Wednesday, December 12, 2007

Pegadas

Nós somos pegadas deixadas na areia, que esperam, numa condenação silenciosa, um dia serem apagadas. O tempo escorrega pelas nossas vidas, por isso é que a praia é eterna. Dura sempre. Ela assiste à nossa passagem, mas tombamos antes da chegada do seu Inverno rigoroso.
E não, não somos os grãos de areia. Nem isso. Ou, então, bem mais do que isso. Somos o que deles advém. Sejamos, então, o castelo de areia torto e reluzente que a criança que já fomos construiu. Sejamos esse castelo, porque a criança já se misturou com o mar quando elaborou demasiado o seu boneco de areia.
E eis que a onda apaga as pegadas e arruina os castelos. Nada fica. Nada somos. A não ser a marca da marca. A prova de que o passado existiu.
Somos o silêncio doloroso das grutas calcárias durante uma noite de Verão. Ou de Inverno. Tanto faz porque o Sol é o mesmo. E também não são relevantes as pegadas porque a mente destingue a areia das diferentes praias do mundo. E todas as areias já foram parte de uma pegada.
O que realmente importa é a procura dos corais que ainda cantam , numa melodia tão concreta e profunda como o silêncio, o amor que sentem pelo mar. Todos somos pegadas, mas poucos de nós estão em paz.
WinGs

Wednesday, November 28, 2007

A Morte do Anjo

Há entre nós, um paradoxo temporal. Caíste no abismo quando eu nasci. É difícil conceber a morte de um anjo humano.
Porquê? Esta pergunta completamente inútil e ligeiramente romântica mantém-se iluminada no meu pensamento.
O teu jeito angelical e triste dava-te uma beleza mais extraordinária, mais bela ainda. Demasiado efémera.
Odiaste-te e por isso, anjo triste, caíste como tudo cai. Não sabias quem eras , não te reconhecias no espelho. A tua vida eram lagos de água suja que distorciam a tua imagem ; que te enganavam: diminuiam-te. Nenhum te disse que os teus olhos eram azuis profundos. Mentiram-te porque não gostavas de ti. É fácil mentir sobre a cor do céu a um cego.
E eras, a par disso, um solitário. Estavas só. Eras completamente corroído pela tristeza do vazio. Foste completamente aniquilado pela vida , pelos outros, pelo mundo... sobretudo, por ti. Arruinaste-te .
Ha! A tua fragilidade comove-me. Porquê? A pergunta volta a incomodar-me. Incomoda-me sempre. Queria, é verdade, ter-te dado a mão para tu agarrares a minha com força. Para eu não me perder no quarto dos espelhos mentirosos. Mas estavas tão longe, sempre... a tua mão caiu, morta, pálida e nunca chegou a conhecer a minha, ou outra qualquer que reflectisse bem a beleza da tua essência.
O anjo morreu.

Tuesday, November 27, 2007

Acordar

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei de fazer das minhas sensações.
Não sei o que hei de ser comigo sozinho.
Quero que ela me diga qualquer cousa para eu acordar de novo


Alberto Caeiro

Saturday, November 17, 2007

A Moeda

A moeda foi atirada ao ar. Desta vez, a face que ficou voltada para cima foi a mais sombria, a mais temida. A que caminha sempre a nosso lado, erguendo , por vezes, os braços no gesto de nos amparar quando escorregamos
Um grande erro é acreditar-se que a moeda está estavelmente voltada para cima e que, no instante último e biológico, ela roda trezentos e sessenta graus. A qualquer altura pode mexer-se, é semi-autónoma.
E, desta vez, foi o que aconteceu: na moeda apareceu Hades, ou então, o mais temível, não apareceu nada. O lugar vazio para onde nem o nada se dirige. O desconhecido mais radical, mais solitário. Confuso. O golpe mais duro na existência humana, na conquista humana. Nunca se é nada durante a vida e nunca, se é alguma coisa de concreto, quando a Natureza termina o nosso trabalho no mundo.
Sim, desta vez a face era assustadora. Tão terrível na sua grandeza, no seu poder , tão redutora do Homem emocional que é através dela que surgem todos os nossos maiores medos. E é, no entanto, a única certeza absoluta neste Universo Colectivo que se divide em vários eus; das únicas verdades Universais comuns à vida, seja ela qual for.
O Homem , verdadeiramente, não gosta de verdades irrefutáveis. E moedas são sempre, só, moedas. Fora isso, o Grande Juiz - imaginário ou não- já foi enfrentado...

