Monday, August 31, 2015

Primavera de flores mortas


As desilusões amontam-se no lugar de sonhos
De tempos de Primavera em flor
E não chegou o Inverno,
A primavera simplesmente ficou assim,
Triste com flores mortas. Antes um Inverso rigoroso
Que uma primavera com flores sem cor e sem força para desabrochar.

E as desilusões são assim,
Uma Primavera prometida que falhou
Porque chegou. Mas as memórias de outrora
Cheias de expectativas em flor
Antes desejar um Inverno austero
Do que uma flor que chora antes de nascer.

Antes sonhos queimados e chacinados à tua frente
Do que esta erva daninha que vai dando flores desfalecidas
E que não tens coragem de arrancar
Uma Primavera prometida que chega
Uma Primavera que cumpre a sua palavra
Uma expectativa que se vai desenlaçando 
Uma flor que nasce sem cor num campo cinzento
Sem a arte de capturar o momento.

As desilusões são isso,
Ossos que cresceram contigo mas de onde nunca nasceram asas
Enquanto anseias por voar.


Sunday, July 12, 2015

O vento do Sul

Desejo uma réstia de esperança no final de noite. E quando abro a janela à noite, encontro aquilo que curaria tantos vultos deambulantes: o vento fresco nocturno vindo do Sul refresca as velhas memórias para que não se percam nas areias do tempo.
E aqui, quando abro a janela, não há moralismos falaciosos. Nem tão-pouco o sentimento de que cumpri exigências alheias - para merecer a recompensa de ter sido bem comportado. Quando sinto a noite de Verão de textura absolutamente perfeita, o único dever que cumpri foi o meu e o mundo que se afogue nas suas pequenas regras, com a sua mesquinhez de quem lhe basta cumprir leizinhas para ser feliz e, depois, talvez viver (se for possível).
Quando abro a janela, toda a História cavalga no vento. A lua ilumina velhas lendas que nem lembro já o nome. Lá ao longe, sei que o mar espera nas entrelinhas da visão. A noite será tranquila na antevisão do dia de Praia, nesse jogo divino entre o amarelo e o azul.
E não há moralismos falaciosos num dia de Praia. Não há regras alheias para serem cumpridas. Há apenas uma imensa preguiça de quem é feliz numa noite fresca de Verão antes de um dia de praia. Não há moralismos falaciosos – há vida para viver, entre o azul do mar e o amarelo da areia, ou entre o céu e o sol. Há uma vida cheia de cor aqui, mesmo o Inverno, por vezes, chega a ter cores primaveris.

E uma réstia de esperança chega, cavalgando no vento vindo do Sul.

Friday, July 10, 2015

Conselhos em dias de Sol

Suspender o tempo em horas histéricas, eis um sonho comum. Controlar as batidas nervosas dos ponteiros de relógios alheios que sentimos no peito, sorrir como se sorri normalmente, como se fosse comum caminhar e sorrir. Como se fosse normal estar sempre bem disposto e não ter dias menos bons. Conquistar a normalidade, garantido uma anormalidade. Suspender o tempo porque a vida acha-se suspensa, embora os segundos se tornem minutos e um dia se perca, nas suas infinitas horas inúteis que vimos, lentamente, passar.
Eis um erro comum.
E para nada interessam receitas de vida alheia que te aconselham a fazer isto ou, então, antes aquilo. Dizem-te para seguires o teu coração, sempre, que é aí que se esconde a verdade última, tapada por interesses racionais. Mas não conhecem o teu coração, nem tão-pouco os seus infindáveis desejos e, indubitavelmente, fica-me a pergunta se continuará a ser uma escolha corajosa optar pelo medo, que tanto faz o coração bater mais depressa. Lugares comuns, como vês, revestidos de algo que brilha como ouro, mas que está muito longe de o ser. Oferecer essa hipótese, como sendo segura, o caminho do coração, é garantir a existência de um manual alheio, que no fim permite-te pensar que podes ser inocente na escolha que foi tua. Só seguiste o teu coração – como te disseram – nada de mal pode vir dai. E, assim, assumes que o teu coração é só mais um, igual a tantos outros. Talvez não devesses seguir o teu coração.
Eis uma ideia antagónica.

