Tuesday, June 03, 2008

Adeus

O fim é sempre estranho. Nem sempre é doloroso e nem sempre é clasutrofóbico, mas é sempre uma brisa quente e livre de uma noite de Verão de lua cheia. É um mistério, um paradoxo.
O fim é sempre um começo. De algo. Mesmo a morte é um começo , enterram-se lágrimas inúteis e resgatam-se para a vida novos hábitos impossíveis de serem renegados. A morte é um começo para os vivos que ficam e vêem um barco – mais um – afundar-se no mar , tendo consciência que nunca mais voltará a tocar a terra que guardou o seu sangue. O fim é sempre o começo de algo, nem que seja do nada. Ainda não é Verão e a noite é escura como uma gruta grande, fria e estranhamente bela. É a mistura do caminho que ficou para trás e o caminho que ainda pode ser escolhido. É a escolha entre a memória e o coração futurista. O fim é indomável, mesmo quando parcialmente previsto, deixa um olhar de espanto e estranheza no céu azul aberto enclausurado por nuvens cinzentas de chuva.
É verdade, este é o fim. Do ciclo, da era, desta responsabilidade. É o fim, o mais esperado, o mais desejado. Este é o fim, que salvou mentes desesperadas da desistência, que deu alento e conforto aos que nunca descansam. Este é o fim, e no entanto, há quase a vontade de começar de novo só por uma questão de medo. O desconhecido é sempre tenebroso e só sabe enfrentar dignamente o medo e a hesitação os que sabem que nada são.
O fim é sempre algo misterioso, sim, mas não começava nada de novo. Há que enfrentar o medo e percebe-lo. Alem disso, nem sequer me dói este fim. Sonhei com ele demasiadas vezes, salvou-me da escuridão várias luas sangrentas. Tudo o resto é uma preguiça emocional de dizer que acabou. A despedida implica gasto de energia ( inútil, sim, talvez inútil, porque está implícita no ângulo do sorriso que se afasta para a penumbra). Sentimentalismo são sempre inúteis. As minhas palavras não tem magia, por isso cito o poeta que faz do poema uma flauta mágica: “O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.”

Monday, June 02, 2008

Guerras

Se explorares moralmente o ódio e a raiva bélica, pelo menos, levantas-te da cama e enfrentas o mundo sem vergonha de seres tu. Se controlares o ódio e não deixares que o sentimento de vingança crua te domine, a tua existência torna-se bélica e os Outros farão tudo para te tentarem derrubar desonestamente (e serão sempre vencidos pela transmissão da verdade pacifica e calma).
O amor é o melhor de todos os sentimentos, é o que torna o Homem Deus e o que faz de Deus um simples pedaço do coração, o pedaço que traz milagres ao mundo e que amansa o mar. Mas é o sentimento simples e naive, o sentimento da fragilidade porque é a carência humana proveniente do esforço da evolução. Encontras a razão do teu sorriso no amor, no teu bom carácter e na tua mão amiga tão quente no amparo. Porém , é a resistência e a vontade intrínseca de vencer que te mantêm acordado, que te da alento. O amor é o suporte, mas em parte, a raiva fria e ensanguentada, orienta-o. Se não te magoarem, não magoas ninguém, se não te vencerem, não vences ninguém. Se não te tivessem tentado enforcar, não amarias intensamente a Lua e não eras tão forte psicologicamente. A tua mente é crente em ti. É o mestre que te criou e que te educou, disciplinou-te para o mundo. É o pedaço de ti que uniu a injustiça que sentes ao ódio que tens em ti .
Exploras humanamente o ódio. Apontas a faca bem afiada e ameaças abrir sem hesitação a carótida de um dos Outros , mas nunca em momento algum cortas. De tudo que te enaltece e que te torna grande, nada humilha e revolta mais os Outros do que o teu bom carácter . Nada te domina e nada te controla, nem os teus próprios sentimentos. Nada os aborrece tanto como o teu gozo contínuo com o complexo de inferioridade deles. E, confesso, nada me diverte tanto como o teu riso silencioso que vejo nos teus olhos enquanto brincas com a faca.
WinGs

Thursday, May 29, 2008

Saudades de Pessoa e de Portugal

Mar Pottuguês

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos , quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram,
Quantas filhas ficaram por casar,
Para que fosses nosso, ó mar !

Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar alem do Bojador,
Tem de passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa in Mensagem

Saturday, May 24, 2008

Dor

A janela esta exactamente no sitio onde a deixei. Fechada, talvez um dia tenha coragem para abrir e encarar o mundo. Não consigo, sabes, é me quase impossível abri-la e voar. Nunca fui Ícaro, nunca desejei tornar-me nele.
Foco-me nas asas, sou engenheiro de alma. Apenas quero refortalece-las, modifica-las ate o Ícaro vencer o Sol . O meu sonho é a vitoria do voo dele, porque em momento algum ele conquista o sonho sem mim. E nunca eu me liberto do meu herói, do Messias.
Não, por favor, não me pormenorizes a morte dele, não relates o seu corpo desfeito em pedaços. Dói-me como se tivesse sido o meu, dói-me porque foi o meu..E não me obrigues a ocupar o lugar do Ícaro , o meu sonho é de material diferente, é de tempo diferente.
A janela esta aqui, ao meu lado, como sempre, como a morte. Não a abras, tem pena de mim, deixa-me cumprir o luto e fingir que as lágrimas escorrem. Somando as quedas, retiram-se lágrimas à alma. Tem compaixão e deixa-me enterrar o Ícaro, outro Ícaro, outro...
Os sonhos morrem. Consecutivamente. A janela está trancada e começa a ficar invisível. Um dia vou passar por ela e simplesmente não a ver. Um dia fecho os sentidos ao mundo e espero que alguém os desperte..
Um dia o Ícaro vai deixar de morrer, ou porque deixa de existir ou porque vence o Sol.

WinGs (L.C.)

Tuesday, May 20, 2008

Orfeu Renascido

Julgo que costumava ser uma espécie de Orfeu. Não um Orfeu completo, não um dos verdadeiros. E também não era uma imitação barata, seja como for, era um reflexo de Orfeu, o primeiro.
Perdi-o em mim, algures no meio do meu medo de infertilidade emocional ou mental. Perdi-o e talvez no mundo, como se perde uma sombra, como se perde uma alma. Talvez nunca mais o encontre. Talvez nunca mais tenha habilidade para o visualizar.
Porém, quando a escuridão incide com um certo ângulo no espelho que não é plano, vejo um reflexo nítido de uma silhueta desfocada. Encontro-o em mim porque ele existe sempre que os meus nervos humanos o chamarem.
Julgo que costumava ser uma espécie de Orfeu, talvez seja, hoje um novo Orfeu já velho e renovado. Tão renascido das cinzas que nunca conheceu Eurídice e já não chora por ela, já não enfrenta o inferno e o deus terrível por ela. O amor já não lhe faz falta. Mas ainda é Orfeu porque, quando o vejo no espelho, ele ainda tem a sua lira e nos seus sonhos profundos vê Euridice.
Perdi o Orfeu que tinha em mim mas talvez seja só falta de esperança.

Wings C.


Monday, May 19, 2008

Amor

Passou distraidamente a mão pelo caderno, folheou-o. Estava tão distraído, tão longe dali, daquele momento, daquelas pessoas. Da secretaria e do Universo. Esta no lado do Arco Íris sem pote de Ouro mas, mesmo assim, estava longe e num sitio confortável.
Penteou o cabelo escuro e olhou-se ao espelho. Cerrou o maxilar e o rosto era duro, de traços fundos, quase como linhas. Mas os olhos, os olhos... Ele notou que tinham um brilho especial, que estava distante, no lugar do arco-íris de uma só cor.
Amava. Intensamente. Qualquer coisa menos uma pessoa. Tudo excepto algo que remetesse para um sentimento socialmente real. Amava intensamente a vida e a musica, o mar e a sua violência. Amava o mundo e amava a sua solidão. E a sua cicatriz social.

Passou distraidamente a mão pelo caderno, folheou-o. Estava perdida, enclausurada nos seus pensamentos pelos outros, os que a temem e a odeiam. Mas que todos os prisioneiros fossem como ela, trancados numa espécie de paraíso falso ( felicidade não e ignorância e um ignorante não tem alcance mental para perceber que infelicidade e a felicidade são a mesma coisa. Alternam simplesmente de fases e se não coexistirem não existem)
Fechou o livro e olhou-se ao espelho. O rosto era cansado, marcado pela persistência de ser ela própria todos os dias. E viu a cicatriz nascer, a flor de lis. Observa - se e observava o crescimento da cicatriz todos os dias, talvez para contabilizar os dias e ver o crescimento da sua condenação. Ao menos, não era inocente. Ela era um crime no mundo e se não morreu ate agora foi porque teve a agilidade de uma pantera ,negra como a noite, e a força de um castelo de ferro. Se ainda guarda e defende no peito o ideal é porque acredita. E ama a vida e a sua própria existência.

