Sunday, March 21, 2010

Pedra Filosofal

Ouço a tua voz em tom de alerta. Os teus movimentos bruscos e preocupados. Mas hoje ninguem vai morrer. Hoje não haverá sangue em lado algum. Não etendes, não podes viver so para ganhar a guerra. Mesmo que a guerra não seja uma guerra, mesmo que seja pelo teu direito de existir. Mesmo que tenhas as razoes mais solidas deste mundo e do outro para quereres ganhar a guerra.
Um dia terás de sentir o prazer de criar. Algo que não tenha como objectivo a destruiçao. Um dia terás de sentir o prazer da leveza de se ser feliz, mesmo que seja apenas por uma fracçao de segundos. Um dia terás de fazer o que eu faço agora. Fingir que a guerra não existe, que a mediocridade alheia não me sujou o sangue com lama obscura. Não estou a ignorar nenhum facto, nem sequer estou a ser cobarde. Aproveito a vida enquanto ainda a tenho em mim.
Por isso, hoje não me fales disso. Da ruina ordinaria que os outros são.
Hoje sou livre. Hoje sou eu (so eu). Com as costas confortavelmente seguradas pela cadeira. Hoje é um dia que vale a pena memorizar o cheiro. O som. A cor e a textura azul.
Se não houvessem dias como o de hoje, tao banais, não teria qualquer razao para entrar na guerra contigo. Tens de aprender que se vives para a guerra, es a guerra.
E devias ser o Sol ameno de uma tarde Verão. Não um Inverno gasto em folhas que envelheceram demasiado cedo.
(O melhor soldado é o que tem um sitio para onde voltar
)

Saturday, March 20, 2010

O fim

Ele tem por vezes esse impulso louco . De pegar no casaco e correr à tua procura. De escrever a carta com as palavras cuidadas que nunca te confessou. Às vezes é consumido por uma vontade extasiante de te ter de volta. De ajeitar o passado. De se ter de volta. De regressar àqueles dias longos e sorridentes de Verão.
Mas depois é como se o coração revisse pormenorizadamente os dias de chuva que se seguiram. É como se , naquela fracçao de segundos, lhe esgotassem todos os “se”. Todas as hipoteses. Todos os argumentos. Como se naquele intervalo entre levantar-se da cadeira e pegar no casaco alguem lhe descansasse a mao no ombro e concretizasse a verdade que sente mas que não tem coragem para soletrar. Porque soletrar a tua ausencia torna-a ainda mais real.
Ele tem esse impulso louco. Absolutamente alucinado. De que algum dia vais perceber a carta que nunca te vai enviar.
Morreste naquele dia, o teu ser foi dissolvido na chuva. E ele fugiu de todos os cemitérios mas consegues encontrá-lo sempre de alguma forma.
Ele tem esse impulso louco. Mas arracantaste-lhe toda loucura que tinha naquele dia de chuva.

Tuesday, March 16, 2010

Azul Celeste

Vê se tens dó de ti já que me fazes ver-te. Já que me ofereces essa sensação de vómito ao menos faz algo de útil por ti. Olha-te ao espelho, traça com o teu dedo as curvas do nada que és. Ah, sim, és nada. E não digas que o tambem sou ou que o meu anonimato existencial não me permite poder para afirmar tal barbaridade.
Tu és tão nada quanto o céu é azul. Quanto o Sol é amarelo-alaranjado. A tua cor é o nada. Sorris-me tentando evidenciar uma malícia (mas não tens inteligencia suficiente para teres malícia). Dizes-me que o céu não e verdadeiramente azul, depende tudo da luz branca. Como um prisma triangular trespassado por um raio de Sol.
E é exactamente ai que afirmo. És nada. Quando ves o ceu azul claro vivo ele torna-se azul, é a forma como vais conhecer o mundo que ainda tens pela frente.Há uma doce simplicidade na forma como o céu vai ser sempre azul, apesar de o não ser. O que para ti é real é o que te torna diferente de todos os outros semelhantes.
A tua cor é nada. Tu és nada. Vejo-o tao claramente como vejo o imenso azul celeste.
Repara, ser nada, é uma hiperbole. A expressão é uma metáfora.
Mas tu desconheces o que é uma metáfora. Fiz só uma aproximação inocente. És tao pouco que se arredonda para nada sem grande prejuízo.