Não deverás seguir, talvez, coisa nenhuma. Deverás respirar de alívio, de consagração, de mérito, de desastre, de desgraça, de humilhação, de frustração, de degradação. Mas, para que o suspiro seja teu, não deverás seguir manuais alheios. Talvez fazer uma antologia com ideias perdidas, colando os retalhos com a tua própria interpretação, num abraço, tão perfeito quando possível, da objectividade com a subjectividade. Deverás saber que, muito provavelmente, estarás completamente só nesses dias, nessas épocas, em que a vida está suspensa e à espreita, mas as horas continuam a passar. E que muito além de ser bom ou mau, é, meramente, inevitável. Mas que terás os teus para celebrar a derrota ou a vitória porque, no final, importa acima de tudo que a vida não possa ser desprezada enquanto houver mais sentido para procurar do que meramente cumprir ordens baratas e alheias. A tua vida não deverá ser o cumprimento de um manual alheio que leste na diagonal.

Monday, June 22, 2015

Fanatismos das imposições alheias

Sei bem que não entendes e muito menos aceitas, mas como já te disse tantas vezes, até Deus eu dispensei para que a minha vida fosse de minha responsabilidade. Quero incorporar a dor e todas as suas variantes bem fundo na pele e, então, verás que o meu riso é o som do milagre da vida quando o mundo surgiu, ouvirás o desejo profundo de viver ou a paixão mais honesta. E tanto me faz, como te disse inúmeras vezes, o que quer que penses acerca desta vida que me mantém vivo  e que tanto te envergonha, uma suave blasfémia no teu ateísmo consentido por todas as piores razões. Tu, como crente fanático, não consegues aceitar algo que fuja ao modelo de vida que te garante a sustentabilidade.
Eu bem sei que desconheces todas as vezes que te enganei para poder, em paz, viver desta forma. Mas não te iludas que não foi por medo, apenas não me queria aborrecer. É como discursar eloquentemente para um surdo à espera de o comover e conquistar. Inútil e, de certa forma, insensível.  Para além disso, sempre fiz aquilo que me era mais importante. Por isso, diverti-me em prazeres alheios sem que vendesse, por um segundo que fosse, a minha ética. Se falhei? Mas quantas vezes!  Fiquei foi aqui, vivo, para (tentar) acertar na próxima vez. Porque aprendi que, muito provavelmente, haveria uma próxima vez e que estaria vivo para a contemplar.

Sei bem que lá bem no fundo, não consegues evitar odiar-me.  Porque sempre soube qual era o teu maior sonho, o teu desejo mais secreto, onde residia o sentido da tua vida, o preço alto que pagaste. Não, não o considero ridículo – não o considero de todo.  E quando olhas para mim, vês que pagaste demasiado e antecipadamente, vês que te burlaram como se fosses uma criança recentemente apresentada ao mundo.  Porque nesta vida que tanto odeias, que discorda atentadamente da tua, nesta vida que é uma blasfémia religiosa no teu ateísmo, eu estou aqui ainda, saudável e contigo, se verdadeiramente precisares. Eu não te odeio, não preciso. Já ousei dizer-te e mostrar-te que o contrário dessa tua ideia, que te é tão cara é, pelo menos, tão válida. E que não te odeio nem quero saber das tuas opiniões disformes. Blasfémia? Sim, eu sei. Verdadeiramente, não podia querer saber menos.

