"Fairy tales are more than true. Not because they tell us dragons exist but because they tell us that dragons can be beaten."
Neil Gainman, in Coraline.
Wednesday, June 04, 2014
Wednesday, March 26, 2014
Daemon
Sempre senti uma tentação de entregar minha alma nas mãos no
Diabo por isso, talvez, escreva. Recorda-me de que a mantenho comigo.
E penso e penso e penso e escrevo, não sobre o que pensei,
mas sobre essa tentação, de viver os suplícios do prazer de não ter uma alma
para cuidar. Conheço-me há tanto tempo quanto conheço o mundo e, no entanto, momentos
há em que ele me fascina. É o esgar de um sorriso que ficou para sorrir, não
ceder à tentação, a essa tentação. Mas o
mundo perdia o seu fascínio porque eu perdia a minha alma (e para quê?)
E penso e penso e penso… mas sem pensar que a escrita é uma
metáfora musical.
Monday, March 24, 2014
Ne me quitte pas
Procuro uma despedida sem fim para que não me despeça nunca.
Mas um dia haverá, um dia haverá, que não poderei despedir-me. Nunca mais.
Procuro despedir-me todos os dias para ter a certeza que me
despedi, que te disse quão pesada será a tua ausência para mim. Procuro
orientar o meu afecto enquanto ainda tem um correlato no mundo.Procuro
despedir-me a cada momento porque o coração é frágil, sempre frágil, sempre
fraco. Nunca cresce para uma compreensão
exacta profunda.
Procuro despedir-me para me perdoares das minhas culpas. So
soube ser eu ( só sei ser eu). Sentir-te-ei a falta, culpo-me de todos os
instantes em que tinha algo de mais importante para fazer. De todas as minhas
zangas, de todas as tuas. Sentir-te-ei
tanto a falta que, qualquer instante de dissonância, é um instante de morte.
Por isso despeço-me, para que me perdoes e fiques. Mais um pouco e mais
pouco...
Mas já me despedi e tudo o que tinha para dizer já disse. Já
confessei o meu mais fundo afecto numa só palavra. Que é a única que pode ser
dita, a única com verdadeiro sentido. A única que sintetiza o tudo e o
harmoniza.
Tudo o resto, é porque não quero despedir-me, despedindo-me
todos os dias. Culpo-me sem nenhum acréscimo de culpa, só quero que continues
mais um pouco, mais um pouco, mais um pouco...
Monday, February 24, 2014
Maria
Fiz aquele caminho, um que já tantas vezes fiz. Mas não com
aquele propósito, dantes procurava uma qualquer novidade crua , uma qualquer
encruzilhada que levaria a uma descoberta e, agora, procurava meramente uma
livraria. De tantas vezes que fiz aquele caminho, fi-lo sem o fazer, uma
mudança de perspectiva é, em certa medida, uma mudança de olhos (mas não da sua
cor).
Mas por ser aquele mesmo caminho, ou por estar a ouvir
aquela música, ou pelo céu deixar antever o Sol de Primavera que há de, enfim, chegar, dei por mim a
recordar-te. Sou homem feito, meu amor,
não vivo tranquilamente com coincidências, o caos é a desordem e eu atribuo ( e atribuo-me) sentido a cada
ínfimo instante; pensar em ti, fora do meu propósito, há de ter um.
E, talvez por isso, passei a sentir não esta Primavera que
está por vir mas essa que já passou e, a música, esta música, tornou-se em
aquela tua música, mesmo que nunca a tenhas ouvido. Abriu-se , com o Sol de
agora vindo de uma Primavera passada esse (aquele) único lugar em que te amo e
onde ouvimos esta música (mesmo que nunca a tenhamos conhecido antes). Abriu-se, no presente, uma fenda onde vi
distintamente o passado, esse único lugar onde te posso amar ,de onde esse amor
brota de meu peito. Abriu-se neste mesmo
espaço um outro e eu nem senti um mínimo vento de saudade tua , a Primavera
ainda está por chegar vinda de um passado que mal recordo.
Mas qual é o sentido de um amor onde o Amor já se ausenta há
tanto tempo? O tu a que me refiro é, em certa medida, abstracto. Nem é o teu tu
do meu passado nem o do presente , que aqui não estás. Aliás este (aquele)
caminho é só mais uma rua que escolho entre tantas e, por mais que opte por
esta rua, não mais te vi. Não está já na esfera do meu sistema de desejo ou de
satisfação, o Sol que quer vencer o escuro do céu, já não te ilumina, já não é
o teu tempo.
É o tempo da música desta que eu ouço e que tu nunca
ouviste. É o tempo desta música , tem o teu nome à força de me recordar todas
as Primaveras. Apesar de não ser este o teu nome e as nossas Primaveras terem
sido – vejo agora – incompletas. Mas é o
tempo desta música que tem em si todos os nomes porque fala de todas as
Primaveras.
David Brubeckt Quartet, Maria, Versão Instrumental de Maria da Banda Sonora de West Side Story.
Tuesday, August 27, 2013
Silêncio
É um estranho mundo, meu amigo, demasiado estranho para essa
tua existência, fundamentada por uma ideia diferente, procuras os teus, os que
partilham a tua ideia enquanto eles procuram diferenciar-se de tudo o que os
rodeia até serem únicos e especiais. E sós, indefinidamente sós, são tão únicos
e são tão especiais que por mais que falem, ninguém os compreende.
Tu não estás só, tens os teus, tens consciência (e eles não),
às tantas o teu coração é esvaziado de significado e o deles não, porque não têm
consciência. E esperam de ti o impossível, tens contigo o batimento cardíaco,
pegam-te na mão como se fosses um messias por despertar, como se pudesses
salva-los da desgraça que são, porque é de ti que vem o pulsar da vida. Mas não
os consegues segurar, instantes há em que simplesmente, simplesmente, tens de
descansar e fechar os olhos, tens também uma vida para esventrar o propósito.