Monday, March 08, 2010

Enredo

Já viste a desgraça em que se meteu por insistir em algo que o coraçao discordava? Não lhe peças isso. Para ficar contigo, talvez ate por ti. Não lhe peças esse fim arrastado e melancolico, estendido ao sol num dia demasiado frio. Se desejares verdadeiramente que ele insista naquilo que estrangula a essencia dele ou o não conheces. Ou desejas a morte dele como companhia.
Mas não, claro que não. Tu somente sentirás a falta dele descontroladamente. O amor que lhe tens atenua-se quando ves, nem que seja por uma fracçao de tempo. Se perderes até esse pequeno e fragil momento, que te sobra? Nada.
Já viste a desgraça em que persistes em continuar?É tao facil permaneceres com ele, basta que lhe cedas o direito da diferença. Se o deixares ser senhor de si proprio poderás acompanha-lo para qualquer lugar.
Mas tu nem sequer concebes esse conceito de pura liberdade ... Já viste a tristeza em que ambos se afundaram ? Tal qual um navio que perdeu a fé na estrela que o guiava.

Sunday, March 07, 2010

Excerto

O vento é demasiado agressivo e agreste para sugerir um romance fresco de Verão. E eles não tinham essa sorte de qualquer forma.
É dificil vencer um conjunto de realidades duras e inócuas que não respeitam e destroem o teu coraçao.


WinGs, Agosto de 2009

Tuesday, March 02, 2010

Orfeu e Eurídice

Esse falhanço tem o encanto triste de um pássaro desmembrado que espera, pacificamente, essa morte arrastada no tempo tao infinito e tao curto.
O teu sucesso como Eurídice é o declínio dele enquanto Orfeu. Porque é que não vos salvaste quando ele te libertou do seu amor ? Ele libertou-te dessa morte romanticamente destinada a ser crua e concisa. O teu Orfeu abandonou-te para te salvar.
Mas tu só sentiste o abandono na pele. Fizeste o correcto, afastaste-te. Como Eurídice que és, a ausencia do teu Orfeu esmagou-te. Esmagou a tua doce ingenuidade.
Mas esse falhanço tem a melodia carismática da morte, daquela que é suave e até convidativa. E o deus frívolo e paranoico que te escolheu como Eurídice escolheu-te demasiado bem.
Porque quando reencontraste o teu Orfeu não se preencheu no peito a dignidade de quem carrega a dor aguda do abandono . Viste o teu Orfeu, de novo, só importava isso. Nem sequer reparaste que ele o tinha afogado cruelmente, o Orfeu que era. Para mais ninguem morrer nesse triste destino. Mas tu não viste a ausencia dele nele, fizeste-o renascer sem renascer.Ele nunca te abandonou...
E agora vao morrer os dois, juntos. Porque enquanto a Eurídice que vive aconchegada no teu peito quente não desistir de amar Orfeu, ele ama-a incondicionalmente.
O teu Orfeu entregou a sua musica ao Inferno para tu poderes respirar , suavemente, cada momento de felicidade suprema. Porque ele morreu quando te deixou.
Bastava que o não amasses verdadeiramente para te salvares. E salva-lo depois a ele.
O deus que vos escolheu escolheu-vos delicadamente. A forma como cumprem heroicamente um destino tao patético tem o som do riso da propria morte


WinGs

Thursday, February 25, 2010

Mecanica do Coração

Essa continua chacina do coraçao de pano dele tem de parar. Não sentes qualquer espécie de uma qualquer piedade quando olhas directamente para o sofrimento dele? Mesmo que desistas agora dessa tortura sentimental , mesmo que agora o deixes a sos com a tua repetitiva morte já lhe rasgaste o coraçao. Porque era um coraçao de pano, quase não era real. Era so um coraçao de pano...
Pedes clemencia, alias, pedes que olhem para ti. Repetes, alternando entre lagrimas doces e salgadas, que o amaste incondicionalmente. Completamente irracionalmente. No apogeu do teu desespero confessas que lhe ofereceste o teu coraçao, real e resistente, para substituir o de pano, tao fragil, tao hesitante. Quiseste ficar com essa debilidade humana dele, quiseste ajudá-lo. Honestamente. Porque o querias a ele, a acompanhar-te todos os segundos mudos. Pedes clemencia, pedes-lhe que te oiça. Porque ele era o teu tesouro mais precioso, tao raro e tao brilhante que duvidavas que pudesse ser teu.
Mas essa latente tortura do coraçao dele tem de encontrar um fim. Tudo o que ele se lembra é de lhe quereres tirar o coraçao de pano. Não percebeu a tua verdadeira intençao e encarou-te como os outros. Os que o não acreditam, os que o odeiam.
Mesmo que desistas agora dessa claustrofobia sensorial, já é demasiado tarde. A tua salvaçao vinha do coraçao de pano dele e ele já o deitou no lixo, como se deitam as cosias inuteis.
Porque era so um coraçao de pano ...
Inspirado no livro Mecanica do Coraçao