Friday, June 12, 2015

Mistério

No final de cada dia, perguntavam-me como é que eu gastava a minha vida. Dizia-lhes sempre a verdade, que uma mentira consciente é uma ilusão triste consentida. No meu mais profundo ateísmo, dizia-lhes que a vida não há-de ser só isto, mais do que perguntar se Deus existe, valeria a pena perguntar porque é que haverá de existir. Viver a vida pela vida, é difícil, sabes, e concorre a não ter propósito e é, precisamente aí, que reside todo o mistério, no porquê. Todos os teus heróis, todos os que ficaram conhecidos como diabos vestidos de homem, tornaram-se perigosos pelo seu propósito. Por isso, a vida há de ter sempre o seu objectivo e isso é que é misterioso. Mesmo sem Deus.
Mas nunca os consegui convencer, de nada. Mostravam-se sempre curiosos, talvez a espera de uma receita, talvez a espera de ocupar as horas num momento inoportuno. Mas também, que importa? A verdade é que tenho a minha própria filosofia de vida, que não é uma moral de vida, não é alheia e não diz respeito a mais ninguém.
E, no final do dia, acabava sempre por sentir a tua falta. Tinhas um propósito diferente, gosto de pensar que tinhas um objectivo diferente. A tua sobrevivência era visível no teu rosto como se fosse uma tatuagem, aprendi contigo o encanto de subsistir e sobreviver à vida, ser maior que eu porque haveria de ser maior que a desgraça. A miséria pode ser contingente se a vida tiver algum propósito, há essa esperança, uma janela aberta pode ser o começo de uma nova viagem.

No final de cada dia, perguntavam-me como é que vivia a minha vida. Como lhes hei de explicar? Sempre me fascinou o contraste. E entre as normais e discretas regras do dia-a-dia, eis que eu cruzava o tempo e sentia-me perfeitamente eu. Era esse o meu encanto, não ser apenas uma coisa, mas também o seu contraste. E, por isso, sinto-te a falta sem a sentir, aprendi a aprender. Então, esse é o meu encanto, da sobrevivência que não atinge o limite do desumano. Quando me perguntavam como gastava a minha vida, dizia-lhes sempre o mesmo: a viver. E elas não faziam a mínima ideia do que eu queria dizer com isso, porque era só conversa de ocasião e nunca pararam para ver o sol a por-se no horizonte marítimo. 

Wednesday, May 20, 2015

Alvorada


Já é quase madrugada e eu não
Consigo dormir. Estou dormente mas a alma
Não descansa. Talvez precise de um pouco de
Vida.
Talvez precise de mais qualquer coisa para então
Conseguir ter esse sono em que o
Sonho é perturbado com um optimismo infantil
De quem julga que a vida pode ser orientada
Por uma doce e terna fantasia.

Quando o Sol nascer a azáfama do dia-a-dia
Erguer-se-à e então tudo fará sentido
De uma forma oca.
Até as memórias que já esqueci que esqueci
Ser-me-ao perdoadas.
Mas pergunto,
No silêncio calcário da noite se alguma vez
O passado será capaz de se perdoar a si próprio.
Porque quando o Sol nascer
A tua memória fica escondida no manto veludo
Negro da noite e então
Não faz sentido recordar-te
Porque não há melancolia quando
Se cumpre uma rotina.

Já é quase madrugada e dormir parece-me
Estranho.
Quero manter-te com toda a vida que um dia tiveste -
há uma vida que se ausenta em mim.
E porque não te guardo saudade
Não me recordarei de ti
Quando o Sol nascer.

Mas é quase madrugada
E eu não consigo dormir
Porque por fazer sentido não significa que

A nostalgia não se faça surgir como uma outra voz da noite.