Pararam os dois em frente do passeio. Ele reparou que ela ouvia a musica dele, a musica que era dele, que ele guardava numa gaveta especial no coração. Trancada à chave.
Ela viu que ele tinha o mesmo ar dela, que tinha o mesmo passo leve e o mesmo olhar em contraste com o mundo – os olhos eram divinos, procuravam a perfeição azul, o rosto, cicatrizado.
Falaram-se, como se conhecessem. Nenhum deles tinha, em momento algum mais brilhante, falado tanto e tão descontraidamente sobre si. E nenhum deles se esqueceu da perturbação que causaram um ao outro.
Os dois partilharam a solidão. Foram , calmamente, um com o outro beber café, não foram juntos. As solidões deram, um dia mais tarde, a mão.

WinGs C.

Friday, May 09, 2008

Recurso a Eugenio de Andrade

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

Eugénio de Andrade

Thursday, May 08, 2008

Troca

Não posso. Ele repete, sabes que não posso. Mesmo que quisesse, que o desejasse muito, com toda a força de uma árvore enorme, não posso. Ele fala, mas o receptor finge-se surdo, a resposta não é a mais conveniente. O outro lamenta e com pouca voz repete, estende o braço à procura de um abraço. Não posso, desculpa, não posso. Mas o mundo é um lugar cruel e cada um vive como pode, a resposta era a outra, o abraço acontece num mundo paralelo. O receptor não tem tempo para desculpas.
Não posso trocar de coração contigo, não vale de nada, é igual. Ouve-me, é igual, o meu e o teu, é igual. Mas o outro vira as costas. Permanece quieto, mas o desprezo é tão evidente como a lua cheia num céu preto, vê - se claramente. Sim, é verdade, sou mais forte que tu, travei mais batalhas que tu, mas o coração é igual ao teu. De cada vez que assassinei a palavra honesta ele sofreu; de cada vez que enganei para que não me vissem a flor-de-lis no ombro, ele apertou – se - me no peito; de cada vez que vi o mar ele tornou-me o corpo mais leve. Não é por ser meu, é porque é frágil, mais que o teu, quando morrer morre de vez, o teu resiste mais. Mas para o outro eram desculpas, um herói nunca deixa de ser herói e os heróis são pessoas deveras irritantes, com tanta lealdade e honestidade. O mundo não é assim e nunca será, o que no fim ficou melhor classificado foi o mais esperto, o mais capaz de ferir conscientemente sem remorsos. Ele, o receptor, precisa do coração de um herói para aguentar a dureza da vida.
Eu troquei de coração um dia, e perdi parte dele assim. O outro insiste em continuar, ou porque é um crente no Homem ou porque deseja realmente ajudar um amigo (não pediu ao monstro para vir para a luz ainda). Perdi-o assim e a minha alma foi corroída, foi devorada. Foi uma dor existencial geologicamente grande, traí-me a mim próprio. Não posso fazer outra vez, se troco de coração contigo, quem chora por mim as minhas lágrimas? Quem me faz sentir humano? Quem me distingue do animal? Não posso, mesmo que quisesse não posso. Sou teu amigo, mas não tenho poder para fazer tal coisa...
Mas ao outro, o amigo receptor, não interessa já. A dor dele provem do coração e o outro é um herói, tem um coração duro. Está a ser egoísta: não vês que estou em sofrimento? Que também tenho feridas inúmeras? Recusas a ajuda. Sobreviverei sozinho, sem o teu coração de herói. Não és meu amigo. Estende –lhe a mão para a despedida derradeira e final. Não hesita, o coração é duro como a pedra.
O outro , repara no homem que se despede arrogantemente, em vez de apenas olhar e a tristeza ajeita-se no coração.

WinGs C.

Wednesday, April 23, 2008

Ínicio

É o criador do fogo,
O purificador e o Condenador.
Está-lhe no coração, quente
E perigoso como a
Ilusão lúcida.

