Monday, July 07, 2008

Orion

A noite clara e fresca devolve o quarto crescente lunar ao seu leito. E é fresca e límpida a noite, tão calma e serena como a cidade que ainda é criança e que se deita cedo. E tão bonita é a tua melodia, a tua voz , o teu ângulo de existência. Tão imperfeito e harmonioso , tão humano e tão divino – tão melodioso é o teu gesto.
A estrela ilumina-te, dá-te uma protecção dourada e faz de ti um deus protegido pelo ouro azul de tons graves. E, hoje, a tua estrela brilha mais, mais fortemente e és ainda mais belo na tua aparente simplicidade. A tua voz é mais grave, o teu gesto de tons mais graves.
A noite esvazia sentimentos inúteis. Retira os pensamentos excessivos. A sua permeabilidade conserva, apenas, a percepção necessária á identidade. E é fresca e clara porque é fria sem arrefecer o corpo. E tu és a noite quando abres a janela e respiras o ar fresco e negro. Partilhas-te pelo mundo porque amas a noite e a constelação olha para e por ti .
A tua tristeza é sustentada pela lágrima dourada.

Sunday, July 06, 2008

Solidão

O caminho que conduz o aprendiz ao rio é oposto ao que o guia ate à guitarra. Na verdade, o rio azul e a guitarra magnética nada têm em comum, não coexistem, obrigatoriamente. Apenas na mente do aprendiz eles são uma mesma coisa; são pernas, braços, pedaços perfeitos da unidade imperfeita e perdida.
Porém, o amor limita os olhos e , ás vezes, os olhos envelhecem-se de mais. O rio e a música tem muito em comum: são cíclicos, são belos, são eternos e são elitistas.
Mas não, claro que não... Não é isto que... não são estas palavras vazias que unem o azul ao som: é o sentimento. Tanto o rio como a guitarra, tanto o azul como a música, descrevem a sua vida - mais ainda a sua morte. Ambos o caracterizam sem o definirem. Ambos ele os ama. Ambos imitam a sua tristeza cheia e quente. A sua melancolia estranha de quem vive quando os outros morrem e perde as força quando os outros se rejuvenescem.
O rio e a música são as suas lágrimas. Um, é a lágrima física e o outro a raiz da lágrima. O azul e a música são a sua anatomia e ele não encontra nenhuma palavra para os descrever ou descrever a sensação porque as palavras, ás vezes, são só uma convenção superficial humana. Só entre os homens, é necessário comunicação. Entre o aprendiz, a musica e o rio a ligação é emocional - é interior.

Friday, July 04, 2008

Mestre

Sim, é verdade, estou a tentar mudar o sentido do Universo. E, sim, não tenho a tua arte, Mestre, não tenho a tua força. Desafiar a força à qual o Mestre se resignou é suicídio, mas eu sou a única hipótese dela. E tenho a vantagem de ter o Mestre que faz o mundo girar de acordo com a alma, distraidamente e sem ser propositado.
O meu sangue é novo e é resistente. O tendão é duro. Dobra com facilidade o ângulo certo. Em obediência, é tão grosso como o Osso. Por isso, Mestre, ela precisa de mim, para aprender; para ver, apenas que há pessoas que não são moldáveis ao destino, que modelam, antes, o futuro que não lhes pertence. Precisa de mim, porque o amor, quando é sincero, move estrelas porque as comove – Alias, tudo o que vem da alma, de dentro, das estranhas, comove.
E, eu, preciso de ti, Mestre. Porque preciso da Estrela que não indica apenas o Norte, preciso do Deus que morre e que por isso é Imortal. Preciso de alguém como eu mas melhorado. Preciso da tua compreensão e do teu conselho.
Sim, é verdade, sei que vou falhar. A guerra está perdida e eu perco tempo com batalhas igualmente inúteis. Mas a esperança – a maldição dos Homens– prende-me a ela. E a responsabilidade de ter consciência. E o amor. E sei que ela precisa de mim, do meu sangue, da minha carne, do meu sacrifício.
Mestre. Mestre, quero mudar o sentido de rotação do Homem, estou a desejar o impensável. Dá-me a luz azul do discípulo desertor pela boa causa. E mantém-te comigo , só parte de mim te desobedece e só desobedece a parte das tuas ordens.