Saturday, April 04, 2015

Porque o vento é só o vento


A noite é tão silenciosa e por alguma razão, aleatoriamente, escolhi esta música. Sinto-te tanto a falta, ou talvez seja só o álcool. Preenchi-me de álcool para me preencher com qualquer coisa. Sinto-me sozinho e sinto-me bem, mas a noite é tão silenciosa e daqui a pouco é madrugada. Senti-me bem a noite inteira estando perfeitamente sozinho.
E depois não consegui evitar recordar todos aqueles dias em que estiveste aqui. A minha cabeça roda um pouco, tanto que gostaria de dizer, é da vodka. Tanto que gostaria que fosse absolutamente verdade. Mas tenho dúvidas e é tudo o que é necessário para que uma nova oportunidade surja. E esse é o problema das dúvidas, não é quebrarem, definitivamente, o dogma, é que garantem que tem de deixar de ser uma verdade inquestionável para poder manter-se uma verdade inquestionável. Fazem novas hipóteses surgir e então estamos desgraçados. Talvez te sinta mesmo a falta e cometa este pecado, de pelo menos agora, viver no passado porque lhe sinto a falta. E o talvez é a dúvida que é também o pecado capital. Mas já que bebi para sentir qualquer coisa e para a minha vida não ser só isto, aquilo que tanto quero, há uma hipótese de te sentir a falta e estar a cometer o pecado último: ter saudades do passado, inconsciente e irracionalmente. Mas que outra forma poderia ser? Provavelmente, a racionalidade do dia-a-dia é a salvaguarda que nos resta, a lógica verdadeira do sentir humano não nos interessa, se calhar é demasiado verdadeira e não estamos interessados em tamanha honestidade.
A noite é tão silenciosa… e quando estávamos, juntos, sentia o vento fresco e todo o universo doirar-me-ia na pele. Não me lembro de pensar em nada mais enquanto sentia isso. Daí a vodka, talvez, agora o vento seja só o vento, e isso é tudo o que quero. Porque é tudo o que existe. Mas, em noites silenciosas como esta, é tão pouco. E, porque bebi demasiado álcool, espero eu, tenho saudades desse tempo, em que o vento era também ele uma possibilidade. Uma que experimentei e que vivi, que me fez feliz e que depois me aborreceu. Conduziu-me até esta felicidade, calma e tranquila, mediada e humilde. Mas quis exceder-me porque não me excedia e, então, o álcool preencheu-me, nada mais havia para além do silêncio e, então, tive saudades desse tempo em que o vento falava de outras coisas, ilusórias e traiçoeiras, aborrecidas até, mas falava. Agora, o vento é só o vento, e eu sou feliz, mas não consigo não ter saudades.
Tuas? Pelo menos agora, tenho-as. Porque quando aqui estavas, o vento tinha, precisamente, a tua voz. Agora o vento é só o vento; alcancei aquilo que tanto queria, sinto-me perfeitamente bem, apenas porque aprendi, arduamente, o dom de aceitar que não há perfeição. E tenho saudades tuas, porque esta é a música que me lembra de ti. É tudo o que não fiz e tudo o que, possivelmente, devia ter-me inspirado e não inspirou, desconhecia-a completamente.

A noite é silenciosa e o tempo está dessincronizado de si próprio. Talvez por isso precisemos de contos com finais felizes. 

Wednesday, April 01, 2015

Queria dizer


Queria dizer que,
Poemas não se escrevem assim,
Como se fossem estátuas de ouro que esculpes
À procura de um reconhecimento
Demasiado correcto e forçado e ordeiro.
Queria dizer-te que poemas
Saem-te do coração
Fazem-te sangrar
Esventram-te
E doem-te para que possas,
Então,
Ser feliz quando voas sobre o deserto e encontras o oásis.
E já não há dor mas
Perfeição eterna quando sabes qual é a melodia,
E a encontras e a transformas para que se torne audível.

Queria dizer-te que não sabes escrever poemas
Porque os forças a sair da caneta.
E se tento escrever poemas
É porque não sou nenhum poeta.
Toda a tristeza do mundo bate no meu peito
E eu sinto-me só. O mundo inteiro
Não me consola porque se consola comigo.
Com a esperança de que saiba onde fica o oásis,
Ou que tenha a infantilidade de o querer procurar.

Queria dizer-te que os teus poemas
São rimas agradáveis
Que as gentes cantarolam
E que te fazem feliz.
Mas,
Não fazes ideia de que para escreveres poemas
Não podes ser poeta,
Tens de ser um pássaro, é o mundo inteiro que viste
As palavras – porque não? -

São só a tua maneira de voar.

