Saturday, March 31, 2007

Nevoeiro

Há dias de nevoeiro em que tudo é indefinido. Nós, o mundo. Enfim, tudo. Simplesmente, não nos apetece escrever, não nos apetece criar nada. Vivemos dos livros escritos pelos outros- histórias magníficas que se fossem nossas, não seriam tão encantadoras. E de músicas- o eterno milagre humano. Mas não são maus de todo estes dias de nevoeiro: são dias como outros quaisquer, se os soubermos aproveitar bem. Porque "Cada dia é uma pequena vida".E que temos nos, para alem de cada simples e solitário dia?

Monday, March 12, 2007

To someone too special..

Starry starry night..
Paint your palet blue and grey
look out on a summer's day
with eyes that know the darkness in my soul

Shadows on the hills
Sketch the trees and the daffodiles
catch the breeze and the winter chills
in colours on the snowy linen land
Now I understandwhat you tried to say to me
and how you suffered for your sanity
and how you tried to set them free
they would not listen they did not know how
perhaps they'll listen now.
[...]
Starry starry night
For they could not love you
but still your love was true
and when no hope was left inside
on that starry starry night
You took your life as lover's often do
But I could have told you,
Vincent,this world was never ment for one as beautiful as you
[...]
now I think I know
what you tried to say to meand how you suffered for your sanity
and how you tried to set them freethey would now listen
they're not listening still
Perhaps they never will

Vincent, Don Mclean

Sunday, February 18, 2007

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua

Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda que a tua


Sophia de Mello Breyner Andresen

Thursday, February 08, 2007

Persistência e Paciência

"Transportai um punhado de terra todos os dias e fareis uma montanha."

Confúcio

Saturday, January 27, 2007

Patinho Feio

Instintivamente, o vento da infância nunca me abandona. Durante o dia lembrei-me da história do patinho feio. Quando era pequena, não gostava. Alguém me disse que o final era feliz. E eu, numa posição irreversível, defendia que o patinho feio, com a triste vivência que tinha tido, jamais poderia ter um fim feliz. Podia era, ter um fim menos infeliz. Há feridas que nunca saram. Provavelmente, o meu raciocínio foi um exagero. Gosto de pensar que foi. É consolador pensar que o triste e pequeno pato se regenerou; sobreviveu à discriminação crua de que foi alvo.
Porém, pergunto-me, quantos patinhos feios é que passaram por mim. Que fim terão tido?O menos infeliz?...
No momento, só me ocorre pensar que o patinho feio é bem mais que um conto para crianças. Isto é, se se quiser considerar que é um conto para crianças...

Sunday, January 21, 2007

Desprezo

Há momentos como este, em que me sinto completamente só. Em que gosto (ainda mais) da minha solidão. Em que prefiro o silêncio total e solitário à confusão produzida pelo resto das pessoas ; em que prefiro o escuro da noite ao sol de um novo dia , sem qualquer atitude depressiva ou dramática. Simplesmente provoca-me enjoos a hipocrisia, o cinismo e e a futilidade que vejo todos os dias, patentes em quase tdos os rostos. Então, numa atitude de cansaço, afasto-me o mais que posso desse mundo que às vezes é tão cruel; que discrimina tanto. E aproveito a minha solidão: ouço música. Assim , o prazer da alma cheia supera o desprezo que às vezes me dói tanto sentir.

Friday, January 19, 2007

Solidão

Não me pequem no braço!
Não gosto que me peguem no braço
Quero ser sozinho
Já disse que sou sozinho!
Ah ,que maçada quererem
Que eu seja de companhia.