Wednesday, July 02, 2008

Orfeu Moderno

Tinha sempre saudades do mar e do rio. Era a qualidade do amor que nasce nas estrelas mas nunca morre com elas: é imutável. E, quando via o mar ou o rio, havia uma sensação de felicidade simplista que lhe aquecia o corpo , a pele e os pedaços de espírito porque abandonava o pensamento e remetia-se, apenas, á emoção e ao sentimento.
O mar é irmão da música. Ambos são mais do que divinos, mais do que Deus. Emitem sensações, procuram a percepção da simplicidade existencialista. E o rio, bem, o rio era dele. Porque apesar de ser grande e famoso, reflectia o Sol quando se punha de um ângulo que fazia com que o vento fosse projectado do coração para o mundo ; porque, apesar de ser parte da História e te ter fantasmas que navegam sobre as suas aguas, o presente também existe e é eternamente azul . Gostava do rio e o rio deixava de ser o grande rio, o grande azul que parece quase o mar para ser só o seu rio. Não era o rio que engoliu parte de uma cidade, era o rio que era tão azul como o céu.
Por isso é que lhe lembrava a música. A melodia, a entrega humana, a sensibilidade e o amor primitivo. Era igual, as sensações, o tipo de sentimento. O momento de alegria infantil em que o tempo estagnava e o espaço não importava. O mometo em que ele era ele, sem espelhos para se reflectir. O momento em que estava protegido pelo divino.

Friday, June 13, 2008

Some kind of Monster

A raiva fria e pura dava-lhe uma adrenalina alucinante, uma vontade viver e de existir metalicamente, belicamente. Os olhos ganhavam um brilho especial pela loucura lúcida, pela guerra que ira ser ganha pela força bruta e violenta do sonho quebrado e violentado.
As mãos tinham mais força, mais ódio, mais orgulho e mais confiança e ameaçavam estrangular – mas nunca matar - quem visse nele a flor de lis e quem o condenasse. A cicatriz no rosto era inalterável e ele garantia que tudo o que o personificava era indefinidamente eterno porque a dor também fazia parte dele, já que o trancaram na torre mais alta da existência com ela.
A liberdade dele é apenas um sonho – e ele sabe-o, sabe que todos o prendem com cordas de ferro e sabe, que, quando quer, parte-as com a força do ódio e da vontade de existir.
A raiva fria e tão pouco emocional levava-o a tornar-se em rituais sangrentos mas não fatais e o silêncio foi para sempre expulso do seu Universo . Ganhou voz quando aprendeu a orgulhar-se em ser um Monstro para os outros, Monstro que os diminui porque é, claramente, mais e melhor.

Thursday, June 12, 2008

Sonho Azul - Ondulado

A brisa quente aquece o
Fogo congelado mas não o derrete.
O pesadelo esta aqui sentado
Mesmo quando os olhos estão dormentes.

A areia desfaz-se nas mãos mas o coração guarda-a.
O castelo permanece em pé por forças transparentes.
O pesadelo transfigura-se e a
Realidade dá lugar ao Sonho.

E o fogo descongela á medida que a brisa
Refresca a pele sangrenta.E os olhos fechados
Cheiram o mar.


WinGs

Wednesday, June 11, 2008

O dia em que descobriu os Metallica

Os olhos ganharam uma cor diferente por causa do brilho. Exploraram o mundo que sempre conheceram mas nunca viram. O coração não se fez sentir porque a beleza foi descoberta pelo raciocínio e não pela pele.
O sorriso foi impossível de ser inibido porque estava debaixo dos nervos. Mas não é um sorriso como os outros, é o sorriso verdadeiro, o meio sorriso dor reconhecimento. O sorriso que advêm da infelicidade, porque só os infelizes procuram algo (e naquele dia foi encontrado)
O dia estava quente e lembrava manhas eternas e áureas passadas na praia. Talvez fosse à praia no dia seguinte. E só era capaz de ir porque via mais claramente a sua sombra. Sentia-se bem porque, pela primeira vez em muitos anos, o mundo fazia-lhe sentido. O desconcerto do mundo, afinal, não o enquadrava e ele fazia questão de nunca se enquadrar no mundo.