Tuesday, March 24, 2015

A miséria do mundo e a vida

É um dia triste e, no entanto, a Primavera chegou. Há dias em que acordamos e a tragédia passeou-se pela nossa janela. O horror da vida, da aleatoriedade da morte, do destino que existe ou que não existe, mas que se vai cumprindo, ou descumprindo. Que interessa? Há dias assim, em que o Sol brilha e até aquece, mas o vento é terrível, o resquício do Inverno rigoroso e austero.
E, então, distraidamente, porque estava Sol mas o dia era triste, recordei-te. Nessa altura, os dias eram todos primaveris porque a vida era triste, talvez seja sempre esse o problema. Tínhamos uma corda ao pescoço, amávamos a vida. Viver a vida no limite para poder ter alguns momentos de felicidade. Talvez a juventude viva mais intensamente porque teme o envelhecimento, mas como não vê, correctamente, a morte no horizonte, dispensa a esperança. Eramos felizes? Tínhamos a corda ao pescoço, é preciso disciplina para viver intensamente cortando a corda. E por isso hoje o dia é triste apesar de o dia ser soalheiro.
 Hoje é um dia triste, precisamente porque o Sol brilha intensamente. Se chovesse drasticamente, talvez o dia não fosse tão triste, porque até o mundo gastava as suas lágrimas. E punia-nos, a todos, com a sua dor e se calhar encontrávamos aí a libertação da culpa, ou de um sofrimento surdo e alheio. Mas não. O dia soalheiro hoje é uma mera ironia crua. Brilha o Sol, sarcasticamente.

Nessa outra altura, em que eramos tristes e tínhamos uma corda ao pescoço, quando o Sol brilhava era de um brilho intenso. E nós bebíamos à vida, porque não a tínhamos. Um dia triste de Primavera onde a Primavera se ausenta. Cortámos a corda que tínhamos ao pescoço e hoje o dia é triste – conseguimos esperar pelo amanhã, de forma activa e não subversiva? Talvez o Sol esteja triste, à sua própria maneira, e nos console, com o resto pelo qual vale a pena viver.

Friday, January 09, 2015

Manifesto anti-idiotas

Não tem perdão aqueles que, por um medo envolvido num manto de ideias bonitas e extraordinariamente ilusórias, quebram a sua liberdade. E não têm perdão porque eles são livres de desejarem não o ser, mas ao fazerem isso, infelizmente, esses cobardes minam a minha liberdade. Porque não lhes posso dizer: cobardes, gozam de um certo tipo de liberdade para poderem abdicar dela. Mas não lhes posso dizer que é preciso ser livre para poder desejar não ser porque chamar-lhes cobardes os ofende. E eu não sou livre de os ofender.
Ainda que, todos os dias, essa atitude medíocre, medrosa, cobarde, digna da menos digna piedade, me retire liberdade.  Não posso dizer:seus cobardes da porcaria. Não me fica nada bem ofender e insultar, assim, os meus semelhantes. Portanto, não sou (completamente) livre de o fazer.
Não lhes posso dizer: pior que vos fecharem numa jaula como animais, seus idiotas, é vocês enfiarem-se nela e trancarem-se, para ficarem seguros. Não posso dizer isto. Não me fica nada bem.
Pois bem.
Hoje posso – e vou – fazer uso da liberdade que gozo e dizer a essas pessoas que são cobardes. E mais: são periogosas. Minam a liberdade de todos nós ao desejarem estarem seguros em vez de serem livres como se tal oposição fosse digna de existir. É um cliché, hoje, dizer-se que a minha liberdade termina quando começa a do outro. E pior: é unilateral. Na verdade, os cobardes que a proferem tem em mente algo deste tipo: eles são livres de escolherem uma cobardia vergonhosa e de a expressarem livremente e a minha liberdade termina quando os ofendo ou insulto ao chamar-lhes cobardes. Mas eles são livres de me ofenderem com a sua cobardia sem que lhes possa dizer, cobardes, todos os dias.

E, em nome da minha liberdade, digo, hoje: seus cobardes da porcaria, se vocês escolhem não ser livres, então a minha liberdade não termina quando a vossa começa, era preciso que fossem, de facto, livres, para se poder falar, de todo.

Friday, October 10, 2014

Magia

Alguém uma vez me disse : o problema dos contos de fada é que não são reais. Apanhei-me quase por imediato a pensar qual era o conto que era realista, não há nenhum. Não há nenhum livro, nenhum poema, nenhum quadro realistas. Não são o dia-a-dia. Isso não teria interesse. Algo há neles profundamente não realista - e é daí que advem todo o realismo plausível e encantador.

E então o amor falha, a vida falha, e até a esperança se torna num moribundo preso à vida por um fio de dor. Os amigos falham, os amantes falham, a Primavera falha, a sabedoria falha, o futuro falha, o dia melhor falha. Tudo falha. E tem de se começar de novo mas com os olhos já com essa visão, do gigante falhanço de todo o mundo.