É senhor do Mar,
Domina-o,
Porque o conhece.
Está-lhe nas veias,
É guerreiro de Sangue,
Mas a sua alma é azul
Transparente.

A terra pertence-lhe, porque
São um só.
Cumprem o ciclo. Um
Gera outro.
Mas divide-se em metades,
Terá sempre a terra de cor
Humana,
Olhará sempre o Céu
Olímpico.

Nasceu Homem, e não
Pássaro de Fogo.
Esta só no mundo,
Ninguém compreende
O Ícaro Bélico
Que carrega em si.


Saturday, April 19, 2008

Sacrifício

A tua voz esta no mundo
É o grito da borboleta
Ou o silencio que nunca
Se concretiza na Estalactite
É o som da maré
É o renascimento da flor
Possui a harmonia da mentira
Real
É um arco-íris audível
Com uma cor solitária

A tua voz esta em mim
Em todos os Luares Negros
Ouço-a no calcário
E na terra
Ilumina qualquer
Resto de Cemitério
Meu.

A tua voz só não esta em ti.
Morreste. Para a voz
Dominar o Universo.
Aqueceste o mundo, gastaste a tua luz
Para quebrar o céu e o mar,
Abrir a Terra.

Fecha os olhos
Hoje faço-te companhia no sacrifico.
A tua voz esta em mim. Preciso da tua
Luz .
Hoje também
Me sacrifico. Para ouvir a tua voz
Antes de adormecer.

WinGs C.

Tuesday, April 01, 2008

Azul Algo Existencialista

Não deixa de ser inteligente essa opção tua, a de invés de desejar a sorte, almejar controlar o azar. Aliás, bastante astuta observando com a lupa o pormenor quase epicurista. Claro está, não procuras prazer, nem foges do desprazer. Partiste em busca de ti, do teu lugar no mundo. A tua alma é grande porque se sabe única e impossível de ser copiada; porém, sorris ao anonimato mundial. Gostas de ser ninguém, melhor, aprendeste a ver o lado brilhante da lua nesse facto.
Quem te olhar superficialmente explorará a tua arrogância inexistente, o teu desdém para com Deus que nada fez por ti, pela tua dor. Deus ou deus é indiferente agora, foi essa a tua mudança em ti. Por isso, não és herói e por isso não tens uma terrível e tenebrosa morte prematura. A diferença está no troço da escolha, no momento fulcral em que decides quem não queres ser. A tua perspicácia outra vez, escolher entre qualidades é mais fácil, muito mais apaziguador.
Vejo-te do outro lado da rua, vejo-te do outro lado da estrada ou do espelho, o mundo, por vezes, é um lugar pequeno. E é ao ver-te que reconheço os traços do soldado do novo exército, aquele que fará nascer um novo e purificado mundo. Se desejas a paz, participas na guerra; se amas a noite, vives intensamente o dia; se choras ás escondidas em noites de luar sombrio a dor de seres tu, então na noite de lua seguinte ergues-te com um amor à tua existência bélico, que é próprio dos solitários e dos humildes. Sem heroísmos, apenas com humanismo. Tens uma existência pacífica que em nada é passiva; e és tu e tens em ti o conjunto do mundo. És a esperança que te agarra à vida porque sabes que tens um caminho no mundo único e não copiavel; no entanto, não fazes falta se amanha apertares a mão ao Hades ou ao Horus. Não por teres negado Deus – tem-no em ti – mas por teres afirmado que olhas, e observas, e apaixonas-te pelas estrelas todas as noites.
O teu amor é azul discreto, ninguém vê como intenso se torna quando o sol nele incide.
WinGs C.

