadas sabiamente, quer seja para conquistar o bem ou o mal. E no final, é essa metade de besta que te salva e que te faz sobreviver. Consegues deixar o teu coraçao à porta e sentar-te calmamente no dia da derradeira batalha sem ele. E não sentes nada a não ser que costumavas ter coraçao e ele agora não esta contigo.
Metade homem, metade besta.
Porque a tua metade de homem é esperançosa, é frágil. É movida por uma fé bonita. A tua metade besta salva-te , garante o respeito. Deixa-te entrar numa sala sem coraçao envolvendo-te num encanto peculiar de quem não vai cair com facilidade. A metade besta oferece-te um sorriso estranho mas tranquilo.
Metade homem e metade besta. No meio de uma guerra que nasce em ti tu alcançaste um equilibrio inconfudivel.

Tuesday, September 07, 2010

O novo Herói

O teu rosto é o rosto de uma multidao que não tem força para gritar. Emprestas o teu grito bélico e o teu braço leal aqueles que foram encurralados e cegados. Emprestas a compaixao violenta do teu coraçao aqueles que querem a libertaçao mas perderam a força e a força da esperança para se mexerem.
Podias ser um deles, dos que cegam e encurralam e assassinam em actos que não deixam sangue rubro escorrer. Podias se-lo, tens a mesma genese, a mesma liberdade e a mesma violencia. Mas o que tu desejas ardentemente é não seres um monstro e isso é tudo o que és. O que escolhes não ser é o que és, o que perdes mostra a cor da tua alma.
Por isso seguras e agarras aqueles que já perderam a voz para pedir ajuda. Corres o mundo por aqueles que já desistiram de lutar, afundados na tristeza que os sufocou. E estás lá com eles, a ver o brilho elouquente da morte em cada pedaço de sombra.
Existes para salvar quem o mundo escolheu matar . Um deus qualquer deu-te todas as capacidades que tem os outros unindo-as a uma consciencia humana e sensitiva. Colocou-te num sitio ao qual não pertences. Tornou-te igual aos que praticam as crueldades alheias e aos que as sofrem e no final a escolha foi tua.
O teu rosto é o rosto de todos que resistiram mas algures foram chacinados e não se conseguem mover. E, no final, a luta é entre ti e os teus irmaos.
No final és tu, movido por inumeras almas que te pediram ajuda e os teus irmaos que as torturaram. No final, é uma luta de titãs.

Sê Humilde

Para que o prazer do fracasso alheio? Isso não dimnui o teu. Nem o aumenta, apenas evidencia. Para que o amor à destruiçao sem proposito? Ouve, quando destrois deves ter o proposito de construir a única legitimidade para praticares esse horror é a liberdade. Destruiçao sem proposito é pior que a destruição por si só.
O que é que te dá, saberes que não foste o único a errar o caminho? Quantos mais afundares menos hipoteses tens de te salvar. Salvares alguem do mesmo erro que tu é a única forma de te ajudares. Quereres a destruiçao para te integrares e te sentires bem em frente ao espelho é um acto estupido e ignorante. Vais misturar-te com uma multidao onde vais ser apenas mais um. Falhado, fracassado. Falhaste a vida e falhaste no acto de viver.
Ter razao não vale isso, o queimar frio do teu coraçao. Porque se perderes a subtileza de sentir, de ter compaixao. Não tens razao, nunca a tiveste. Mesmo que acertes, não tens razao. Previste o acontecimento baseado em factos duvidosos, foi mais sorte que genialidade.E ter razao não vale isso, nada vale. Mas tu já te afundaste, não me vais ouvir não me afundei.