Sunday, June 08, 2008

O Fim ( Parte 3)

Explosão

Ferir é inerente á combustão humana.
Tu, rasgaste -me a pele, falhaste o coração,
Não podes esperar aniquilar um exército.

Até a flor é bélica, se a ensinares
Em parte o mundo depende da textura
Da sombra com que o amas.
Mas não esperes dominar-me a mim,
Existo para o azul do mar e vivo pelos
Grãos de areia. Não esperes ter o direito
De me amar ou ser amado por mim.

Feriste-me. Duramente.
Mas tenho habito á dor. Nao
Procures descobrir o que não existe -
Em todo o Universo, não encontras
Uma única lágrima derramada por ti.

Saturday, June 07, 2008

O Fim (Parte 2)

Ruína

Agora que viste as minhas lágrimas,
E que tocaste nas marcas da tortura
Procuras a minha mão.

Não chega. Invadiste-me,
Arruinaste-me. E um dia
Um de nos partirá.
Se for eu,
Nunca regressarei. Se fores tu
Regressarás sempre tarde
( E não regresses por mim!)
O momento de ilusão sentimental
Exige o meu coração. É uma troca
Que não posso fazer.

Arruinaste-me.
A escolha não existe.

Thursday, June 05, 2008

O fim ( parte 1)

Abandono

Quando te fores embora,
As estrelas apagam
E a noite abandona-me.

Não peço,
Para morreres comigo.
Dou-te o melhor que tenho.
A minha ausência
Talvez te salve.

Fecho os olhos.
Amar nunca foi
Fácil. Parte e
Deixa-me só.

Wednesday, June 04, 2008

Sad but True

O calor aquece a pele, mas as mãos estão igualmente frias. O frio que vem de dentro so o tempo calcário o ameniza.
Lamento, tenho ainda força porque a cada rasgão aberto um ligeiro sentimentalismo nascido da compaixão bloqueia-se. Tenho ainda resistência porque sou assim, sou também a guerra, a luta pela persistência da minha própria existência.
Tão depressa não me vencem totalmente. Sobretudo, porque nasci quase para perder , tenho ainda mais motivos para não deixar que me liquidem.
Lamento, é verdade que tenho frio mas roubaram-me o Sol já ha muitas noites vazias . Tenho um certo hábito ao frio e á dor. E o tempo amenizá-lo-á. Não é a primeira luta perdida que entro e que conquisto probabilidades de ganhar. A matemática não tem tendências porque é exacta e a minha tendência é a precisão.

Tuesday, June 03, 2008

Adeus

O fim é sempre estranho. Nem sempre é doloroso e nem sempre é clasutrofóbico, mas é sempre uma brisa quente e livre de uma noite de Verão de lua cheia. É um mistério, um paradoxo.
O fim é sempre um começo. De algo. Mesmo a morte é um começo , enterram-se lágrimas inúteis e resgatam-se para a vida novos hábitos impossíveis de serem renegados. A morte é um começo para os vivos que ficam e vêem um barco – mais um – afundar-se no mar , tendo consciência que nunca mais voltará a tocar a terra que guardou o seu sangue. O fim é sempre o começo de algo, nem que seja do nada. Ainda não é Verão e a noite é escura como uma gruta grande, fria e estranhamente bela. É a mistura do caminho que ficou para trás e o caminho que ainda pode ser escolhido. É a escolha entre a memória e o coração futurista. O fim é indomável, mesmo quando parcialmente previsto, deixa um olhar de espanto e estranheza no céu azul aberto enclausurado por nuvens cinzentas de chuva.
É verdade, este é o fim. Do ciclo, da era, desta responsabilidade. É o fim, o mais esperado, o mais desejado. Este é o fim, que salvou mentes desesperadas da desistência, que deu alento e conforto aos que nunca descansam. Este é o fim, e no entanto, há quase a vontade de começar de novo só por uma questão de medo. O desconhecido é sempre tenebroso e só sabe enfrentar dignamente o medo e a hesitação os que sabem que nada são.
O fim é sempre algo misterioso, sim, mas não começava nada de novo. Há que enfrentar o medo e percebe-lo. Alem disso, nem sequer me dói este fim. Sonhei com ele demasiadas vezes, salvou-me da escuridão várias luas sangrentas. Tudo o resto é uma preguiça emocional de dizer que acabou. A despedida implica gasto de energia ( inútil, sim, talvez inútil, porque está implícita no ângulo do sorriso que se afasta para a penumbra). Sentimentalismo são sempre inúteis. As minhas palavras não tem magia, por isso cito o poeta que faz do poema uma flauta mágica: “O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus.”