Alguém uma vez me disse: gosto de contos com final feliz sobretudo quando são incrivelmente simples.


E toda a harmonia do Universo pareceu, calmamente, bater palmas. Como se a vida tivesse encontrado o seu lugar no mundo e ambos estivessem em paz em cada pedaço de coração. Subitamente, o mundo pareceu ter exactamente o tempo suficiente para cada homem celebrar a vida.

Viagens

Antigamente encontrava a felicidade na imprevisibilidade do destino. A cada instante o meu ser congratulava-se com a surpresa do inesperado. Todos os caminhos eram novos e eu nunca descansava.
Agora dou comigo a olhar o caminho e a pensar como quero ir para esse sitio para onde já me digiro. E é sempre uma novidade a sensação de regresso a casa.

Friday, October 03, 2014

Lendo Poemas de Sophia à beira-mar


Há uma vida cheia de sal,
Há uma vida aqui ao pé do mar
Que é tão azul aberto
Quanto o azul é azul.

Há, aqui, uma vida que
Quando chega ternamente o vento
Ouço nitidamente a tua voz.
Como vejo agora que o teu ser se encontra
Em paz plena
Todo o mar salgado e azul
Veio para te guardar e velar.

Há uma vida aqui,
Cheia de sal e cheia de azul,
Cheia de serena esperança
Há uma vida aqui
Cheia de paixões suaves
E de uma beleza pura cristalina.

Há uma vida aqui
E estando inteiramente só
Sinto-me lisonjeado
Por me fazeres companhia.

Ao pé do teu mar

Que eternizou o teu ser.

Sunday, August 10, 2014

Arrogância

É incrivel a arrogância humana, é incrível a minha própria arrogância. Não é uma arrogância plena e muito menos é uma arrogância consciente ou intencional. Não, é simples, é lógica, é simplista.
Vejo, hoje, que continuo a ser igualmente arrogante porque arrogante é o nome que dão à minha forma de ver o mundo. Não acredito que não precises da solidão quando queres pensar, a única forma de estar sempre junto de movimento contínuo é necessitar de ruído constante. E se precisas de ruído constante bem, então, empurras a tua própria voz para debaixo do pulmão ou não tens voz alguma para empurrar. És oco.  Mas eu tenho e ouço-a, é a minha vivência e a minha sobrevivência, como posso escolher não ouvir? Tenho de ter momentos em que o único ruído são as ondas do mar a rebentarem na areia. E dizes: mas estás só. Como te explicar que não estou? Nunca vais entender, porque não há ruido de fundo e não entendes que ruído não é música. Não entendes que por mais que me digas o que fazer eu tenho as minha própria vontade.
Mas como disse, é incrível a minha arrogância. É absolutamente incrível porque não é arrogância, só quero ter uma vida para viver como toda a gente. Só não a quero da mesma forma que toda a gente. Tenho os meus gestos, as minhas ideias, as minhas paixões, as minhas paranoias, as minhas qualidades, os meus sonhos e não as possibilidades dos outros, as manias dos outros, os amores dos outros, as idiotices dos outros, as oportunidades dos outros e as utopias dos outros. E não os consigo vestir.
Também não consegui vestir os teus embora tenha ficado com algumas das tuas utopias. Espero viver e acarinha-las o suficiente para conseguir antever como se abre a entrada para esse longo caminho.

Como já disse, é incrível a tua arrogância. 