Friday, March 28, 2008

A Necessidade de Sophia

Retrato de uma princesa desconhecida

Para que ela tivesse um pescoço tão fino
Para que os seus pulsos tivessem um quebrar de caule
Para que os seus olhos fossem tão frontais e limpos
Para que a sua espinha fosse tão direita
E ela usasse a cabeça tão erguida
Com uma tão simples claridade sobre a testa
Foram necessárias sucessivas gerações de escravos
De corpo dobrado e grossas mãos pacientes
Servindo sucessivas gerações de príncipes
Ainda um pouco toscos e grosseiros
Ávidos cruéis e fraudulentos
Foi um imenso desperdiçar de gente
Para que ela fosse aquela perfeição
Solitária exilada sem destino

Sophia de Mello Breyner Andresen

Monday, March 17, 2008

Roma

Tu, que passaste por tantos séculos, por tantas fases da lua, deixaste-te corromper. Logo tu, que quando nasceste querias ser justa; que quando cresceste consideraste o abuso de poder mais um inimigo a precisar de uma estratégia brilhante para ser abatido.
Sim, logo tu. Trazias, talvez sem o saberes, o vento do domínio inflexível ( e parcialmente tolerante) sobre diferentes povos, o aroma de quem perde batalhas mas nunca perde uma guerra; a voz da persistência e da disciplina. Porém, as tuas tácticas tornaram-se impotentes ao ócio e à luxúria que começaram a germinar em ti. Dentro de ti. Começaste a envelhecer, a cair de mansinho, a perder aos poucos o que tanto trabalho quente deu a conquistar...
Logo tu que eras feita de um sonho tão respeitoso, tão bonito.
Misturaste as tuas vitórias com derrame de sangue inocente e as tuas más acções sobrepõem-se, em alturas de castigo, ao mérito que tens por direito. Tens o melhor e o pior associado ao teu nome. Mas foste , efectivamente, grandiosa e magnificente. Inigualável.
Até te derrubares; até perderes tudo o que eras no início. Quando julgaste ter alcançado a tua glória máxima, deixaste o sonho escapar por entre os teus dedos como se fosse água.
Mas as tuas ruínas estão presentes no meu povo. Somos, também a herança que deixaste ao mundo. Somos também o que resta da tua memória.
E admiro-te , não pela luxúria que incutiste com as tuas vitórias, mas pelos motivos porque subiste, o sonho que almejaste.
Gosto sobretudo o sonho que tu eras.
O sonho que eras e o que és hoje...
Ha! a tua beleza era ofuscante. E ainda é.
O meu amor por ti cega-me, só vejo o teu apogeu.

WinGs

Saturday, March 08, 2008

Patriotismo Morto

Há sempre o sol que não se apaga da vista. O som que se ouve com os ouvidos tapados. A voz de dentro da consciência - que nada é senão um outro coração - que nunca dorme. E existe, como que uma criança adormecida, em cada alma, uma pátria, ainda que queimada.
Uma mentira é uma verdade que nunca se concretizou e por isso é pouco. Não é económico o suor da mentira: ouço Fernando Pessoa e há algo em mim que desperta. É um qualquer orgulho, um qualquer conceito de dignidade que existe no mundo e não em mim. A Mensagem desperta, mesmo em negação, o velho e corcunda orgulho português. A melhor maneira de não ceder a uma paixão é perceber o seu inicio e o seu começo. Descodifiquemos então: a exaltação da conquista não pela força física, mas pela astúcia, pela vontade de sonhar e ambicionar o sonho. Ou então a explicação para apatia que vejo espalhada nas paredes e nas pessoas: estão a morrer para renascer. No fundo, abandonamos uma ideia quando ela não se espalha pelo mundo, e de facto, Lisboa já foi deposta do seu reinado marítimo há caveiras de séculos.
Mas herdei, ou nunca consegui apagar, o sorriso colectivo da Batalha de Aljubarrota e daquela técnica do quadrado que é a mais bela estratégia militar . Ou então, o primeiro país a abolir a escravatura. Ou a resistência aos invasores porque D.Sebastião voltaria um dia; ou a revolução feita, tantos anos mais tarde, sem sangue. O mito sebastianista salvou Portugal duas vezes. Falta a terceira...
Porém, o nós é antagónico. Não é este Portugal o lar idealizado. Não foi por este que Miguel de Vasconcelos foi odiado e morto sem compaixão. Falta-lhe a crença em sim mesmo, a visão de si próprio como um Messias ( nós somos a nossa única salvação, sempre).Está derrotado, acabado, finalizou o seu tempo no mundo. Esqueceu-se do ciclo e do triangulo, esqueceu-se da Fénix. E esqueceu que foi abençoado por Ulisses.
E esqueceu-se de mim, e do meu patriotismo baseado nos seus feitos históricos que são magníficos porque não carregam consigo rios imensos de sangue. Esqueceu-se de si próprio, de tanto ter sido violentado. E se Portugal se abandona a si próprio, onde está o profeta Pessoa e o Messias ?
O meu patriotismo está morto. Acredito num Messias que está impedido de nascer.