Monday, June 02, 2008

Guerras

Se explorares moralmente o ódio e a raiva bélica, pelo menos, levantas-te da cama e enfrentas o mundo sem vergonha de seres tu. Se controlares o ódio e não deixares que o sentimento de vingança crua te domine, a tua existência torna-se bélica e os Outros farão tudo para te tentarem derrubar desonestamente (e serão sempre vencidos pela transmissão da verdade pacifica e calma).
O amor é o melhor de todos os sentimentos, é o que torna o Homem Deus e o que faz de Deus um simples pedaço do coração, o pedaço que traz milagres ao mundo e que amansa o mar. Mas é o sentimento simples e naive, o sentimento da fragilidade porque é a carência humana proveniente do esforço da evolução. Encontras a razão do teu sorriso no amor, no teu bom carácter e na tua mão amiga tão quente no amparo. Porém , é a resistência e a vontade intrínseca de vencer que te mantêm acordado, que te da alento. O amor é o suporte, mas em parte, a raiva fria e ensanguentada, orienta-o. Se não te magoarem, não magoas ninguém, se não te vencerem, não vences ninguém. Se não te tivessem tentado enforcar, não amarias intensamente a Lua e não eras tão forte psicologicamente. A tua mente é crente em ti. É o mestre que te criou e que te educou, disciplinou-te para o mundo. É o pedaço de ti que uniu a injustiça que sentes ao ódio que tens em ti .
Exploras humanamente o ódio. Apontas a faca bem afiada e ameaças abrir sem hesitação a carótida de um dos Outros , mas nunca em momento algum cortas. De tudo que te enaltece e que te torna grande, nada humilha e revolta mais os Outros do que o teu bom carácter . Nada te domina e nada te controla, nem os teus próprios sentimentos. Nada os aborrece tanto como o teu gozo contínuo com o complexo de inferioridade deles. E, confesso, nada me diverte tanto como o teu riso silencioso que vejo nos teus olhos enquanto brincas com a faca.
WinGs

Thursday, May 29, 2008

Saudades de Pessoa e de Portugal

Mar Pottuguês

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos , quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram,
Quantas filhas ficaram por casar,
Para que fosses nosso, ó mar !

Valeu a pena ? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar alem do Bojador,
Tem de passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa in Mensagem

Saturday, May 24, 2008

Dor

A janela esta exactamente no sitio onde a deixei. Fechada, talvez um dia tenha coragem para abrir e encarar o mundo. Não consigo, sabes, é me quase impossível abri-la e voar. Nunca fui Ícaro, nunca desejei tornar-me nele.
Foco-me nas asas, sou engenheiro de alma. Apenas quero refortalece-las, modifica-las ate o Ícaro vencer o Sol . O meu sonho é a vitoria do voo dele, porque em momento algum ele conquista o sonho sem mim. E nunca eu me liberto do meu herói, do Messias.
Não, por favor, não me pormenorizes a morte dele, não relates o seu corpo desfeito em pedaços. Dói-me como se tivesse sido o meu, dói-me porque foi o meu..E não me obrigues a ocupar o lugar do Ícaro , o meu sonho é de material diferente, é de tempo diferente.
A janela esta aqui, ao meu lado, como sempre, como a morte. Não a abras, tem pena de mim, deixa-me cumprir o luto e fingir que as lágrimas escorrem. Somando as quedas, retiram-se lágrimas à alma. Tem compaixão e deixa-me enterrar o Ícaro, outro Ícaro, outro...
Os sonhos morrem. Consecutivamente. A janela está trancada e começa a ficar invisível. Um dia vou passar por ela e simplesmente não a ver. Um dia fecho os sentidos ao mundo e espero que alguém os desperte..
Um dia o Ícaro vai deixar de morrer, ou porque deixa de existir ou porque vence o Sol.