E olham-te, depois, quase com rancor, como se fosses egoísta.
Porque, de tempos a tempos, evidencias numa luz clara a tua escolha : tu. Aquilo
que eles não têm. Não podes permitir-te
essa surdez e deixar de ouvir o som de uma folha quando cai num secreto lago,
no silêncio pacífico do teu ser.
Thursday, August 01, 2013
Cose as tuas asas
Cose as tuas asas, pequeno anjo, que pior que cair, é não
tentar sentir o intenso azul do céu ou quão quente é o Sol. De que vale uma
vida sem desejos e sem sonhos?
Cose as tuas asas, é possível, ver-te trespassares o abismo,
é o meu sonho, sou um jovem velho Dédalo, pequeno anjo, não posso dar-te umas
novas asas, sonhar é eternamente ser-se frágil, porque somos efémeros,
mas cose tuas asas que ainda és pequeno, ainda te vela o tempo por vir. Esta é
a minha função, tentar que voes e que não tenhas medo do medo, pequeno anjo,
voar é viver a vida que te pertence.
Cose as tuas asas, pequeno anjo, que tens contigo a esperança
de muitos homens. A tua falha não os preocupa, a tua desistência é mais
corrosiva, porque se abandonares o sonho, quem é que voa por ti? Por isso, cose as tuas asas, pequenino anjo, que trazes
contigo o sonho e tenta voar. A esperança que depositam em ti ampara-te a
queda, pequeno anjo, porque é preciso que voes, para mostrares o caminho até ao
Sol. Se não voares nós ficamos sós, com o sonho quebrado a escorrer, inutilmente, por entre
as mãos.
Por isso, cose as tuas asas, meu pequeno anjo, que eu sou
Dédalo mas não sou Ícaro, não anseio voar, anseio que proves que sonhar torna a
vida possível.
Tuesday, June 25, 2013
A carta - um pequeno conto (Parte II)
Abriu o jornal despreocupadamente. Quando uma presença
feminina entrou na sala e se sentou calmamente no seu colo, sorriu como se todo
o mundo não importasse ( porque, de facto, não importava). Estava perfeitamente confortável ,
existencialmente cómodo na tranquilidade do excesso.
Os olhos dela pousaram na notícia do jornal. O rosto
contraído num choque momentâneo, na consciência de um qualquer horror que lhe
trespassou pela mente. Os olhos dele seguiram os dela e um esgar de profundo
terror tomou-lhe todo o ser. O corpo ficou preso ao vazio.
-Conheceste-a?
- Vagamente, apenas. – Mentiu, ele.
Tudo o resto ele não se lembra, perdeu qualquer consciência,
tudo era um turbilhão confuso que o engolia enquanto nada se mexia. A
imobilidade prendia-o. Tudo estava estático.
Ficou sentado durante muito tempo porque o tempo colapsou. Ouviu o
telefone, reconheceu a voz. Ouviu o choro compulsivo. Ouviu bem as palavras – a
culpa era dele, toda dele. Ele devia saber que a culpa era toda dele. Ela
jamais conduziria com aquela percentagem de álcool no sangue.
Ah! Ele sabia. Ela era uma pessoa bastante aborrecida no
dia-a-dia, sempre dentro das normas, movia-se sempre de forma perfeita. A única
desmedida era o sorriso, só quando sorria é que parecia libertar-se da
perfeição austera que se encontra no seguimento das regras cegamente.
Era sua culpa? Era mesmo?
O rosto contraiu-se num horror profundo e, parte dessa
expressão, acompanhou-o, tal qual uma sombra negra que consome a luz, até ao
fim. O sorriso dele foi indefinidamente, um sorriso fantasma, sem tempo
definido.
Ela olhava-o ansiosamente. A expressão do rosto dele era de
profundo choque. Os olhos estavam preso
às folhas de papel. Quando acabou, levantou-se e sentou-se a seu lado.
- Ainda não esta acabado! Falta algumas coisas sabes,
reformular. Bem tu sabes. – Ela esperava expectante a opinião dele. Parecia que
tinha visto um fantasma.
- É assim que acaba?
-É.
-Temos uma vida assim triste? – Perguntou.
-Não…- Considerou
aquela pergunta bastante estranha. – Porquê?
- É um final, bem. Triste. E duro. – Ele alivou o rosto. –
Então, não reflecte a nossa vida?
Ela riu muito alto.
- Eu escrevo histórias. É como ganho a vida. – Ele era tão
intencionalmente ingénuo. Recusava-se sempre a aceitar que o mundo era, por
vezes, um lugar cruel.
- Ele, a personagem masculina. É mau, de má índole?
- Não. É uma pessoa desfasada do mundo, habituou-se a
sobreviver por conta própria, manteve um mundo privado. Na sua vida sempre fora
das normas, habituou-se, bem, a encontrar um espaço dele. – Parou e reflectiu.
– Não, as intenções dele são honestamente boas, mas não se sincronizam com a
realidade. E o resultado é catastrófico.
- E ela?
-Que tem ela?
- Porque é que morre? Não precisava de morrer. – Parou. –Ou
precisava?
-Ela é uma pessoa comum.
As pessoas comuns não questionam o que é inquestionável porque procuram
uma vida sem dificuldades, sem grandes exigências. As pessoas comuns são comuns
porque seguem um modelo e é bem mais fácil seguir um do que criar um. A vida
está no obstáculo, no excesso do limite para se saber qual é , exactamente, o
limite.
Parou. Retomou, depois o pensamento.