Thursday, March 06, 2008

O Mundo Visto por um Artista

De manha o mundo tem uma forma rectangular. Como se a mente tivesse sido esvaziada de todas as memórias que ajustam o mundo à sociedade. E à realidade cientifica.
E é nesses momentos, nesses instantes em que a mente é limpa que ele reflecte. É louco. Tem ideias estranhas, artísticas, revolucionárias que são recalcadas pelos calos do dia-a-dia espiritual.
Repara como é insano, como é inconsciente. Imprevisível. Sim, vê-se como uma bomba relógio, como uma explosão atómica pronta a explodir quando estimulada. Dá voltas na cama, no espírito, o mundo está errado, ou então é ele um erro. Pior ainda, uma cobaia, uma experiência pequena. E pensar para quê? Claramente, o facto de ele pressentir que tem uma personalidade cobarde semi-heróica não lhe proporciona conforto. Nem do térmico. Antes pelo contrário, por mais que magoe e que rasgue os ossos, ignorância por vezes, é felicidade. Ou pelo menos, não causa exaltações inúteis.
Levanta-se da cama contra vontade, como se ao adiarmos o presente o futuro não chegue.Mas ele levanta-se de um só pulo. O presente é pior que qualquer futuro tenebroso que tenha pela frente. O futuro, ele é capaz de o alterar, se o ângulo do Sol assim o quiser, o presente já está decidido. Olha-se ao espelho. O rosto é muito branco e os olhos azuis-escuros têm um brilho quase diabólico. É o brilho dos que necessitam de equilíbrio psicológico, pensa. Mas está enganado, é o brilho dos que vivem, o brilho nos olhos é a forma como a alma vê no mundo.Alma é vida e a vida é algo de místico.
É de manhã e o dia está agradável (hoje Apolo está bem disposto). Arranja-se para sair. O vento ao bater na sua face diz-lhe que está vivo. Diz-lhe que ele existe, e que o vento existe, e que ele não está completamente perdido, não endoideceu indefinidamente. O vento é o abraço que a sua primeira mãe lhe dá – A que existe sempre, no passado e no futuro. E ele imagina-se a responder ao abraço sem mexer os braços, a sorrir perante o beijo materno.
Encontra um sítio afável para beber café e senta-se na esplanada. O dia está bonito, o mar está magnificente. Suspira fundo, sorri levemente. A vida existe.Mas só porque ele é doido. Como poderão uns olhos que vêem sempre a mesma paisagem, que nunca brilham, que são apáticos, vazios, verem a existência do mundo?
A Terra é redonda mas tem quatro cantos.
WinGs

Saturday, March 01, 2008

A noite e o Amor

Dizia que ainda não se tinha esquecido dela porque o amor também era o tempo que passava entre o agora e o esquecimento total.
Dizia isto indiferentemente, como se não fosse ele, ou como se fosse um eu dele já muito antigo e distante. Um eu, abandonado numa gruta perdida e esquecida intencionalmente.
Era de noite e as estrelas desenhavam no céu , com um lápis triste de tão imaginado, aquilo que ela tinha sido. Para ele. Ou, talvez, aquilo que nunca chegou a ser. Não, ainda a amava. Mas as estrelas estavam tão tristes que lhe secavam o coração .O céu era maior que ele, e que ela. Era do tamanho do esquecimento. Menor que o amor. Um prevalece, inequivocamente, mais tempo do que o outro. Se ao menos a noite não fosse tão triste...
Não. A noite é só a noite, nada mais do que isso. Estrelas são só estrelas. Não estão tristes, não lembram nada. Não são feitas de um outro material senão o concreto. Mas reflectem o seu próprio passado ao serem vistas; transmitem melancolia...
A noite estrelada era, estranhamente, triste. Ele desconhecia a razão física do porquê. Apenas reconhecia que em algum momento a Natureza tinha-se tornado no seu coração e que a tristeza projectava-se no mundo sensível. De qualquer forma, não teria mais importância. Era a última vez que o céu lhe lembrava o rosto dela.
WinGs

Texto inspirado no Poema de Pablo Neruda “Posso escrever os versos mais tristes esta noite.”