Tuesday, August 05, 2014

Carta de despedida

A minha vida não te interessa e, consequentemente, eu não te interesso. Não faças essa cara que sei que fazes, não podia ter menos interesse, em ti, também. É só a despedida, convém dizer o adeus quando é tempo. Sei bem que dizes ter pena de mim e sei bem que tenho pena nenhuma de ti. Como não tenho pena de mim mas sei que me falta um pedaço de coração. Porque devia lamentar por ti.
Sei que disse que te amava e que teria essa vida e que cruzaria o mundo por ti e contigo. Sei que se te não escrevi poemas é porque não sei escrever poemas. Sei que prometi que estaria sempre lá, sempre aqui, sempre contigo, onde quer que fosses. Sei que prometi o meu ombro e o meu abraço quando precisasses e quando não precisasses. Sei que te prometi o meu tempo. Sei que te prometi o meu amor mas não to dei inteiramente.
E tu sabes que me cansei das minhas promessas. Como dizer? Perdi o amor. Houve um momento em que, quanto mais te dava, menos te queria dar. Como se me sugasses a vida, a minha vida. Não existia para ti. Não te queria contemplar, não tinhas assim tanta beleza. O teu sorriso começou a cansar-me, o teu ser começou a ser enfadonho. Tu tornaste-te aborrecida. Mas eras exactamente a mesma pessoa, dizes. Talvez tivesse sido esse o problema. Não sei e não tenho interesse.
Sei que te prometi e sei que por vezes  cumpri. Sei que durante algum tempo cumpri e que tu eras feliz. Eu também fui. A minha vida agora não te interessa, não é uma vida em que possa parar para ficar a contemplar o teu ser. O teu enfadonho ser. Tenho tanto mais que fazer. Não há lugar para mim aí, não sou um contemplador. E, obviamente, rejeito o lugar que tinhas para mim sem hesitar em hesitar.
Tem pena de mim à vontade. Ate, porque lá bem no fundo consigo reconhecer, que algures essa pena de mim teve um outro nome. Sei que me quiseste de volta. Mas a minha vida não tem interesse por ti. Nada tens a dar. E nada há que te queira dar.

Quase te odeio por me teres feito perder tempo. 

Thursday, July 31, 2014

Infância

Antigamente os ossos eram pequenos
E acreditávamos que ainda nos podiam nascer asas.
Agora,
De mãos dadas com o tempo sabemos
Que as asas não crescem assim
Como uma planta não chega ao céu.

Antigamente,
Os dias na praia eram eternos,
E o mar era infinito
Como era o futuro e as horas e as pequenas brincadeiras.
Quanto mais tempo passava,
Mais tempo parecíamos ter.

E, hoje,
sabemos
Que há fantasias que não se cumprem
E que há sonhos que ficaram presos aos grãos de areia.
E que as horas talvez sejam mutáveis.
(Quanto menos tempo temos,
Menos parece que conseguimos inventar
E mais tempo nos sobra para o tempo que não encontramos.)

Mas temos as nossas memórias
E temos as nossas mãos
Que juntas envelhecem com o tempo.
E temos as nossas asas e os nossos sonhos
Que ficaram guardados
Nessa planta que cresceu até o céu.

Mas temo-nos a nós:
E isso incrivelmente basta
Para sabermos que temos uma vida

E que uma vida se cumpre em nós.

Tuesday, July 29, 2014

D. Quixote ao Espelho



Contra gigantes reais,
Feitos de moinhos ilusórios,
A honra iluminava-te o peito num mundo onde a honra é tão
Esquisita
e desadequada
e estrangeira
Como um gigante dos tempos antigos.

Contra gigantes ilusórios
Que assentam em moinhos comuns.
Tão patética que é a honra!
Tão pobre e tão gasta
 e tão triste…
Troçam as pessoas  dizem que esta é a pior loucura
Só um tolo quer salvaguardar aquilo que já foi extinto.
E têm pena sem compaixão alguma.

A pior loucura,
A pior loucura,
Caminhar num mundo onde todos os moinhos são
Apenas ruínas de outros moinhos
Assentes em outras quaisquer ruínas.
Simplesmente.

(É um mundo que não sabe imaginar
E que se alimenta de um real ilusório,
Iludido sobre si próprio,
Combate activamente o seu gigante
Sem se dar conta que é um moinho.
E ri e troça de si próprio sem o saber.
A pior loucura.
Afinal é essa.

E sentes repugnância sem compaixão alguma.)

Saturday, July 26, 2014

All the right...

Como dizer-te que, simplesmente, não há mais nada que deseje? Mais nada para ver ou para ouvir. Simplesmente, como dizer, simplesmente não quero mais.
Como dizer-te que todas as Primaveras trazem flores mas que, se olhares com atenção, cada Primavera traz as suas próprias flores. Cada uma delas cumpre o seu destino, o seu ciclo e depois morre. Dá lugar a outra. E é tudo: mais são justificações que te fazem sentir melhor. Tem de haver um porquê para não pesar tanto a dureza simples da verdade. Para a culpa estar no outro. Para, para, para… mas nenhum porque interessa.
Mas, simplesmente, como dizer-te? É tão simples que faltam as palavras. É tão simples que não basta o silêncio. Podes pensar o que desejares, mentir-te para ampares a ilusão, construir um denso castelo de fósforos envelhecidos. Tanto me dá. Simplesmente, não te quero mais.