- Só queria que as pessoas tomassem consciência que a morte
é o reflexo da vida. E há vários tipos de morte – a dela é definitiva porque é
metafórica. Na verdade, ela raramente viveu. Viver tem de valer a pena, tem de
ser merecido, tens de equilibrar o dever e o querer, entrelaça-los e encontrar
aí o teu ser. Em ti, não no mundo. Tens de defender a tua vida. A morte é
sempre, misteriosamente, a melhor maneira de abraçar a vida.
Ele ponderou o que ela disse.
- Não gostei.
Ela sorriu. – Eu sei.
- Prefiro desenhar prédios.
Ela riu muito alto.
– Eu sei.
A carta - um pequeno conto (Parte I)
“ Acordei com esta sensação
estranha de quem perdeu um sonho enquanto o sonhava e, no desenrolar
desse paradoxo, o imenso sol que se fazia brilhar no espaço, não conseguia
libertar a palavra anónima que estava enclausurada na garganta. Precisava de saber o nome para me libertar
dela.
Foi quando me lembrei de ti, naqueles dias de sol
equilibrados termicamente. Equilibrados existencialmente. Costumavas sorrir e todo o mundo se tornava
suportável. Eu sei – sei bastante bem – foi já há muito tempo, há anos, literalmente,
até. Depois de tanto tempo só agora é que, de facto, sei qual é a cor da tua
ausência. Acredita, não é mais estranho – ou perturbador – para ti do que é
para mim. Mas há uma verdade lógica que
se esconde neste aparente não sentido.
Por mais que , para ti, o meu comportamento seja sempre o
comportamento de um egoísta arrogante e egocêntrico, senhor da sua própria
vontade alheio às vontades circundantes, só não te quis oferecer o mundo porque
não o tinha e o amor nunca foi uma promessa vazia. Tem sempre, a meu ver, uma
fracção de honestidade cristalina , nunca pode ser uma palavra inócua.
Porque é que considerei por bem dizer-te, não sei
exactamente. Talvez a culpa e o
arrependimento, quando chegam à consciência, se tornem em factos difíceis de
sacudir da pele.
Quando reflecti, ponderei se não se relaciona sobre a minha independência
( arrogante, ainda me lembro da tua opinião) e da minha insistência em querer
segurar a miséria do mundo. Queria torna-lo num lugar mais suportável, melhor,
mais equilibrado. A ideia dominava todo o meu ser, ofereci o sangue, em
instância ultima, para que a utopia se movesse um milímetro para mais perto da
realidade. Anulava-me , sabes, num
momento último. Procurava construir um mundo que, no limiar da sua perfeição,
eu não podia fazer parte. É este o tamanho do meu ideal, o sacrifício não me
custa, é honesto e é verdadeiro. É a minha intenção.
Apercebi-me, porém, hoje, que falhei em tornar o teu mundo
suportável. Tenho consciência absoluta que não me esforcei o suficiente e, para
ti, não me esforcei de todo, é uma mesma coisa. Lamento, profunda e honestamente, ter anulado
o teu sorriso ainda que tenha sido por breves instantes, apenas. Tive a minha legitimidade, é certo, as tuas
acusações à minha pessoa passeavam-se entre o insulto grave , uma tentativa de
me enquadrar num mundo que não era o meu e o absurdo que fica quando segues
normas cegamente. Mas , sinceramente,
pouco me importa que erros cometeste : perdeste o teu sorriso sob o meu toque
enquanto eu perdia qualquer coisa que já tinha perdido antes. Quando tomaste
consciência da tua perda, a minha era já um fantasma disperso. Não me fez
grande diferença porque nunca gostei de bússolas, estar perdido é a minha forma
de orientação.
Não! Não julgues que procuro que me desculpes e, muito
menos, que me perdoes. Os teus erros e os meus erros são equivalentes, às
tantas, o amor apenas dissipou-se e , a seguir, cessou. Queria apenas pronunciar o indizível para que
nenhum som oblíquo nascesse desse espaço-tempo paralelo que é o “se”. Não gosto
do “se” – é uma ilusão que entrelaças com a realidade sem qualquer hipótese de
se prolongar. Sabes bem qual a minha posição em relação aos teus “ses”.
Queria apenas
pronunciar as palavras certas, cada uma no seu lugar – estas são tuas. Apercebi-me
, simplesmente, que nunca me tinha despedido de ti. Por isso – adeus. Sem
nenhum se.”
Puxou a tampa do portátil para baixo e fechou os olhos. Há quanto tempo não lembrava esta sensação de quente e frio simultâneos e
dispersos que ele deixava como meio-ambiente. Era o seu perfume esta
instabilidade em constante vertigem.
Por baixo da carta que lhe enviara, estavam duas frases de
Pablo Neruda. Ele e Neruda! Nunca compreendeu o que é Neruda tinha de tão
especial para ele – um poeta, há tantos! Nunca compreendeu os poemas de Neruda.
Odiava profundamente Neruda, odiava-o agora ainda mais. Só o nome – NE-RÚ-DA –
dava-lhe náuseas. Já ele, ah! Ele
compreendia Neruda , o ser dele era o poema. Oh, que contradição se instalou no
seu peito!
Abriu o portátil, sem reler o e-mail, clicou no “responder”.
Nenhuma palavra lhe saiu , o que fazia sentido, ele é que de vez em quando,
publicava certos contos. Nunca entendeu. Não era o trabalho dele, era um
hobbie. Um hobbie que lhe importava mais que o trabalho. Porque fazia ele isto?
Levantou-se para procurar refugio na garrafa de vodka. Porque a tinha deixado. Porquê, mas porquê?
Era tão – feliz! Que lhe iria dizer? Levou a garrafa aos lábios. Passado algum
tempo, ganhou a coragem para lhe fazer a pergunta silenciosa que lhe morava
debaixo da pele. A resposta dele foi relativamente rápida. Um Não seco seguido de uma série de
explicações. Ele e a persistência irritante de que , se se compreender as
razões, a dor atenua. A dela não atenuava em nada, era irracional, era
inconsciente. Mas leu à mesma, numa esperança mórbida.