Friday, November 09, 2007

"Põe a tua mão
Sobre o meu cabelo...
Tudo é ilusão.
Sonhar é sabê-lo."

Fernando Pessoa

Sunday, November 04, 2007

Hoje não farei mais queixas

Hoje, não farei mais queixas
Nem condicionarei os meus eus à tristeza.
Não.

Regarei ,
Cuidadosamente,
O meu jardim de rosas azuis
Que de vez em quando,
Ignoro.
Sentar- me- ei na relva
E acariciarei o botão de rosa azul
Que estiver a nascer.
Abençoá-la-ei
Como se fosse a ultima rosa do jardim.

O resto , já não interessa.
Já não é decisivo.
Ainda tenho o meu jardim.
Isso é tudo. Isso sou eu.


WinGs

Saturday, October 13, 2007

Pessoas grandes

" As pessoas grandes nunca percebem anda sozinhas e uma criança acaba por se cansar de ter que estar sempre a explicar-lhes tudo"

O Principezinho, Saint- Exupéry

Wednesday, October 10, 2007

Consciência

Orgulhas-te de ti. Sim, tens orgulho. Dizes chamar-te Aquiles, dizes sê-lo. E tens toda a razão. Não consegues reparar que o teu calcanhar está desprotegido e que vais sucumbir, que vais cair dolorosamente. Ha! se ao menos protegesses o calcanhar! Mas nem te esforças, o teu amor próprio excessivo não te deixa ser sensato. Riste-te, troças dos outros... Se ao menos soubesses que cairás por um mísero calcanhar... !Rio-me eu, sem sorrir, a tua queda é o teu castigo. E o teu castigo é o teu ensinamento. Tudo por um calcanhar... Terá valido a pena?
Perdi a vontade de rir. Pergunto-me se protegi bem o meu calcanhar.
Serei o teu espelho?
Não. Eu tenho consciência da minha fragilidade.

WinGs

Wednesday, October 03, 2007

Não canto

Não canto a noite porque no meu canto
O sol que canto acabara em noite.
Não ignoro o que esqueço.
Canto por esquecê-lo.

Pudesse eu suspender, inda que em sonho,
O Apolíneo curso, e conhecer-me,
Inda que louco, gêmeo
De uma hora imperecível!

Ricardo Reis

Wednesday, September 26, 2007

Não fazer nada

Não me apetece escrever. Na verdade, não me apetece fazer nada, nem não fazer nada. Por isso escrevo porque nada ,objectivamente, não posso fazer. E tanto que gostava não fazer absolutamente nada! Sonho o impossível... e concentro as minhas forças em realizar algo que me seja útil: escrevo. E numa preguiça boa e positiva, não me sai a raiva nem a ira que às vezes sinto em relação à maneira como as pessoas governam a minha vida.
Sim, governam a minha vida. Não que interesse – nunca interessou. Mas a sociedade decide muitas- demasiadas - vezes por mim. E não posso dizer que gosto ou que aprecio. Mas qual é a outra opção? Fujo o mais que posso e sou a ovelha que desertou do rebanho, o numero de vezes que me permito. Porque há limites para tudo, menos para a ignorância consentida.
Em dias destes em que o raio de sol entra realmente na minha alma, a única coisa que realmente quero é não fazer absolutamente nada.
O resto das ovelhas que se entenda com o pastor porque eu já tenho outro deus.

Wednesday, September 05, 2007

Reminiscência

Prossegue o pesadelo.
Feliz o tempo, que não tem memória!
É só dos homens esta outra vida
Da recordação.
E tão inúteis certas agonias
Que o passado distila no presente!
Tão inúteis os dias
Que o espírito refaz e o corpo já não sente!