Wednesday, February 24, 2010

Rosa Azul

Ele não tem em ti a fé do universo. Alias, em ti ele não deposita nada, não espera nada. Nem sequer espera algo. Por isso é que esta a um pequeno passo de te amar : és um intenso caminho florido com imensas opções abertas e cheias.

WinGs

Saturday, February 20, 2010

Poder

A tua organização automatizada irrita-o. Tens de o desculpar, chamaram-lhe inumeras vezes animal intelectualmente civilizado (Porém animal).
Mas o animal melodicamente civilizado que é conquistou uma forma de conhecer o mundo que ésensorial. Destingue-se de qualquer multidão pela forma como a descofidica. A compreende. Pela forma como interpreta as pequenas variações que vai sofrendo . Só ele realmente repara nas vozes silenciosas discordantes da unicidade inócua de uma multidão certa e correcta.
Como aquela a que pertences, cegamente. Frívolamente. E ele encanta-te por fazer o que nunca vais conseguir igualar. Ele move a multidao, qualquer uma. Ele orienta-a. A multidao segue-o inatamente. Porque ele é simplesmente um animal que se soube disciplinar e que se basta a si proprio. Tu matarias por esse lugar.
Por isso é que o teu rosto não é visivel na multidão. És cuidadosamente obediente.
Tens de o desculpar. Essa forma de organizaçao de vida aborrece-o.

Monday, February 15, 2010

Regresso Fantasma

Oh por favor não me deixes voltar. Porque é que me deixaste voltar? Ah! O teu consolo é a tua voz fria e suave. Dizes-me que ignorar não é saudavel. Nem sequer é util. Dizes-me o mito de manter fantasmas é um mito triste. Pela sua melancolica opcionalidade.
Dizes-me que serei mais forte e mais resistente se enfrentar aquelas paredes de ferro. Se olhar de frente para aquela prisao tao. Bonita à sua maneira. Dizes-me que tenho de acreditar em mim, que não vou ceder porque já fugi de lá.
Não compreendes que é uma prisao? Uma prisao porque não odeio. Seria tudo mais facil se fosse odio mas não é. Ódio.É amor, a outra coisa. É uma questao de razao de existir. Por isso é que é uma prisão, não me deixa sentir . O amor que me escorre nas veias, que se envidencia até na textura da minha sombra. Esse mesmo amor não existe lá. Não é permitido ( nem sequer é normal lá)
A tua voz fria e suave. Consciente e lúcida do que vou perder. Do que posso conquistar. Dizes-me que tenho de voltar lá, tenho de me despedir. Da prisao. Para que me guardem um verdadeiro e honesto respeito, para não perder a credibilidade.
Dizes-me que ignorar nem sequer é uma acto perspicaz . Tenho de lá voltar e sentir a dignidade no meu espirito. Sair de lá como alguem que inovou uma pequena realidade e não como mais um cobarde que se deixou arrastar por qualquer coisa que aliviasse a dor de simpelesmente
. Existir.

Wednesday, February 03, 2010

Fim

Deixa-o respirar. Foi a escolha dele, deixar-te para trás. E tu escolheste deixa-lo fazer, nao o conseguiste impedir de optar pelo sonho que o movia. Que não foi opção nenhuma porque ele era a visão que tinha do mundo. E se tu não fazias parte dessa realidade excêntrica e inovadora não podia ficar contigo. Nunca pôde. Liberta-te da ilusão.
Deixa-o chorar. Deixa-o lamentar a tua morte enquanto o tentas abraçar. Ele nem sequer sabe se foi a melhor escolha. Ou se existe isso, esse conceito estridente de melhor. Ele acredita que não, apenas não conseguiu escapar ao seu próprio destino. E tu morreste , a dor é aguda. A tua morte. Inevitável. Enquanto ele cumpria o seu pomposo destino. De herói discreto.
Deixa-o respirar.Deixa-o dissecar a escolha que nunca existiu. Insistes em abraçá-lo. Vais acabar por desistir perante a apatia firme dele.
Não acredita em fantasmas. Por isso é que ignora o teu choro, o teu abraço. A tua dor.