Não porque não tinha resultado. Não porque não a amava,
amou-a ( a dureza da precisão de um passado que não se alongou no presente).
Não porque ele gostava de Neruda ( esta, esta ela percebia no seu
não-entendimento, era um porque que sintetizava tudo). Não porque amava outra.
E era feliz. Acordou com um nome anónimo
na garganta, queria pronuncia-lo para se libertar. Era tudo.
Ele e a sua vontade de explicar tudo, de curar a dor através
da brutalidade da consciência de que ela existe e que não vale a pena fugir.
Ele e a insistência em aniquilar e extinguir todos os fantasmas. Contudo,
enquanto o peito contraia, ela apercebia-se que a morte do fantasma dele, fez o
dela renascer. A rejeição, a sensação de não chegar, de não ser suficiente, ter
que enfrentar o mundo no dia a seguir. A ausência dele, ah amava-o ainda, não
sabia não o amar. ( Amava-o, mesmo?). Lembrou-se do rosto dele, tão belo e tão
distraído, todo o ser dele, composto e desajeitado, sempre alheado do resto da
realidade, estando sempre consciente do que o circundava. De tudo, o que mais
lhe doía, era a ligeira doçura presente nas entrelinhas dele. Ela era uma boa
memoria que já nada lhe dizia. Precisava de respirar, olhou a garrafa de vodka, já vazia. Ligou a uma
amiga. Não foi suficiente.Precisava de respirar. O perfume do meio-ambiente era
tóxico.
Wednesday, June 19, 2013
Porque
É uma leve injustiça cujo trago já conheces há tanto tempo
que te não rouba qualquer bem-estar. Há uma vaidade existencial equilibrada que
te vai orientando, nunca teus olhos procuram o que se esconde debaixo da terra,
sabes bem que teu coração pertence ao mar. É uma leve injustiça, sorris, já há
habito – e já foi pior. Uma pequena represália do tempo que é teu contemporâneo,
é uma pequena injustiça, à qual sobrevives, que outra hipótese tens? Teus
ouvidos seguem docemente o azul, esperas o juízo final, tens contas nenhumas a
ajustar, foste homem enquanto o soubeste ser, a forma como aceitas o castigo
consiste na não-punição.
E que importa o mundo e as suas mesquinhices e os seus
assuntos aborrecidos? Teu coração pertence ao mar, teus ouvidos seguem o azul, teu
pensamento procura a disciplina para que teu ser possa gozar com fartura não
ser mais corpo opaco ao sabor de uma corrente qualquer. Fechas os olhos e vês melhor, apagas a luz
para que a verdadeira luz irrompa do vazio, sentes-te no mundo , garantes um
lugar à força de existires tranquilamente contigo. Até sabes porque é
complicada a tua razão para com o mundo, até sabes quais são as queixas, mas
que importa? Sorris e reafirmas – és
feliz enquanto o mar te guardar o coração com ternura, enquanto o azul te
iluminar o caminho. Tudo resto é irrelevante – é uma grande justiça que trazes
contigo, quando manténs uma honesta espinha que jamais se dobra. Não está à
venda o ser que é teu – e isso é justiça.
“Porque tu vais de mãos
dadas com os perigos, e eles vão à sombra dos abirgos, Porque eles calculam mas
tu não.”
Inspirado em Porque
de Sophia de Mello Breyner.
Sunday, June 16, 2013
O nascimento da Sonoridade Azul
Há algo na tua voz que me faz sonhar um mundo melhor, onde a
tua sonoridade não seja tão triste (porque não tem de ser tão triste). Tive,
claro, as minhas guerras com o mundo, as desilusões de uma ideia que não
conseguiu desabrochar. Mas mantive, acima de tudo, uma tensão comigo, entre o
queria ser, o que era e o que desejava ser, o mundo, o mundo funcionava apenas
como reflexo do meu próprio espírito. A guerra contra o mundo sempre foi uma
batalha dentro de mim. Sobrevivi, como vês, porque fechei os olhos para ouvir a minha
própria voz, esquecida no turbilhão do ruído do mundo. Fechei os olhos para ver
melhor o nascimento da cor e, encontrei nesse instante, o som de onde brotou
todo o mundo. Há algo na tua voz que me lembra o meu ser, que ao defender uma perspectiva
vitalista, se esqueceu do drama inerente a uma existência vital. É a tristeza
da tua voz que me faz querer dar-te o Belo, porque é por sua mão que a
realidade ganha uma nova vida, destinada a ser vivida por um novo tempo.
Tiveste, claro, as tuas guerras, as tuas lutas contra um
mundo que não te guarda lugar. Nada guarda lugar nada, nada dá lugar a nada,
tudo é efémero, tudo anseia por algo que não sabe bem o que é. E, há algo na tua voz, que me relembra o
retorno ao uno, ao inicio, ao nascimento do tudo que é um pequeno e minúsculo
detalhe. E isso, isso faz-me sonhar um mundo melhor onde uma onda de azul te inunde
os olhos, demonstrando-te assim, que há sempre tempo se o tempo existir em ti.
Como sempre existiu em mim, não sou um díspar fragmento mundano (e por isso,
sou feliz).
Sunday, March 17, 2013
Não temos tempo para ouvir música
Não temos tempo, não temos tempo para nos sentarmos, quietos
e calmos, a ouvir tranquilamente a melodia dar luz às trevas. Não temos tempo
de ouvir a violência de uma trompa que rompe e se sobrepõe a tudo o resto. Não
temos tempo para ouvir e ouvimos durante todo o dia, conversas vazias, o ruídos
urbano. Ouvimos, ouvimos sem ouvir e propagamos a ideia de que ouvimos como se
bastasse apenas uma orelha programada com certas características biológicas
para ouvir. Não ouvimos, não temos tempo.
