Saturday, June 11, 2011

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Eu já escrevi os tristes versos com a melodia da tua essência, não tenho nenhuma reminiscência tua a não ser uma velha e gasta familiaridade. Tenho gravada na pele, a memória fraca do amor que existiu. E que já não existe.
Tenho a tua memória sem ter a minha, já desenhei a minha tristeza naquelas palavras , veladas por um manto estrelado. Me não culpes se as estrelas so te falarem desse leve e doce amor que existiu e que já morreu. As estrelas só espelham passado e a tua melodia era tudo o que tinha. Disse-te tantas vezes que já era demasiado tarde e que as palavras se gastam, os gestos são queimados pela luz do sol e o amor flui na àgua.
Meu amor, serás de outro, és de outro e não me magoa porque o amor não deixa de ser inutil. Já perdi o ego que te amava, se esse meu eu já não existe, tu nunca exististe. E o amor é inutil. Fica a memória da memória que um dia foi verdade.
Amei-te quando te amei e, amei-te até, quando te não amei. Pouco importa a beleza desse passado, meu amor, pouco importa que me ames ainda , apesar de já me não amares. É inutil, meu amor, é inutil. Esquecer-te-às e serei uma desfocada memória de uma memoria que não existe.
E amo outra ( e amarás outro) , sem nunca te substituir, substitui porque, no passado o amor é irrelevante.
Já escrevi os tristes , melancólicos e arrastados versos naquela noite. Já me causaste essa dor e eu esqueci-me da sensação. Já me esqueci que me tinha esquecido. De ti. Esqueci até o esquecimento.
Meu amor, já escrevi os tristes versos naquela noite. Já me causaste a última dor e, aquela tristeza grave melódica que me envolveu, é uma memória longíqua. Liberta-te de um passado que é inutil. Deixa que o esquecimento corroa a minha memória.

Sunday, May 15, 2011

Evolução

Caminhas só. Causaste a tua propria solidão quando decidiste que angulo teria o teu nascimento, escolheste, inocentemente, pertencer a esse lado da luz num tempo cheio de escuridão.
E , amanhã, lá vais tu cumprir o teu ritual de tortura. Agora, nos tempos modernos, eles tornaram-se piedosos e esquivam-se de coleccionar cabeças, não, tentam que a tua essência se dissipe e te mistures num cântico uníssono com eles. Mas o não farás, nunca. Aguardas sempre o dia do sacrificio, aguardas sempre a tua sentença enquanto orientas a tua vida segundo a tua ideia. Enquanto procuras que as tuas simples palavras tenham algum efeito nos inconscientes. Dás o teu melhor para ganhares segundo a tua crença no núcleo do sistema deles.
Caminhas só mas não estás só. Tens em ti a força dos teus Mestres. Tens em ti a força daquilo que crês ser melhor. Tens contigo aqueles que contigo concordam e , que na tua companhia, partilham a tua tortura. E, essa amizade que se instala ,é ornamentada com a mais leal das lealdades. Isso, nunca vao eles perceber e, só por isso, poderás perder a batalha e a tua vida de nada valer mas, eles, que são tantos ficaram reduzidos a menos que pó: porque caminhas só mas carregas em ti a inovaçao.