Álvaro de Campos

Tuesday, January 16, 2007

Imaginação

Mudança. Respiro mudança quando abro a janela. Qualquer coisa mudou. Observo com atenção mas está tudo igual. Tudo na mesma. Como ontem. Contudo, existe um vento diferente. A paisagem citadina e banal parece mais bela, mais única , como se nunca tivesse chegado a ser a paisagem feia que desprezo todos os dias. A verdade é que sou parte da paisagem. Olho-a todos os dias. Nos dias em que é feia sou eu que não consigo reparar num pormenor mais bonito. Por vezes o erro é nosso e nem sequer nos apercebemos. E sofremos com isso.
A paisagem é sempre a mesma, o que muda realmente é o nosso estado de espirito, o nosso grau de boa disposição. Varia com a nossa interpretação. E desilude-nos a paisagem que não corresponde à nossa expectativa. Esperávamos um dia olhar pela janela pequena e ver o mundo com que sonhamos. Mas a janela è demasiado pequena, nós somos demasiado pequenos, e o que vemos é aquilo a que chamamos real, ao nosso dia-a-dia monótono estampado em cada pedra do passeio.
Felizmente, hoje não é um desses dias. A interpretação hoje é optimista: a rua suja e feia, hoje, somente hoje- talvez nunca mais volte a sê-lo -é bela!E única.
É esta a maravilha de se viver. E só se consegue viver através da imaginação.
No quotidiano só sobrevive realmente o que sabe sonhar no próprio domínio do quotidiano. É o único que se propõe a mudar de perspectiva todos os dias – imagina, e ao imaginar, altera. Ele próprio. A paisagem. Até, quem sabe, o próprio sentido da vida.


Monday, January 15, 2007

Music is everything

O fim-de-semana foi passado numa aldeia nos arredores de Sintra. É um sítio pequeno; fechado. Um lugar onde todos os habitantes se conhecem; um lugar onde a velocidade da luz é menor que a velocidade com que se espalha um rumor. Mas apesar de tudo, não desgosto da aldeia: é sossegada. Pessoas mais simples exigem problemas mais simples.Ás vezes a simplicidade perturba-nos. Outras, porém, agrada-nos.
Estranho?Não. Conseguimos ignorar o mundo que nos rodeia, as pessoas que estão à nossa volta. Basta sabermos retirar-lhes o essencial, o conteúdo. E abstraírmo-nos do resto.
Com a ajuda preciosa de Jamie Cullum e Kurt Cobain caminhei numa cidade fantasma onde só existia eu e o meu discman. A coscuvilhice alheia passou-me despercebida. E tudo graças ao poder da mais maravilhosa invenção humana: A música. Sem ela, o que nos resta?

“Music is your only friend,until the end” , Jim Morrison

Sunday, January 14, 2007

Mar


"Quando morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar"

Sophia de Mello Breyner, Mar

Sunday, December 17, 2006

Dumb

I'm not like them
But I can pretend
The sun is gone
But I have a light
The day is done
But I´m having fun
I think I'm dumb
or maybe just happy
my heart is broke
But I have some glue
help me inhale
And mend it with you
We'll flow around
And hang out on clouds
Then we'll come down
And I have a hangover
Skin the sun
Fall asleep
Wish away
The soul is cheap
Lesson learned
Wish me luck
Soothe the burn
Wake me up
by Kurt Cobain (Nirvana)

Friday, December 15, 2006

A boa dureza da vida...

Quem passou pela vida em branca nuvem
E em plácido repouso adormeceu
Quem não sentiu o frio da desgraça
Quem passou pela vida e não sofreu
Foi espectro de Homem, não foi Homem
Passou pela vida, não viveu

Francisco Octaviano

Porque às vezes o mais díficil é o mais correcto; o mais exigente è a melhor opção; porque, de facto, nem tudo é o que parece, este poema não poderia ser mais real... e duramente belo.

Monday, December 04, 2006

Mudaste

Mudaste. Tanto. E a tua mudança desiludiu-me.
Que há de errado na mudança? Nada... E mudaste para pior? Que bom que seria se soubesse responder!
A única coisa que sei é que mudaste para longe de mim, para longe de ti. E por isso, desiludiste-me : continuo aqui, imutável, e tu és um camaleão e vagueias por um sítio pequeno que denominas, ingenuamente, Mundo.
As nossas vidas tomaram rumos diferentes, no mesmo tempo e no mesmo espaço, tu seguiste pelo caminho oposto. O ego que partilhávamos separou-se. Dantes, tu eras eu, agora procuro-te incansavelmente na minha essência , mas já não existes . Já partiste. Já mudaste. De mais.
Um só ser originou dois? Ou sempre existiram dois? Se soubesse a resposta...
Mudaste... Para sempre? Não, já não quero saber. Ou talvez queira. Mas que interessa agora? Perdi-me no tempo indefinidamente. Talvez também não seja imutável. Talvez também não me tenhas desiludido, talvez tenha sido um acto inconsciente de te desculpar. Mas, sobretudo, de me desculpar.
A dor, que nunca chegou a existir, acabou. Saíste à procura do selvagem, da novidade e não compreendeste que o que tinhas de procurar eras tu. Não sabes quem és, não sabes o que queres. Eu perdite dentro de mim e tu perdeste-te porque avaliaste mal a situação. A tua balança estava estragada.
Por agora, já é muito tarde para te alertar, para me alertar... E sou assim , Imutável e Mutável. Mas não voltes, não repitas o erro de Orfeu: já é muito tarde para olhares para trás.