WinGs (L.C.)

Tuesday, May 20, 2008

Orfeu Renascido

Julgo que costumava ser uma espécie de Orfeu. Não um Orfeu completo, não um dos verdadeiros. E também não era uma imitação barata, seja como for, era um reflexo de Orfeu, o primeiro.
Perdi-o em mim, algures no meio do meu medo de infertilidade emocional ou mental. Perdi-o e talvez no mundo, como se perde uma sombra, como se perde uma alma. Talvez nunca mais o encontre. Talvez nunca mais tenha habilidade para o visualizar.
Porém, quando a escuridão incide com um certo ângulo no espelho que não é plano, vejo um reflexo nítido de uma silhueta desfocada. Encontro-o em mim porque ele existe sempre que os meus nervos humanos o chamarem.
Julgo que costumava ser uma espécie de Orfeu, talvez seja, hoje um novo Orfeu já velho e renovado. Tão renascido das cinzas que nunca conheceu Eurídice e já não chora por ela, já não enfrenta o inferno e o deus terrível por ela. O amor já não lhe faz falta. Mas ainda é Orfeu porque, quando o vejo no espelho, ele ainda tem a sua lira e nos seus sonhos profundos vê Euridice.
Perdi o Orfeu que tinha em mim mas talvez seja só falta de esperança.

Wings C.


Monday, May 19, 2008

Amor

Passou distraidamente a mão pelo caderno, folheou-o. Estava tão distraído, tão longe dali, daquele momento, daquelas pessoas. Da secretaria e do Universo. Esta no lado do Arco Íris sem pote de Ouro mas, mesmo assim, estava longe e num sitio confortável.
Penteou o cabelo escuro e olhou-se ao espelho. Cerrou o maxilar e o rosto era duro, de traços fundos, quase como linhas. Mas os olhos, os olhos... Ele notou que tinham um brilho especial, que estava distante, no lugar do arco-íris de uma só cor.
Amava. Intensamente. Qualquer coisa menos uma pessoa. Tudo excepto algo que remetesse para um sentimento socialmente real. Amava intensamente a vida e a musica, o mar e a sua violência. Amava o mundo e amava a sua solidão. E a sua cicatriz social.

Passou distraidamente a mão pelo caderno, folheou-o. Estava perdida, enclausurada nos seus pensamentos pelos outros, os que a temem e a odeiam. Mas que todos os prisioneiros fossem como ela, trancados numa espécie de paraíso falso ( felicidade não e ignorância e um ignorante não tem alcance mental para perceber que infelicidade e a felicidade são a mesma coisa. Alternam simplesmente de fases e se não coexistirem não existem)
Fechou o livro e olhou-se ao espelho. O rosto era cansado, marcado pela persistência de ser ela própria todos os dias. E viu a cicatriz nascer, a flor de lis. Observa - se e observava o crescimento da cicatriz todos os dias, talvez para contabilizar os dias e ver o crescimento da sua condenação. Ao menos, não era inocente. Ela era um crime no mundo e se não morreu ate agora foi porque teve a agilidade de uma pantera ,negra como a noite, e a força de um castelo de ferro. Se ainda guarda e defende no peito o ideal é porque acredita. E ama a vida e a sua própria existência.

Pararam os dois em frente do passeio. Ele reparou que ela ouvia a musica dele, a musica que era dele, que ele guardava numa gaveta especial no coração. Trancada à chave.
Ela viu que ele tinha o mesmo ar dela, que tinha o mesmo passo leve e o mesmo olhar em contraste com o mundo – os olhos eram divinos, procuravam a perfeição azul, o rosto, cicatrizado.
Falaram-se, como se conhecessem. Nenhum deles tinha, em momento algum mais brilhante, falado tanto e tão descontraidamente sobre si. E nenhum deles se esqueceu da perturbação que causaram um ao outro.
Os dois partilharam a solidão. Foram , calmamente, um com o outro beber café, não foram juntos. As solidões deram, um dia mais tarde, a mão.