Friday, May 06, 2011

Prometeu

Um dia, o teu Mestre já aqui não estará para tentar salvar o teu ego. Porque o Inferno existe em ti e queima-te a originalidade de seres tu se não souberes coexistir com o que descobres no teu reflexo de vidro.
Mas, mas às vezes, não consegues não rejeitar o teu proprio Mestre. Para continuar dignamente vivo, tem uma crua irascíbilidade que se torna crua; não tem compaixão pela mentalidade que é claustrofobica e retrógada, nem quando é um humano choro tão compreensivel que se torna desculpavel. Porque o teu Mestre foi mestre da sua própria essência antes de te tornares seu aprendiz.
Um dia, o teu Mestre desiste de ti. Observa que te defendes e que resistes a grandes e visiveis questões, que és brilhante na crueldade que é facilmente audível. Mas abandonas-te nos pequenos pormenores persuasivos do quotidiano. E o maior perigo respira aí, nas pequenas nuances da rotina que se entranham na tua pele, que consomem a tua individualidade incoscientemente.
Um dia, estarás só numa pequena e quadrada comunidade a viver uma vida artificial, a respirar uma liberdade que não existe porque não há nenhuma marca de individualidade. Porque, o teu Mestre, é sabia e astutamente individual, é senhor de si proprio, é perspicaz e é agil. É conhecedor da essência humana, a dele e a dos outros. Observa as pequenas fraquezas e vence porque acertou nas pequenas fraquezas. Cede a grandes e visiveis questões, mas é ele que controla os pequenos pormenores persuasivos do quotidiano. E, se tu não resistes inconscientemente, das entranhas do teu ser, às pequenas pressões, às pequenas e não audiveis torturas do quotidiano, és apenas fraco e débil porque não tens em ti uma essência matricial que te faz discordar, inatamente, do que não concordas .És impotente na resistência à agressão silenciosa e dissimulada.

Friday, April 29, 2011

The severed garden

O dia nasceu cinzento apesar de o Sol iluminar a cidade. O dia nasceu cinzento, irremediavelmente cinzento, tem de existir harmonia entre o ego dele e o resto do mundo. Apesar do calor, apertou o casaco negro contra o peito, o preto era lhe confortavel e não sentia nem frio nem calor, sentia apenas a necessidade de apertar o preto contra o peito. Aquecer o gelo que lhe corria nas veias.
Passou o portão, sempre num passo lento e firme, a tristeza tem às vezes este sorriso. O choro alto e claustrofóbico de uma mulher incomodou-o, havia uma fracçao de uma inocente ignorância na forma como estava desesperada. No choro longo e sofrido, ouvia-se uma falta de espirito, uma observação dele demasiado crua, talvez. Mas ele ouvia essa falta de resistência , essa entrega fraca à morte. E continuou a caminhar, estava à tua procura. A dor dele pertencia-lhe, a não desejava partilhar com o mundo.
Algum tempo depois, encontrou-te. Sentou-se à tua frente, calmo e sereno, o rosto impassivel, impenetravel. Do bolso retiou o maço de tabaco, acendeu um cigarro. Deixou que o fumo fosse na tua direcçao. Uma multidão vestida de negro passou por ele, amaldiçoou-o , gritou-lhe. Não entendiam.
Conversou contigo, fez-te perguntas. Respondeste-lhe nessa tua voz grave e despreocupada. Tu és a única pessoa que não tem uma consciência profunda do que te aconteceu e , ele, percebeu tudo demasiado tarde. Era um destino demasiado triste que tentou evitar como pode. Ignorou esse destino certo teu até que se tornou verdade.


O homem acabou o seu trabalho de alisar a terra. Estava habituado aquele ambiente negro e triste do cemitério, estava habtiuado à dor das familias que deixavam naquele sitio o que restava de uma esperança cruel. O homem trabalhava no cemitério há muitos, muitos anos, mas nunca tinha visto nada como aquilo. Um homem novo, com um casaco negro preso ao peito, sentado à frente de uma terra por preencher a fumar.A ignorar todo o ambiente que o circundava. A indiferença dele era a expressao fisica da dor , uma dor ornamentada com uma dignidade respeitavel. Ele estava bem, estava triste. Nada podia ser feito por ele, a morte é irreversivel. So não compreendia , o pedaço de terra na sua frente , não tinha nenhuma campa.