Monday, September 06, 2010

What ever happened

Ele quer ser esquecido . Nao quer que as suas carismáticas ideias e peculiares angulos de respiração sejam recordados Mais do que ser esquecido, ele deseja nunca ser lembrado.
Porque não vai ficar aqui. Não vai ficar aqui de forma nenhuma. É uma opção ilusória, é preciso viver de mentiras mal estruturadas para acreditar que ele pode ficar. Mais vale que vivas assim, sem ele. Que saibas conscientemente que ele não vai ficar aqui mesmo que retorne sempre. Não fica aqui de maneira alguma.
Porque é so isto, ele. Um comboio em continuo movimento com destino certo mas indecifrável. Um comboio destinado a não ter destino.
Inspirado em What ever happened, The Strokes

Saturday, September 04, 2010

Desfecho triste

Gostava de te dizer que não te perdoo mas na verdade é um gesto inútil. Sendo irrefutável, a existência da solidão é agradável. E compreendo-te.Não posso negar a nossa sintonia no nível da desgraça interna. Não te posso acusar.
Mas gostava de te não perdoar para continuares vivo comigo. Para existires em mim. Só para te manter vivo.Aqui.
Porém não posso fingir que te não compreendo. Demasiado bem, apesar de abstractamente. Perdoei-me porque tu existes. E, na verdade, não erraste perdoar é uma palavra que demonstra a minha dor. Apenas.
A tua despedidade é estranhamente dolorosa. Porque não me pões em causa . (E ,talvez por isso, sinta verdadeiramente a falta. )

É tudo nada. Menos que a memória mais volátil.



WinGs, 21/04/2009

Thursday, September 02, 2010

Lucidez

O fogo sempre o fascinou.Se por um lado era simbolo da força da clarividencia de uma luz dificil de apagar. Por outro era simbolo da destruição sem qualquer compaixao, quase imparavel . Maior que qualquer homem. E o fogo sempre o atraiu como um íman. Magnetico.
Tinha o isqueiro na mao. A tentação de sentir o calor da chama e de ver as cores magnetizantes do fogo foi muito maior que ele. A adrenalina do perigo fe-lo mover os olhos e procurar o papel, o medo que vivia nas suas maos tremulas não o impediu.Pegou no papel, num pequeno e insignificante papel. Aparentemente. Aquele papel resumia em palavras concisas uma vida que ele já tinha abandonado. Uma vida que não era a dele. Uma vida que o fez feliz e que depois o deixou entregue ao vazio de uma felicidade sem proposito.
Entao, no calor da noite, rasgou o papel em dois. Queimou apenas um pedaço e observou, maravilhado, o fogo expandir-se- Soprou e apagou. Mas não conseguia parar . Queimou a outra metade, movido por uma energia que quase o deixava em transe
Mas a chama era muito maior, muito mais atraente. Observou minuciosamente a destruiçao das palavras enquanto o fogo lhe fugia ao controlo. Queimou ao de leve os dedos e o medo inato libertou-o do transe.Atirou o papel para o chao e pisou-o.
Olhou de novo para o papel, para o que restava dele. Eram migalhas, apenas migalhas. De uma vida que viveu mas que nunca foi dele. Não tinha escolhido aquela vida e agora já não era importante. Queimou a metáfora. Queimou o facto.
Desde sempre que o fogo era fascinante para ele. Desde que se lembra. Deitou-se calmamente na cama, relaxado pela satisfaçao de ter visto arder. Aquele pequeno papel. Era certo que era louco. Mas se-lo-ia mais se não tivesse queimado aquele papel. É por ser louco que é livre. Livre ate de fantasmas , não ha nada que aquele fogo dele não queime.