Nem nunca vamos ter, a efemeridade da vida humana inicia-se
na efemeridade com que o homem se trata a si mesmo. A hierarquização das
prioridades baseia-se na efemeridade, quase numa superficialidade, por isso não
ouvimos, mas gostamos de música e ela está em toda a parte. Não ouvimos mas não
sabemos viver sem musica, que mundo trágico seria esse , um mudo surdo!
Há sempre tempo para ouvir se nossa alma for isso, uma
animação de movimento de tempo, de contraste, de jogos temporais. Musica é
tempo – e, subitamente, não temos tempo para ela em todo o tempo que lhe
dedicamos.
Há sempre tempo para ouvir quando é uma questão de amor,
ouvimos contra vontade, ouvimos em resistência de salvaguarda de um eu que
deixa de importar. Ouvimos porque não conseguimos não ouvir. E, então, ficamos
quietos e calmos, a ouvir tranquilamente a melodia criar um espaço-tempo so
dela onde o impera o tempo musical, finito na infinitude.
Wednesday, March 13, 2013
Apelo à Arte
Isto é bastante simples e peca, talvez, pela sua
simplicidade. De facto, algumas coisas devem ser encaradas com uma crescente
complexidade, à medida que outras perguntas se instalam teimosamente como a
chuva miúda num dia de Sol. Perdoar-me-às, espero, a linearidade da minha
tentativa de construção de um raciocínio, elaboro-o apenas enquanto homem que
vive neste mundo, que é orientado por este mundo. Nada mais. Preocupa-me o
desfasamento do simples, honestamente, preocupa-me: se desconstróis e esventras
e complexificas o simples, onde encontras a origem? Se não houver uma pequena célula
que evolui, onde está o Homem? É verdade – dizes-me, oiço-te na razão que te
reveste o argumento – é este o meu trabalho, formei-me em pensamento, o meu
treino é a problematização do mundo e, assim, eu melhor do que ninguém deveria
saber a necessidade de compreender toda a densa rede que sustem os homens na
sua sociedade, em perceber que não há nada que seja simples. Não há –
certamente – nada que o homem não consiga complicar, não é o mesmo que dizer
que não existe o simples. É óbvio que, se existe o complicado e o complexo e o
denso, existem em confronto com os seus opostos . O simples existe, nem que
seja numa insistência humana de o sonhar. Há que ter em atenção porque o faz.
Não, não. Não desconstruas mais essa doce simplicidade. Não
questiones demasiado a beleza, deixa-a existir. Precisamos dela, somos homens,
somos ser sofridos com a garantia que o sofrimento dura tanto tempo quanto a
nossa efémera e pequena vida, a morte é tão maior que nós. Deixa-nos a beleza,
o rasgar da luz nas paredes e no coração, deixa-nos ter essa fracção de
felicidade de existência. A vida é algo que merece ser vivida pela beleza,
esforças-te pela beleza, para a continuares a contemplar, para sentires
qualquer coisa de alguma forma. Mesmo o horror – esse começo duro da consciência
de existência- e o choque e o horrível que causam essa desagradável sensação de
te desfazerem as entranhas, que te angustiam numa mudez esquisita em que te é
permitido falar, não tens é palavras adequadas à experiência são necessários (é
assim que reconheces a beleza quando te deparas com ela).
Por isso, perdoa-me a linearidade e a persistência nessa
mesma linearidade. Não é enquanto homem treinado para te falar sobre os
problemas da sociedade, os confrontos de classes, a luta do poder pelo poder e
a luta da memória e dos esquecidos e todos esses elementos que me preocupam o espírito
(mas parece-me ser relativamente fácil ganhar a vida com eles, hipócrita ironia
que se tende, por vezes, a instalar. Parece-me, parece-me). É enquanto homem
absolutamente comum que te falo : precisamos de harmonia, da crença numa
possibilidade de um Estado perfeito , se não procurarmos uma força invisível que
imponha a ordem melódica no mundo, que das profundezas negras da Terra, seja
capaz de tornar soalheiro um dia cinzento, porque continuamos aqui? Se não for
por um momento de beleza em que a tua existência é tão bela quanto essa sensação
de preenchimento que sentes quando vês o teu quadro preferido ou ouves aquela música
que a tua alma esfomeada por um cheiro qualquer exigiu, para que é que existes?
Preocupa-me que destruas isto tudo sem teres grandes
reservas nas consequências. Porque – ouve-me- tudo envelhece. Até a arte, se não
a renovares, no sublime e no horrivel, envelhece e gasta-se.
E sem Arte, o que é Homem?
Sunday, February 17, 2013
Carta a um Amigo Perdido
Já alguma vez pensaste na forma como o tempo te trespassa? Que
o tempo passa, sabemos, intrinsecamente, sabemos, projectamos essa ideia de fim
em cada instante. Esventramos cada alegria , sobrevivemos a cada dor, é a ideia
do fim que sempre já sabemos. Mas, como, como passa o tempo? Sempre me pareceu
que acalentavas a ilusão de que és tu que caminhas sobre ele, que o orienta,
ah, como é uma ilusão.