Sunday, January 31, 2010

Reminiscência

Vá diz-lhe. A razao pela qual o torturas, assim. Amavelmente. Porque ele passou na tua rua e não te viu na janela e lembrou-se quando o esperavas. Pateticamente fiel á espera de uma fracção de felicidade. Ele passou na tua rua e tu não estavas la. Eras mesmo irresponsavelmente leal ao ponto de esperares por ele , todos os segundos de todos os dias?
Responde-lhe. Ele não te pergunta em palavras , nem que seja uma vez comunica na língua dele. Não esperes ouvir a pergunta . Porque ele passou na tua rua e lembrou-se de quanto lhe doeu esse abismo que não soubeste vencer. O abismo era ele, o mesmo ele que esperavas todos os dias. Incansavelmente. Só para o veres por um instante, amar-lhe o rasto da sombra. Como é que amas algo que não sabes o que é, que não compreendes o que é?
Vá, chora-o. Ele morreu. E nem sequer te deste conta, como é que podias esperar por ele todos os dias?
Mas esperaste. Como ninguém te disse que ele morreu, desististe de espera-lo. O mundo obrigou-te.
Mas responde-lhe. Não o tortures amavelmente. Se desejares aniquilá-lo ele sabe reagir.
Diz-lhe que nem quando o deste como perdido desististe dele, mantiveste-te fiel a ti, leal a ele. Fala-lhe da tua integridade.
Porque ele passou na tua rua, por baixo da tua janela. Sente a tua falta, às vezes gostava de não ter morrido. Ou de ter acreditado em ti. Mas nunca soubeste quem ele era, como podia ter fechado os olhos a isso?
Vá diz-lhe. Honestamente. Quere-lo de volta ou ganhaste consciência da estupidez patética que cometias todos os dias quando o esperavas nervosamente?Porque o amor é isso. Só isso.

Tuesday, January 26, 2010

Persistência

Os anos começam a pesar-me nos ombros. Mas talvez esteja a envelhecer de uma forma jovem. Talvez não me tenha esquecido daquilo que gosto, daquilo que sou. Inevitavelmente, “sou o que perdi”. Continuo a ter uma atitude quase infantil. Perdi a criança dentro de mim e isso resume tudo o que sou.
A idade reflecte-se no espelho como uma necessidade urgente de escolha. E já me decidi, sim. Sei perfeitamente quem não vou ser. As mentiras que não vou gastar tempo a imaginar. A ilusão que não me proponho a erguer.
Lamento pela minha dura resistência. Conservo a minha jovialidade cuidadosamente, tenho dificuldade em aceitar um fim. Lamento pela minha insistência naquilo que gostava de ser e não do que o mundo gostava de me tornar. E lamento que o meu lamento seja uma ironia crua e arrojada que a realidade circundante nunca vai descodificar.
Os anos começam a pesar-me os ombros. Deixo-os encostarem-se melancolicamente na cadeira. Estou vivo. Envelheço porque estou vivo. E não existe nada melhor do que todas as oportunidades recatadamente escondidas nessa aparente banal palavra.Viver.

Wednesday, January 20, 2010

Crueldade

Ele não podia faze-lo. Não chores, não que não te amasse. Que não se importasse contigo. Simplesmente, não podia faze-lo. Por favor, pára com esse sofrimento que evoca a mais funda compaixão. Para de chorar, o mundo às vezes é apenas um sitio cru e frio .
Ele não podia faze-lo.Ah! Na altura teria vendido a alma ao diabo para ficar contigo e com essa tua realidade. Bonita e efémera. Suave e medianamente profunda. Teria dado a alma ao diabo, sem nada em troca, só para ser feliz contigo. Mas até o diabo se riu desse sonho momentâneo dele. Porque ele não podia faze-lo, a alma dele está protegida pelo amor supremo que dedicou a algo maior , muito maior que ele. Maior que qualquer Deus.
Por isso, não chores. Ele não podia, não era opção. Foi a maior ilusão que já viste, que já sentiste, que já ouviste. Ele. A sua beleza exótica e ferida. Porque sabes que ele sofria, só querias acarinhar-lhe as cicatrizes, coser-lhe as feridas. E ele sabia disso. Mas ele não podia faze-lo, curar-se. Queriam-no assim para a guerra , marcado. Para ter pelo que lutar por: o direito de existir sem correntes invisíveis e tortuosas.
Ele não podia faze-lo. Deus sabe que teria dado tudo por poder ficar, por manter esse sonho que tinham os dois. Mas agora é já demasiado tarde, conquistou a sua liberdade na guerra, trouxe mais marcas, mais cicatrizes, mais pesadelos vazios. E nada do que possas fazer o cura. A tua simples existência piora-o.
Por favor, não chores. Ele amou-te, simplesmente não podia faze-lo. Ele já não é ele.
O mundo ás vezes é apenas um sitio cru e frio.