Saturday, August 21, 2010

Liberdade

Tributo a William Wallace, libertador da Escócia

Apedrejaste o herói. Quiseste humilhá-lo para o assassinar depois de estar já morto. Mas só conseguiste esvaziar o corpo divino de sangue rubro. Só conseguiste esventrar a carne. O herói sobrevive ao seu proprio corpo. Sobrevive ao seu proprio tempo.
Torturaste o herói. Quiseste vence-lo , demonstrar-lhe a sua patética efemeridade. A fragilidade da sua pele humana. A tua raiva surda contra algo muito maior do que alguma vez serás levou-te a perderes-te no poder que o herói exercia sobre ti. Nunca o superaste , nunca o venceste. Nunca. Quiseste torturá-lo para não exibires a impotencia mediocre que te definia. Mas o herói não era como tu, mortal. Não. Trazia consigo o som divino da liberdade em cada insignificante gesto.O heroi trazia consigo um fogo impossivel de extinguir. Era divino. Mais, era livre.
E tu nunca foste melhor que o medo que sentias dele ou melhor que o medo que quiseste incutir. Nunca foste capaz de um feito maior, nunca alcançaste a coragem.
E se julgas na tua triste e patetica figura de poder prepotente que venceste. Vê. Perdeste. Perdeste tudo. O herói conquistou a liberdade apesar depois de o teres assassinado cruamente. Era divino porque era livre. E os homens seguem a coragem, arrastou com ele a multidao a que nenhum exército pode fazer frente alguma vez. A vontade de vencer foi a vontade de ser livre. E isso é invencivel.
E, se ainda julgas na tua estupidez alcunhada de nobre, que venceste algo. Vê melhor. No sitio onde ainda reinas, no sitio onde torturaste e assassinaste o herói, eu choro a morte dele. Do Messias. Mas sobretudo, venho honrar e enaltecer a memoria do heroi. A inspiraçao que foi. Mais. Que ainda é. Porque assassinaste o heroi, desfizeste o homem em pedaços. Mas nunca assassinaste a liberdade que o movia.
Repito. Vim ao teu sitio dourado honrar o heroi. Torna-lo ainda mais divino. Ainda mais eterno. Ainda mais livre. E recordar o seu nome e contar a sua historia. Renasce-lo. O teu nome é o nome da sombra cruel , nojenta e vergonhosa que assombra a humanidade. E, como tal, mereces permanecer na penumbra.
Vim honrar o heroi. Lembrar a sua existencia. Porque “todos os homens morrem mas nem todos vivem realmente.” Vê como perdeste tudo e perdes ainda. O heroi viveu , vive ainda e viverá sempre. Porque os homens seguem a coragem. Porque o heroi tornou-se num simbolo da humanidade, numa figura de verdadeiro poder que orienta e protege os que acreditam. Na liberdade.

Thursday, July 29, 2010

Intermitência

A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. E não importa onde mora o corte fundo da decapitação, outro dia nascerá. Poderás não manter quem és mas nunca fugirás ao que és. Daí que seja inutil, adiares a morte da noite porque ela termina de qualquer maneira.
E uma brisa fresca nocturna alcançar-te-á. Um dia deixará de ser importante, as coisas na tua vida tem o sentido que lhes deres e esse sentido será o único verdadeiro. De resto, nenhuma falha é infundamentada. O universo tende para o caos mas tu és um caos organizado, qualquer erro é lógico, qualquer erro tem uma causa e uma consequencia.
Mas não tens qualquer expectativa de inglória. Na verdade, a desgraça que ocorrer na madrugada não é culpa tua, sabes bem quanto vales. Mas esta realidade não pronuncia a mesma lingua que tu, o problema de comunicaçao inato alcançou o teu espirito.
A tua perspectiva é de vencedor. Mas como poderás ter alguma glória quando não te entendem, falando tu a lingua deles? Como poderás alcançar esse tipo de sucesso expectante se a diferença ajeita-se suavemente nos conceitos profundos que vos movem?
A má disposiçao não adia a sentença de morte na madrugada. Nem esses escassos minutos de noite viva que te restam. O problema não morre aqui. Os teus te não entendem, os teus são nada
para ti.