Não me ouves, é certo, já não me ouves há já tanto tempo. Particularidades
da vida, ínfimos instantes em que tudo se desagrega e nasce o novo dia, tão
diferente e tão igual ao anterior. Vivemos ocupados, meu amigo, atarefados com
o quotidiano a que somos impelidos a sobreviver em cada segundo. Queixamo-nos
da crueldade alheia, da frieza do mundo e somos, insistentemente, parte dela,
mais por pequenos incidentes, curiosos mal-entendidos do que por uma grande
desavença. Podemos tentar depois recuperar esse trilho passado perdido, até
podemos, eventualmente, recuperar de facto algo. Mas aquele momento de perda
foi uma perda em si, nada a fazer, meu amigo, sempre preferi um pedaço, ainda
que quase invisível, de dignidade do que uma total entrega ao desespero humano
num descontrolo suspensivo. O que se perdeu está perdido.
Foi assim que o tempo nos prespassou, uma pequena desavença
sem discussão, apenas a vida a actuar sobre nós, a distância daquilo que
desfoca e, o que havia de comum, ou deixa de importar ou desvanece. Fomos
amigos, éramos amigos, que diferença perpetua aqui? Seja o que for, já não o
somos e nem sequer houve uma discussão, passaram os anos, segui uma vida,
seguiste nenhuma e duvido que tenhas essa consciência. Tanto tempo já que não me
ouves, fomos os dois jovens, tinhas toda a potência da juventude quando o teu
corpo era tão jovem quanto a tua mente, quanto a tua aspiração de rebelde
liberdade mas, que farás tu, quando o teu corpo envelhecer e te sobrar apenas
essa sublime ideia ilusória?
Perguntaram-me porque escrevi o livro, sobre o que escrevi o
livro. A ideia surgiu-me quando passei pelo sitio onde costumávamos beber à
noite, jovens a tentar que o mundo lhes prestasse a devida atenção. Passei la
com minha mulher, pelo mesmo sitio, estavam lá jovens, como tu e eu uma vez
fomos, mas um qualquer desencanto ambientava aquele lugar. Tudo estava com
aspecto de abandono, podre e velho, gasto e sujo, talvez tenha ficado demasiado
tempo sem ir lá, talvez tenha sido de meus olhos. Foi lá que fui tão jovem
quanto a minha juventude; agora, tenho apenas a juventude que prevê e evita a
morte, a vida simples de um homem comum que vive o melhor que pode, o melhor
que sabe. Ia jurar que te vi lá, o rosto jovem cheio de rugas,os gestos juvenis
pesados da idade. Foi assim que me lembrei do livro, mais um da minha lista,
foi isso que fiz com a inutilidade da minha juventude com a qual mantenho um
intenso carinho. Que fizeste tu? Perguntei-me, perguntei-me… Já perdemos o
contacto há tanto tempo que apenas escrevi o livro. Sobre ti, sobre mim, sobre
a juventude. Sobre a morte. Foi um sucesso ou, pelo menos, dizem que foi,
deram-me os parabéns, dizem que gostaram, palavras vãs (e isto é um grande
eufemismo. )
Já alguma vez pensaste em como o tempo passou por nós? E o
que fizemos com isso? Éramos amigos, julgo que seja o tempo correcto, éramos e
a vida, essa misteriosa incógnita interferiu, somos hoje dois desconhecidos. As
pessoas – esses animais a fingirem ser civilizados – dizem-me que sou dramático,
que penso demais, que me entristeço demais. Para mim, porém, há uma infinita
tristeza nisto, a mudança de um quadro, lembra-me um filme com um inicio
maravilhoso e contagiante na felicidade que propaga e que, de forma e lógica e
cheia de sentido, nem sequer termina mal – termina como termina a vida, somos
todos homens e ser homem é ser falível.
Quis te enviar esta carta, honestamente, pouco me importa se
a lês, apenas quis escrever-te, a ti, ao meu amigo de juventude que deixei
exactamente no mesmo ponto em que o conheci. Quando decidi abraçar a
responsabilidade de viver sabendo, inconscientemente, que dificilmente terias a
mesma ideia. E porque éramos amigos, de alguma forma, se-lo-emos sempre.
É assim que o tempo passa por mim, é esse o seu como.
Tuesday, January 22, 2013
Grunge
Uma certa tranquilidade já se entranhou de tal modo na pele
dele que ouve o silêncio profundo da noite em cada ruído clandestino. Ligou o rádio como quem se prepara para
abraçar uma qualquer estranheza da existência e a música invadiu-lhe o ouvido. Havias
de gostar dessa música, ou secalhar gostavas , ele é que já não se lembra,
perdeu-te no instante preciso em que seguiu um outro trilho. E nada ficou senão
a memória de um quotidiano que perdeu até o sentido de não ter sentido.
Lembrou aquela noite como se guardasse uma antiga saudade de
querer ser um outro eu, se foi ele que se sentou, contigo, naquelas escadas
alheias, é irrelavante porque já o não é há demasiado tempo. Toda a juventude,
toda a rebeldia, toda a ilusória liberdade gasta num esgar temporal ; todo o
teu ser gasto naquela noite, o apogeu do amor coincidiu com o declínio. Ele
sabe, pergunta-se se o sabes também, tentaram os dois viver só daquela noite,
repeti-la, orientar a vida nessa frágil direcção. Tinham um atraso que não conseguiram
diminuir e a referência, estava ela propria, consumida pela ansiedade de se
sincronizar no tempo certo.
Havias de gostar desta música, consegue ouvi-la com nítida clareza na memória
que tem daquela noite; se houve alturas em que te amou com toda a força da
existência, foi aí. O mundo parecia
poder tornar-se perfeito porque ele estava profundamente desfasado de tudo que
te descontextualizasse.
Havias de gostar desta música, pertence a uma geração que se
colapsou no mesmo ponto que surgiu. Ao expelir os demónios, perdeu-se com eles.E
ele pertencia à geração seguinte. Deu ao silêncio uma cor musical mas gastou o
amor naquela mesma noite e acordou na manhã seguinte do tempo por vir.