Simplesmente é outra vida no mesmo mundo, outros olhos no mesmo rosto. Já não te quero mais. Sem ressentimento e sem argumentos circulares: apenas, já não te quero mais. Para contrariar isto teria de arranjar outra pele, esta não muda de textura.

Inspirado em All the Right Friends de REM

Wednesday, July 16, 2014

Música


O dia é soalheiro. Incrivelmente iluminado. Mas há um nevoeiro escondido algures, a alegria das pessoas num dia de Verão aberto soa como uma nota límpida desafinada. Há um nevoeiro escondido aí algures, não o ouves? Talvez já tenhas nascido nessa surdez em surdina que ouve e ouve e ouve mas todos os sons te soam iguais enquanto os distingues perfeitamente. O brilhantismo da ausência de beleza nos olhos.
O dia é soalheiro. Incrivelmente iluminado. Mas estou aqui, sozinho, e penso. Mas não sei em quê, tudo é difuso de forma perfeitamente ordenado. O princípio, o meio. Claro, o fim. Trágico, dramático. Não, não para mim. Expectável, preparado em cada instante a seguir ao clímax. Há que respeitar a música, sempre respeitei a melodia de minha alma, talvez não tenhas tu respeitado a sincronia entre essa música, a única música, e o tempo. O seu tempo, o teu tempo, o nosso tempo (mas talvez não o meu tempo). Que importa? Penso. Não importa. Mas recordo, recordo, o teu último olhar. Tomara eu ter tido palavras para te dizer. O teu olhar pedia-me esse som, esse maravilhoso som, o da voz humana. A comunicação. Gostava de ter dito que a justiça é uma coisa humana, não existe assim, livremente no mundo. E nem sempre tem esse som, da recompensa. Houve justiça para mim – fazer o que me incumbido, cumprir o dever, seguir o meu propósito. O dia é soalheiro mas há uma sombra de nevoeiro que é preciso uma pele específica para captar, não é? Sei isso porque fui eu que pus a mochila às costas para rodar o mundo na palma da mão. Talvez tenha uma mancha de neblina nos olhos.
O dia é soalheiro. Estupidamente iluminado. Aqui, sozinho, revejo o teu rosto. E contorce-se a alma despreocupada num coração intacto em toda a sua imobilidade. Há Sol por todo o lado – mas eu gosto da melodia do piano num dia de chuva. Que importa? Já chegou ao fim.
Que importa? Não penso. Há música em todo o lado, em cada poro, em cada festa, em cada instante de silêncio, em cada sorriso e em cada bocejo. Só não havia música em ti. O dia é soalheiro, incrivelmente soalheiro.

E, eis que, finalmente, a música termina. E a tua memória ressoa na última nota que atrasa o derradeiro final.

(Inspirado no conto Música de Vladimir Nabokov)

Tuesday, July 15, 2014

Havia um poema

Havia um poema
Escondido nos confins do mundo.
Havia um poema em cada rua,
Em cada esquina,
Em cada sombra,
Havia um poema,
Com o som do mistério
E a cor do destino.

Havia um poema
Que tinha essa melodia,
Do teu sorriso.
Havia um poema,
Enterrado numa praia alheia,
Havia um poema.
Mas não o ouviste
E ele desfez-se nas ondas do mar.

Havia um poema à tua espera,
Em cada esquina,
Em cada sombra,
Em cada rua,
Mas esqueceste a melodia do sonho
E a realidade do banal dia-a-dia
Roubou-te o poema
Da poesia do teu ser.

Mas havia um poema,
Talvez ainda persista,
Talvez ainda se ouça,
Entre as brilhantes ondas do mar.
Havia um poema,
Talvez o único silêncio
Seja o teu,
Nesse teu dia-a-dia

Sem poesia.