Continua a lembrança dolorosa
Nas cicatrizes.
Troncos cortados que não brotam mais
E permanecem verdes, vegetais,
No silêncio profundo das raízes

Miguel Torga, Penas do Purgatório

Wednesday, August 08, 2007

Momento Harry Potter

"But though Death searched for the third brother for many years, he was never able to find him. It was only when he had attained a great age that the youngest brother finally took of the Cloak of Invisibility and gave it to his son. And then he greeted Death as an old friend , and went with him gladly, and, equals, they departed this life"

Harry Potter and the Deathly Hallows

Tuesday, July 31, 2007

Silêncio

Trabalho a música. Cada música, corresponde a um texto, cada nota a uma palavra. A música errada conduz ao bloqueamento das ideias. Tenho de ouvir o som certo, no momento certo.
Ás vezes, o som é o silêncio. Curiosamente, é o mais difícil de ouvir. Quase ninguém está em paz.
WinGs, Jullho

Saturday, July 28, 2007

Pessoa

Eu tenho idéias e razões,
Conheço a cor dos argumentos

E nunca chego aos corações

Fernando Pessoa, 1932

Tuesday, July 10, 2007

Digo-te para reparares no arco-iris de tons mais azuis; o arco-iris que é a vida, que é a tua única existência. Mas não queres saber, só te preocupas com o mito do pote de ouro. Que gasto de tempo inutil!Porque escolheste ser tão pouco? Podias ter o mundo na tua mão. Sim! Podias ser dono de ti mesmo, ser livre. O pote de ouro é a prisão. Optaste por te vender. Dizes-me que és feliz assim. Como, se a ambição brilha de modo febril nos teus olhos e se a simplicidade está ausente nos teus gestos?
Escolheste o pote de ouro. Agora nunca encontrarás o arco-íris azul. E sem arco-íris não há pote de ouro. Inverteste tudo, baralhaste tudo!
Perdeste tudo.
WinGs.
Julho, 2007

Wednesday, July 04, 2007

Desistência

Gostava que , pelo menos uma vez, não me tentassem estrangular os sonhos. Ou a mim.
Mas é inútil. Tentam-no. Vezes e vezes sem conta. E, se dantes, me perguntava “Porquê eu?” agora, a pergunta restante, é a até quando resiste a minha força. O Universo fecha-se claustrofobicamente.
Estou enfraquecida. As coisas, o mundo, começam-me a ser indiferentes.Torna-se tudo igual; tudo irritantemente parecido. Só se mantém diferente o azul que resume e abarca toda a minha vida. Toda a minha existência. O azul é o que me resta.
Enfim, talvez gostasse de ter sido outra pessoa. Talvez quisesse ter tido outra vida. Agora é irrelevante. Sempre foi. O “se” o pensamento dos cobardes. E uma perda de tempo.
Podia esconder-me por detrás do destino e dizer que fui condenada. Mas não, não acredito. A vida é um deserto aberto sem ventos decisivos. Eu escolhi o vento que me parecia mais bonito.
Condenei-me.

Saturday, June 16, 2007

Mundos Paralelos

"Subitamente encontrou-a . Avançou e recuou um pouco, observando o rebordo. Tal como tinha descoberto na noite anterior, em Oxford, a janela só era visivel de um lado ; quando se dava a volta para o lado de tras, ficava invisível. E o Sol a bater na relva do outro lado da janela era exactamente como o Sol a bater na relva daquele lado, embora inexplicavelmente diferente."
in Torre dos Anjos, Philip Pullman

Friday, June 15, 2007

Cansaço Emocional

Cansaço. É tudo o que sinto. Os musculos quase nao respondem , o cerebro quase nao pensa.
E farto-me desta vida, deste mundo tão efémero, tão fragil . Os exageros e superficialidades da maioria das pessoas exasperam-me. Agridem-me ligeiramente.
So quero que isto acabe, que chegue ao fim. Desejo, ansiosamente, o consolo azul do mar.
Que saudades do tempo em que os jardins estavam cheios de rosas floridas e brilhantes. Abro essa mesma porta e so observo espinhos. A janela que dava para o mar está trancada. Só me resta um leve cheiro à brisa marinha.
Cansaço. Só me resta o cheiro do mar. É tudo o que sinto.

Thursday, June 14, 2007

Metáforas

"Não tenho mais metáforas
para ti
Já experimentei o silêncio;
a trizteza dos meus olhos.

Onde estás?Onde vives?
Pensava que estavas aqui.
Dantes tinhas medo que eu
fosse embora
Hoje és tu quem está longe.

Não tenho mais metáforas
Vou ter de usar as palaras
exactas.
Dantes existias para me
poupar a isso"

Poema de Lúcia Barão

Tuesday, June 12, 2007

Matemática e poesia

"Andamos em voltas rectas
Na mesma esfera,
Onde ao menos nos vemos
Porque o fumo passou."

Excerto de Laços, Toranja

( homenagem a Alice)