Algum tempo depois levantou-se. Olhou-te uma ultima vez. Pediu-te desculpa, não ia regressar tao depressa. Tambem ele necessitava da doce solidão. Precisava que a tristeza se ajeitasse, que se tornasse artistica.
Tirou o casaco negro do corpo, começou a sentir o calor a ajeitar-se na pele. Tinha uma bruta consciencia ele, queria dizer-te para aliviar o pensamento que estava preso à mente dele. Que lhe era inato. Por isso é que te disse que preferia que o teu suícidio tivesse sido físico, preferia que tivesses como tecto aquele pedaço de terra. Porque morreste quando deixaste de existir, e, completamente morto estás hoje. Seria mais facil se te pudesse chorar naquele sitio. Seria mais facil ver o corpo inerte do seu irmao ao lado de tantos outros.
Mas escolheste um destino ainda mais triste, a arte da tua tristeza foi ainda mais profunda. Arruinas-te um pedaço do ego dele com essa tua morte.

Monday, April 25, 2011

Berlim

Havia um encanto diferente naquela cidade, talvez fosse apenas o meu ego à procura de uma textura diferente para o coração. Mas nenhuma me deixou uma melancolia tao embaladora quanto aquela.

A minha mente prende ao peito a memoria para que a cidade nao morra em mim com a sua vida citadina e calma, aquela boemia e pacífica forma de existir. Os edificios destruídos como recordação de uma guerra; os inovadores e novos que foram construídos e que escondem a ruína fantasma de uma época obscura sem a silenciar. Os jardins que eram bosques com as àrvores grandes e tristes. O povo tao diferente do meu, a diferença exibida pela aparencia exterior.

Há um encanto diferente naquela cidade, nenhuma me deixou tanta melancolia. Ajeitava-se perfeitamente ao meu ego, guardava-me um lugar como a minha cidade nunca guardou ( e, agora, depois da minha traição, guarda-me menos que nada). Há uma sincronização uníssona que aínda hoje torna a noite fresca com aroma a uma suave saudade. E, mesmo depois dos outros sitios que os meus olhos memorizaram, é aquela cidade que o ego vê. Sempre.

Porque a diferença estava no meu ego e , numa nao existente feliz coincidência, encontrou naquela cidade tudo o que desejava ser. Aquela cidade é o meu reflexo, o que também desejei ser.

E, agora, a minha essência tem aquelas cores, nenhuma a iguala. Ou atenua a saudade.

Thursday, April 21, 2011

Cores de Paris

Talvez se tenham esgotado as palavras, às tantas ele pintava o seu proprio defice na realidade. Talvez desenhasse tudo o que o nao compreendia e tudo o que ele nao compreendia. Talvez a arte tenha sido uma forma de enquadrar a tristeza na filosofia que sempre acreditou: a arte é inutil, sem proposito, metaforica e bem fundamentada. Garante um certo optimismo por quebrar uma solidão que se instala involuntariamente. Uma solidão que se instala na solidão dele, a solidão que ele tanto ama.

Por isso é que sempre foste o quadro principal. Nunca entendeu o Amor e nunca entendeu o porquê de dissecar o Amor. Nunca te conseguiu questionar o porque de isso te ser tao importante, de lhe sentires a ausencia e a distancia e a indiferença só porque, para ele, o Amor é algo diferente. Sente quando sente. Quando o vento lhe beija a face, quando uma esquina lhe dá saudades da tua mão, quando o alcool e o cigarro nao compensam a tua companhia.

Talvez por isso se tenham esgotado as palavras. Já se cansou de se tentar perceber para te explicar o que é ele. Ele é ele. E o Amor dele é a imagem de como existe no mund. Por isso é que sempre o inspiraste e ele nunca pintou nada exactamente sobre ti. Nunca entendeu o Amor, nunca o quis entender. Ama-te como te ama. Sente-te a falta quando lhe fazes falta. Ama-te por nunca conseguir desenhar a beleza que a tua essência tem para ele. Porque nunca compreendeu o amor, ama-te. Talvez, talvez por isso, devesses compreender que tambem nao entendes o Amor.

Talvez por isso te consoles na Arte. É quando o descobres. É quando te descobres. É o que tem em comum. Esse apego estranho à arte.