WinGs C.

Friday, May 09, 2008

Recurso a Eugenio de Andrade

Música, levai-me:

Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?

Eugénio de Andrade

Thursday, May 08, 2008

Troca

Não posso. Ele repete, sabes que não posso. Mesmo que quisesse, que o desejasse muito, com toda a força de uma árvore enorme, não posso. Ele fala, mas o receptor finge-se surdo, a resposta não é a mais conveniente. O outro lamenta e com pouca voz repete, estende o braço à procura de um abraço. Não posso, desculpa, não posso. Mas o mundo é um lugar cruel e cada um vive como pode, a resposta era a outra, o abraço acontece num mundo paralelo. O receptor não tem tempo para desculpas.
Não posso trocar de coração contigo, não vale de nada, é igual. Ouve-me, é igual, o meu e o teu, é igual. Mas o outro vira as costas. Permanece quieto, mas o desprezo é tão evidente como a lua cheia num céu preto, vê - se claramente. Sim, é verdade, sou mais forte que tu, travei mais batalhas que tu, mas o coração é igual ao teu. De cada vez que assassinei a palavra honesta ele sofreu; de cada vez que enganei para que não me vissem a flor-de-lis no ombro, ele apertou – se - me no peito; de cada vez que vi o mar ele tornou-me o corpo mais leve. Não é por ser meu, é porque é frágil, mais que o teu, quando morrer morre de vez, o teu resiste mais. Mas para o outro eram desculpas, um herói nunca deixa de ser herói e os heróis são pessoas deveras irritantes, com tanta lealdade e honestidade. O mundo não é assim e nunca será, o que no fim ficou melhor classificado foi o mais esperto, o mais capaz de ferir conscientemente sem remorsos. Ele, o receptor, precisa do coração de um herói para aguentar a dureza da vida.
Eu troquei de coração um dia, e perdi parte dele assim. O outro insiste em continuar, ou porque é um crente no Homem ou porque deseja realmente ajudar um amigo (não pediu ao monstro para vir para a luz ainda). Perdi-o assim e a minha alma foi corroída, foi devorada. Foi uma dor existencial geologicamente grande, traí-me a mim próprio. Não posso fazer outra vez, se troco de coração contigo, quem chora por mim as minhas lágrimas? Quem me faz sentir humano? Quem me distingue do animal? Não posso, mesmo que quisesse não posso. Sou teu amigo, mas não tenho poder para fazer tal coisa...
Mas ao outro, o amigo receptor, não interessa já. A dor dele provem do coração e o outro é um herói, tem um coração duro. Está a ser egoísta: não vês que estou em sofrimento? Que também tenho feridas inúmeras? Recusas a ajuda. Sobreviverei sozinho, sem o teu coração de herói. Não és meu amigo. Estende –lhe a mão para a despedida derradeira e final. Não hesita, o coração é duro como a pedra.
O outro , repara no homem que se despede arrogantemente, em vez de apenas olhar e a tristeza ajeita-se no coração.

WinGs C.

Wednesday, April 23, 2008

Ínicio

É o criador do fogo,
O purificador e o Condenador.
Está-lhe no coração, quente
E perigoso como a
Ilusão lúcida.

É senhor do Mar,
Domina-o,
Porque o conhece.
Está-lhe nas veias,
É guerreiro de Sangue,
Mas a sua alma é azul
Transparente.

A terra pertence-lhe, porque
São um só.
Cumprem o ciclo. Um
Gera outro.
Mas divide-se em metades,
Terá sempre a terra de cor
Humana,
Olhará sempre o Céu
Olímpico.

Nasceu Homem, e não
Pássaro de Fogo.
Esta só no mundo,
Ninguém compreende
O Ícaro Bélico
Que carrega em si.