Monday, October 29, 2012
Contestação
Nasceu com uma fixa ideia presa ao peito, demorou incontáveis
minutos a conseguir formalizá-la e outros tantos a compreende-la. E pegou no
mundo enquanto o percorria pelos dedos e perguntou : de onde vem o homem
decente, o homem iluminado, o homem com olhar focado nessa coisa estranha que é
a noção de existência? Em tanto sitio que deixou esta pergunta
gravada nas calçadas e a resposta foi sempre igual. Ninguem se importava de
onde vinha o Génio. Uns disseram-lhe que era biológico, hereditário, outros que
era contextual, social, vinha conforme a interacção com o mundo; havia ainda
aqueles que diziam que não existe isso de Génio, toda a sociedade era uma
construção, todos eram génios. Mas ele continuava a perguntar : de onde vem o
Homem, o que tem a concepção dos outros,
o que tem uma diferente e importante perspectiva? De onde vem aquele que faz a
diferença? Mas ninguem se importava com a pergunta dele, havia uma pesada
quantidade de teorias que justificavam tudo menos essa pergunta, de onde vem, não
de onde veem as caracteristicas que o distinguem.
Com o passar do tempo, olhou o mundo circundante e
deparou-se com esse homem bom, decente, tao humano quanto a humana mortalidade
que o torna tão débil , viu-se ao espelho. Perguntou-se de onde vinha. Respondeu
a si próprio : de lado nenhum porque podia ter vindo de qualquer lado. Por isso
é que era tão raro.
Friday, July 27, 2012
Crescer sem nunca ser adulto
Quando o espirito começa a ter consciência de que é jovem, a
sombra que marca a tua presença na rua é limpida, escorre pela calçada. Porque
em tantas opções terás de escolher uma, nem que experimentes esse obliquo
trilho de escolher opção nenhuma, escolheste uma das opções.
Mas, mas às tantas divides as oportunidades que tens e ficas
com aquelas que mais te agradam, vives umas, sonhas com a vivência de outras e
gastas assim os teus dias debaixo do Sol de um final de tarde de Verão
demasiado quente. E relembras, relembras minuciosamente aquele olhar, aquele
olhar naquele rosto que costumavas amar, a ausência de emoção na tua direcção,
a observação pormenorizada de cada um dos teus gestos. Erraste a opção e
sentaste-te feliz a vive-la, mas estava errada, relembras aquele olhar naquele
rosto que amaste e que deixaste de amar, seca uma parte do teu coração,
encontraste o limite do proprio Amor.
Quando o espirito começa a ter consciência de que tem de ser
credivel para o ego poder existir na sua maxima plenitude, os teus pensamentos
prendem-se nos imensos predios que te rodeiam, guardam-te memórias. Pedras,
cimento, betão e, mesmo assim, velam por ti as memórias que te pertencem. E
repensas, repensas, quantas opções erradas fizeste, amplamente intencionais em
todo o teu ser, quiseste faze-las Foste esse ego, não ha nenhum erro, houve
consequências desagradaveis. É tudo. Tornam-se os prédios apenas prédios,
largaste as tuas memórias no vento para teres novos erros. Porque o espirito
teve a mais nitida consciência de si proprio de que era possivel.
Thursday, July 26, 2012
"Adeus"
A arte sempre foi dele, esvazia o conteúdo das palavras na
sua escrita persuasiva, oferece ao piano a melodia ternurenta de um pequeno
conto inspirador, de uma pequena história para crianças que só faz sentido se
os adultos a compreenderem. A arte sempre foi dele, toda aquela doce loucura
que ampara e protege, dá abrigo na sua credibilidade.
Mas ele perguntava-te, perguntava-te, entre o alcool e o
cigarro, depois disto tudo, o que é vem? Seguravas-lhe a mao, depois vinha o
amor. Mas esgotaste esse gesto à força de não compreenderes a pergunta
existencialista dele. Esperou sempre por
ti, mesmo sabendo que nasceste atrasada, esperou por ti sempre, firmemente, sem
um traço de hesitação na postura, sem um esgar de irascibilidade como se
conseguisse o feito de te amar pelos teus defeitos sem, verdadeiramente, os
ver. Mas depois perguntava-te, perguntava-te, depois disto o que é vem? E tu
respondias que vinha o amor e apontavas para o relógio , dizias-lhe que o tempo
ainda é jovem, os minutos seriam segundos até ao fim. Mas esgostaste todas as
ruas nesse afecto à força de queres não compreender o que ele te estava a
perguntar, algures, tornaste tudo inutil, até o tempo era oblíquo no horizonte.
A arte sempre foi dele, amava-lo pela sublime forma como
toda a essência, todo o amor, todo o sentimento lhe douravam na pele que ele
transpunha obedientemente para uma folha de papel ou para as teclas do piano. E
sentavas-te a ler ou a ouvir e amava-lo por veres nas suas obras toda a beleza
dele. Mas ele perguntava-te, perguntava-te, depois disto o que é que vem? Um
dia, esta pergunta cortou-te o coração, invalidou-o, já la estava o teu amor,
sentiste o frio a congelar-te o corpo :
onde estava o dele? Mas ele perguntou-te novamente, depois disto o que é que
vem? Vem a eternidade, a eternidade até a morte, a tentativa de felicidade
todos os dias. Mas ele perguntou-te de novo, não entendeste a pergunta,
zangaste-te. Ele não percebia a resposta.
E, depois, um dia ele comprou um bilhete, um pequeno papel
que lhe dava a ida sem regresso algum. Pensou em ti, pensou como esgotaste a
tua mao a força de a apertares contra a dele,
esgotaste as ruas numa espera que perdeu significado, gastaste o proprio
tempo. Gastaste o amor dele. Olhou para o bilhete, sorriu e pensou : e depois
disto, o que é vem? E despediu-se de ti, o amor é inutil no passado, a sensação
é válida enquanto dourar na pele. Guardou o bilhete no bolso e disse-te adeus.