Tuesday, April 12, 2011

Amizade

O mundo é um lugar curioso, tem uns ironicos contrastes. Ser melhor que esta realidade claustrofobica e circundante é quase tao dificil quanto é viver. E já me tinha esquecido da sensação que é a consciência bruta de quando o vento murmura, fria e violentamente, que viver implica mais que ir existindo de mansinho. É mais do que ir tendo picos de uma excêntrica felicidade e momentos de entrega à profunda e azul tristeza. Tinha-me esquecido que concordo contigo. Esqueci-me das marcas que tinha por não ser igual não sendo, abertamente, diferente. A minha igualdade deixou-me ir existindo e deixou-me, em momentos conscientes sóbrios, um sabor àspero na boca. Tornou a morte e a brutalidade que a resistência a uma igualdade barata, inutil que cicatrizam no espirito, um mísero e suportavel sofrimento. O mundo é um lugar curioso, tem uns ironicos contrastes. Ser melhor que esta realidade claustrofobica e circundante , é algo que fazes tao naturalmente como se fosse fácil. O que fizeste com o teu passado define o brilhante angulo do teu sorriso. E tens essa despreocupada forma de viver relaxa e responsavelmente. Tens essa intrinseca vontade de viver. E tens essa resistencia inata de quem crê honestamente no que faz. Por isso é que vives tao forte e honestamente como se fosse fácil.E já me tinha esquecido da aromática sensação que é de quando o vento nos beija o rosto e arrefece o espirito. Porque o que fui não limita o que serei, apenas queima algumas realidades paralelas que não se habtituariam ao meu ego. Já me tinha esquecido desse sublime prazer que é resistir. O mundo é um lugar elástico, tem a forma que impuseres que tenha. Porque quando se é livre, é se inteiramente original. E já me tinha esquecido do prazer que é defender o ideal e , quase idolatrar, estas cicatrizes que moram em quem discorda. Ate te encontrar e ver a forma despreocupada e natural com que lidas com a tua marca. É tua, define-te. Mas jamais te limita. E lembrei-me que existia de mansinho em vez de viver enquanto tu eras tu. Apenas tu. Melhor que toda esta circundante claustrofobica, banal e patetica realidade.

Thursday, March 24, 2011

Rosa Perdida

O lugar vazio de um sítio que nem sabias que era importante, porque às tantas és melhor do que esperavas ser. O mundo tem esse impacto em ti, dá-te o sonho e o sabor do sangue.
Mas o Amor é mesmo o melhor que existe na essência Humana. E depois de tantos dias compridos e cheios de uma massiva tristeza, os esverdeados olhos esperam-te num abraço que só te cura as feridas se for o abraço dela. O precipicio de onde so saltas se aqueles braços te segurarem o folego. Porque há sensações pelas quais vale sempre a pena morrer, morrias para sentir os teus dedos entrelaçados nas manchas sedosas do cabelo. O sentimento de paz que te surge quando a silhueta se destaca da multidão e tu a identificas. Por mais densa que fosse a multidão, identificarias aquela silhueta em qualquer momento.
O lugar vazio de um sitio que nem te apercebeste que se colava ao teu coração enquanto quebrava a dureza do teu ego. E acabas por te encontrar no espelho com uma consciência mais fina. És melhor do que sempre julgaste que eras, melhor do que o melhor que desejaste ser. Porque o Amor é esse sopro de final de tarde Verão quente , enquanto as tuas mão memorizam a essência do mar.
Amachucou o papel na mão. Que importava? Enconstou para trás a cabeça e acariciou a longa barba branca. O lugar vazio de um sitio que nunca se apercebeu que játinha sido queimado há muito tempo, há quase tanto tempo como aquelas doces palavras que lhe voaram do peito para ela. Antes de ela nao querer saber , nao entender o valor. Antes de ela querer comparar o amor que ele lhe tinha com a vida ordenada e banal que sempre desejou a seguir ao seu típico celestial e aborrecido casamento.
Amachucou o papel e levantou-se. Depois de terem passados tantos anos, a dor era igual. Atenuou mas continuava latejante. Nao lhe doia que ela o tivesse deixado. O que lhe doia, desde aquele dia até hoje, era ele te-la amado.