Friday, November 17, 2006

Pegadas

O vento, possuidor de muita força, abana as árvores violentamente. Que hipóteses é que têm de resistirem, de não oscilarem? Resistem se as raízes forem grandes e fortes. Mas e quando são fracas? Morrem. Morrem para finalizarem a herança genética de raízes fracas. Sobrevivem as fortes. É assim que se evolui.
E o mesmo acontece nos seres racionais. Com a diferença de que quando não é a Natureza a fortalecer o genoma humano, é a sociedade que o faz. Nos países pouco desenvolvidos e com muita gente , há enormes catástrofes; nos países desenvolvidos existem – o mais impensável – suicídios. O tudo vira nada , e nem tudo nem nada existem concretamente.
Porquê? Em que realidade é que os fracos viram fortes e tornam-se nos heróis de alguns livros e de alguns filmes romantizados até ao infinito? Em nenhuma. É a imaginação mais baratas e medíocre a ser utilizada. Os fracos sucumbem sempre para a glória dos fortes. É injusto? Provavelmente. Mas mal do Ser Humano se não existisse esta injustiça. Os fracos que se fortalecem gradualmente nunca foram , possivelmente, fracos...
Julgo que todas as pessoas conhecem este facto. Ou pelo menos pressentem-no. A diferença é que os que conhecem realmente o facto só se deixam encantar por uma imaginação coerente, e não por qualquer história com um final mediocremente feliz , enquanto que os restantes vivem constantemente num mundo de imaginação barata e com pouca perspicácia.
Mas o vento continua a abanar as árvores , apesar do sentimentos, das reflexões, das mortes e dos nascimentos... E quando passa por nós, o vento viajado, diz-nos que não somos mais do que frágeis pegadas à espera e uma onda azul e miseravelmente pequena que as apague. Para sempre.
Mas a onda é justa, apaga tanto as pegadas bem definidas e fundas, como as suaves e ténues. Então, para quê deixar pegadas bem fortes na areia?
Para se ter a certeza incontestável de que um dia caminhámos na praia...

Thursday, November 16, 2006

Tentar ...

Realmente, o que é a vida? É passear á chuva, venerar o sol?. Passar uma a tarde a conversar com os amigos num café? Realmente, como se define, como se limita?
Quando percorremos o caminho todo da linha da vida, do que é nos recordamos melhor, das partes boas ou das partes más? O que se sobrepõe? Era tão bom saber, ter estas respostas... era tão bom que viver fosse apenas gostar do Inverno. E tão pouco que seria! Valeria a pena, fazer da vida – nosso bem tão precioso- algo tão pouco, tão fácil de alcançar?
A vida é um paradoxo: se o objectivo é fácil de alcançar, a felicidade dura pouco, ficamos vazios; uma expectativa baixa corresponde a alguém com pouca visão , pouco conhecimento. Mas por outro lado, se o objectivo é duro de atingir , sofremos todo o tipo de desilusões – a pior desilusão? Aquela em que nos desiludimos connosco próprios- , vários tipos de queda; quando chegamos ao fim ( caso cheguemos) somos outros. Ou fomos derrotados pela dificuldade ou endurecidos pela dor. Valerá a pena?”Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Então o que aumenta a alma?...
Onde está o termo médio? O objectivo mais ou menos difícil? Ou se quer ser Médico , Engenheiro e estuda-se para isso, ou desiste-se da escola e submete-se ao emprego mais básico. Não existe termo médio. A vida por vezes, é bastante crua. A sua precisão é extraordinária : ou se é, ou se não é. A vida é exacta..
Contudo, somos nós. Continuamos a ser nós, mais ou menos endurecidos; fortalecidos ou enfraquecidos. “O que nós somos é imutável. Quem somos está sempre a alterar-se”.
Ironicamente, só da maior confusão nasce a mais brilhante ideia; só ao caminho mais doloroso sucede, ás vezes, o riso confiante e desenvergonhado da felicidade. Como um ciclo.
É isto viver. Alterar o ciclo. Tentar que o Ícaro não caia, apesar de se saber que, muito provavelmente, ele cai. É isso que aumenta a alma, tentar... é o nosso primeiro e último recurso. Tentar...