Saturday, January 16, 2010

A Rua

A solução morava naquela rua gasta e velha. Não foi surpresa nenhuma para ele, sempre sonhou fugir lá, encontrar-se lá. Morrer lá. Naquela rua gasta e velha.
E todos os dias no comboio ouvia o inconsciente insatisfeito com a estabilidade moderada conquistada, com a vida azul que o consciente responsável realista omitia. E olhava da janela e via aquela rua, gasta e velha. Escondia algo especial. Sabia-o. Senti-a o. Mas não via nada de extraordinário, não ouvia nada de extraordinário e seguia com a sua vida convencionalmente normal.
Um dia perdeu-se perto daquela rua. Começou a sentir uma tranquilidade boa e esquisita, um frenesim que o levava ao êxtase calmamente. Não havia nada de errado naquela sensação exótica, no som que ouvia. Mas encontrou-se e a melodia morreu.
Nunca mais foi o mesmo. Decidiu-se por experimentar a voz do inconsciente (porque não?). Vagueou horas fantasmas ate que encontrou aquela rua. Gasta e velha.A solução morava naquela rua e ele tinha sido o escolhido. Desistiu de resistir ao chamamento.
Naquela rua gasta e velha morava a única hipótese de futuro que o mundo tinha. Quem a não viu ou rejeitou morrerá triste e jovem. Porque a solução mora la, escondida na aparência gasta e velha de um prédio flexível que resistiu ao seu próprio passado.

Tuesday, January 12, 2010

Memória

Houve um dia em que ele regressou para ti porque foi o que aprendeu a fazer. Para se sentir feliz e cheio. Ver-te, simples na tua divina beleza. Mas ele, nesse dia, não te procurou, queria apenas a memória fresca , doce e aromática que tinha tua. No dia em que ele regressou porque se automatizou morreste.
Foi nesse dia que desistiu de ti, desistiu dele próprio. Foi o fim, o principio de um longo e doloroso fim. Arrastado no tempo de uma forma cruel e fria. E todas as vezes que ele regressou depois desse dia serviram para negar que o tinham corrompido, que o tinham vencido porque lhe esgotaram e esvaziaram a mente. Ele amava-te irracionalmente e foi uma injustiça demasiado crua e frívola o que lhe fizeram.
Mas naquele dia tu morreste e ele não sabe ressuscitar mortos. Iniciou-se o fim, passaste a ser uma das melhores memorias vivas dele. E ele amava-te tanto! Fizeram-no esquecer-se disso, rasgaram-lhe e quebraram-lhe a mente. E, quando finalmente regressou verdadeiramente para ti, já era demasiado tarde. Já tinhas morrido, já não passavas de uma leve e desfocada memoria.
Porque houve um dia em que ele começou a morrer de mansinho e ninguém viu. E tu estavas demasiado longe dele para o guardares e acarinhares.

Thursday, January 07, 2010

Inevitavel

Ele promete que se vai esforçar por endireitar as coisas. Não consegue evitar sentir a tua falta. Agora que lhe devolveram o coração, apercebe-se que os olhos se tornam mais meigos com a tua memoria; que o sorriso é aberto e doce. Agora que tem de novo o coração vivo no peito chorou a tua morte, sempre foste a sua Eurídice.
Ele não conseguiu evitar desculpar-te . Houve um dia em que se apercebeu que o amavas verdadeiramente, incondicionalmente. Houve um dia que ele compreendeu que o teu erro advinha disso, da tua profunda irracionalidade. E desculpou-se, ele era-te igualmente irracional.
Ele promete que vai tentar compor-te. Que se vai tentar compor a si próprio. Porque, quando lhe devolveram a consciência da emoção, ele não conseguiu evitar sentir a falta de si próprio. Da leveza com que vivia a sua existência, da facilidade com que alcançava o êxtase.
Ele promete que se vai esforçar por melhorar tudo. Se for demasiado tarde, é-lhe ironicamente indiferente. Ele amou-te, algures. E é certo que se desculpou, mas o Orfeu dele morreu com a tua Eurídice. É apenas a vibração estonteante de vencer o destino, é apenas a herança do êxtase que lhe deixaste.
Por favor, não chores. A vida é simplesmente isto. A oportunidade vivida uma e uma única vez. E, lá no fundo, ele está condenado a reviver a tua memoria indefinidamente, terás até ao fim um pedaço do coração dele .