Saturday, March 12, 2011

Desprezo

O som do meu riso ocupa, quase involuntariamente, esta sala quadrada que me dissipa a raiva que se vai misturando com o sangue, colando ao ego. Porque, no final, meu amigo, so me apetece olhar-te, ver quem és. E rir-me. É involuntario, acalento no meu espítito a ideia firme de que és uma vergonha ate para esta triste sociedade; és um atraso ate para quem já morreu neste tempo cinzento.
Oh! Não comprimas os músculos como se a tua dor fosse imensa, uma dor nunca é patética e sempre me orgulhei de não ser cruel. A dor, para ti, é quando rejeitam a oportunidade superficial e estúpida de preencheres o vazio que esse complexo de existencia deixou na tua essência. É que, meu amigo, nem sequer és cruel. Ou perspicaz. Ou movido por algo que imponha qualquer tipo de respeito, não é tudo tao pouco que , sinceramente, oiço o meu proprio riso onde julgava viver um consentido desprezo.
Ah! Outra vez, o teu eterno e ruidoso sentimento. Honestamente, deixas-me saudade da cruel e fria forma perspicaz como esta sociedade , as vezes, aniquila ideais e esventra egos demasiado bonitos para poderem viver aqui. Porque? Ah é tao simples, eles ao menos evocam respeito pela forma inteligente como se movem numa massa cinzenta baça abstracta a que se chama multidão. Ao menos eles puxam a evolução à força de a negarem. Tu puxas nada, reclamas nada. Sofres nada. Vales nada.
Por isso, meu amigo, meu inutil e oco amigo, ironicamente oiço-me a rir abertamente da tua patetica existencia. Após aquela irritação , so vejo um palhaço triste a continuar o seu patetico e feio espectaculo quando o publico já o rejeitou e já abandonou a sala.

Friday, February 25, 2011

Arte

Uma certa paz invade-me as vezes. Sinto uma enorme vontade de deixar o Sol entrar pela janela e aquecer a minha essência. Porque quando todos entregaram a Deus os seus sofrimentos eu alonguei o meu coraçao na arte. E a arte tornou-se no meu único Deus, a única forma de não praticar ateismo. Ou obter das entrelinhas da minha existencia um argumento filosofico agnostico.
A arte, sob qualquer sensação, é a minha religião. Desde a arte do heroi que libertou um país pela sua bélica crença na liberdade ( que lhe custou apenas a mortal vida) à forma como , de vez a vez, a tua voz me aconchega os pesadelos e os tornam irreais. Ou aquele quadro onde revejo, egoistamente, uma parte do meu ego que nunca lá esteve sem deixar de, efectivamente, estar lá ou o não veria.
A Arte é o meu único Deus. É o Sol que entra pela minha janela e torna o espirito leve. É a minha única religiao. E sou feliz com ela quando a tristeza , que chega sempre, nada pode contra este Sol quente e radioso. E estou em paz. É tudo o que importa. Tambem eu tenho um paraíso e um inferno, não são iguais aos teus mas não são menos verídicos ou válidos.

Tuesday, February 15, 2011

O Novo Aquiles

Quando sentires o doloroso e alongado chacinar da tua essência, será já tarde. Quando sentires o estalo cru dos teus ossos. Já é tarde.
Ah! Não vês? Ele herdou a força e a magnificiência de Aquiles mas a consciência da fragilidade do calcanhar oferece-lhe um destino diferente. E torna-se ainda melhor e maior ao reconhecer em quem não se quer tornar. Não quer ter qualquer semelhança contigo.
Por isso, nada podes tu contra ele, contra alguem como ele. Nada ganhas ao tentar vencer a suave e fria perspicácia dele. Diverte-te agora, enquantojulgas que podes. Enquanto a consciencia bruta de que és nada e miserável não está definida no teu corroído espirito, julgas que podes tentar humilhar um teu semelhante. A tua aguda e estridente ignoranância transforma-te nesse triste ser que não sabe viver.
A tua patética ignorância te não deixa ver que ele é um Aquiles renovado depois de lhe teres esmagado o calcanhar. Tornou-se ainda mais bélico e mais estratego, quando desejar entrar na guerra vence-a. Facilmente.
Quando ouvires o som dos teus ossos estalarem, quando sentires todos os teus musculos rasgados como papel, será tarde. Não devias ter tentado esmagar-lhe o espirito. Entende, ele é o novo Aquiles, ao proteger o calcanhar tornou-se invencível. Enquanto tu és apenas mais um triste e decadente mortal que se gasta em cobardias porque, quando te olhas ao espelho, tens essa inegavel certeza de que és pouco, de que és miserável. De que nada vales.
Ele é Aquiles, ao proteger o calcanhar tornou-se invencivel. Que podes tu contra alguem como ele? Diverte-te na tua ignorancia enquanto julgas que és Rei. Rei de Nada porque é isso que és.