Saturday, November 11, 2006

London Rain



'You worship the sun
But now can you fall for the rain?"

Jamie Cullum, London Skies

Monday, October 30, 2006

Noites de Lua

Podia dizer, que hoje, o dia foi perfeito. Não o foi.
Podia dizer que sou imensamente feliz. Não, não sou feliz – é certo , também, que não sou infeliz.
De facto, quando crescemos um pouco apercebemo-nos de que não existem dias bons e dias maus. São dias, e isso é tudo. Podem, é, de facto, serem melhores ou piores.
Por melhor que seja um dia, a noite dá-nos uma sensação qualquer. Ás vezes é medo do desconhecido que nem sequer sabemos o que é. Outras, é do fracasso do dia de amanhã. Mas a pior das vontades é a vontade de penetrar no desconhecido e viajar para outro espaço; mudar a cronologia do tempo.
Ás vezes, o vento sopra baixinho ao nosso ouvido as maravilhas de outros mundos; as riquezas inúmeras de outros povos, com caracteristicas exóticas. E nós aqui, estáticos, parados no espaço a movimentarmo-nos sem parar no tempo. E ficamos frustrados, queremos ver outras paisagens; queremos ser outra coisa. O que, exactamente, não sabemos. A única coisa de que temos a certeza é que a nossa essência já viu os fiordes da Noruega tantas vezes, que se um dia o vir realmente, reconhece-lo-á.Custa, muitas vezes, abrir a janela á noite. Há qualquer coisa de mistério numa noite com lua. Desperta sensações. A pior delas é a sensação constante e adormecida de querermos mudar o que somos; de querermos ampliar o nosso angulo de visão. Mas sobretudo, aquela vontade imutável de insistirmos em começar tudo de novo, como se tudo fosse um simples jogo de Monopoly.

Saturday, October 28, 2006

Legenda


Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
de madrugada:
amar é entristecer
sem corrompermos
nada.
Carlos de Oliveira

Thursday, October 26, 2006

Gato que brincas na rua

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes
Que tens instintos gerais
E sentes, só o que sentes

És feliz porque és assim
Todo o nada que és é teu
Eu vejo-me e estou sem mim
Conheço-me e não sou eu

Fernando Pessoa


Sunday, October 22, 2006

Tentativa de Homenagear Fernando Pessoa

Hoje apetece-me escrever e não consigo. Sinto que se perdeu qualquer coisa em mim. Sensação estranha, esta. Querer, tentar e não conseguir. Irritante? Provavelmente... Mas a pior parte é a do vazio.
Mas não é algo negativo de todo ( quase nada –o é ). Á força de não conseguir escrever o que eu realmente quero, escrevo sobre a minha não capacidade de escrever.
Como é maravilhoso o Ser Humano, com o seu eterno dualismo antropológico! A parte consciente , racional, opõem-se á parte emotiva, animal, instintiva. E são estas oposições que suportam o termo Ser Humano. Nós somos oposições que se complementam. Que se equilibram.
Como não consigo escrever, escrevo sobre a minha incapacidade de escrever. Se eu perdesse a capacidade escrever, talvez escrevesse sobre o momento em que deixei de conseguir escrever. Tornar-me-ia num paradoxo.
“Eu sou o que perdi” e é bem verdade... o que perdemos une-se para sensibilizar o que nós somos.
Fernando Pessoa é sempre brilhante!