Monday, July 26, 2010

Last Kiss

Apagou o cigarro no cinzeiro e observou o fim da chama, o fim do fogo. Alguma vez o vais deixar? Ele não consegue apagar-te mais do que isto, não consegue desviar os olhos do cigarro desfeito pelo desespero com que o apagou.
Apagou o cigarro . Respirou fundo. A angustia estava enrolada na garganta, apertava os nervos do peito. Roubaram-te, roubaram-no. E o desespero dá-lhe uma energia esquisita para se mover. E fuma outro e outro. E bebe, já perdeu a noção do que esta a beber. Já te perdeu, que mais importa?
O cigarro desfeito lembra-lhe o teu corpo desfeito e amassado. O teu ser sem vida, perdida nos braços dele que nada podiam fazer. O desespero dele em devolver-te a vida que te tiraram violentamente. O desespero dele para que não fosse verdade. O grito calcário que escureu a noite quando a verdade crua o atingiu. A corrida louca que fez para fugir do presente. A corrida louca que fez para gastar os musculos, os ossos, o fisico porque o interior estava desfeito. Como o teu corpo, coberto de sangue, sangue inocente. A corrida louca que fez para se cansar , para ficar abandonado a um canto à espera que a morte ou que uma maior crueldade o abraçasse.
Apagou o cigarro no cinzeiro. Observou o fim da chama. O insulto violento , desesperado edoloroso ao acidente que te roubou, que o roubou. O insulto violento , torturado e trémulo ao Deus que não existe. Apagou o cigarro no cinzeiro e voltou para ela no meio da noite. Nada tem que ver contigo, não tem essa fragilidade e essa doçura que te tornavam um anjo na terra. Um anjo morto nos braços dele, ainda hoje sente a textura do teu sangue na pele.
Alguma vez o vais deixar? Alguma vez ele vai deixar de ter estes pesadelos frívolos em noites suaves sobre o dia da tua morte? Sobre o dia em que parte dele tambem morreu? Mas tem horror a esquecer-te, a deixar-te morrer, eternamente. Por isso apaga o cigarro violentamente e observa fixamente o cigarro desfeito, tao desfeito como o teu corpo inerte nos braços dele. As lagrimas puras dele não te acordaram. Mas tem horror a esquecer-se da suavidade aromatica da tua memoria, todas as noites acorda com o pesadelo real que o tortura. Prefere isso a deixar-te morrer, assim.

Wednesday, July 21, 2010

Carta aos falhados arrogantes

Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia colada ao coraçao seco e imundo. Porque o mundo é coerente, quanto menos se é mais justificaçoes terao de existir. E tu és tao pouco! Certo, é certo nunca tiveste oportunidade de seres grande, de seres um Sol aberto e brilhante no céu que aquece e ilumina. Mas podias ser decente, podias aguentar-te , podias ter uma boa morte.
Mas não.
Obviamente que não.
Mal aguentas existir nessa carcaça que enbelezas todos os dias ao espelho. És nada, assim o escolheste. Mal aguentas olhar o teu rosto pouco atraente no espelho. E de nada vale partir o espelho , por isso, no teu jeito patetico de fingir que és um sobrevivente, deformaste a alma. O teu rosto tornar-se-ia hediondo se não fosse demasiado triste, demasiado cómico. És so um ser triste que, por querer desesperadamente adaptar-se e esta realidade rejeitar o teu amor, usou o ódio como mascara.
Não. Espera. Correcção.
Usou a sua propria desgraça, usou o seu falhanço para mostrar que sobrevive e que não precisa de ter um lugar aqui. Que rejeita um lugar aqui.
É tao triste. És tao triste! E tao banal. Quase inofensivo, basta o respirar de um verdadeiro sobrevivente para te reduzir a menos que pó.
Quanto menos se é maior é a petulante arrogancia que queres enfiar a força no mundo para não contemplares o circo cheio de palhaços tristes que és.
És um espectaculo triste , tao patetico que provoca o riso . Mas o teu ser frustado não tem graça, quando a cortina descer, verás que ninguem bate palmas.
Podias não ter sido um sol que ilumina e aquece. Mas podias ter sido decente. E alguem bateria palmas por teres sobrevivido . Só conseguiste aumentar a repugna e a aversao à tua existencia. “Os homens seguem a coragem”, devias ter feito o mesmo.
Obviamente que não.
És so um espectaculo triste que termina sem palmas, não conseguiste divertir nem os sádicos com a tortura que tentas esconder mas que sustenta a tua fealdade existencial.
(Lamento, e física.)