Sunday, February 06, 2011

Orion

Meu amigo, todos nós somos miseráveis e existem apenas dois tipos de pessoas. As que reconhecem a sua miséria e que acabam por ser melhores e maiores que a desgraça que as define. E existem as outras, que nem sequer consciência da miséria que são têm e vivem nessa arrogante ignorância ilusória de que a existência deles é melhor e mais saudavel do que a dos outros.
Como vês, meu amigo, existem dois tipos de pessoas. As que são pessoas e as que fingem que são pessoas na esperança de serem recompensadas por serem mesquinhas e pequenas. Por serem rídiculas. E patéticas. E burras. E, indefinidamente, cómicas.
Mas, meu amigo, a tua miséria sempre foi um melódico e triste desconcertar interior. E a miséria que sou é o que tu foste, talvez a tenha herdado de ti. Talvez tenha isso como legado teu, essa triste de tão melancolicamente verídica, visao objectiva e abstracta do mundo.
Porém, posso dizer-te onde duramente erraste contigo. Porque, por mais miseravel que fosses, meu amigo, existe sempre Orion que te vela e te afaga o sono. Existe sempre a Orion, a estrela que reflecte a tua grave e melodica tristeza para não seres apenas a miséria que és. Existe sempre a Orion que, ao te nunca deixar só, evoca uma esperança bélica e te torna naquilo que fizeste com a miséria que tens consciencia de ser.
Porque somos todos miseraveis , meu amigo. Alguns , simplesmente, tornam-se em algo melhor do que isso. Entregam a pureza de um ideal de ego à Orion. Porque “estamos todos na lama, mas alguns conseguem ver as estrelas”.

Tuesday, February 01, 2011

Deslize

Eles tinham isso em comum, um amor excêntrico e aberto pela música. E, para eles, a música era o ponto máximo da existência de Deus sem se preocuparem se Ele existe ou não. A música era a beleza máxima de uma vida epicurista, era a Orion numa noite fresca de Verão, era um por-de-sol numa tarde quente. A música era a cor do espirito, o que os mantinha vivos. O que os mantinha juntos. O Amor pela música alongou-se , alcançou a verdadeira essência Humana. E a música é amor, é arte, é a sombra da solidão que os nunca deixava sós.
Mas so tinham isso em comum, o amor excêntrico e desmedido pela música. E, algures, ela trocou a música por algo mais futil sem, nunca no entanto, deixar de exibir esse aberto e azul amor pela música. E ele deixou de a amar, a música era a vida dele. A música era ele. Não tinham nada mais em comum. Eram opostos. O amor que lhe tinha perdeu o fundamento.

Monday, January 31, 2011

Ciclo

O Amor obriga-o a ser o que ele gostava de ser e ele gosta de ser só ele. O Amor obriga-o a cumprir esse papel até que esse papel que ele cumpre se torne real e ele seja isso. O Amor fá-lo alcançar esse ponto em que a ilusão se torna válida.
Mas ele gosta de ser só ele. Em alguns dias, gosta de ser apenas ele. E o Amor que tem pelo seu proprio ego fá-lo ser ele.Inteiramente e apenas ele. Esse mesmo ele, que harmoniza o Amor no teu peito. E cumpres esse papel até que se torne real, até que ele creia nesse eu que representas todos os dias. Até que essa imagem, essa permanente actuação se torne real. E tu sejas quem julgas que és. E tu te tornes em quem queres ser.