Sunday, January 03, 2010

Fantasma da Opera

Ela teve medo, os ossos tremeram com o poder da tua voz. Porque ela não podia amar um monstro. Deslumbrar-se com um monstro. Deixar-se encantar pelo que fizeste contigo. Por isso trocou-te, ele era comum. Tão comum que não assusta. Tu, um monstro de tonalidade baixa grave, serias um verdadeiro perigo.
Mas não duvides que ela te amava. Pela junção da fantasia com o mistério, pela forma como ela se relaxava ao som da tua voz. Grave , bela. Pela forma como a tua arbitraria e metafórica fealdade a encantava. Simplesmente era fraca , débil, superficial. Comum, como ele. A representação patética do patético salvador. Um herói vazio e bondoso e carinhoso. A estabilidade oca em pessoa.
Ela teve medo, escolheste mal. Legitimo. A profundidade que carregas no coração trouxe-te o deslumbramento inconsciente pela beleza. Tornaste o superficial profundo por seres fundo e honesto contigo. Mas erraste, nela. Ela é comum. Teve medo de te amar. Quem é que escolhe o monstro, a desfiguração, a escuridão? Quem seria ela depois de te escolher?
Então ficou com ele. Alguém tão inútil que nem merece nome, que quase não tem rosto.
A tua intensidade e a tua filosofia, soletradas com a tua voz divinal, assustaram-na. Nunca ela alguma vez conseguir-se-ia igualar à tua beleza. Porque nunca foste monstro nenhum, ela sempre o soube. O monstro é ela.

Thursday, December 17, 2009

Amanhecer

Amanhece demasiado cedo. A única vantagem é a consciencia bruta de que somos ainda muito novos. Para morrer. O dia amanheceu, nasceu agora, existe mais do que tempo para se existir tranquilamente; para reagir bem e de forma eficaz ao recente universo agreste.
Amanhece demasiado cedo. E é so nessa hesitação trémula linear, nesse instante tenso em que já é manhã mas o céu aínda é negro que sinto a tua falta. Talvez por termos existo nesse momento em que o tempo é indefinido. Ou talvez porque é uma fracção temporal sem destino, sem expectativas. É apenas transitório. No segundo a seguir é dia e no anterior foi noite profunda. O segundo intermedio que nunca existiu não possui qualquer ligaçao ao real.
Mas amanhece demasiado cedo. E apesar de sermos demasiado novos para morrer. Envelhecemos tanto que já não somos os mesmos.

Monday, December 07, 2009

Reflexão

Como é que falhámos tanto? Como é que nos tornámos nestes dois desconhecidos que se reconhecem em silêncios mudos , marcas de batalhas patéticas vencidas?
E como é que ainda não te apercebeste que sempre fui essa fraude? Sempre fiz a viagem ao sítio que não tinha qualquer interesse em conhecer, sempre tive um sucesso relativo naquilo que nutro um profundo e legítimo desprezo. Compreende, comigo tornas-te naquilo que gostavas de não ser: o eterno deslocado poético, duro estratego e afável.
Mas a minha componente de falha não é surpreendente, a falha sou eu. A minha existencia e a forma como vivo é um erro, a minha filosofia é um erro. Mas tu? Sempre foste a flor mais bela de um jardim pequeno que quando morre as pessoas só choram por uma fracção de segundos. A tua unicidade e especialidade sempre foram relativas.À primeira e superficial vista, todas as outras flores têm o teu perfume .
Como é que falhaste tanto? E propões-te a continuar a errar dessa forma poeticamente afável. Talvez até suavemente inócua.
Como é que falhámos tanto? O mundo. O eterno caos. E o nosso inocente pecado.