Tuesday, February 19, 2008

A arte dos Chineses

" Quer a faca caía no melão, quer o melão caía na faca, o melão vai sofrer"

Provérbio Chinês

Sunday, February 10, 2008

Mitologias

Num dos dias em que se decapitaram (literariamente) inúmeras cabeças e em que o barulho ensanguentado foi fechado e purificado nas ondas do mar, eu dei-lhe um nome.
Para expulsar a minha insanidade da minha sanidade que está intrínseca ao amor. A imaginação, ás vezes, resume-se a uma mentira que procura causar qualquer emoção humana num corpo dilacerado.
Dei-lhe um nome. Á semelhança da personagem do livro que li, já há demasiado tempo. Sentei-a no meu colo, como uma criança, como um irmão. Não há espírito maternal, fraternidade é igualdade. Por isso é que lhe dei um nome, para ser igual a mim.
A sua voz é, também, a minha. É a minha sensibilidade humana desajeitada que lhe dá voz. Sou eu o som que projecto no mundo, como uma sombra nocturna.
Música é cor. E não se descrevem cores, azul é azul. Daí que os cegos sejam alvo de uma infelicidade irremediável, e os surdos condenados a algo pior que a morte. Dei-lhe um nome, há muito que vejo o mundo com os ouvidos .
Não há sentido.Não há explicação. Acordei , lembrei-me da harpa do druida do livro que li já há muito, muito tempo. E dei-lhe um nome porque somos todos um Prometeu mais ou menos adormecido, a evocar o poder que, na verdade, não possuímos.
Que venha, então, o corvo devorar-me o fígado durante séculos tenebrosos. Eu entreguei-lhe o segredo do fogo: dei-lhe um nome. Atribuí-lhe um significado, uma alma. Tudo o que existe, bem, existe. E tudo o que existe para nós tem um nome- ainda que mudo. Limitei-me a soletrar o dela; e a esperar por Perseu.

Sunday, February 03, 2008

"Don´t Look Back in Anger " (Oasis)

Há dias assim. Em que o espírito é esvaziado, torturado e tudo o que sobra é música. A música. Uma que preencha o vazio que tende a entranhar-se nos ossos quando o coração arrefece - um congelamento interior absurdo.
Então, a mudança torna-se urgente. O quebrar das ondas contra as rochas, o uso da razão não passional. A revolução que se faz a dormir.
Verdade é que a revolução não é quente, daí que um coração frio torne os olhos baços e mortiços. A Primavera não faz sentido. O nascimento da cor é antagónico. Um esforço pateta. Patético. Inútil, porque o Inverno adequa-se a lareiras, ao aquecer das mãos, quando tudo o resto está em coma. E se ainda há calor, então é possível despertar a qualquer instante...
Mas para ela, é já tarde. O tempo de espera chegou ao fim, mas não terminou. Esperará sempre. Talvez entregue as cinzas da sua existência cremada a alguém, a algo. É tarde, mas todos nós continuamos (o quê). A alma dissipa-se, é uma dor cujo único sintoma é a apatia existencial, a doença grave dos que não fingem viver. E por isso, não culpa, nem odeia, nem guarda rancor do passado ( ouvia-a dizer num tom de voz calmo mas não tranquilo ou sereno).
Daria tudo ( ela ou eu, é indiferente) para visitar o lugar sagrado onde o eclipse é permanente; onde não se distingue o dia da noite, a sombra da luz. (E então, o coração descongelar-se-ia, o dela ou o meu, é indiferente)
Ela repete que não há razão para guardar rancor do que já passou. Não é tarde de mais.
WinGs

Saturday, January 19, 2008

Reflexo

Olho o mundo: vejo um oceano à espera de ser descoberto. Olho a multidão: vejo um buraco vazio; já nem o nada contém. O valor que tinham trocaram-no por diamantes falsos que cairão no esquecimento por serem tão impossíveis de serem esquecidos. E nem o Oceano os salva.
Passo pela multidão e vejo-os a caminharem nas suas vidas rotineiras do espelho que escolhi para ser o meu Mundo Paralelo. Dar-se-ão conta eles que, se permanecerem nesse mundo, quando morrerem serão menos – muito menos!- que a milésima parte de um grão de areia?
E eis que relaciono ideias : para eles sou só uma sombra que lhes responde do outro lado do espelho. Para quê a preocupação?