A Crença II

Sempre o silêncio como sombra claustrofobica de palavras mortas que alcançaram o futuro. E a crença de que um amanha melhor chegará num destes dias. Mas o teu Mestre está morto.
Entregas-te a pequenos prazeres, a tua fé já foi esventrada. Trocaste a esperança por um ego de aço. Trocaram-te a fé pela procura da credibilidade do ideal que te move. Porque o teu mestre está morto.
O teu rosto guarda as cicatrizes de todas as vezes que venceste. Não estarias aqui se não tivesses, habilidosamente, sobrevivido. Tornaste-te melhor porque venceste o teu próprio medo. Mas o teu mestre morreu, o medo , mesmo na sua cristalina utilidade, não desgraça tanto como a dor.
E assassinaste Deus antes de Ele existir, toda a plenitude de existencia que tens , pertence-te. Mas o teu mestre morreu. Em ti. E, agora, todas as palavras estão mortas porque perdeste a crença.

Friday, January 28, 2011

"Posso escrever os versos mais tristes esta noite"

Escreverei os versos mais tristes esta noite. Meu amor, o mundo é triste e a felicidade não deixa de ser uma disciplinada forma de viver. O ínicio guarda o mistério de não conseguires adivinhar o fim. Esgotámo-nos. Esgotámos as expectativas de um novo mundo que nunca chegou.
Escreverei os versos mais tristes esta noite. Meu amor, as estrelas não se comovem com a dor humana porque, quando a veem, outra diferente desgraça já se instalou. E outra aquecer-se-à nos meus braços assim como tu te aqueceràs nos braços de outro. Meu amor, esgotámo-nos. É inutil. Amei-te e, em momentos de cristalina existencia, amaste-me. E , agora, tudo é irrelevante porque se esgotou o Amor. Amaste-me e, em dourados segundos, amei-te. Amei-te até quando te não amei. Amo-te aínda, enquanto me esqueço. Amo-te ainda, enquanto o fim se instala e o passado se torna numa pequena e longíqua memória.
Escrevi os versos mais tristes esta noite. Meu amor, a ilusão tem a sua metade de verdade. Mas o Amor esgotou-se. E a estrela so te pode indicar o Norte se te quiseres perder. Porque o que foi passado tem a sua metade de inutil. Meu amor, recordo quem és mas já não reconheço a tua essência. Escrevi os versos mais tristes esta noite, o esquecimento nunca tem a sua metade de quente. Esgotámo-nos. Esgotei-me em todos os versos que escrevi. Esgotámo-nos.

Orfeu Envelheceu

Orfeu envelheceu. Entregou-se a um outro tipo de morte e a tristeza calcificou-lhe a essência. Orfeu envelheceu e nos fundos traços de uma existencia quase imortal lêm-se as entrelinhas de um amor que lhe arruinou a crença. Que o deixou vivo depois da morte ter ido ao seu encontro.
Orfeu envelheceu. Guarda aínda no peito o inconfundível perfume de Eurídice. Da sua Eurídice, ama-a quando a relembra. Ama-a só quando a ama, a não pode amar quando não a ama. Orfeu envelheceu, esqueceu o que era o amor , guardou apenas a memória do que era aquela vida. Orfeu envelheceu mas o mundo continua jovem.
Talvez não fosse Eurídice, talvez Orfeu tenha entregue a melodia única da sua lira à Eurídice que não era Eurídice. Mas está envelhecido, Orfeu. Ama-a ainda quando a relembra. A não pode amar quando a não ama porque o fogo congelou-lhe o coraçao. Orfeu envelheceu.
Sempre foi a Eurídice errada. E Orfeu está velho. A morte abraçou-o e deixou-o vivo para contemplar a o fim da sua harmoniosa essência todos os dias.
Orfeu envelheceu, era a Eurídice errada. Mas, de alguma forma, foi a sua Eurídice. Ele sempre foi Orfeu. Era a Eurídice errada mas era a sua Eurídice.