Inspirado em Adeus, de Eugénio de Andrade
Monday, July 23, 2012
A chegada do Mestre entre a multidão - Parte II
Sempre tive uma vontade inata de
um dia fugir com os pássaros que alongavam as frageis asas pelos vidros das
janelas da minha casa. Mas havia uma invisivel força que prendia o corpo a esta
terra alheia e eu ficava a ver os pássaros pousarem os seus habeis corpos perto
da minha janela e depois partirem, uma parte de mim, sempre partiu com eles,
vivi sempre em duas realidades sem nenhuma região intermédia.
E olhava a volta, a miséria da
desgraça latente alcançava-me sempre e gritava, gritava mas era um mudo som,
ninguem ouvia. So queria ser eu, ser livre, so queria não ser a desgraça que,
de uma ou de outra forma, me alcançava sempre. Só queria ir com os pássaros, so
queria abrir a janela e fugir.
Um dia, um dia gritei mais do que
é costume, gastei os pulmões, um pequeno trilho de sangue surgiu ao pe de mim
mas continuei a gritar. Queria gritar, queria que ouvissem, não endoideci, não desisti,
quero e serei livre. Por isso continuei a gritar, gastei a força e fiquei de
joelhos mas, mas mesmo assim gritei, o sangue tornou-se num reflexo que via
quando olhava com atenção para a poça vermelha estendida no chao, mas continuei
a gritar. Ninguem parou para olhar, era simplesmente alguem firme e em pé que
numa melodia cortante dizia que o mundo, este mundo, está algures errado, que não
tem de haver resignação, a felicidade é algo mais do que ir vivendo a vida
devagarinho. E era mentira, estava de joelhos a gastar a voz que já não tinha
num grito mudo que ninguem ouvia, ninguem ouvia mas via nos seus olhos que me
encontravam arrogante mas, mas eu so queria ser eu, ser livre, ir com os pássaros.
Depois perdi a força , perdi até a voz que não tinha e já não me conseguia
levantar. Ninguem reparou.
Mas, depois, senti um puxão,
alguem me levantou pelo braço e disse que tinha ouvido o meu grito de
Liberdade. Deixou-me sugar toda a vida do seu braço para me conseguir levantar.
E, e depois, fui com os pássaros
e ele ficou, quem me tirou da multidão enquanto me desfazia em sangue. Ele, ele
foi toda a diferença – ouviu-me.
O Nascimento do Mestre - Parte I
Não é o secalhar posso fazer a
diferença, eu sou a diferença, sou a excepção. Posso te dar a mão se quiseres
encontrar a força que já perdeste, não sou nenhum meio, sou apenas um começo,
caso a força original – a de querer sobreviver à crua sobrevivência- exista em
ti, tao naturalmente quanto o acto de respirares.
Mas não faço diferença nenhuma,
sou uma. Sou-o porque quero ser, não porque posso, ninguem pode, é teres ou não
essa vontade. Mas não faço diferença alguma, não nasci a ser uma, alguem me
tornou a excepção, eu vi e vi já demasiado tarde a desgraça, vi já demasiado
tarde para qualquer diferença que eu pudesse fazer. Para me fazer sentir melhor
porque a diferença jamais viria de mim, a desgraça não chegou a minha pele,
alcançou foi a consciência. Por isso, sou uma diferença à força de ver a
desgraça acontecer e sentar-me a ser impotente. So não sou integralmente inutil
se for a diferença.
Wednesday, July 18, 2012
"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"
Procuraste-o incasavelmente e um dia encontraste-o. Ah, a
beleza dele era algo de extraordinario, a mistura homegenea entre o ser e o
saber ser, o controlo e a genuinidade, a perspicácia entrelaçada com uma fé
inabalavel. Ele era extraordinariamente belo na forma como o rosto era o
reflexo do mundo, dele proprio, do passado que existiu e aquele que devia ter
existido mas que foi cortado pelo futuro que ele insistia em ser. Ah
procuraste-o e um dia encontraste-o, sentaste-te com ele, compreendeste Neruda
e procuraste mais poemas e ele olhava-te e sorria-te na cumplicidade. Ele, um deus
discreto humano, exótico e mordaz, ambivalente em todas as esquinas de todas as
decisões. Tornava a vida real porque era livre, livre até da probabilidade, do
que era esperado.
Nas tuas mãos repousa o livro de Neruda, lês o poema mas não
o compreendes ou compreende-lo demasiado bem, é quase o mesmo. Lês sem ler
porque não te ajuda, não te ajuda a conseguires existir mais pacificamente. E,
bem no fundo, não lhe dedicas ódio nenhum, apenas querias que ele ficasse. Mas
ele era imprevisivel, uma potência de vida calma sempre em movimento contínuo
que, quando se aborrecia, esvaziava os afectos dos bolsos e, simplesmente,
ia-se embora. Como se não importasse porque, bem no fundo, nunca lhe importou.
Procuraste-o incasavelmente e quando o encontraste e ele
deixou que o amor se instalasse, tu foste esse ser. Livre, extraordinariamente atraente
na forma como existias e sabias existir, o amor é o mais alto narcisismo. Não é
que o odeies, simplesmente, ele roubou-te esse reflexo que tinhas no espelho. Podes
escrever os versos mais tristes mas não consegues, não queres, esta não é a
ultima dor que te causa, roubou-te a tua propria beleza quando se foi embora. E
seguras o livro de Neruda e, subitamente, apercebes-te que o amas , que o amarás
sempre, ele era um quente deus humano. Vai-te sempre causar essa dor, o reflexo
dos olhos dele que nunca mais vais te, a visão da mais alta potência de vida.
Simplesmente, amaste-o.
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