Wednesday, January 19, 2011

Incomodo

É um incomodo que lhe não sai da pele. Porque, quando o caos se apodera , a tua imagem reconforta-o. E ele sente-te a falta e deseja o teu abraço.
Mas tu és um eu morto. E ele é um eu morto, o eu dele que te amou. Morreu.
Quando uma qualquer desilusão se abate sobre o ego dele, sente-te a falta. Foste o único ser que nunca o compreendeu. Amaste-o sem o compreender.
É um incomodo que lhe não sai da pele. Só tu o conheces o suficiente para reconheceres as suaves extravagancias dele ou o momento em que o coraçao dele se despedaçou. E, tu. Tu nunca o compreendeste.
É um incomodo que lhe não sai do espirito. “Roubou todas as rosas dos jardins e chegou ao pe de ti de maos vazias”. E esse romance que não conseguiu singrar reflecte demasiado bem o que ele é.
É um incomodo corrosivo que lhe não sai da pele. Este amor que ainda te tem sem te dedicar amor algum.

Tuesday, January 18, 2011

Carta de Homícidio

Sinceramente, é uma parte brilhante do meu ego da qual há muito deixei de me orgulhar. A minha perspicácia tornou-se numa meia hipocrisia incisiva. E sempre preferi viver o suficiente para ver a ideologia que desprezo perder-se no tempo por ser demasiado medíocre. Sem pre tive essa mordaz cobardia em nome de uma calma e tranquila vingança crua que nunca era executada pela minha mão.
E, às vezes, é preciso sujar as mãos com sangue alheio para se ganhar o direito de viver com calma. A violência gera um ciclo de violência que uma paz utópica nunca atenua. E, não, não me consigo vanglorizar por ter unido a minha relutante sombria honestidade com um ideal que não singra aqui.
Porque o meu erro é culpa inteira vossa. É um clima de competição que a vossa mediocridade gera. O meu sangue está guardado porque sempre foi limpo, o que me misturei com voces foi uma fria estrategia . A minha triste ironia é tao concisa que a tomam como elogio. E o meu cru divertimento vive na forma como são tao facilmente enganados.
Não, não tenho um especial orgulho na minha brilhante estrategia de existir, conhecer-vos e manipular-vos. Mas , às tantas, nasce uma vontade calculista de derramar sangue e eu perdoo-me do meu proprio pecado. O erro sempre foi vosso. A minha brilhante forma de vos manipular faz com que a responsabilidade da vossa torturosa morte seja inteiramente vossa.

Monday, January 17, 2011

Last Kiss II

O meu amor morreu. Numa noite tranquila e pacata, cheia de linhas que desenhavam novos horizontes. O meu amor morreu na noite mais estrelada desse Verão.
Agarrei o meu amor até se despedir de mim, até me despedir de mim. Abracei o meu amor até a sua essência se confunfir com a minha pele. E senti o beijo doce de quem sabe que vai morrer. E o meu amor morreu nessa noite, nessa noite em que a lua iluminava tanto como o Sol. Agarrei o meu amor de perto, agarrei o meu amor até o luar desaparecer eternamente da sua essência. Da essência do meu amor.
Agarrei o meu amor até que o inevitável congelasse a minha consciência. O meu amor morreu nessa noite, na noite mais estrelada desse Verão, na noite em que as estrelas desenhavam um horizonte longíquo de uma vida que nunca se concretizou.
O meu amor morreu nessa noite. Na noite em que até a Lua se esgotou e a essência do meu amor entregou-se ao negro e eterno silêncio do vazio.
O meu amor morreu. Morreu nessa noite, nessa fresca , aromática e típica noite de Verão. E, quando vejo, o meu amor moribundo numa qualquer rua. Lembro-me. Lembro-me daquela infindável e suavemente perfeita noite de Verão em que o meu amor morreu.